{"id":50053886,"date":"2022-05-11T13:42:29","date_gmt":"2022-05-11T12:42:29","guid":{"rendered":"https:\/\/stage.dialogochino.net\/?p=53886"},"modified":"2024-06-26T14:53:37","modified_gmt":"2024-06-26T13:53:37","slug":"53682-amazon-indigenous-soy-village-flight-from-sprawling-soy","status":"publish","type":"photo_story","link":"https:\/\/dialogue.earth\/en\/uncategorized\/53682-amazon-indigenous-soy-village-flight-from-sprawling-soy\/","title":{"rendered":"An Amazon indigenous village\u2019s flight from sprawling soy"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap\">Todas as noites, homens Kis\u00eadj\u00ea carregam cadeiras de pl\u00e1stico at\u00e9 o centro de um enorme p\u00e1tio circundado pelas dezenas de ocas que comp\u00f5em a aldeia Khikatxi. O per\u00edodo seco e a pouca luz criam um c\u00e9u negro profundo e estrelado sobre o territ\u00f3rio ind\u00edgena Wawi, a nordeste do Mato Grosso. Eles habitualmente se re\u00fanem para tratar de assuntos da comunidade ou apenas divagar sobre o dia. Sentam-se em roda, sob o breu, que, vez ou outra, \u00e9 cortado pela chama de um cigarro de palha ou a tela reluzente de um celular.<\/p>\n\n<p>Naquela noite de fim de outubro, um visitante iniciou a conversa. O cacique Paulo Xavante chegara poucas horas antes de uma viagem de 400 quil\u00f4metros de outro territ\u00f3rio ind\u00edgena. Sua miss\u00e3o era buscar sementes de pequi, fruta nativa do Cerrado que crescera curiosamente acima da m\u00e9dia naquela \u00e1rea de transi\u00e7\u00e3o do bioma sav\u00e2nico com a Amaz\u00f4nia.<\/p>\n\n<div class=\"wp-block-cd-story-image aligncenter block--story-image block--story-image--wide\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\"><div class=\"block--story-image__column\"><div class=\"block--story-image__image\"><img class=\"lazy\" data-src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Wawi_Flavia_Milhorance_1-scaled.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Wawi_Flavia_Milhorance_1-scaled.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 600px) 768px, (max-width: 999px) 1024px, (max-width: 1400px) 1400px, (max-width: 2000px) 2000px, 2000px\" alt=\"Evening in the Khikatxi village\"\/><\/div><div class=\"block--story-image__content\"><div itemprop=\"caption\" class=\"block--story-image__caption\">O per\u00edodo seco traz noites estreladas sob as quais os homens Kis\u00eadj\u00ea se re\u00fanem para tratar das quest\u00f5es da aldeia (Imagem: Fl\u00e1via Milhorance\/Di\u00e1logo Chino)<\/div><\/div><\/div><meta itemprop=\"contentUrl\" content=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Wawi_Flavia_Milhorance_1-scaled.jpg\"\/><meta itemprop=\"contentSize\" content=\"228 KB\"\/><meta itemprop=\"height\" content=\"1333\"\/><meta itemprop=\"width\" content=\"2000\"\/><meta itemprop=\"author\"\/><meta itemprop=\"representativeOfPage\" content=\"true\"\/><\/div>\n\n<p>Xavante planejava cultivar o pequi grande em uma agrofloresta, integrando plantas de valor econ\u00f4mico \u00e0 mata nativa, como forma de gerar renda sem desmatar. Pressionado pela expans\u00e3o das\u00a0<em>commodities\u00a0<\/em>no Mato Grosso, seu povo queria evitar se associar com fazendeiros para plantar soja, como outros xavantes\u00a0<a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/colunas\/rubens-valente\/2021\/10\/27\/terras-indigenas-funai-governo-bolsonaro-plantio.htm\">fazem no territ\u00f3rio Sangradouro<\/a>.<\/p>\n\n<p>\u201cEu vim buscar pequi para nos alimentar e para comercializar, para favorecer nossa sa\u00fade e o ar que respiramos\u201d, disse o xavante, de p\u00e9, para ouvintes sentados. \u201cSou contra o que est\u00e3o fazendo em Sangradouro. L\u00e1 houve manipula\u00e7\u00e3o porque o fazendeiro toma 80% e o \u00edndio 20% [do faturamento da soja], e depois a terra fica destru\u00edda\u201d.<\/p>\n\n<p>A fronteira agr\u00edcola avan\u00e7a proficuamente em Mato Grosso. Em apenas uma d\u00e9cada, a \u00e1rea plantada de soja\u00a0<a href=\"https:\/\/cidades.ibge.gov.br\/brasil\/mt\/pesquisa\/14\/10193?tipo=grafico&amp;indicador=10370\">cresceu mais de 50%<\/a>, em grande parte ocupando pastagens degradadas e empurrando a pecu\u00e1ria mais a norte. Em 2021, o estado colheu mais de\u00a0<a href=\"https:\/\/docs.google.com\/spreadsheets\/u\/1\/d\/1mvNjfaOQjd7EYnzf07e4Tcs7m7kVZnrF\/edit#gid=82257302\">35 milh\u00f5es de toneladas<\/a>, ou um quarto de toda a soja brasileira. Se fosse um pa\u00eds, Mato Grosso\u00a0<a href=\"https:\/\/ipad.fas.usda.gov\/cropexplorer\/cropview\/commodityView.aspx?cropid=2222000\">seria o quarto maior sojicultor<\/a>\u00a0no mundo, atr\u00e1s do pr\u00f3prio Brasil, dos Estados Unidos e da Argentina. Mas al\u00e9m da soja, h\u00e1 79 territ\u00f3rios ind\u00edgenas no estado.<\/p>\n\n<div class=\"wp-block-cd-story-image aligncenter block--story-image block--story-image--wide\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\"><div class=\"block--story-image__column\"><div class=\"block--story-image__image\"><img class=\"lazy\" data-src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_Wawi_soja_2-scaled.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_Wawi_soja_2-scaled.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 600px) 768px, (max-width: 999px) 1024px, (max-width: 1400px) 1400px, (max-width: 2000px) 2000px, 2000px\" alt=\"The border between the Wawi territory and the soybean farm\"\/><\/div><div class=\"block--story-image__content\"><div itemprop=\"caption\" class=\"block--story-image__caption\">A fronteira do territ\u00f3rio Wawi \u00e9 n\u00edtida aqui \u2013 de um lado a mata nativa, do outro os extensos campos de soja (Imagem: Fl\u00e1via Milhorance\/Di\u00e1logo Chino)<\/div><\/div><\/div><meta itemprop=\"contentUrl\" content=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_Wawi_soja_2-scaled.jpg\"\/><meta itemprop=\"contentSize\" content=\"526 KB\"\/><meta itemprop=\"height\" content=\"1334\"\/><meta itemprop=\"width\" content=\"2000\"\/><meta itemprop=\"author\"\/><meta itemprop=\"representativeOfPage\" content=\"true\"\/><\/div>\n\n<p>Fazendas j\u00e1 tocam as bordas do territ\u00f3rio Wawi. Embora esse limite n\u00e3o tenha sido ultrapassado, os Kis\u00eadj\u00ea se sentem amea\u00e7ados pelos impactos da monocultura em sua terra e seu povo. Por isso, o cacique Kuiussi Suy\u00e1 tomou uma decis\u00e3o dr\u00e1stica em 2018: mudar toda a aldeia Khikatxi, onde vivem 380 pessoas, dez quil\u00f4metros para dentro da floresta amaz\u00f4nica. A reconstru\u00e7\u00e3o da aldeia continua at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-explos-o-da-soja-em-quer-ncia\">Explos\u00e3o da soja em Quer\u00eancia<\/h2>\n\n<p>Encontrei Kuiussi no posto de sa\u00fade ind\u00edgena de <a href=\"https:\/\/www.ibge.gov.br\/cidades-e-estados\/mt\/querencia.html\">Quer\u00eancia<\/a>, um munic\u00edpio de 17 mil quil\u00f4metros quadrados que engloba um centro urbano com 18 mil habitantes e o territ\u00f3rio Wawi. O cacique, que se recuperava de um problema card\u00edaco, disse que evita sempre que poss\u00edvel ir \u00e0 cidade e contou ter crescido pescando no rio Pacas e correndo pela aldeia, antes de migrantes do Sul ocuparem a regi\u00e3o nos anos 1980, estimulados pelo governo federal.<\/p>\n\n<p><video controls=\"controls\" width=\"100%\" height=\"100%\" data-mce-fragment=\"1\"><source src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_Wawi_Querencia_soja_video_1.mp4\" type=\"video\/mp4\"\/><\/video><\/p><div itemprop=\"caption\" class=\"block--story-image__caption\">Chegando em Quer\u00eancia pela BR-242, o primeiro monumento vis\u00edvel \u00e9 um silo que armazena gr\u00e3os (V\u00eddeo: Fl\u00e1via Milhorance\/Di\u00e1logo Chino)\n\n<\/div>\n\n<p>Quer\u00eancia se tornou o\u00a0<a href=\"https:\/\/cidades.ibge.gov.br\/brasil\/mt\/querencia\/pesquisa\/14\/10193?indicador=10368&amp;localidade1=510735&amp;localidade2=510785&amp;tipo=ranking&amp;ano=2020\">d\u00e9cimo maior<\/a>\u00a0munic\u00edpio sojicultor do Brasil e est\u00e1 na rota do Arco Norte, um corredor vi\u00e1rio que se tornou uma prioridade do agroneg\u00f3cio e tamb\u00e9m\u00a0<a href=\"https:\/\/www.gov.br\/infraestrutura\/pt-br\/assuntos\/noticias\/2021\/12\/com-plano-nacional-governo-federal-mostra-futuro-da-infraestrutura-de-transportes-no-pais\">do governo de Jair Bolsonaro<\/a>. O Arco Norte \u00e9 um plano para impulsionar uma rede de ferrovias, hidrovias e rodovias para escoar gr\u00e3os do Centro-Oeste pelos portos do Norte e Nordeste, barateando custos de exporta\u00e7\u00f5es \u2014 o Brasil exporta\u00a0<a href=\"https:\/\/www.embrapa.br\/soja\/cultivos\/soja1\/dados-economicos#:~:text=Consumo%20interno%20(processamento)%20de%20soja,%24%205%2C910%20bilh%C3%B5es%20(2020).\">em torno de 60%<\/a>\u00a0dos gr\u00e3os de soja que produz, e 70% dos embarques v\u00e3o para a China, segundo dados de com\u00e9rcio exterior.<\/p>\n\n<p>At\u00e9 agora, apenas empresas brasileiras ganharam os contratos, mas h\u00e1 a\u00a0<a href=\"https:\/\/economia.estadao.com.br\/noticias\/geral,chineses-voltam-a-analisar-oportunidades-de-investimento-em-infraestrutura-no-brasil,70003967222\">expectativa<\/a>\u00a0de que a China invista na log\u00edstica do pa\u00eds. \u201cA China come\u00e7ou a focar em toda a cadeia de produ\u00e7\u00e3o agroalimentar, desde seu in\u00edcio na agricultura no pa\u00eds produtor at\u00e9 incluir log\u00edstica, energia, portos, ferrovias, v\u00e1rios est\u00e1gios de toda a cadeia de produ\u00e7\u00e3o\u201d, disse Yan Tian, do Instituto Ambiental Global, ONG com sede em Beijing.<\/p>\n\n<p>O Arco Norte j\u00e1 \u00e9 relevante na log\u00edstica do agroneg\u00f3cio e deve se tornar ainda mais. \u201cEm 2009, export\u00e1vamos cerca de sete milh\u00f5es de toneladas [de gr\u00e3os] pelo Arco Norte, e hoje s\u00e3o aproximadamente 42 milh\u00f5es de toneladas. A tend\u00eancia \u00e9 continuar crescendo\u201d, disse Elisangela Pereira Lopes, da Confedera\u00e7\u00e3o da Agricultura e Pecu\u00e1ria, durante <a href=\"https:\/\/www.cnabrasil.org.br\/noticias\/cna-participa-de-audiencia-publica-sobre-infraestrutura-e-logistica-do-agro\">uma audi\u00eancia p\u00fablica<\/a> no Senado em 2021.<\/p>\n\n<p><video controls=\"controls\" width=\"100%\" height=\"100%\" data-mce-fragment=\"1\"><source src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_Wawi_soja_rodovia_Querencia_video_2.mp4\"\/><\/video><\/p><div itemprop=\"caption\" class=\"block--story-image__caption\">Rodovia BR-242 leva a Quer\u00eancia e tem tr\u00e1fego de caminh\u00f5es que transportam gr\u00e3os (V\u00eddeo: Fl\u00e1via Milhorance\/Di\u00e1logo Chino)\n\n<\/div>\n\n<p>Por\u00e9m, a infraestrutura do agroneg\u00f3cio se expande rumo a \u00e1reas de alta vulnerabilidade socioambiental, segundo Andr\u00e9 Ferreira, diretor do Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema). \u201cIdentificamos 200 interven\u00e7\u00f5es de infraestrutura log\u00edstica propostas, previstas ou desej\u00e1veis pelo mercado na Amaz\u00f4nia, e isso refor\u00e7a o movimento em dire\u00e7\u00e3o aos portos do Arco Norte, numa \u00e1rea que \u00e9 muito sens\u00edvel\u201d, afirmou Ferreira num\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ywSNoi5AGgc&amp;t=25s&amp;ab_channel=%C3%89pocaNEG%C3%93CIOS\">webinar<\/a>\u00a0recente sobre rotas sustent\u00e1veis \u00e0 China.<\/p>\n\n<p>\u201cH\u00e1 um pensamento \u00fanico do governo e de boa parte dos produtores de gr\u00e3os, que \u00e9 a sa\u00edda pelo Arco Norte. Mas a sociedade precisa debater essa alternativa. Avaliar quais s\u00e3o as vantagens e desvantagens para o pa\u00eds, uma vez que \u00e9 uma \u00e1rea sens\u00edvel da Amaz\u00f4nia. N\u00e3o s\u00f3 por causa do desmatamento e das emiss\u00f5es de gases de efeito estufa, mas tamb\u00e9m porque h\u00e1 comunidades ind\u00edgenas amea\u00e7adas por projetos de infraestrutura\u201d, Ferreira acrescentou.<\/p>\n\n<p>Quer\u00eancia \u00e9 cortada pela BR-242, ou a \u201crota do gr\u00e3o\u201d, uma das vias <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/mcom\/pt-br\/noticias\/2021\/marco\/expansao-da-conectividade-em-rodovias-federais-vira-apos-leilao-do-5g\">estrat\u00e9gicas<\/a> do governo para o escoamento agr\u00edcola. No futuro, ela pode se somar \u00e0s ferrovias <a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/geral\/noticia\/2021-09\/governo-lanca-obra-da-ferrovia-de-integracao-do-centro-oeste\">Fico<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/pt-br\/noticias\/transito-e-transportes\/2021\/09\/governo-federal-assina-contrato-para-concessao-da-fiol\">Fiol<\/a> no transporte de commodities pelo Arco Norte.<\/p>\n\n<p><video controls=\"controls\" width=\"100%\" height=\"100%\" data-mce-fragment=\"1\"><source src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_Wawi_Querencia_soja_queimadas_fogo_video_3.mp4\"\/><\/video><\/p>\n<div itemprop=\"caption\" class=\"block--story-image__caption\">Inc\u00eandios destroem mata nativa ao longo da rodovia BR-242, rota estrat\u00e9gica para o escoamento de produtos agr\u00edcolas de \u00e1reas como Quer\u00eancia, onde as planta\u00e7\u00f5es de soja se expandiram significativamente nas \u00faltimas d\u00e9cadas (V\u00eddeo: Fl\u00e1via Milhorance\/Di\u00e1logo Chino)\n\n<\/div>\n\n<p>\u00c0s margens da BR-242, h\u00e1 extensas fazendas de soja coladas a florestas nativas. Em outubro, havia fogo em alguns trechos. Na floresta amaz\u00f4nica, os inc\u00eandios florestais\u00a0<a href=\"https:\/\/ipam.org.br\/cartilhas-ipam\/tudo-o-que-voce-queria-saber-sobre-fogo-na-amazonia-mas-nao-sabia-para-quem-perguntar\/\">n\u00e3o ocorrem naturalmente<\/a>; eles servem ao manejo agropecu\u00e1rio ou ao desmatamento. Nos \u00faltimos anos, Quer\u00eancia conseguiu controlar a devasta\u00e7\u00e3o florestal, mas o problema persiste, como mostram dados do\u00a0<a href=\"http:\/\/terrabrasilis.dpi.inpe.br\/app\/dashboard\/deforestation\/biomes\/legal_amazon\/increments\">Prodes<\/a>.<\/p>\n\n<p><iframe class=\"flourish-embed-iframe\" style=\"width: 100%; height: 490px;\" title=\"Interactive or visual content\" src=\"https:\/\/flo.uri.sh\/visualisation\/9479320\/embed\" frameborder=\"0\" scrolling=\"no\" sandbox=\"allow-same-origin allow-forms allow-scripts allow-downloads allow-popups allow-popups-to-escape-sandbox allow-top-navigation-by-user-activation\"><span data-mce-type=\"bookmark\" style=\"display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;\" class=\"mce_SELRES_start\">\ufeff<\/span><span data-mce-type=\"bookmark\" style=\"display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;\" class=\"mce_SELRES_start\">\ufeff<\/span><span data-mce-type=\"bookmark\" style=\"display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;\" class=\"mce_SELRES_start\">\ufeff<\/span><span data-mce-type=\"bookmark\" style=\"display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;\" class=\"mce_SELRES_start\">\ufeff<\/span><span data-mce-type=\"bookmark\" style=\"display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;\" class=\"mce_SELRES_start\">\ufeff<\/span><\/iframe><\/p>\n\n\n<p>Na chegada \u00e0 Quer\u00eancia pela rodovia, o primeiro monumento vis\u00edvel \u00e9 um silo que armazena gr\u00e3os. \u00c0s margens da via, a concession\u00e1ria n\u00e3o exp\u00f5e carros de passeio, e sim tratores. Mais adiante, as lojas n\u00e3o s\u00e3o de itens de uso individual, mas de produtos e servi\u00e7os agr\u00edcolas. Pelas ruas da cidade, transitam principalmente picapes empoeiradas.<\/p>\n\n<p>O Portal do Xingu Business \u00e9 um hotel sofisticado. Ele recebe funcion\u00e1rios de\u00a0<em>tradings<\/em>\u00a0de todo o Brasil e do exterior e est\u00e1 quase sempre lotado, segundo um recepcionista. Adiante, o Brisa Hotel, bem mais simples, recebe caminhoneiros que transportam as\u00a0<em>commodities<\/em>\u00a0\u2014 \u00e0 noite, o vai e vem se intensifica, e uma fila de caminh\u00f5es se forma.<\/p>\n\n<p>H\u00e1 barulho de obras por todos os lados. Construtoras erguem casas, condom\u00ednios e outros estabelecimentos para acomodar o crescimento do\u00a0<a href=\"https:\/\/cidades.ibge.gov.br\/brasil\/mt\/querencia\/panorama\">munic\u00edpio<\/a>\u00a0com uma economia pujante, mas cuja riqueza \u00e9\u00a0<a href=\"http:\/\/tabnet.datasus.gov.br\/cgi\/ibge\/censo\/cnv\/ginimt.def\">mal distribu\u00edda<\/a>. Os pre\u00e7os s\u00e3o inflacionados, enquanto o saneamento e a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.estadaomatogrosso.com.br\/judiciario\/mp-processa-municipio-por-lixao-a-ceu-aberto\/1621\">gest\u00e3o de res\u00edduos<\/a>, impr\u00f3prios.<\/p>\n\n<div class=\"wp-block-cd-story-image aligncenter block--story-image block--story-image--wide\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\"><div class=\"block--story-image__column\"><div class=\"block--story-image__image\"><img class=\"lazy\" data-src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_Querencia_soja_Amazonia_foto_4-scaled.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_Querencia_soja_Amazonia_foto_4-scaled.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 600px) 768px, (max-width: 999px) 1024px, (max-width: 1400px) 1400px, (max-width: 2000px) 2000px, 2000px\" alt=\"Garbage is dumped in plain sight from the BR-242 highway\"\/><\/div><div class=\"block--story-image__content\"><div itemprop=\"caption\" class=\"block--story-image__caption\">O lixo \u00e9 jogado a c\u00e9u aberto \u00e0s margens da rodovia BR-242. Desde 2010, a pol\u00edtica brasileira de gest\u00e3o de res\u00edduos exige a constru\u00e7\u00e3o de aterros com impermeabiliza\u00e7\u00e3o para se evitar a contamina\u00e7\u00e3o do solo e a drenagem de l\u00edquidos e gases t\u00f3xicos da decomposi\u00e7\u00e3o (Imagem: Fl\u00e1via Milhorance\/Di\u00e1logo Chino)<\/div><\/div><\/div><meta itemprop=\"contentUrl\" content=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_Querencia_soja_Amazonia_foto_4-scaled.jpg\"\/><meta itemprop=\"contentSize\" content=\"315 KB\"\/><meta itemprop=\"height\" content=\"1383\"\/><meta itemprop=\"width\" content=\"2000\"\/><meta itemprop=\"author\"\/><meta itemprop=\"representativeOfPage\" content=\"true\"\/><\/div>\n\n<p>H\u00e1 anos que o crescimento descontrolado da cidade e o avan\u00e7o da monocultura angustiavam Kuiussi: \u201cEu pensei, pensei muito, sozinho dentro do mato\u2026 At\u00e9 que avisei a minha decis\u00e3o de mudar a aldeia de lugar. Todos concordaram\u201d.<\/p>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Aldeia se ergue do zero<\/h2>\n\n<p>Do centro urbano rumo ao territ\u00f3rio Wawi, o asfalto aveludado d\u00e1 lugar a uma estrada de terra que cruza assentamentos de reforma agr\u00e1ria e lavouras cujas mudas de soja brotam do solo. Em meio \u00e0s planta\u00e7\u00f5es, avistei veredas de onde erguiam palmeiras de buriti \u2014 um cen\u00e1rio t\u00edpico do Cerrado. \u00c0 medida que me aproximava do destino a mais de cem quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, a vegeta\u00e7\u00e3o ganhava contornos amaz\u00f4nicos. \u00c1rvores mais altas e corpulentas escondiam o interior da floresta de olhares curiosos. Outras vezes, era dif\u00edcil distinguir o bioma predominante.<\/p>\n\n<blockquote class=\"instagram-media\" style=\"background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);\" data-instgrm-permalink=\"https:\/\/www.instagram.com\/tv\/CZmXgupFHPN\/?utm_source=ig_embed&#038;utm_campaign=loading\" data-instgrm-version=\"14\" data-darkreader-inline-bgimage=\"\" data-darkreader-inline-bgcolor=\"\" data-darkreader-inline-border-top=\"\" data-darkreader-inline-border-right=\"\" data-darkreader-inline-border-bottom=\"\" data-darkreader-inline-border-left=\"\" data-darkreader-inline-boxshadow=\"\">\n<div style=\"padding: 16px;\">\n<div style=\"display: flex; flex-direction: row; align-items: center;\">\n<div style=\"background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; flex-grow: 0; height: 40px; margin-right: 14px; width: 40px;\" data-darkreader-inline-bgcolor=\"\">\u00a0<\/div>\n<div style=\"display: flex; flex-direction: column; flex-grow: 1; justify-content: center;\">\n<div style=\"background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; margin-bottom: 6px; width: 100px;\" data-darkreader-inline-bgcolor=\"\">\u00a0<\/div>\n<div style=\"background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; width: 60px;\" data-darkreader-inline-bgcolor=\"\">\u00a0<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div style=\"padding: 19% 0;\">\u00a0<\/div>\n<div style=\"display: block; height: 50px; margin: 0 auto 12px; width: 50px;\">\u00a0<\/div>\n<div style=\"padding-top: 8px;\">\n<div style=\"color: #3897f0; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: 550; line-height: 18px;\" data-darkreader-inline-color=\"\">View this post on Instagram<\/div>\n<\/div>\n<div style=\"padding: 12.5% 0;\">\u00a0<\/div>\n<div style=\"display: flex; flex-direction: row; margin-bottom: 14px; align-items: center;\">\n<div>\n<div style=\"background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; height: 12.5px; width: 12.5px; transform: translateX(0px) translateY(7px);\" data-darkreader-inline-bgcolor=\"\">\u00a0<\/div>\n<div style=\"background-color: #f4f4f4; height: 12.5px; transform: rotate(-45deg) translateX(3px) translateY(1px); width: 12.5px; flex-grow: 0; margin-right: 14px; margin-left: 2px;\" data-darkreader-inline-bgcolor=\"\">\u00a0<\/div>\n<div style=\"background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; height: 12.5px; width: 12.5px; transform: translateX(9px) translateY(-18px);\" data-darkreader-inline-bgcolor=\"\">\u00a0<\/div>\n<\/div>\n<div style=\"margin-left: 8px;\">\n<div style=\"background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; flex-grow: 0; height: 20px; width: 20px;\" data-darkreader-inline-bgcolor=\"\">\u00a0<\/div>\n<div style=\"width: 0; height: 0; border-top: 2px solid transparent; border-left: 6px solid #f4f4f4; border-bottom: 2px solid transparent; transform: translateX(16px) translateY(-4px) rotate(30deg);\" data-darkreader-inline-border-top=\"\" data-darkreader-inline-border-left=\"\" data-darkreader-inline-border-bottom=\"\">\u00a0<\/div>\n<\/div>\n<div style=\"margin-left: auto;\">\n<div style=\"width: 0px; border-top: 8px solid #F4F4F4; border-right: 8px solid transparent; transform: translateY(16px);\" data-darkreader-inline-border-top=\"\" data-darkreader-inline-border-right=\"\">\u00a0<\/div>\n<div style=\"background-color: #f4f4f4; flex-grow: 0; height: 12px; width: 16px; transform: translateY(-4px);\" data-darkreader-inline-bgcolor=\"\">\u00a0<\/div>\n<div style=\"width: 0; height: 0; border-top: 8px solid #F4F4F4; border-left: 8px solid transparent; transform: translateY(-4px) translateX(8px);\" data-darkreader-inline-border-top=\"\" data-darkreader-inline-border-left=\"\">\u00a0<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div style=\"display: flex; flex-direction: column; flex-grow: 1; justify-content: center; margin-bottom: 24px;\">\n<div style=\"background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; margin-bottom: 6px; width: 224px;\" data-darkreader-inline-bgcolor=\"\">\u00a0<\/div>\n<div style=\"background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; width: 144px;\" data-darkreader-inline-bgcolor=\"\">\u00a0<\/div>\n<\/div>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;\" data-darkreader-inline-color=\"\"><a style=\"color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;\" href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tv\/CZmXgupFHPN\/?utm_source=ig_embed&#038;utm_campaign=loading\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-darkreader-inline-color=\"\">A post shared by Kamikia Kisedje (@kamikiakisedje)<\/a><\/p>\n<\/div>\n<\/blockquote>\n<p><script async=\"\" src=\"\/\/www.instagram.com\/embed.js\"><\/script><\/p>\n\n<p>No percurso, cortei os 210 quil\u00f4metros quadrados da fazenda Agropecu\u00e1ria Rica at\u00e9 sua fronteira com o territ\u00f3rio Wawi. Em 2014, os donos do empreendimento\u00a0<a href=\"http:\/\/www.mpf.mp.br\/mt\/sala-de-imprensa\/noticias-mt\/justica-extingue-acao-de-agropecuaria-que-contestava-limites-da-terra-indigena-wawi\">chegaram a tentar<\/a>\u00a0expandir sua propriedade sobre a \u00e1rea ind\u00edgena, mas a Justi\u00e7a Federal negou o pedido. Hoje, os Kis\u00eadj\u00ea dizem n\u00e3o haver invas\u00e3o, mas denunciam que um avi\u00e3o monomotor pulveriza agrot\u00f3xico sobre a lavoura da Rica, em m\u00e9dia tr\u00eas vezes por safra \u2014 e ele passa por cima do territ\u00f3rio. As informa\u00e7\u00f5es de contato da fazenda no registro da Receita Federal s\u00e3o inv\u00e1lidas, e seus donos n\u00e3o foram encontrados para comentar o caso.<\/p>\n\n<p>Com um mapa escrito \u00e0 m\u00e3o e sem conex\u00e3o de internet, deixei a lavoura de soja da Rica e tomei uma estrada contornada pela mata. Depois de quase cinco quil\u00f4metros, uma constru\u00e7\u00e3o de tijolos abandonada revelou minha localiza\u00e7\u00e3o. Aquela era a escola da antiga aldeia Khikatxi. Mais adentro, havia ru\u00ednas de ocas, mas ningu\u00e9m \u00e0 vista.<\/p>\n\n<div class=\"wp-block-cd-story-image aligncenter block--story-image block--story-image--wide\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\"><div class=\"block--story-image__column\"><div class=\"block--story-image__image\"><img class=\"lazy\" data-src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_Wawi_soja_Querencia_foto_5-scaled.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_Wawi_soja_Querencia_foto_5-scaled.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 600px) 768px, (max-width: 999px) 1024px, (max-width: 1400px) 1400px, (max-width: 2000px) 2000px, 2000px\" alt=\"Abandoned school in the old village Khikatxi\"\/><\/div><div class=\"block--story-image__content\"><div itemprop=\"caption\" class=\"block--story-image__caption\">Escola abandonada na antiga aldeia de Khikatxi. Ocas e outras constru\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m est\u00e3o sendo tomadas pelo mato (Imagem: Fl\u00e1via Milhorance\/Di\u00e1logo Chino)<\/div><\/div><\/div><meta itemprop=\"contentUrl\" content=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_Wawi_soja_Querencia_foto_5-scaled.jpg\"\/><meta itemprop=\"contentSize\" content=\"423 KB\"\/><meta itemprop=\"height\" content=\"1333\"\/><meta itemprop=\"width\" content=\"2000\"\/><meta itemprop=\"author\"\/><meta itemprop=\"representativeOfPage\" content=\"true\"\/><\/div>\n\n<p>Dei meia volta e com a ajuda de empregados da fazenda Rica, encontrei finalmente a aldeia nova em constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n<p>No amplo e circular p\u00e1tio de entrada, homens cobriam com fibra de buriti o teto da oca que servir\u00e1 ao posto de sa\u00fade. Toras de madeira fincadas no ch\u00e3o de terra demarcavam onde ficar\u00e1 a nova escola, pr\u00f3xima a uma loja para a troca e venda de alimentos e bijuterias.<\/p>\n\n<p>Uma constru\u00e7\u00e3o de tijolos j\u00e1 abriga salas administrativas, cozinha comunit\u00e1ria e varanda com cadeiras escolares e quadro de giz. Al\u00e9m de escola improvisada, o centro recebe reuni\u00f5es e \u00e9 onde, intermitentemente, funciona a rede wifi. Por isso, vive movimentado.<\/p>\n\n<div class=\"wp-block-cd-story-image aligncenter block--story-image block--story-image--wide\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\"><div class=\"block--story-image__column\"><div class=\"block--story-image__image\"><img class=\"lazy\" data-src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_Wawi_Querencia_soja_indigenas_Foto_6-scaled.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_Wawi_Querencia_soja_indigenas_Foto_6-scaled.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 600px) 768px, (max-width: 999px) 1024px, (max-width: 1400px) 1400px, (max-width: 2000px) 2000px, 2000px\" alt=\"New Khikatxi village being built\"\/><\/div><div class=\"block--story-image__content\"><div itemprop=\"caption\" class=\"block--story-image__caption\">Homens sobre telhado usam fibra de buriti para uma das constru\u00e7\u00f5es da nova aldeia Khikatxi (Imagem: Fl\u00e1via Milhorance\/Di\u00e1logo Chino)<\/div><\/div><\/div><meta itemprop=\"contentUrl\" content=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_Wawi_Querencia_soja_indigenas_Foto_6-scaled.jpg\"\/><meta itemprop=\"contentSize\" content=\"545 KB\"\/><meta itemprop=\"height\" content=\"1334\"\/><meta itemprop=\"width\" content=\"2000\"\/><meta itemprop=\"author\"\/><meta itemprop=\"representativeOfPage\" content=\"true\"\/><\/div>\n\n<p>No segundo p\u00e1tio da aldeia, ocas que j\u00e1 abrigam fam\u00edlias ind\u00edgenas foram erguidas formando um amplo c\u00edrculo. De resto, h\u00e1 pequenas ro\u00e7as, a floresta amaz\u00f4nica e o rio Pacas.<\/p>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Hist\u00f3ria de disputas territoriais<\/h2>\n\n<p>Uma antiga estrada aberta por pecuaristas antes de o territ\u00f3rio Wawi ser homologado, em 1998, foi o ponto de partida para a nova aldeia. \u201cA gente come\u00e7ou a abrir a \u00e1rea a partir da estrada, com o apoio de m\u00e1quinas da prefeitura. Os primeiros a chegar, em 2018, foram o cacique e alguns l\u00edderes. Depois, fizemos a marca\u00e7\u00e3o das casas\u201d, contou Winti Suy\u00e1 Kis\u00eadj\u00ea, l\u00edder local.<\/p>\n\n<p>Os ind\u00edgenas ocupam ocas imponentes, erguidas \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o Kis\u00eadj\u00ea. Mas a constru\u00e7\u00e3o da infraestrutura comunit\u00e1ria avan\u00e7a ao ritmo da disponibilidade de pessoal e recursos \u2014 pr\u00f3prios, do poder p\u00fablico e de organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais.<\/p>\n\n<p>No passado, parte da floresta foi cortada para dar lugar a pastagens. Mas sem novos desmatamentos desde 1998, a mata secund\u00e1ria cresceu e se sobrep\u00f4s ao capim. Assim como a vegeta\u00e7\u00e3o, os Kis\u00eadj\u00ea preservam algumas de suas tradi\u00e7\u00f5es seculares.<\/p>\n\n<p>Ap\u00f3s o amanhecer, a comunidade segue como em romaria para o rio Pacas. Os homens pescam matrinx\u00e3s e pacus e, com sorte, capturam jacar\u00e9s para a refei\u00e7\u00e3o do dia. As mulheres usam troncos de \u00e1rvores como bancadas para lavar utens\u00edlios e roupas, enquanto as crian\u00e7as nadam ao seu redor.<\/p>\n\n<p>Um sil\u00eancio tranquilo \u2014 interrompido apenas por p\u00e1ssaros, insetos e o curso d\u2019\u00e1gua \u2014 d\u00e1 a sensa\u00e7\u00e3o de que eles sempre estiveram ali. Mas a recente mudan\u00e7a n\u00e3o foi nem a primeira.<\/p>\n\n<div class=\"wp-block-cd-story-image aligncenter block--story-image block--story-image--wide\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\"><div class=\"block--story-image__column\"><div class=\"block--story-image__image\"><img class=\"lazy\" data-src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_indigenas_Wawi_Querencia_soja_Mato_Grosso-scaled.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_indigenas_Wawi_Querencia_soja_Mato_Grosso-scaled.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 600px) 768px, (max-width: 999px) 1024px, (max-width: 1400px) 1400px, (max-width: 2000px) 2000px, 2000px\" alt=\"Woman and girl bathing and cleaning in the Paca river nearby the Khikatxi village\"\/><\/div><div class=\"block--story-image__content\"><div itemprop=\"caption\" class=\"block--story-image__caption\">Mulher lava suas roupas enquanto crian\u00e7a se diverte nas \u00e1guas do rio Pacas, numa \u00e1rea de transi\u00e7\u00e3o entre Cerrado e Amaz\u00f4nia (Fl\u00e1via Milhorance\/Di\u00e1logo Chino)<\/div><\/div><\/div><meta itemprop=\"contentUrl\" content=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_indigenas_Wawi_Querencia_soja_Mato_Grosso-scaled.jpg\"\/><meta itemprop=\"contentSize\" content=\"388 KB\"\/><meta itemprop=\"height\" content=\"1334\"\/><meta itemprop=\"width\" content=\"2000\"\/><meta itemprop=\"author\"\/><meta itemprop=\"representativeOfPage\" content=\"true\"\/><\/div>\n\n<p>Em meados do s\u00e9culo 20, disputas por terras se intensificaram no Brasil central. Em 1961, o governo federal instituiu o Parque Nacional do Xingu,\u00a0<a href=\"https:\/\/dialogue.earth\/pt-br\/agricultura-pt-br\/como-a-agroindustria-ilhou-o-xingu-mais-antiga-reserva-indigena-do-brasil\/\">iniciativa sem precedentes<\/a>\u00a0que demandou uma d\u00e9cada de esfor\u00e7os dos ind\u00edgenas xinguanos e irm\u00e3os Villas B\u00f4as \u2014 sertanistas que, nos anos 1940, lideraram uma expedi\u00e7\u00e3o oficial para mapear o pa\u00eds, mas que deixaram a miss\u00e3o para se estabelecer no Mato Grosso.<\/p>\n\n<div class=\"wp-block-cd-story-image alignleft block--story-image block--story-image--article\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\"><div class=\"block--story-image__column\"><div class=\"block--story-image__image\"><img class=\"lazy\" data-src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_Wawi_indigenas_Querencia_aldeia_soja_Mato_Grosso-scaled.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_Wawi_indigenas_Querencia_aldeia_soja_Mato_Grosso-scaled.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 600px) 768px, (max-width: 999px) 1024px, (max-width: 1400px) 1400px, (max-width: 2000px) 2000px, 1333px\" alt=\"Winti Khisedje, an indigenous leader at Wawi territory\"\/><\/div><div class=\"block--story-image__content\"><div itemprop=\"caption\" class=\"block--story-image__caption\">L\u00edder comunit\u00e1rio Winti Suy\u00e1 Kis\u00eadj\u00ea (Imagem: Fl\u00e1via Milhorance\/Di\u00e1logo Chino)<\/div><\/div><\/div><meta itemprop=\"contentUrl\" content=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_Wawi_indigenas_Querencia_aldeia_soja_Mato_Grosso-scaled.jpg\"\/><meta itemprop=\"contentSize\" content=\"408 KB\"\/><meta itemprop=\"height\" content=\"2000\"\/><meta itemprop=\"width\" content=\"1333\"\/><meta itemprop=\"author\"\/><meta itemprop=\"representativeOfPage\" content=\"true\"\/><\/div>\n\n<p>Com a funda\u00e7\u00e3o do parque nacional, v\u00e1rios povos que viviam fora do territ\u00f3rio precisaram se mudar para a \u00e1rea rec\u00e9m-protegida, entre eles os Kis\u00eadj\u00ea. Havia crescentes press\u00f5es de exploradores e governantes para abrir pistas de pouso, pastagens e vilas no Mato Grosso, que depois se tornaram cidades populosas e grandes lavouras.<\/p>\n\n<p>Mas os Kis\u00eadj\u00ea, assim como v\u00e1rios grupos ind\u00edgenas, t\u00eam forte conex\u00e3o com seus territ\u00f3rios. A antrop\u00f3loga Marcela Stockler,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.rau.ufscar.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/5_Marcela_Coelho_de_Souza.pdf\">escreveu<\/a>\u00a0que aldeias, ro\u00e7as, trilhas, cursos d\u2019\u00e1gua s\u00e3o \u201cnomeados segundo os eventos e encontros que ali tiveram lugar \u2014 onde nasceu tal ancestral, onde inimigos capturaram fulano, onde uma certa presa foi capturada\u201d. A hist\u00f3ria kis\u00eadj\u00ea se constr\u00f3i a partir do espa\u00e7o ocupado por seu povo.<\/p>\n\n<p>Winti conta que seus antepassados n\u00e3o esqueceram a terra deixada para tr\u00e1s. \u201cEles vinham todo ano at\u00e9 a aldeia velha. Remavam dois dias de canoa para chegar\u201d, ele narrou. \u201cMas, numa vez, quando chegaram, estava tudo derrubado. J\u00e1 tinha at\u00e9 pista de pouso\u201d.<\/p>\n\n<p>Ap\u00f3s anos de conflitos e press\u00f5es junto ao governo, os Kis\u00eadj\u00ea retornaram \u00e0 antiga aldeia em 1973. E ali ficaram at\u00e9 recentemente quando novas tens\u00f5es come\u00e7aram a inquiet\u00e1-los.<\/p>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">\u2018O problema hoje \u00e9 outro\u2019<\/h2>\n\n<p>Era antes de meio dia, mas um sol enceguecedor e um calor escaldante j\u00e1 incomodavam os homens Kis\u00eadj\u00ea em trajes t\u00edpicos que se reuniam sob uma choupana. \u201cTeve briga [com fazendeiros] na retomada da nossa terra no passado, mas quero contar de hoje. O problema hoje \u00e9 outro\u201d, disse Yaiku Suy\u00e1.<\/p>\n\n<p>Em vez de disputas territoriais, s\u00e3o os impactos de longo prazo da ocupa\u00e7\u00e3o desenfreada que atualmente amea\u00e7am o modo de vida do povo. Khikatxi \u00e9 a maior das sete aldeias do territ\u00f3rio ocupado por 608 pessoas, que se mant\u00eam da pesca e ca\u00e7a legalizadas, de pequenas lavouras de mandioca, batata e cana-de-a\u00e7\u00facar e da coleta de frutas nativas.<\/p>\n\n<p>\u201cA chuva \u00e0s vezes atrasa, e a planta morre de calor\u201d, contou o t\u00e9cnico agr\u00edcola Yaiku, acrescentando que as tempestades e ventos est\u00e3o mais fortes e chegam a derrubar lavouras. \u201cEm volta do territ\u00f3rio, repare, est\u00e1 tudo desmatado. N\u00e3o tem mata para segurar o vento e a \u00e1gua. A gente reza ao esp\u00edrito para desviar a chuva forte\u201d.<\/p>\n\n<div class=\"wp-block-cd-story-image aligncenter block--story-image block--story-image--wide\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\"><div class=\"block--story-image__column\"><div class=\"block--story-image__image\"><img class=\"lazy\" data-src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_indigenas_Wawi-scaled.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_indigenas_Wawi-scaled.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 600px) 768px, (max-width: 999px) 1024px, (max-width: 1400px) 1400px, (max-width: 2000px) 2000px, 2000px\" alt=\"In a gathering, Khisedje people wore traditional clothing\"\/><\/div><div class=\"block--story-image__content\"><div itemprop=\"caption\" class=\"block--story-image__caption\">Homens Kis\u00eadj\u00ea se re\u00fanem para discutir a amea\u00e7a das secas e tempestades, novos problemas que eles sabem ter rela\u00e7\u00e3o com a expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio fora de seu territ\u00f3rio (Imagem: Fl\u00e1via Milhorance \/ Di\u00e1logo Chino)<\/div><\/div><\/div><meta itemprop=\"contentUrl\" content=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_indigenas_Wawi-scaled.jpg\"\/><meta itemprop=\"contentSize\" content=\"669 KB\"\/><meta itemprop=\"height\" content=\"1333\"\/><meta itemprop=\"width\" content=\"2000\"\/><meta itemprop=\"author\"\/><meta itemprop=\"representativeOfPage\" content=\"true\"\/><\/div>\n\n<p>A intensifica\u00e7\u00e3o de eventos clim\u00e1ticos extremos\u00a0<a href=\"https:\/\/dialogue.earth\/pt-br\/mudanca-climatica-e-energia-pt-br\/51427-relatorio-do-ipcc-efeitos-da-crise-climatica-se-aprofundam-na-america-latina\/\">est\u00e1 descrita<\/a>\u00a0no mais recente relat\u00f3rio do Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC). Segundo o texto produzido por cientistas do clima de todo o mundo, a Amaz\u00f4nia \u00e9 altamente vulner\u00e1vel.<\/p>\n\n<p>O uso de pesticidas tamb\u00e9m tem s\u00e9rias implica\u00e7\u00f5es tanto para o meio ambiente quanto para a sa\u00fade humana. \u201cEu via a comida n\u00e3o crescer mais como crescia na terra, eu via o corpo mudando, tinha coceira e diarreia nas pessoas\u201d, disse o cacique Kuiussi.<\/p>\n\n<p>Yaiku lembra que, na antiga aldeia, havia preocupa\u00e7\u00e3o com a alimenta\u00e7\u00e3o: \u201cConhe\u00e7o o manejo da ro\u00e7a e reparei que surgiram novas pragas\u201d. Lagartas, formigas gra\u00fadas e porcos do mato se multiplicaram. \u201cCom o avan\u00e7o da soja, a ro\u00e7a come\u00e7ou a enfraquecer. Tem menos variedade de sementes, e o veneno mata as plantas\u201d, disse.<\/p>\n\n<div class=\"wp-block-cd-pull-quote block--pull-quote block--pull-quote--no-citation\"><div class=\"block--pull-quote__wrapper\"><blockquote class=\"block--pull-quote__quote\">Em volta do territ\u00f3rio, repare, est\u00e1 tudo desmatado. N\u00e3o tem mata para segurar o vento e a \u00e1gua. A gente reza ao esp\u00edrito para desviar a chuva forte<\/blockquote><cite class=\"block--pull-quote__cite\"><\/cite><\/div><\/div>\n\n<p>As nascentes ficaram turvas e polu\u00eddas, disse Yaiku. A \u00e1gua para consumo precisa vir de po\u00e7os artesianos, e \u00e0s vezes falta. A oferta de peixes diminuiu, e os animais de ca\u00e7a, como a anta e o tamandu\u00e1, t\u00eam cheiro de agrot\u00f3xico, ele acrescentou. \u201cA carne at\u00e9 mudou de cor e n\u00e3o tem mais gosto. Os animais est\u00e3o todos consumindo a soja\u201d.<\/p>\n\n<p>Estudos comprovam a contamina\u00e7\u00e3o das \u00e1guas da bacia do Xingu, incluindo o rio Pacas, cujas nascentes ficam fora da reserva. Uma pesquisa da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo\u00a0<a href=\"https:\/\/repositorio.unifesp.br\/xmlui\/bitstream\/handle\/11600\/62116\/Dissertacao-TIAGO.pdf?sequence=3\">detectou<\/a>\u00a0res\u00edduos de agrot\u00f3xicos provenientes da agricultura. Outro trabalho da Universidade de Bras\u00edlia\u00a0<a href=\"https:\/\/repositorio.unb.br\/handle\/10482\/12494\">percebeu<\/a>\u00a0o assoreamento do rio Pacas onde matas ciliares haviam sido desmatadas e encontrou contaminantes em \u00e1reas adjacentes a lavouras. A Universidade de S\u00e3o Paulo\u00a0<a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/ni\/a\/yP4RtCY6hgVjfPStCCYGWzx\/?lang=en\">apontou<\/a>\u00a0o desequil\u00edbrio em popula\u00e7\u00f5es de peixes da bacia do alto Xingu.<\/p>\n\n<p>Tamb\u00e9m j\u00e1 existem evid\u00eancias\u00a0<a href=\"https:\/\/www.arca.fiocruz.br\/bitstream\/icict\/32385\/2\/02agrotoxicos.pdf\">mostrando<\/a>\u00a0efeitos agudos da exposi\u00e7\u00e3o a agrot\u00f3xicos, como irrita\u00e7\u00f5es de pele, v\u00f4mito e diarreia. Gestantes, crian\u00e7as e adolescentes s\u00e3o do grupo de risco. E animais tamb\u00e9m\u00a0<a href=\"https:\/\/ipam.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/defensivos_agri%CC%81colas_como_evitar_danos_a%CC%80.pdf\">acabam<\/a>\u00a0envenenados.<\/p>\n\n<div class=\"wp-block-cd-story-image aligncenter block--story-image block--story-image--wide\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\"><div class=\"block--story-image__column\"><div class=\"block--story-image__image\"><img class=\"lazy\" data-src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_Wawi_Querencia_soja_indigenas_tamandua_animais-scaled.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_Wawi_Querencia_soja_indigenas_tamandua_animais-scaled.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 600px) 768px, (max-width: 999px) 1024px, (max-width: 1400px) 1400px, (max-width: 2000px) 2000px, 2000px\" alt=\"anteater over soybean field\"\/><\/div><div class=\"block--story-image__content\"><div itemprop=\"caption\" class=\"block--story-image__caption\">Tamandu\u00e1-bandeira atravessa campo de soja perto da antiga aldeia ind\u00edgena. Animais selvagens se alimentam dos gr\u00e3os (Imagem: Fl\u00e1via Milhorance\/Di\u00e1logo Chino)<\/div><\/div><\/div><meta itemprop=\"contentUrl\" content=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_Wawi_Querencia_soja_indigenas_tamandua_animais-scaled.jpg\"\/><meta itemprop=\"contentSize\" content=\"489 KB\"\/><meta itemprop=\"height\" content=\"1333\"\/><meta itemprop=\"width\" content=\"2000\"\/><meta itemprop=\"author\"\/><meta itemprop=\"representativeOfPage\" content=\"true\"\/><\/div>\n\n<p>Mas a mudan\u00e7a de aldeia renovou as esperan\u00e7as. \u201cFizemos a primeira ro\u00e7a e ficamos animados. A terra \u00e9 boa, n\u00e3o precisamos combater pragas. Est\u00e1 mais seguro\u201d, disse Yaiku.<\/p>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Desafios da economia da floresta<\/h2>\n\n<p>Manter a terra saud\u00e1vel \u00e9 importante para o extrativismo de esp\u00e9cies nativas, uma pr\u00e1tica que conecta os ind\u00edgenas com seu ambiente \u2014 e com potenciais mercados de produtos sustent\u00e1veis fora do territ\u00f3rio.<\/p>\n\n<p>Os Kis\u00eadj\u00ea coletam entre 600 e 800 quilos de mel por ano, que se somam \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de outras etnias e integram o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.origensbrasil.org.br\/produto.php?qrcode=5030\">Mel dos \u00cdndios do Xingu<\/a>. Foi a primeira marca ind\u00edgena a ter aprova\u00e7\u00e3o de venda no pa\u00eds, em 2001.<\/p>\n\n<p>O processamento do \u00f3leo de pequi org\u00e2nico, que os pr\u00f3prios Kis\u00eadj\u00ea criaram, rendeu-lhes o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.equatorinitiative.org\/2019\/07\/29\/associacao-indigena-kisedje\/\">Pr\u00eamio Equatorial<\/a>, da ONU, em 2019. A distin\u00e7\u00e3o \u00e9 oferecida a solu\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias inovadoras de desenvolvimento sustent\u00e1vel.<\/p>\n\n<div class=\"wp-block-cd-story-image aligncenter block--story-image block--story-image--wide\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\"><div class=\"block--story-image__column\"><div class=\"block--story-image__image\"><img class=\"lazy\" data-src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_Wawi_indigenas_mulher-scaled.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_Wawi_indigenas_mulher-scaled.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 600px) 768px, (max-width: 999px) 1024px, (max-width: 1400px) 1400px, (max-width: 2000px) 2000px, 2000px\" alt=\"Indigenous woman collecting big pequi fruits in the Wawi territory\"\/><\/div><div class=\"block--story-image__content\"><div itemprop=\"caption\" class=\"block--story-image__caption\">Mulher Kis\u00eadj\u00ea volta \u00e0 aldeia com uma bacia cheia de pequis, fruto com import\u00e2ncia econ\u00f4mica para a comunidade (Imagem: Fl\u00e1via Milhorance \/ Di\u00e1logo Chino)<\/div><\/div><\/div><meta itemprop=\"contentUrl\" content=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_Wawi_indigenas_mulher-scaled.jpg\"\/><meta itemprop=\"contentSize\" content=\"352 KB\"\/><meta itemprop=\"height\" content=\"1334\"\/><meta itemprop=\"width\" content=\"2000\"\/><meta itemprop=\"author\"\/><meta itemprop=\"representativeOfPage\" content=\"true\"\/><\/div>\n\n<p>A coleta do pequi \u00e9 um ritual que envolve toda a comunidade, principalmente as mulheres. As \u00e1rvores maiores est\u00e3o pr\u00f3ximas \u00e0 aldeia antiga, plantadas h\u00e1 d\u00e9cadas para recuperar pastagens degradadas. Mas sementes j\u00e1 est\u00e3o sendo dispersas nos arredores da nova aldeia.<\/p>\n\n<p>\u201cA gente mudou para longe para ter tranquilidade. Ficando aqui, temos que pensar no futuro das crian\u00e7as\u201d, disse a matriarca Weko\u00ed Suy\u00e1, com ajuda de tradu\u00e7\u00e3o. \u201cMas acreditamos que vai ter muito pequi, que vai ser suficiente para comercializ\u00e1-lo\u201d.<\/p>\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"&#039;Primeiro, decidimos plantar pequi&#039;\" width=\"640\" height=\"360\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Ox0_Ah3yY_M?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n<p>A produ\u00e7\u00e3o do \u00f3leo de pequi enfrenta v\u00e1rios desafios. O processamento atingiu 400 litros ao ano, mas foi interrompido pela pandemia. Estabelecimentos do Brasil e exterior t\u00eam dificuldades de vend\u00ea-los.<\/p>\n\n<p>A americana Culinary Culture Connections importa produtos sustent\u00e1veis da Am\u00e9rica Latina, incluindo o \u00f3leo de pequi. Seu cofundador, o antrop\u00f3logo Gregory Prang, trabalhou com etnias do Brasil e quer estimular a economia da floresta. Prang diz que o \u00f3leo \u201c\u00e9 muito gostoso\u201d em moquecas, mas tem poucos adeptos em solo americano.<\/p>\n\n<p>\u201cO pequi \u00e9 pouco conhecido aqui e me falta or\u00e7amento de marketing para promover o produto\u201d, diz o antrop\u00f3logo. \u201cA cada ano, tenho que jogar metade fora. \u00c9 caro comprar e demorado importar\u201d.<\/p>\n\n<p>Na \u00faltima remessa, a empresa encomendou cem potes de 180ml, que levaram seis meses para chegar ao destino. O produto tem prazo de validade de um ano. Inicialmente vendido a US$ 20, o pote agora\u00a0<a href=\"https:\/\/culinarycultureconnections.com\/products\/hwin-mbe-kisedje-pequi-oil\">custa\u00a0US$ 7,50\u00a0no site<\/a>.<\/p>\n\n<div class=\"wp-block-cd-story-image aligncenter block--story-image block--story-image--wide\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\"><div class=\"block--story-image__column\"><div class=\"block--story-image__image\"><img class=\"lazy\" data-src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_mulheres_indigenas_Wawi_Querencia-1-scaled.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_mulheres_indigenas_Wawi_Querencia-1-scaled.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 600px) 768px, (max-width: 999px) 1024px, (max-width: 1400px) 1400px, (max-width: 2000px) 2000px, 2000px\" alt=\"Indigenous woman collecting big pequi fruits in the Wawi territory\"\/><\/div><div class=\"block--story-image__content\"><div itemprop=\"caption\" class=\"block--story-image__caption\">Mulher Kis\u00eadj\u00ea abre o pequi para obter o miolo carnudo. As mulheres recolhem os pequis amontoados no ch\u00e3o, empunham fac\u00f5es e cortam as cascas duras dos frutos para obter as sementes, que s\u00e3o levadas ao beneficiamento para se extrair o \u00f3leo (Imagem: Fl\u00e1via Milhorance\/Di\u00e1logo Chino)<\/div><\/div><\/div><meta itemprop=\"contentUrl\" content=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_mulheres_indigenas_Wawi_Querencia-1-scaled.jpg\"\/><meta itemprop=\"contentSize\" content=\"477 KB\"\/><meta itemprop=\"height\" content=\"1333\"\/><meta itemprop=\"width\" content=\"2000\"\/><meta itemprop=\"author\"\/><meta itemprop=\"representativeOfPage\" content=\"true\"\/><\/div>\n\n<p>Prang questiona se a bioeconomia \u2014 um tema de crescente debate sobre como os povos amaz\u00f4nicos podem gerar renda mantendo a floresta de p\u00e9 \u2014 pode de fato prosperar. Ap\u00f3s realizar\u00a0<a href=\"https:\/\/prod-wp.pub.coke.com\/wp-content\/uploads\/sites\/24\/2016\/10\/CCRRC_LA_The-Changing-World-of-Shopper-Needs-and-Values-in-Latin-America-ENGLISH_010614.pdf\">uma pesquisa<\/a>\u00a0com mais de mil fam\u00edlias latino-americanas sobre decis\u00f5es de compra, ele entendeu que pouca gente est\u00e1 interessada em pagar mais pela sustentabilidade.<\/p>\n\n<p>\u201c\u00c9 igual em outras partes do mundo. H\u00e1 uma tend\u00eancia de se evangelizar sobre o com\u00e9rcio justo, mas a maioria das pessoas, na realidade, n\u00e3o pensa nisso\u201d, acrescentou.<\/p>\n\n<p>Acordos com a cadeia de supermercados P\u00e3o de A\u00e7\u00facar e o chef Alex Atala para a compra do \u00f3leo de pequi foram interrompidos, informaram suas assessorias de imprensa, sem dar detalhes.<\/p>\n\n<p>Um\u00a0<a href=\"https:\/\/amazonia2030.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/AMZ2030-Oportunidades-para-Exportacao-de-Produtos-Compativeis-com-a-Floresta-na-Amazonia-Brasileira-1-2.pdf\">estudo<\/a>\u00a0do projeto Amaz\u00f4nia 2030 mostra que a soja \u00e9 o principal produto de exporta\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o e gerou US$ 9,8 bilh\u00f5es em receitas entre 2017 e 2019. Enquanto isso, no mesmo per\u00edodo, a exporta\u00e7\u00e3o dos produtos da bioeconomia amaz\u00f4nica gerou US$ 298 milh\u00f5es \u2014 2% do da soja. O volume de \u00f3leo de pequi exportado \u00e9 t\u00e3o pequeno que n\u00e3o consta dos dados.<\/p>\n\n<div class=\"wp-block-cd-story-image aligncenter block--story-image block--story-image--wide\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\"><div class=\"block--story-image__column\"><div class=\"block--story-image__image\"><img class=\"lazy\" data-src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_indigenas-scaled.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_indigenas-scaled.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 600px) 768px, (max-width: 999px) 1024px, (max-width: 1400px) 1400px, (max-width: 2000px) 2000px, 2000px\" alt=\"People collect jabuticabas\"\/><\/div><div class=\"block--story-image__content\"><div itemprop=\"caption\" class=\"block--story-image__caption\">Ind\u00edgenas colhem jabuticabas de uma \u00e1rvore pr\u00f3xima a um campo de soja (Imagem: Fl\u00e1via Milhorance\/Di\u00e1logo Chino)<\/div><\/div><\/div><meta itemprop=\"contentUrl\" content=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/05\/Flavia_Milhorance_indigenas-scaled.jpg\"\/><meta itemprop=\"contentSize\" content=\"692 KB\"\/><meta itemprop=\"height\" content=\"1334\"\/><meta itemprop=\"width\" content=\"2000\"\/><meta itemprop=\"author\"\/><meta itemprop=\"representativeOfPage\" content=\"true\"\/><\/div>\n\n<p>O apoio estatal para produtos sustent\u00e1veis tamb\u00e9m \u00e9 desproporcionalmente baixo. Entre 2019 e 2020, o governo executou R$ 2 bilh\u00f5es em cr\u00e9dito para pequenos e m\u00e9dios produtores da Amaz\u00f4nia. Desses, R$ 55 milh\u00f5es foram para atividades sustent\u00e1veis. O restante foi para a agroind\u00fastria, principalmente para a produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os e carne bovina, segundo\u00a0<a href=\"https:\/\/www.conexsus.org\/website\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/cx-estudo-sobre-oportunidades-de-financiamento-para-a-cadeia-da-castanha-do-brasil.pdf\">relat\u00f3rio<\/a>\u00a0da organiza\u00e7\u00e3o Conexsus.<\/p>\n\n<p>Ainda assim, os Kis\u00eadj\u00ea t\u00eam no extrativismo sua principal atividade. Weko\u00ed Suy\u00e1 disse que as mulheres encamparam o plantio das frutas urucum e muruci. E este ano, a aldeia construir\u00e1 uma instala\u00e7\u00e3o para o processamento do \u00f3leo de pequi. \u201cEstamos sempre pensando em quem vem depois de n\u00f3s\u201d, comentou Suy\u00e1.<\/p>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Ciclo de desmatamento recome\u00e7a<\/h2>\n\n<p>Na \u00faltima manh\u00e3 em que estive na aldeia Khikatxi, Winti me levou mais ao norte \u00e0s margens do rio Pacas, que marca o limite do territ\u00f3rio Wawi. Da outra margem, havia uma imensid\u00e3o de floresta nativa, ao contr\u00e1rio da por\u00e7\u00e3o sul do territ\u00f3rio, que est\u00e1 repleta de fazendas. Mesmo ali, no entanto, havia desmatamento ao longe.<\/p>\n\n<p><iframe class=\"flourish-embed-iframe\" style=\"width: 100%; height: 500px;\" title=\"Interactive or visual content\" src=\"https:\/\/flo.uri.sh\/visualisation\/9479392\/embed\" frameborder=\"0\" scrolling=\"no\" sandbox=\"allow-same-origin allow-forms allow-scripts allow-downloads allow-popups allow-popups-to-escape-sandbox allow-top-navigation-by-user-activation\"><span data-mce-type=\"bookmark\" style=\"display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;\" class=\"mce_SELRES_start\">\ufeff<\/span><span data-mce-type=\"bookmark\" style=\"display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;\" class=\"mce_SELRES_start\">\ufeff<\/span><\/iframe><\/p>\n\n\n<p>Aquela \u00e9 uma \u00e1rea de impacto do territ\u00f3rio ind\u00edgena, onde agricultura, pecu\u00e1ria e extra\u00e7\u00e3o madeireira s\u00e3o proibidos. Autoridades ambientais\u00a0<a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2021\/03\/satelite-flagra-loteamento-ilegal-que-ameaca-terra-indigena-na-amazonia\/\">confirmaram<\/a>\u00a0que havia desmatamento ilegal e multaram os respons\u00e1veis no ano passado. A atividade, desde ent\u00e3o, arrefeceu, diz Winti.<\/p>\n\n<p>De um lado do territ\u00f3rio, as fazendas de soja colaram tanto em suas bordas que levaram os ind\u00edgenas a se deslocar. A coexist\u00eancia se tornou incompat\u00edvel. Do outro, o processo de ocupa\u00e7\u00e3o da floresta amaz\u00f4nica recome\u00e7a. \u201cA que velocidade? Vamos ficar encurralados? Teremos que nos mudar de novo? Para onde? Essa terra tem limites\u201d, disse Winti.<\/p>\n\n<p><em>L\u00edvia Machado Costa contribuiu com a reportagem<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Not for the first time, the indigenous village of Khikatxi has relocated deeper into the rainforest to preserve its health and wellbeing. 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