{"id":50038381,"date":"2020-11-19T10:00:22","date_gmt":"2020-11-19T10:00:22","guid":{"rendered":"https:\/\/stage.dialogochino.net\/?p=38381"},"modified":"2022-07-27T19:50:26","modified_gmt":"2022-07-27T18:50:26","slug":"portos-amazonia-multiplicam-abrem-novas-rotas-para-china","status":"publish","type":"opinion","link":"https:\/\/dialogue.earth\/pt-br\/negocios\/portos-amazonia-multiplicam-abrem-novas-rotas-para-china\/","title":{"rendered":"Portos na Amaz\u00f4nia se multiplicam e abrem novas rotas para a China"},"content":{"rendered":"<p>Alessandra Korap queria ser ouvida. Mas ela havia sido convidada para a audi\u00eancia de agosto de 2020 apenas como observadora, sentada por horas em sil\u00eancio for\u00e7ado, mesmo servindo como a \u00fanica representante do povo ind\u00edgena cujas terras, vidas e futuro seriam impactados por um porto fluvial proposto naquele peda\u00e7o da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Somente advogados e funcion\u00e1rios do governo foram convidados a falar na audi\u00eancia online realizada em meio \u00e0 pandemia do coronav\u00edrus, em que a ju\u00edza Sandra Maria Correia da Silva ponderou se deveria levantar uma suspens\u00e3o na licen\u00e7a do porto, imposta anteriormente porque o projeto ainda carecia de uma consulta pr\u00e9via com o Munduruku, o povo de Korap.<\/p>\n<p>Por quase uma d\u00e9cada, a Munduruku vinha lutando sem sucesso contra a r\u00e1pida transforma\u00e7\u00e3o da cidade de Itaituba, no Par\u00e1, em um importante centro da cadeia global de fornecimento de commodities, e a convers\u00e3o do rio Tapaj\u00f3s em uma hidrovia industrial \u2014 um elo para o transporte de soja e milho do cora\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia brasileira para a China, a Uni\u00e3o Europeia e outros pa\u00edses.<\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<p><figure id=\"attachment_23320\" aria-describedby=\"caption-attachment-23320\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-23320 size-full\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2019\/02\/DSC_2856.jpg\" alt=\"Alessandra Korap\" width=\"1024\" height=\"678\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-23320\" class=\"wp-caption-text\">Alessandra Korap (imagem: Sarita Reed)<\/figcaption><\/figure><\/p>\n<p><\/div>\n<p>Desde 2013, a comunidade viu m\u00faltiplos portos fluviais industriais serem constru\u00eddos por gigantes transnacionais do agroneg\u00f3cio, transformando um rio que, durante s\u00e9culos, foi navegado apenas por pequenos barcos e canoas Munduruku.<\/p>\n<p>Entretanto, nunca, durante o boom da constru\u00e7\u00e3o, o grupo ind\u00edgena foi formalmente consultado sobre os planos da ind\u00fastria de commodities, o que os promotores consideraram uma clara viola\u00e7\u00e3o da <a href=\"https:\/\/www.ilo.org\/dyn\/normlex\/en\/f?p=NORMLEXPUB:12100:0::NO::P12100_ILO_CODE:C169\">Conven\u00e7\u00e3o 169 <\/a>da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho, um acordo do qual o Brasil \u00e9 signat\u00e1rio.<\/p>\n<p>Os novos portos tinham rapidamente transformado a cidade, j\u00e1 atormentada por grandes opera\u00e7\u00f5es ilegais de extra\u00e7\u00e3o de ouro, em um destino congestionado de caminh\u00f5es carregados de mercadorias que muitas vezes entopem a BR-163 em engarrafamentos de quil\u00f4metros de tr\u00e2nsito. Chegando em Itaituba, essa carga \u00e9 transferida para enormes barca\u00e7as para o trajeto descendente at\u00e9 navios com destino principalmente \u00e0 China. A multid\u00e3o de caminhoneiros que chega frequentemente atrai a prostitui\u00e7\u00e3o e o com\u00e9rcio ilegal de drogas, enquanto as barca\u00e7as afetam a pesca no rio, empobrecendo os pescadores tradicionais.<\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<p><figure id=\"attachment_38386\" aria-describedby=\"caption-attachment-38386\" style=\"width: 1441px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-38386 size-full\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2020\/11\/163-traffic-jam.jpg\" alt=\"An aerial view of soy trucks \" width=\"1441\" height=\"1080\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-38386\" class=\"wp-caption-text\">Caminh\u00f5es transportando soja se aglomeram perto de um posto de gasolina na BR-163, que liga o Mato Grosso ao Par\u00e1 (imagem:Alamy)<\/figcaption><\/figure><\/p>\n<p><\/div>\n<p>Ap\u00f3s a interven\u00e7\u00e3o de advogados simp\u00e1ticos \u00e0 causa Munduruku, Korap foi finalmente autorizada a falar. Ela contou ao tribunal como o porto proposto pela empresa Rio Tapaj\u00f3s Log\u00edstica havia sido precedido por outros, e como ele provavelmente aceleraria a constru\u00e7\u00e3o de uma grande ferrovia amaz\u00f4nica, e talvez at\u00e9 novas barragens para tornar um trecho maior do Tapaj\u00f3s naveg\u00e1vel. A decis\u00e3o atual, ela enfatizou, n\u00e3o dizia respeito apenas a um projeto, mas a um plano de desenvolvimento multifacetado para mudar o rio e a regi\u00e3o e torna-la irreconhec\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8220;A gente sabe que esses projetos s\u00e3o ligados um no outro&#8221;, disse ela ao juiz. &#8220;Essas empresas que est\u00e3o vindo est\u00e3o nos matando, sufocando nossa cultura&#8221;.<\/p>\n<p>De longe, Fl\u00e1vio Acatauass\u00fa, que dirige a Amport, a associa\u00e7\u00e3o que representa a maioria das empresas que operam portos fluviais amaz\u00f4nicos, tamb\u00e9m estava observando o desdobramento do caso. Assim como Korap, ele sentiu que o caso tinha implica\u00e7\u00f5es maiores do que apenas a aprova\u00e7\u00e3o de um porto. Ele argumentou que um resultado favor\u00e1vel ao porto no caso era vital n\u00e3o apenas para todas as empresas com planos de operar ao longo do rio Tapaj\u00f3s, mas como um precedente assegurando a viabilidade de futuros investimentos em log\u00edstica de transporte de mercadorias na bacia amaz\u00f4nica.<\/p>\n<div class='block--pullout-stat block--pullout-stat--float cd-shortcode--factbox'>\n                <p class='block--pullout-stat__title'>95<\/p>\n                <div class='block--pullout-stat__content'>\n                    <br \/>\nportos foram ou est\u00e3o sendo constru\u00eddos nos rios da Amaz\u00f4nia Legal<br \/>\n\n                <\/div>\n            <\/div>\n<p>Hoje, os cerca de 100 portos fluviais industriais privados da Amaz\u00f4nia s\u00e3o uma parte essencial e integral do corredor log\u00edstico de crescimento mais r\u00e1pido no Brasil \u2014 movendo mercadorias de forma barata e r\u00e1pida do interior do pa\u00eds para a costa atl\u00e2ntica para exporta\u00e7\u00e3o, explicou Acatauass\u00fa. Os portos fluviais do norte, que movimentam cargas pelo rio Amazonas e seus tribut\u00e1rios, mais do que dobraram sua participa\u00e7\u00e3o no mercado na \u00faltima d\u00e9cada. Somente no primeiro semestre de 2020, <a href=\"http:\/\/portal.antaq.gov.br\/index.php\/2020\/08\/21\/escoamento-de-soja-e-milho-para-exportacao-pelo-arco-norte-cresceu-108-no-primeiro-semestre-diz-antaq\/\">quase 20% <\/a>da soja e do milho do pa\u00eds flu\u00edram ao longo dos principais rios da bacia amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p>Cerca de 40 projetos privados planejados, com investimentos de centenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares, est\u00e3o agora em jogo, com muitos previstos para ecossistemas sens\u00edveis \u2014 lugares como a Ilha de Maraj\u00f3, um delta na foz dos rios Amazonas e Tocantins, e o lago Maic\u00e1, rico em biodiversidade.<\/p>\n<p>Se fosse necess\u00e1rio o consentimento dos povos tradicionais para todos esses projetos, ent\u00e3o &#8220;todos os investimentos na bacia amaz\u00f4nica iam morrer&#8221;, disse Acatauass\u00fa. Ainda assim, ele estava confiante de que as partes interessadas encontrariam um caminho a seguir. Em termos de log\u00edstica, ele explicou, o agroneg\u00f3cio brasileiro &#8220;n\u00e3o tem mais para onde correr&#8221;.<\/p>\n<h2>Rios se transformam em hidrovias industriais<\/h2>\n<p>A transforma\u00e7\u00e3o dos muitos rios selvagens da Amaz\u00f4nia brasileira em hidrovias industriais come\u00e7ou no in\u00edcio dos anos 1990, principalmente como a vis\u00e3o da Amaggi, a maior produtora de soja do Brasil e uma empresa l\u00edder no transporte de commodities.<\/p>\n<p>O objetivo da empresa era aumentar o valor de seu cultivo de soja em r\u00e1pida expans\u00e3o no sul da Amaz\u00f4nia, no estado do Mato Grosso, encontrando um meio eficiente de atravessar a floresta tropical por meio de uma rota fluvial mais barata ao norte, chegando mais facilmente a compradores no exterior. A abertura desse corredor para o rio Amazonas e o Atl\u00e2ntico contornaria uma longa e acidentada viagem por rodovias, e as filas de caminh\u00f5es entupindo os portos comerciais do sul do Brasil em Paranagu\u00e1 e Santos.<\/p>\n<p>&#8220;Vamos economizar &#8230; em cada tonelada de soja exportada&#8221;, <a href=\"https:\/\/web.archive.org\/web\/20050206131217\/http:\/www.terra.com.br\/istoe\/politica\/143818.htm\">prometeu <\/a>Blairo Maggi, ent\u00e3o vice-presidente da empresa; em 2016, ele se tornou ministro da agricultura durante a administra\u00e7\u00e3o de Michel Temer.<\/p>\n<p>O plano da Amaggi era simples: construir um grande terminal de barca\u00e7as no porto p\u00fablico de Porto Velho no Rio Madeira, um grande afluente amaz\u00f4nico que incha com a \u00e1gua derretida dos Andes e se torna naveg\u00e1vel entre janeiro e agosto, bem a tempo de transportar a colheita de soja produzida pela esta\u00e7\u00e3o chuvosa. Caminh\u00f5es deslocariam a safra dos campos de soja na primeira etapa da viagem. A partir de Porto Velho, barca\u00e7as assumiriam o controle, transportando a soja para um porto privado de propriedade de Amaggi, na cidade de Itacoatiara, na parte leste do estado do Amazonas, onde o Madeira se encontra com o rio Amazonas. L\u00e1, as mercadorias seriam transferidas mais uma vez, desta vez para imensos navios oce\u00e2nicos capazes de exportar a soja para a China e outros destinos.<\/p>\n<p>Este corredor particular de transporte fluvial foi inaugurado em 1997. Mas os produtores do agroneg\u00f3cio brasileiro em expans\u00e3o e as empresas transnacionais de commodities \u2013 de olho na maior bacia hidrogr\u00e1fica do mundo \u2013 se perguntaram: por que parar por a\u00ed?<\/p>\n<p>&#8220;Se podemos fazer no Madeira, podemos fazer no rio Tapaj\u00f3s; podemos fazer tamb\u00e9m no rio Tocantins&#8221;, disse Acatauass\u00fa, da Amport. &#8220;Foi quando o novo boom [de infraestrutura] come\u00e7ou&#8221;.<\/p>\n<p>Foi assim que estes primeiros portos lucrativos, constru\u00eddos com uma enchente de capital internacional e operados pelos maiores comerciantes de gr\u00e3os do mundo, proliferaram por toda a Amaz\u00f4nia com pouca supervis\u00e3o governamental. Pelo menos 41 novos portos est\u00e3o atualmente planejados ou em constru\u00e7\u00e3o para os principais rios da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>[chinadialogue_fullwidth]<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/amazon-ports-storytelling.vercel.app\/\" width=\"100%\" height=\"700px\" data-mce-fragment=\"1\"><br \/>\n<\/iframe><\/p>\n<p>[\/chinadialogue_fullwidth]<\/p>\n<p>Ambientalistas e l\u00edderes comunit\u00e1rios ribeirinhos t\u00eam levantado grandes preocupa\u00e7\u00f5es sobre os projetos, mas, na maioria das vezes, n\u00e3o foram levados em considera\u00e7\u00e3o. Eles est\u00e3o especialmente preocupados com o novo modelo de desenvolvimento industrial portu\u00e1rio que est\u00e1 sendo amplamente imposto pelos interesses do agroneg\u00f3cio \u00e0 maior floresta tropical remanescente do mundo e a seus residentes tradicionais.<\/p>\n<h2>Os principais <em>traders<\/em> e investidores se apressam<\/h2>\n<p>A ideia de uma bacia amaz\u00f4nica interligada por hidrovias foi uma vis\u00e3o promovida por uma das mais renomadas acad\u00eamicas brasileiras, Bertha Becker, que morreu em 2013. Mas a ge\u00f3grafa tamb\u00e9m questionou como funcionariam essas vias fluviais, e para quem, ao mesmo tempo em que enfatizava a necessidade de um plano estrat\u00e9gico geral para o bioma e sua popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 anos, reivindicamos a prioriza\u00e7\u00e3o da navega\u00e7\u00e3o fluvial&#8221;, <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?pid=S1981-81222012000300011&amp;script=sci_abstract&amp;tlng=es\">escreveu ela <\/a>um ano antes de sua morte. &#8220;Mas a navega\u00e7\u00e3o deve levar em considera\u00e7\u00e3o a demanda da popula\u00e7\u00e3o regional, e n\u00e3o apenas o transporte de cargas e commodities&#8221;.<\/p>\n<p>Isso ainda n\u00e3o aconteceu. At\u00e9 hoje, o processo de desenvolvimento portu\u00e1rio tem sido liderado por gigantes transnacionais de commodities, incluindo Cargill, Louis Dreyfus e Bunge. Todos eles investiram em instala\u00e7\u00f5es portu\u00e1rias de gr\u00e3os na Amaz\u00f4nia brasileira durante a \u00faltima d\u00e9cada. Empresas mineradoras, incluindo a Norsk Hydro, tamb\u00e9m ajudaram a desenvolver algumas das mais bem estabelecidas rotas de \u00e1gua da Amaz\u00f4nia, incluindo as dos rios Trombetas, Guam\u00e1 e Capim.<\/p>\n<p>At\u00e9 agora, o investimento direto da China na infraestrutura portu\u00e1ria da Amaz\u00f4nia n\u00e3o tem sido muito significativo. Entretanto, a crescente demanda da China por soja (o pa\u00eds j\u00e1 compra mais de 80% da soja brasileira), impulsionada pelas recentes tens\u00f5es comerciais entre os Estados Unidos e a China, \u00e9 hoje o principal est\u00edmulo para a cria\u00e7\u00e3o de novos corredores log\u00edsticos de transporte na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Recentemente, as empresas chinesas come\u00e7aram a entrar no jogo. A Cofco, a maior empresa chinesa de com\u00e9rcio de alimentos, \u00e9 um dos principais clientes da Hidrovias do Brasil, um grande player da ind\u00fastria portu\u00e1ria fluvial do Brasil. A Hidrovias do Brasil, com o sucesso de seus investimentos na Amaz\u00f4nia, completou este ano <a href=\"https:\/\/valor.globo.com\/financas\/noticia\/2020\/02\/20\/em-plano-b-ptria-vai-vender-participao-na-hidrovias-do-brasil-em-ipo.ghtml\">uma oferta p\u00fablica inicial (IPO) <\/a>de a\u00e7\u00f5es, arrecadando 600 milh\u00f5es de d\u00f3lares. O Novo Banco de Desenvolvimento, com sede em Xangai, conhecido como banco do BRICS, tamb\u00e9m emitiu um empr\u00e9stimo de 50 milh\u00f5es de d\u00f3lares para melhorar a infraestrutura nas cidades ao longo BR-163, que liga as planta\u00e7\u00f5es de soja no cora\u00e7\u00e3o agr\u00edcola de Mato Grosso ao rio Tapaj\u00f3s.<\/p>\n<h2><span style=\"color: inherit; font-family: Enriqueta, serif; font-size: 26px;\">Grandes empresas lucram, comunidades tradicionais n\u00e3o<\/span><\/h2>\n<p>Grandes investimentos privados continuam a fluir para a floresta tropical, juntamente com a promessa de que novos projetos de infraestrutura trar\u00e3o empregos. Mas muitas comunidades tradicionais da Amaz\u00f4nia impactadas viram os n\u00edveis de pobreza estagnarem ou piorarem. Barcarena, por exemplo, no Par\u00e1, foi profundamente transformada nas \u00faltimas d\u00e9cadas pela minera\u00e7\u00e3o e novos portos fluviais, com os residentes lutando para se adaptar \u00e0s mudan\u00e7as econ\u00f4micas e culturais.<\/p>\n<p>\u00c2ngela Vieira, uma ativista de 61 anos, observa que enquanto dois de seus filhos t\u00eam empregos em uma empresa portu\u00e1ria, seu vilarejo de Vila Nova, antes com cerca de 100 fam\u00edlias, se expandiu para uma comunidade de 8 mil pessoas com servi\u00e7os sociais e de sa\u00fade improvisados, muitas vezes inadequados. A pobreza, disse ela, atormenta sua cidade, que j\u00e1 foi bem abastecida e apoiada por pequenos agricultores e pescadores. Hoje, apenas <a href=\"https:\/\/cidades.ibge.gov.br\/brasil\/pa\/barcarena\/panorama\">um quarto <\/a>dos habitantes de Barcarena tem empregos, menos da metade da m\u00e9dia nacional.<\/p>\n<p>&#8220;Podemos contar com nossos dedos o n\u00famero de pessoas locais que trabalham nos portos&#8221;, disse Vieira. &#8220;Uma boa parte veio de outras cidades&#8221;. Embora os impactos sobre os moradores tenham sido profundos, o desenvolvimento portu\u00e1rio de Barcarena foi conduzido por empresas privadas com pouca participa\u00e7\u00e3o p\u00fablica nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas.<\/p>\n<blockquote><p>Que recursos esses homens da soja trazem para nossa cidade? Eles s\u00f3 trazem destrui\u00e7\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p>Andr\u00e9 Ferreira, diretor da ONG Instituto de Energia e Meio Ambiente e especialista em planejamento de infraestrutura, diz acreditar que a bacia amaz\u00f4nica est\u00e1 sofrendo as consequ\u00eancias negativas de uma falta de planejamento estrat\u00e9gico por parte do governo federal. Os projetos de infraestrutura s\u00e3o em grande parte criados sem transpar\u00eancia ou considera\u00e7\u00e3o de caminhos alternativos de desenvolvimento, disse ele ao Mongabay e ao Dialogo Chino.<\/p>\n<p>&#8220;Os projetos pertencem a quem for capaz de se mobilizar&#8221;, disse ele. &#8220;Ent\u00e3o, quem for contra \u00e9 retratado como sendo contra o desenvolvimento do pa\u00eds&#8221;.<\/p>\n<p>O Brasil vem apresentando planos elaborados para explorar grandes por\u00e7\u00f5es de seus 35 mil quil\u00f4metros de rios naveg\u00e1veis desde os anos 1970. Mas apenas um ter\u00e7o do potencial naveg\u00e1vel das vias naveg\u00e1veis do pa\u00eds foi cumprido. Enquanto isso, a atual crise econ\u00f4mica brasileira paralisou a maioria dos planos do governo para melhorar a navegabilidade dos rios. O governo ainda est\u00e1 lutando para completar estudos multimilion\u00e1rios para projetos potenciais que encomendou h\u00e1 mais de cinco anos.<\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<p><figure id=\"attachment_38390\" aria-describedby=\"caption-attachment-38390\" style=\"width: 1618px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-38390 size-full\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2020\/11\/Cargill-port_Santare\u0301m_Mauricio-Torres_2015-1.jpg\" alt=\"Riverine communities fish against the backdrop of Cargill's Santarem port \" width=\"1618\" height=\"1080\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-38390\" class=\"wp-caption-text\">Pescadores locais trabalham com um porto da Cargill ao fundo em Santar\u00e9m (imagem: Alamy)<\/figcaption><\/figure><\/p>\n<p><\/div>\n<p>O Minist\u00e9rio da Infraestrutura n\u00e3o respondeu aos pedidos de coment\u00e1rios. Mas a assessoria de imprensa do Minist\u00e9rio da Agricultura disse em uma nota que as vias fluviais eram de longe a forma mais limpa e eficiente de transportar a produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os do Brasil, acrescentando que n\u00e3o estava ciente de qualquer impacto ambiental ou conflito social associado a tais projetos na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<h2>Uma lei da era Dilma acelera o desenvolvimento<\/h2>\n<p>O grande <a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_Ato2011-2014\/2013\/Lei\/L12815.htm\">impulso regulat\u00f3rio <\/a>que permite \u00e0s empresas privadas instalar e gerenciar portos independentemente de entidades p\u00fablicas veio com uma lei de 2013 projetada pela administra\u00e7\u00e3o da Presidente Dilma Rousseff. Antes disso, um caminho mais f\u00e1cil era para as empresas arrendarem \u00e1reas nos portos p\u00fablicos estabelecidos na regi\u00e3o, como fez Amaggi em Porto Velho nos anos 1990, e Cargill em Santar\u00e9m no in\u00edcio dos anos 2000.<\/p>\n<p>Desde a lei de 2013, pelo menos 10 portos industriais \u2013 a maioria ligados ao agroneg\u00f3cio \u2013 foram constru\u00eddos ao redor da cidade de Itaituba, o centro de transporte que liga a rodovia BR-163 com o <u>rio <\/u><a href=\"https:\/\/news.mongabay.com\/2017\/02\/getting-there-the-rush-to-turn-the-amazon-into-a-soy-transport-corridor\/\">Tapaj\u00f3s<\/a>. As autoridades local dizem que mais de duas d\u00fazias de outros portos est\u00e3o planejados na cidade, pelo menos cinco deles para gigantes das commodities.<\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<p><figure id=\"attachment_38377\" aria-describedby=\"caption-attachment-38377\" style=\"width: 1613px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-38377 size-full\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2020\/11\/Itaituba-Amazon.jpg\" alt=\"Aerial view of Itaituba and the tapajos river\" width=\"1613\" height=\"1080\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-38377\" class=\"wp-caption-text\">Vis\u00e3o a\u00e9rea de Itaituba, \u00e0 beira do rio Tapaj\u00f3s (imagem: Alamy)<\/figcaption><\/figure><\/p>\n<p><\/div>\n<p>Procuradores federais e promotores estaduais criticaram o desenvolvimento acelerado na Amaz\u00f4nia, argumentando que o processo de licenciamento ambiental para instala\u00e7\u00f5es portu\u00e1rias individuais n\u00e3o consultou as comunidades tradicionais afetadas. A constru\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o leva em considera\u00e7\u00e3o os impactos socioambientais cumulativos dos corredores log\u00edsticos mais amplos que agora est\u00e3o tomando forma, dizem eles.<\/p>\n<p>Por exemplo, para possibilitar o desenvolvimento de uma hidrovia industrial no <a href=\"https:\/\/news.mongabay.com\/2020\/07\/brazil-could-dynamite-amazon-dolphin-turtle-habitat-for-industrial-waterway\/\">rio Tocantins<\/a>, o Departamento Nacional de Infraestrutura e Transporte (DNIT) est\u00e1 planejando dinamitar o Pedral do Louren\u00e7o, habitat de golfinhos e tartarugas de \u00e1gua doce e um local de pesca vital para as comunidades ribeirinhas. Enquanto isso, no rio Madeira, <a href=\"http:\/\/www.posgeografia.unir.br\/uploads\/99999999\/dissertacoes\/MESTRADO\/TURMA%202015%202\/DISSERTACAO_SHIRLEI%20FONTENELE%20SAMPAIO.pdf\">pesquisas mostraram <\/a>que as ondas criadas pelas barca\u00e7as est\u00e3o intensificando um processo de eros\u00e3o natural das margens.<\/p>\n<p>&#8220;Os impactos ambientais [dos portos fluviais] s\u00e3o relativamente grandes&#8221;, disse Jos\u00e9 Neto, gerente da Antaq, a ag\u00eancia reguladora de portos do Brasil, que sofre com falta de pessoal. Mas &#8220;temos muito pouca informa\u00e7\u00e3o&#8221; sobre esses impactos, acrescentou ele. Neto explicou que seu escrit\u00f3rio apenas verifica se as empresas est\u00e3o seguindo as leis existentes, enquanto os governos locais s\u00e3o encarregados de avaliar os impactos ambientais e sociais.<\/p>\n<p>Acatauass\u00fa da Amport argumentou que as vias naveg\u00e1veis s\u00e3o muito menos prejudiciais ao meio ambiente do que as ferrovias e estradas, uma opini\u00e3o compartilhada pela maioria dos ambientalistas, incluindo a aclamada Becker. Acatauass\u00fa defende o aproveitamento do potencial das vias naveg\u00e1veis do Brasil, a fim de conter os danos \u00e0 Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio das estradas, disse ele, as vias fluviais n\u00e3o fragmentam a floresta tropical, criando um padr\u00e3o de &#8220;espinha de peixe&#8221; de estradas laterais muitas vezes ilegais constru\u00eddas a partir das principais rodovias da Amaz\u00f4nia. Al\u00e9m disso, o transporte de \u00e1gua emite apenas metade dos gases de efeito estufa das ferrovias, disse ele.<\/p>\n<h2><span style=\"color: inherit; font-family: Enriqueta, serif; font-size: 26px;\">Conflitos sobre o desenvolvimento<\/span><\/h2>\n<p>O que a ind\u00fastria portu\u00e1ria chama de um caminho relativamente verde para o desenvolvimento econ\u00f4mico em uma das regi\u00f5es mais pobres do Brasil, ambientalistas e ativistas ind\u00edgenas veem como uma grande amea\u00e7a para a floresta tropical mais biodiversa do mundo e suas comunidades tradicionais.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena de Itaituba, por exemplo, reclama de sua cont\u00ednua exclus\u00e3o da prosperidade local. A cidade abriga agora m\u00faltiplos portos, mas <a href=\"https:\/\/cidades.ibge.gov.br\/brasil\/pa\/itaituba\/panorama\">apenas 13% <\/a>de seus habitantes t\u00eam empregos formais. Al\u00e9m disso, dos quatro portos do agroneg\u00f3cio atualmente em opera\u00e7\u00e3o, nenhum consultou formalmente o povo Munduruku antes da constru\u00e7\u00e3o, como exigido pela legisla\u00e7\u00e3o internacional e brasileira, de acordo com a l\u00edder ind\u00edgena Korap.<\/p>\n<p>Portanto, foi uma surpresa quando, no final da audi\u00eancia online de agosto de 2020, a Ju\u00edza Correia da Silva decidiu manter a suspens\u00e3o \u00e0s instala\u00e7\u00f5es portu\u00e1rias planejadas pela Rio Tapaj\u00f3s Log\u00edstica, argumentando que n\u00e3o podia deixar a empresa seguir o mesmo caminho dos projetos portu\u00e1rios anteriores, pois eles foram constru\u00eddos sem consultar a Munduruku e, portanto, eram inconstitucionais.<\/p>\n<blockquote><p>Eles dizem que n\u00e3o v\u00e3o fazer agora&#8230; Mas de repente isso explode com uma pressa de fazer.<\/p><\/blockquote>\n<p>Acatuass\u00fa, da Amport, respondeu alegando que as empresas envolvidas fizeram repetidas tentativas de consultar grupos ind\u00edgenas nos \u00faltimos, mas que o governo n\u00e3o os informou sobre o processo de consulta oficial. A Funai, a ag\u00eancia federal de assuntos ind\u00edgenas, enviou instru\u00e7\u00f5es detalhadas sobre como iniciar o processo apenas em outubro.<\/p>\n<p>Todas as cinco empresas envolvidas est\u00e3o agora financiando um estudo sobre os impactos potenciais do porto proposto para os Munduruku. Mas com a pandemia do coronav\u00edrus ainda em f\u00faria, a data de conclus\u00e3o da consulta continua sem previs\u00e3o.<\/p>\n<p>Pedro Martins, advogado da ONG Terra de Direitos, tem acompanhado o desenvolvimento do porto amaz\u00f4nico e participado das audi\u00eancias. Ele classificou o resultado como &#8220;uma grande vit\u00f3ria&#8221;. Apesar disso, ele acrescentou, \u00e9 prov\u00e1vel que o processo de consulta dos Munduruku n\u00e3o resulte no desmonte do complexo log\u00edstico, mas apenas em compensa\u00e7\u00e3o aos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Em um prospecto fornecido no seu IPO, a Hidrovias do Brasil descreveu seu porto de Itaituba, um dos quatro que foram adiante sem consultar os Munduruku, como um ativo chave da empresa. A empresa tamb\u00e9m advertiu aos investidores que as regulamenta\u00e7\u00f5es ambientais poderiam restringir severamente sua capacidade de fazer neg\u00f3cios e que suas opera\u00e7\u00f5es log\u00edsticas poderiam &#8220;resultar em danos ao meio ambiente e a comunidades ind\u00edgenas e quilombolas, cuja extens\u00e3o e custos de repara\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o poss\u00edveis de estimar&#8221;.<\/p>\n<h2>A soja avan\u00e7a pelo Norte<\/h2>\n<p>Valmir Climaco, prefeito de Itaituba e pecuarista, nega que a constru\u00e7\u00e3o de portos em andamento em sua cidade levar\u00e1 ao aumento do desmatamento amaz\u00f4nico. Mas ele tamb\u00e9m admite abertamente seu plano de investir pesadamente em soja o mais r\u00e1pido poss\u00edvel. &#8220;O que o Banco Amaz\u00f4nia me der, eu vou investir&#8221;, disse ele. &#8220;Estou pedindo 4 ou 5 milh\u00f5es de reais para comprar uma colhedora e outros equipamentos&#8221;.<\/p>\n<p>Os ambientalistas temem que tais empreendimentos especulativos possam ajudar a impulsionar a proposta de expans\u00e3o da hidrovia industrial, ao mesmo tempo em que empurram a produ\u00e7\u00e3o de mercadorias para o norte, de forma constante, para a floresta tropical. Desde que os portos do rio Madeira foram inaugurados em 1997, por exemplo, o cultivo de soja no Mato Grosso, onde Amaggi iniciou seu imp\u00e9rio, quadruplicou, enquanto uma \u00e1rea tr\u00eas vezes maior do que a da Holanda foi desmatada.<\/p>\n<p>O Brasil j\u00e1 conseguiu fazer o agroneg\u00f3cio crescer sem pressionar as taxas de desmatamento da Amaz\u00f4nia, entre 2005 e 2012, mas a hist\u00f3ria tem mostrado que quando a fiscaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 fraca \u2013 como \u00e9 agora ,sob a administra\u00e7\u00e3o do Presidente Jair Bolsonaro \u2013 a soja e a produ\u00e7\u00e3o de carne bovina representam grandes riscos de desmatamento.<\/p>\n<p>Os estados amaz\u00f4nicos est\u00e3o agora se unindo cada vez mais \u00e0 bonan\u00e7a do agroneg\u00f3cio. No estado do Acre, por exemplo, funcion\u00e1rios do governo recentemente se alinharam com l\u00edderes do agroneg\u00f3cio para apoiar investimentos em soja, prevendo a cria\u00e7\u00e3o de uma vasta zona especial de desenvolvimento agr\u00edcola que chamam de <a href=\"http:\/\/stage.dialogochino.net\/en\/agriculture\/37037-millenary-geoglyph-destroyed-by-amazon-farming\/\">Amacro<\/a>, uma uni\u00e3o das iniciais dos estados Amazonas, Acre e Rond\u00f4nia. Sua inspira\u00e7\u00e3o \u00e9 o Matopiba, um epicentro do agroneg\u00f3cio no bioma Cerrado brasileiro, batizado com o nome de quatro estados do Cerrado onde a produ\u00e7\u00e3o de gado e soja e os n\u00edveis de desmatamento t\u00eam escalado juntos.<\/p>\n<p>Como parte deste impulso do agroneg\u00f3cio amaz\u00f4nico, representantes da ind\u00fastria da soja em Rond\u00f4nia \u2013 o estado em que se localiza o porto original de Amaggi no Madeira \u2013 planejam <a href=\"http:\/\/www.rondonia.ro.gov.br\/potencial-agricola-de-rondonia-e-destaque-durante-abertura-nacional-do-plantio-de-soja-2\/\">triplicar <\/a>sua \u00e1rea de produ\u00e7\u00e3o em quatro anos. N\u00e3o est\u00e1 claro se este plano desafiar\u00e1 os limites estabelecidos pela Morat\u00f3ria da Soja Amaz\u00f4nia, de 2006, na qual as empresas de commodities concordaram voluntariamente com a proibi\u00e7\u00e3o de comprar soja produzida em terras recentemente desmatadas.<\/p>\n<p>A \u00e1rea onde os impactos socioambientais do crescimento do agroneg\u00f3cio talvez sejam agora mais vis\u00edveis \u00e9 o <a href=\"https:\/\/brasil.mongabay.com\/2020\/04\/avanco-da-soja-envenena-aldeias-e-seca-riachos-em-reserva-dos-munduruku\/\">Planalto Santareno<\/a>, perto do complexo portu\u00e1rio de Santar\u00e9m, no Par\u00e1. L\u00e1, os Munduruku relatam restri\u00e7\u00f5es \u00e0 pesca, poucas oportunidades de trabalho, \u00e1gua envenenada com agrot\u00f3xicos dos cultivos de soja e viol\u00eancia associada a conflitos de terra.<\/p>\n<p>&#8220;Que recursos esses homens da soja trazem para nossa cidade&#8221;, perguntou Manoel Munduruku, um l\u00edder ind\u00edgena. &#8220;Eles s\u00f3 trazem destrui\u00e7\u00e3o. \u201d<\/p>\n<p>A invas\u00e3o do agroneg\u00f3cio est\u00e1 em andamento em outras partes da Amaz\u00f4nia. Ap\u00f3s a conclus\u00e3o da pavimenta\u00e7\u00e3o da BR-163 em novembro passado, agricultores do sul do estado do Paran\u00e1, em busca de terras baratas para cultivar soja, se deslocaram para Novo Progresso, uma parte do Par\u00e1 conhecida pelos conflitos fundi\u00e1rios mais violentos do Brasil e pelo desmatamento desenfreado.<\/p>\n<p>Neste cen\u00e1rio, os desafios \u00e0 Morat\u00f3ria da Soja Amaz\u00f4nica cresceram. A Abiove, uma associa\u00e7\u00e3o que representa <em>traders <\/em>de commodities, e a Aprosoja, que representa os produtores de soja, entraram em conflito por causa do acordo. Simultaneamente, o apoio do governo enfraqueceu, com a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, <a href=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/noticias\/ministra-da-agricultura-critica-moratoria-da-soja\/\">expressando <\/a>v\u00e1rias vezes seu descontentamento com o acordo volunt\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8220;Eu acho absurdo&#8221;, disse ela em uma confer\u00eancia em novembro de 2019.<\/p>\n<h2>Alvorada do pr\u00f3ximo boom de infraestrutura<\/h2>\n<p>O cientista Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia, estuda h\u00e1 d\u00e9cadas os impactos das hidrovias industriais regionais. Ele diz temer que a infraestrutura existente inspire mais megaprojetos, incluindo barragens, afetando um grande n\u00famero de reservas ind\u00edgenas. Ele observa que novas barragens no rio Tapaj\u00f3s poderiam facilitar a constru\u00e7\u00e3o de eclusas onde agora existem cachoeiras, estendendo a hidrovia industrial rio acima at\u00e9 as \u00e1reas produtoras de gr\u00e3os do Mato Grosso.<\/p>\n<p>&#8220;Eles dizem que n\u00e3o v\u00e3o fazer agora&#8221;, disse ele, &#8220;mas de repente isso explode com uma pressa de fazer&#8221;.<\/p>\n<p>O governo j\u00e1 planeja a licita\u00e7\u00e3o de um grande projeto ligado \u00e0 hidrovia do Tapaj\u00f3s este ano: a Ferrogr\u00e3o. <a href=\"https:\/\/valor.globo.com\/brasil\/coluna\/fundo-brasil-china-escolhe-projetos-para-aportes-de-us-24-bi.ghtml\">Reportagens<\/a> na imprensa brasileira dizem que a ferrovia \u00e9 uma das principais candidatas a participar do Fundo Brasil-China, um instrumento de investimento multibilion\u00e1rio destinado a apoiar projetos no interesse dos governos chin\u00eas e brasileiro.<\/p>\n<p>Os trilhos seriam paralelos ao rio Tapaj\u00f3s e \u00e0 BR-163, criando um corredor de transporte ferrovi\u00e1rio, rodovi\u00e1rio e hidrovi\u00e1rio ligando a cidade de Sinop, no Mato Grosso, com Itaituba, no Par\u00e1. Um estudo da Climate Policy Initiative <a href=\"https:\/\/valor.globo.com\/empresas\/noticia\/2020\/08\/17\/ferrograo-pode-desmatar-2-mil-km-no-mt.ghtml\">calculou <\/a>que Ferrogr\u00e3o apoiaria a expans\u00e3o de planta\u00e7\u00f5es que podem desmatar mais de 200 mil hectares.<\/p>\n<p>O ministro da Infraestrutura, Tarc\u00edsio Gomes de Freitas, <a href=\"https:\/\/twitter.com\/tarcisiogdf\/status\/1281748726785150976?lang=en\">disse que <\/a>a ferrovia representa a &#8220;integra\u00e7\u00e3o entre os modos de transporte mais limpos que existem\u00a0 em favor da Amaz\u00f4nia &#8220;.<\/p>\n<p>Korap, a l\u00edder Munduruku, diz estar frustrada com o rumo que as coisas parecem estar tomando, e que ela se preocupa que o governo brasileiro continue a pisar nos direitos de seu povo para beneficiar os grandes desenvolvedores de infraestrutura, investidores e produtores agr\u00edcolas.<\/p>\n<p>&#8220;A lei brasileira n\u00e3o \u00e9 feita para n\u00f3s, povos ind\u00edgenas, nem para o meio ambiente. \u00c9 feita para o agroneg\u00f3cio&#8221;, disse ela, acrescentando que o pa\u00eds tem pouco a ganhar cedendo aos interesses corporativos. &#8220;Todo o lucro vai para a Europa, China, Estados Unidos. Ficamos com muito pouco&#8221;.<\/p>\n<p><em>Esta reportagem foi produzida e publicada conjuntamente pelos sites Mongabay e Di\u00e1logo Chino.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alessandra Korap queria ser ouvida. Mas ela havia sido convidada para a audi\u00eancia de agosto de 2020 apenas como observadora, sentada por horas em sil\u00eancio for\u00e7ado, mesmo servindo como a \u00fanica representante do povo ind\u00edgena cujas terras, vidas e futuro seriam impactados por um porto fluvial proposto naquele peda\u00e7o da Amaz\u00f4nia. 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