{"id":50059480,"date":"2022-10-13T19:53:29","date_gmt":"2022-10-13T18:53:29","guid":{"rendered":"https:\/\/stage.dialogochino.net\/?p=59480"},"modified":"2023-06-02T17:19:15","modified_gmt":"2023-06-02T16:19:15","slug":"59354-lar-da-onca-pintada-e-de-culturas-milenares-o-gran-chaco-esta-desaparecendo-rapidamente","status":"publish","type":"photo_story","link":"https:\/\/dialogue.earth\/pt-br\/uncategorized\/59354-lar-da-onca-pintada-e-de-culturas-milenares-o-gran-chaco-esta-desaparecendo-rapidamente\/","title":{"rendered":"Lar da on\u00e7a-pintada e de culturas milenares, o Gran Chaco est\u00e1 desaparecendo rapidamente"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap\">Corvos voam ao anoitecer, o carro sai do asfalto e segue por uma estrada de terra seca que cruza pequenos lagartos e raposas. Em suas margens, h\u00e1 po\u00e7as de \u00e1gua da chuva e arbustos, assim como cactos de cinco metros de altura e \u00e1rvores jovens que escondem uma cerca de arame e madeira de um pasto t\u00e3o grande que \u00e9 imposs\u00edvel v\u00ea-lo em sua totalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Toda essa \u00e1rea foi desmatada&#8221;, diz Tag\u00fcide Picanerai, l\u00edder do povo ind\u00edgena Ayoreo, enquanto dirige para sua comunidade, Chaid\u00ed, no norte do Paraguai. O nome significa &#8220;ref\u00fagio&#8221; em sua l\u00edngua materna. &#8220;Aqui voc\u00ea pode ver que eles est\u00e3o retirando o que restou de florestas. Sabemos que isto est\u00e1 matando a biodiversidade e, lentamente, o mundo Ayoreo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Chaid\u00ed \u00e9 uma vila de casas de madeira cercada por floresta, uma das \u00e1reas mais intocadas do Gran Chaco, a segunda maior floresta da Am\u00e9rica do Sul depois da Amaz\u00f4nia e que se conecta ao Pantanal brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cd-story-image aligncenter block--story-image block--story-image--wide\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\"><div class=\"block--story-image__column\"><div class=\"block--story-image__image\"><img class=\"lazy\" data-src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-1-scaled.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-1-scaled.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 600px) 768px, (max-width: 999px) 1024px, (max-width: 1400px) 1400px, (max-width: 2000px) 2000px, 2000px\" alt=\"A house in the Ayoreo community of Chaid\u00ed in Alto Paraguay, around 700 kilometres from Asunci\u00f3n\"\/><\/div><div class=\"block--story-image__content\"><div itemprop=\"caption\" class=\"block--story-image__caption\">Casa na comunidade de Chaid\u00ed, no Alto Paraguai, a cerca de 700 quil\u00f4metros de Assun\u00e7\u00e3o. V\u00e1rios moradores da comunidade ayoreo vivem em isolamento volunt\u00e1rio na floresta (Imagem: Santi Carneri\/ 2014)<\/div><\/div><\/div><meta itemprop=\"contentUrl\" content=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-1-scaled.jpg\"\/><meta itemprop=\"contentSize\" content=\"565 KB\"\/><meta itemprop=\"height\" content=\"1334\"\/><meta itemprop=\"width\" content=\"2000\"\/><meta itemprop=\"author\"\/><meta itemprop=\"representativeOfPage\" content=\"true\"\/><\/div>\n\n\n\n<p>Picanerai \u00e9 nativo deste imenso, mas desconhecido bioma, em parte \u00e1rido e em parte \u00famido, que, com 1,1 milh\u00f5es de quil\u00f4metros quadrados, ocupa metade do Paraguai, um ter\u00e7o da Bol\u00edvia, um bom peda\u00e7o da Argentina e um pouquinho do Brasil. \u00c9 um territ\u00f3rio com o dobro do tamanho da Fran\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os Ayoreo s\u00e3o as \u00fanicas pessoas que vivem em isolamento volunt\u00e1rio nas Am\u00e9ricas fora da bacia amaz\u00f4nica. Seu direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.oas.org\/es\/cidh\/indigenas\/docs\/pdf\/Informe-Pueblos-Indigenas-Aislamiento-Voluntario.pdf\">est\u00e1 consagrado na lei interamericana,<\/a>&nbsp;mas \u00e9 um povo amea\u00e7ado e afetado pelo desmatamento, impulsionado pela pecu\u00e1ria e agricultura em larga escala.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O Gran Chaco est\u00e1 se transformando e, muito em breve, um novo projeto rodovi\u00e1rio poder\u00e1 mud\u00e1-lo drasticamente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-corredor-vi-rio-bioce-nico\">Corredor Vi\u00e1rio Bioce\u00e2nico<\/h2>\n\n\n\n<p>Poucos sabem da enorme riqueza cultural e natural desta terra, mas sabem menos ainda do projeto que o Paraguai realiza aqui: o Corredor Vi\u00e1rio Bioce\u00e2nico, que ter\u00e1 544 quil\u00f4metros de asfalto e uma nova ponte entre o Brasil e o Paraguai, para facilitar o tr\u00e1fego rodovi\u00e1rio de um lado a outro do continente. O sonho de Colombo, de chegar \u00e0 \u00c1sia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E tamb\u00e9m o sonho dos produtores de soja do Brasil e dos pecuaristas paraguaios de alcan\u00e7ar mais facilmente os mercados asi\u00e1ticos, atravessando ainda o norte da Argentina e os portos do Chile. At\u00e9 agora, o tr\u00e1fego tem sido lento, perigoso e frequentemente interrompido nas estradas de terra, poeira e lama do Paraguai.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cd-story-image aligncenter block--story-image block--story-image--wide\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\"><div class=\"block--story-image__column\"><div class=\"block--story-image__image\"><img class=\"lazy\" data-src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-5-scaled.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-5-scaled.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 600px) 768px, (max-width: 999px) 1024px, (max-width: 1400px) 1400px, (max-width: 2000px) 2000px, 2000px\" alt=\"A machine works on the Bioceanic Corridor in the Paraguayan Chaco\"\/><\/div><div class=\"block--story-image__content\"><div itemprop=\"caption\" class=\"block--story-image__caption\">M\u00e1quina em atividade no Corredor Bioce\u00e2nico do Chaco paraguaio. O projeto \u00e9 uma iniciativa de quatro pa\u00edses para melhorar a conectividade na Am\u00e9rica do Sul (Imagem: Santi Carneri\/Di\u00e1logo Chino)<\/div><\/div><\/div><meta itemprop=\"contentUrl\" content=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-5-scaled.jpg\"\/><meta itemprop=\"contentSize\" content=\"562 KB\"\/><meta itemprop=\"height\" content=\"1333\"\/><meta itemprop=\"width\" content=\"2000\"\/><meta itemprop=\"author\"\/><meta itemprop=\"representativeOfPage\" content=\"true\"\/><\/div>\n\n\n\n<p>Equipes avan\u00e7am dia ap\u00f3s dia na nova estrada. O trabalho segue por quase todo o caminho de Assun\u00e7\u00e3o, capital do Paraguai, at\u00e9 as comunidades Ayoreo. Caminh\u00f5es, tratores e centenas de pessoas est\u00e3o escavando, asfaltando e pintando a via.<\/p>\n\n\n\n<p>Picanerai nasceu h\u00e1 34 anos em Campo Loro, um assentamento fora da floresta, constru\u00eddo por membros da controversa miss\u00e3o evang\u00e9lica americana, hoje conhecida como Ethnos 360, que obrigou seus pais a abandonar a vida e os costumes n\u00f4mades nos anos 1970. Picanerai diz que os mission\u00e1rios deram esse nome ao lugar porque os homens e mulheres, como seus pais, for\u00e7ados a sair da floresta com armas na cabe\u00e7a, n\u00e3o paravam de falar, como&nbsp;<em>loros&nbsp;<\/em>(papagaios, em espanhol).<\/p>\n\n\n\n<p>A aus\u00eancia total de asfalto na \u00e1rea paraguaia do Gran Chaco, que faz fronteira com a Bol\u00edvia e o Brasil, tem direcionado o intenso com\u00e9rcio de mat\u00e9rias-primas para outras rotas. A dificuldade de atravess\u00e1-lo lhe valeu o batismo, da&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.ub.edu\/geocrit\/sn-38.htm\">literatura colonial em diante<\/a>, de \u201cinferno verde\u201d ou \u201cdeserto\u201d, \u201chostil\u201d, \u201cseco\u201d, \u201c\u00e1rido\u201d. Mas este n\u00e3o \u00e9 bem assim.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cd-story-image aligncenter block--story-image block--story-image--wide\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\"><div class=\"block--story-image__column\"><div class=\"block--story-image__image\"><img class=\"lazy\" data-src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-10-scaled.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-10-scaled.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 600px) 768px, (max-width: 999px) 1024px, (max-width: 1400px) 1400px, (max-width: 2000px) 2000px, 2000px\" alt=\"Tag\u00fcide Picanerai opens the gate onto Ayoreo territory located between the departments of Boquer\u00f3n and Alto Paraguay, in the Paraguayan Chaco\"\/><\/div><div class=\"block--story-image__content\"><div itemprop=\"caption\" class=\"block--story-image__caption\">Tag\u00fcide Picanerai abre o port\u00e3o para o territ\u00f3rio ayoreo localizado entre os departamentos de Boquer\u00f3n e Alto Paraguai, no Chaco paraguaio (Imagem: Santi Carneri\/ 2014)<\/div><\/div><\/div><meta itemprop=\"contentUrl\" content=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-10-scaled.jpg\"\/><meta itemprop=\"contentSize\" content=\"291 KB\"\/><meta itemprop=\"height\" content=\"1334\"\/><meta itemprop=\"width\" content=\"2000\"\/><meta itemprop=\"author\"\/><meta itemprop=\"representativeOfPage\" content=\"true\"\/><\/div>\n\n\n\n<p>Pode ser uma floresta impenetr\u00e1vel para um forasteiro, mas n\u00e3o para as centenas de milhares de pessoas que vivem aqui desde antes da chegada dos espanh\u00f3is e portugueses.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um ecossistema peculiar<\/h2>\n\n\n\n<p>O Gran Chaco \u00e9 uma floresta de palmeiras, on\u00e7as, cactos, espinhos e tamandu\u00e1s; de jacar\u00e9s e pumas e madeiras valiosas como o palo santo. Uma floresta cont\u00ednua, de estradas poeirentas e pantanosas, dividida por fronteiras pol\u00edticas que n\u00e3o existem para a natureza e em quatro ecorregi\u00f5es que, sim, incluem climas \u00e1ridos, mas tamb\u00e9m florestas, zonas \u00famidas, rios e lagoas, \u00e0s vezes secas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cd-article-image alignleft block--article-image block--article-image--article\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\"><div class=\"block--article-image__column\"><div class=\"block--article-image__image\"><img class=\"lazy\" data-src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran_Chaco_area_Dialogo-Chino-scaled.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran_Chaco_area_Dialogo-Chino-scaled.jpg 1924w\" data-sizes=\"(max-width: 600px) 768px, (max-width: 1024px) 1024px, 1924px\" alt=\"Gran Chaco area map\"\/><\/div><div class=\"block--article-image__content\"><div itemprop=\"caption\" class=\"block--article-image__caption\"><\/div><\/div><\/div><meta itemprop=\"contentUrl\" content=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran_Chaco_area_Dialogo-Chino-scaled.jpg\"\/><meta itemprop=\"contentSize\" content=\"704 KB\"\/><meta itemprop=\"height\" content=\"2000\"\/><meta itemprop=\"width\" content=\"1924\"\/><meta itemprop=\"author\"\/><meta itemprop=\"representativeOfPage\" content=\"true\"\/><\/div>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma floresta de vital import\u00e2ncia para os povos ind\u00edgenas que a habitam e, assim como a Amaz\u00f4nia, para a fauna e a flora do mundo inteiro, disse a bi\u00f3loga e professora da Universidade Nacional de Assun\u00e7\u00e3o, Andrea Weiler, ao&nbsp;<strong><em>Di\u00e1logo Chino.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u00c9 um ecossistema t\u00e3o peculiar em sua biodiversidade que ele se adapta maravilhosamente bem a condi\u00e7\u00f5es extremas\u201d, diz a&nbsp;<a href=\"https:\/\/scholar.google.com\/citations?view_op=view_citation&amp;hl=es&amp;user=DmNolLIAAAAJ&amp;citation_for_view=DmNolLIAAAAJ:dhFuZR0502QC\">pesquisadora, especializada no monitoramento da fauna do Chaco<\/a>, como a on\u00e7a-pintada (<em>yaguaret\u00e9<\/em>&nbsp;em guarani, que significa \u201cc\u00e3o de verdade\u201d) e a on\u00e7a-parda.<\/p>\n\n\n\n<p>O valor ecol\u00f3gico do Gran Chaco inclui 3.400 esp\u00e9cies de plantas, 500 esp\u00e9cies de aves, 150 mam\u00edferos, 120 r\u00e9pteis e 100 anf\u00edbios. Muitos est\u00e3o amea\u00e7ados, tais como&nbsp;<a href=\"https:\/\/somosyaguarete.com.py\/\">a on\u00e7a-pintada<\/a>, o&nbsp;<a href=\"https:\/\/es.mongabay.com\/2019\/02\/desaparicion-pecari-barbiblanco\/\">queixada-ruiva<\/a>, o tamandu\u00e1 e a anta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAo construir essas novas vias, elas impulsionam um tr\u00e1fego muito mais intenso e que vai trazer mais fragmenta\u00e7\u00e3o da floresta e da popula\u00e7\u00e3o; e com mais assentamentos urbanos, haver\u00e1 mais conflitos\u201d, explica Weiler.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cd-pull-quote block--pull-quote block--pull-quote--no-citation\"><div class=\"block--pull-quote__wrapper\"><blockquote class=\"block--pull-quote__quote\">\u00c9 um ecossistema t\u00e3o peculiar em sua biodiversidade que ele se adapta maravilhosamente bem a condi\u00e7\u00f5es extremas<\/blockquote><cite class=\"block--pull-quote__cite\"><\/cite><\/div><\/div>\n\n\n\n<p>Com a redu\u00e7\u00e3o da floresta e, logo, das presas dos grandes felinos, isso os atrai para as vacas. Weiler advertiu que os fazendeiros pagam seus funcion\u00e1rios entre US$ 100 e US$ 200 por cada puma que ca\u00e7am, e o dobro se for uma on\u00e7a-pintada, o que pode levar a cinco anos de pris\u00e3o no Paraguai. Este \u00e9 um valor igual ou at\u00e9 superior a um sal\u00e1rio m\u00e9dio mensal na \u00e1rea.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Nem um deserto, nem um id\u00edlio<\/h2>\n\n\n\n<p>O Gran Chaco n\u00e3o \u00e9 um id\u00edlio ambiental, nem \u00e9 uma terra habitada apenas por povos ind\u00edgenas. No lado argentino, planta\u00e7\u00f5es de soja e algod\u00e3o transg\u00eanico se estabeleceram h\u00e1 duas d\u00e9cadas. No lado brasileiro, poucos fazendeiros s\u00e3o donos da maior parte do ecossistema. E tanto do lado boliviano quanto paraguaio, milhares de colonos menonitas de origem russa, alem\u00e3, canadense e mexicana ergueram ind\u00fastrias de extra\u00e7\u00e3o de madeira, cria\u00e7\u00e3o de gado, leite, soja e algod\u00e3o. H\u00e1 tamb\u00e9m mission\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Duas guerras cruzaram este territ\u00f3rio em menos de 200 anos. Primeiro, a Guerra do Paraguai (1864-1870), na qual Brasil e Argentina devastaram, ocuparam e dividiram o Paraguai\/ Depois, para atender \u00e0s exig\u00eancias dos vencedores, o Paraguai vendeu as terras \u201cestatais\u201d do Chaco na bolsa internacional, privatizando florestas que eram um territ\u00f3rio ind\u00edgena ancestral. Mais tarde, a guerra entre o Paraguai e a Bol\u00edvia, em 1932 e 1935, disputou exatamente o territ\u00f3rio do Chaco e deixou 60 mil bolivianos e 30 mil paraguaios mortos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E os povos ind\u00edgenas da regi\u00e3o foram sitiados, recrutados ou presos, e observaram suas terras serem continuamente divididas sem seu consentimento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, Picanerai \u00e9 um dos principais atores pol\u00edticos ind\u00edgenas no Chaco. Ele fala Ayoreo, espanhol e entende guarani e portugu\u00eas. Em suas costas largas, ele carrega a responsabilidade de negociar com o Estado paraguaio medidas para evitar a destrui\u00e7\u00e3o das terras comunais e florestas onde vivem seus parentes.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cd-story-image aligncenter block--story-image block--story-image--wide\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\"><div class=\"block--story-image__column\"><div class=\"block--story-image__image\"><img class=\"lazy\" data-src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-7-scaled.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-7-scaled.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 600px) 768px, (max-width: 999px) 1024px, (max-width: 1400px) 1400px, (max-width: 2000px) 2000px, 2000px\" alt=\"Paraguayan workers on the new bi-oceanic route\"\/><\/div><div class=\"block--story-image__content\"><div itemprop=\"caption\" class=\"block--story-image__caption\">Oper\u00e1rios do Corredor Bioce\u00e2nico, no Paraguai. O projeto prev\u00ea 544 km de asfalto, passando por regi\u00f5es que antes abrigavam apenas estradas de terra (Imagem: Santi Carneri\/Di\u00e1logo Chino)<\/div><\/div><\/div><meta itemprop=\"contentUrl\" content=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-7-scaled.jpg\"\/><meta itemprop=\"contentSize\" content=\"307 KB\"\/><meta itemprop=\"height\" content=\"1333\"\/><meta itemprop=\"width\" content=\"2000\"\/><meta itemprop=\"author\"\/><meta itemprop=\"representativeOfPage\" content=\"true\"\/><\/div>\n\n\n\n<p>Ele vai e vem de carro a cada quinze dias pelos mais de 500 quil\u00f4metros que separam sua comunidade de Assun\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m conhecida como a \u201cPortal do Chaco\u201d, j\u00e1 que \u00e9 a capital mais pr\u00f3xima desse ecossistema. Antes, em 2015, quando fiz minha primeira viagem com Picanerai, ela levava cerca de dez horas, e agora que a maior parte \u00e9 asfalto, leva seis.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Se ele e outros l\u00edderes n\u00e3o mantiverem a press\u00e3o sobre o governo, suas terras estar\u00e3o ainda mais em perigo. O corte ilegal de madeira, ca\u00e7adores furtivos, tr\u00e1fico de drogas, mission\u00e1rios e funcion\u00e1rios p\u00fablicos corruptos est\u00e3o entre suas principais amea\u00e7as.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO que antes eram pegadas de on\u00e7a-pintada, agora s\u00e3o marcas deixadas por escavadeiras. Nossos irm\u00e3os s\u00f3 querem que salvemos a floresta\u201d, diz Porai Picanerai, pai de Tag\u00fcide, na l\u00edngua ayoreo, enquanto esculpe uma tartaruga em pau-rosa de sua casa em Chaid\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cd-story-image aligncenter block--story-image block--story-image--wide\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\"><div class=\"block--story-image__column\"><div class=\"block--story-image__image\"><img class=\"lazy\" data-src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-11-scaled.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-11-scaled.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 600px) 768px, (max-width: 999px) 1024px, (max-width: 1400px) 1400px, (max-width: 2000px) 2000px, 2000px\" alt=\"40-year-old Ingoi Etacori, who left the jungle in 2004 when left alone on the edge of a road opened by owners of nearby estancias, from the Ayoreo village Totobiegosode poses for a portrait with his parrot in the community of Chaid\u00ed\"\/><\/div><div class=\"block--story-image__content\"><div itemprop=\"caption\" class=\"block--story-image__caption\">Ingoi Etacori, morador ayoreo de Chaid\u00ed, posa com um papagaio. Ele saiu do isolamento na floresta em 2004, quando pecuaristas abriram uma nova estrada perto de sua antiga casa (Imagem: Santi Carneri\/ 2014)<\/div><\/div><\/div><meta itemprop=\"contentUrl\" content=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-11-scaled.jpg\"\/><meta itemprop=\"contentSize\" content=\"340 KB\"\/><meta itemprop=\"height\" content=\"1334\"\/><meta itemprop=\"width\" content=\"2000\"\/><meta itemprop=\"author\"\/><meta itemprop=\"representativeOfPage\" content=\"true\"\/><\/div>\n\n\n\n<p>Desde 2004 \u2014 ano do \u00faltimo contato com os Ayoreo em isolamento volunt\u00e1rio \u2014 que nenhum Ayoreo deixa a floresta. Mas nos 30 anos anteriores, cerca de sete mil deles foram for\u00e7ados a sair. Na maioria dos casos, a respons\u00e1vel foi a organiza\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica norte-americana&nbsp;<a href=\"https:\/\/ethnos360.org\/\">Ethnos 360<\/a>, que provocou confrontos e mortes, segundo relatos dos Picanerai e&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.survival.es\/noticias\/12126\">da organiza\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica Survival.&nbsp;<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>O novo Corredor Bioce\u00e2nico atravessa algumas comunidades Ayoreo fora da floresta, como as de Carmelo Peralta, \u00e0s margens do rio Paraguai, por onde passa a ponte que ligar\u00e1 o Brasil ao Paraguai. S\u00f3 a ponte custou ao governo paraguaio US$ 103 milh\u00f5es e se somar\u00e1 aos US$ 445 milh\u00f5es de asfalto e concreto da nova rodovia.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um Chaco menonita<\/h2>\n\n\n\n<p>\u201cEsta ponte e esta rota bioce\u00e2nica permitir\u00e3o ao Paraguai ser um aliado estrat\u00e9gico, ter uma produ\u00e7\u00e3o competitiva, na regi\u00e3o e no mundo\u201d. Foi o que disse o presidente paraguaio Mario Abdo Ben\u00edtez em dezembro de 2021, de Carmelo Peralta, dando in\u00edcio \u00e0s obras da ponte.<\/p>\n\n\n\n<p>O novo asfalto tra\u00e7ar\u00e1 uma linha reta para conectar o estado brasileiro de Mato Grosso com a prov\u00edncia argentina de Salta. O ministro de obras p\u00fablicas do Paraguai, Arnoldo Wiens, disse ao&nbsp;<strong><em>Di\u00e1logo Chino&nbsp;<\/em><\/strong>que a rota ser\u00e1 muito \u00fatil e poder\u00e1 trazer mais recursos a seu pa\u00eds:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cS\u00f3 o estado do Mato Grosso produz quatro vezes mais gr\u00e3os que todo o Paraguai. Se um quarto dessa produ\u00e7\u00e3o usasse este corredor, j\u00e1 seria o mesmo volume que o Paraguai\u201d.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cd-story-image aligncenter block--story-image block--story-image--wide\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\"><div class=\"block--story-image__column\"><div class=\"block--story-image__image\"><img class=\"lazy\" data-src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-26-scaled.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-26-scaled.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 600px) 768px, (max-width: 999px) 1024px, (max-width: 1400px) 1400px, (max-width: 2000px) 2000px, 2000px\" alt=\"The Paraguay River connects the Pantanal with Asunci\u00f3n, the only passenger ship that runs through it in Paraguay is the Aquidaban\"\/><\/div><div class=\"block--story-image__content\"><div itemprop=\"caption\" class=\"block--story-image__caption\">Mulher desembarca do Aquidaban, um barco de passageiros que percorre o rio Paraguai, ligando o Chaco e o Pantanal a Assun\u00e7\u00e3o. O Corredor Bioce\u00e2nico visa melhorar as conex\u00f5es na regi\u00e3o (Imagem: Santi Carneri\/ 2019)<\/div><\/div><\/div><meta itemprop=\"contentUrl\" content=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-26-scaled.jpg\"\/><meta itemprop=\"contentSize\" content=\"298 KB\"\/><meta itemprop=\"height\" content=\"1333\"\/><meta itemprop=\"width\" content=\"2000\"\/><meta itemprop=\"author\"\/><meta itemprop=\"representativeOfPage\" content=\"true\"\/><\/div>\n\n\n\n<p>A nova estrada traz asfalto para o departamento do Alto Paraguai, uma regi\u00e3o que nunca tinha tido estradas permanentes \u2014 at\u00e9 o in\u00edcio das obras rodovi\u00e1rias em 2019.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.earthsight.org.uk\/grandtheftchaco-en\">Um relat\u00f3rio da organiza\u00e7\u00e3o Earthsight<\/a>&nbsp;mostrou, em 2020, que pecuaristas brasileiros estavam desmatando ilegalmente trechos da reserva paraguaia do Patrim\u00f4nio Cultural Natural Ayoreo Totobiegosode. A Earthsight exp\u00f4s ainda que o couro da regi\u00e3o foi comprado por empresas europeias como a BMW. Ele \u00e9 fabricado pela Cooperativa Chortitzer, que pertence \u00e0 comunidade menonita de Loma Plata, onde termina a primeira etapa do Corredor Bioce\u00e2nico.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cd-story-image aligncenter block--story-image block--story-image--wide\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\"><div class=\"block--story-image__column\"><div class=\"block--story-image__image\"><img class=\"lazy\" data-src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-17-scaled.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-17-scaled.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 600px) 768px, (max-width: 999px) 1024px, (max-width: 1400px) 1400px, (max-width: 2000px) 2000px, 2000px\" alt=\"Cows at a Mennonite community farm and school near Loma Plata\"\/><\/div><div class=\"block--story-image__content\"><div itemprop=\"caption\" class=\"block--story-image__caption\">Vacas em uma fazenda-escola da comunidade menonita perto de Loma Plata. Sessenta e oito vacas fornecem 1.600 litros de leite por dia, enquanto h\u00e1 mais de 800 bovinos dedicados \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de carne (Imagem: Santi Carneri\/Di\u00e1logo Chino)<\/div><\/div><\/div><meta itemprop=\"contentUrl\" content=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-17-scaled.jpg\"\/><meta itemprop=\"contentSize\" content=\"530 KB\"\/><meta itemprop=\"height\" content=\"1333\"\/><meta itemprop=\"width\" content=\"2000\"\/><meta itemprop=\"author\"\/><meta itemprop=\"representativeOfPage\" content=\"true\"\/><\/div>\n\n\n\n<p>Loma Plata \u00e9, juntamente com duas outras cidades menonitas \u2014 Filadelfia e Neuland \u2014, o cora\u00e7\u00e3o do Chaco paraguaio. Comunidades ortodoxas desse povo europeu errante, que fugiu da R\u00fassia e da Alemanha, est\u00e3o espalhadas pelas Am\u00e9ricas desde os anos 1930, quase sem se misturarem com a popula\u00e7\u00e3o local. Mesmo assim, conseguiram construir um imp\u00e9rio de gado e latic\u00ednios.<\/p>\n\n\n\n<p>Berthold Penner tem 32 anos, nacionalidade alem\u00e3 e paraguaia. Seus av\u00f3s paternos nasceram no Chaco, como ele, mas sua av\u00f3 materna veio da Alemanha para escapar da Segunda Guerra Mundial. Ele cresceu em uma fazenda da cooperativa.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cd-story-image aligncenter block--story-image block--story-image--wide\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\"><div class=\"block--story-image__column\"><div class=\"block--story-image__image\"><img class=\"lazy\" data-src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-16-scaled.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-16-scaled.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 600px) 768px, (max-width: 999px) 1024px, (max-width: 1400px) 1400px, (max-width: 2000px) 2000px, 2000px\" alt=\"Berthold Penner is of German and Paraguayan heritage and teaches agricultural management in a Mennonite area of the Chaco\"\/><\/div><div class=\"block--story-image__content\"><div itemprop=\"caption\" class=\"block--story-image__caption\">Berthold Penner \u00e9 de origem alem\u00e3 e paraguaia e ensina gest\u00e3o agr\u00edcola em uma \u00e1rea menonita do Chaco. Ele diz que o Corredor Bioce\u00e2nico &#8216;nos aproxima de nossos vizinhos&#8217; (Imagem: Santi Carneri\/Di\u00e1logo Chino)<\/div><\/div><\/div><meta itemprop=\"contentUrl\" content=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-16-scaled.jpg\"\/><meta itemprop=\"contentSize\" content=\"350 KB\"\/><meta itemprop=\"height\" content=\"1333\"\/><meta itemprop=\"width\" content=\"2000\"\/><meta itemprop=\"author\"\/><meta itemprop=\"representativeOfPage\" content=\"true\"\/><\/div>\n\n\n\n<p>Berthold estudou gest\u00e3o agr\u00edcola e hoje ensina dezenas de estudantes paraguaios menonitas a fazer com que as 68 vacas da escola d\u00eaem mais e melhor leite (atingindo 1.600 litros por dia). Ele tamb\u00e9m ensina como garantir que as 880 vacas n\u00e3o sofram estresse e garantam carnes tenras. Berthold conta com entusiasmo os detalhes de sua profiss\u00e3o enquanto um dos estudantes dirige um trator novinho em folha que fornece ra\u00e7\u00e3o para os animais. Berthold inclina-se contra a cerca de arame e opina sobre o Corredor Bioce\u00e2nico:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA agricultura vai aumentar, e toda a produ\u00e7\u00e3o poder\u00e1 ser transportada em tempo h\u00e1bil\u201d, disse Berthold. \u201cA estrada bioce\u00e2nica nos aproxima de nossos vizinhos. S\u00e3o 232 quil\u00f4metros a menos de estrada de terra onde uma chuva j\u00e1 consegue interromper o trajeto. Ela reduz o risco e aumenta a velocidade e a seguran\u00e7a de que o produto chegue ao seu destino\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Os efeitos da nova rota bioce\u00e2nica tamb\u00e9m est\u00e3o sendo sentidos nas estradas vizinhas, como a Trans-Chaco, que atravessa o Paraguai de norte a sul e liga Assun\u00e7\u00e3o a Santa Cruz, na Bol\u00edvia, duas cidades ligadas pelo bioma, apesar da enorme dist\u00e2ncia geogr\u00e1fica que as separa. O governo paraguaio est\u00e1 ampliando a estrada de duas para quatro faixas e a modernizando em \u00e1reas que antes pareciam a superf\u00edcie lunar.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O Gran Chaco, uma terra de extremos<\/h2>\n\n\n\n<p>Mas este desenvolvimento n\u00e3o parece acompanhar as comunidades ind\u00edgenas com o mesmo \u00edmpeto que acompanha os outros habitantes do Chaco. A quinze quil\u00f4metros de Loma Plata est\u00e1 El Estribo, uma comunidade de sete mil pessoas, metade delas crian\u00e7as, do povo ind\u00edgena Enxet, tamb\u00e9m defensor da floresta, por\u00e9m mais urbanizada devido \u00e0 sua proximidade com as cidades menonitas.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cd-story-image aligncenter block--story-image block--story-image--wide\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\"><div class=\"block--story-image__column\"><div class=\"block--story-image__image\"><img class=\"lazy\" data-src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-19-scaled.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-19-scaled.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 600px) 768px, (max-width: 999px) 1024px, (max-width: 1400px) 1400px, (max-width: 2000px) 2000px, 2000px\" alt=\"Benigno Rojas, one of the leaders of the El Estribo community of Enxet people\"\/><\/div><div class=\"block--story-image__content\"><div itemprop=\"caption\" class=\"block--story-image__caption\">Benigno Rojas, um dos l\u00edderes da comunidade El Estribo do povo Enxet: \u201cNo Chaco, h\u00e1 problemas quando h\u00e1 seca e tamb\u00e9m quando h\u00e1 inunda\u00e7\u00f5es\u201d (Imagem: Santi Carneri\/Di\u00e1logo Chino)<\/div><\/div><\/div><meta itemprop=\"contentUrl\" content=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-19-scaled.jpg\"\/><meta itemprop=\"contentSize\" content=\"239 KB\"\/><meta itemprop=\"height\" content=\"1333\"\/><meta itemprop=\"width\" content=\"2000\"\/><meta itemprop=\"author\"\/><meta itemprop=\"representativeOfPage\" content=\"true\"\/><\/div>\n\n\n\n<p>Benigno Rojas tem 79 anos e mais energia do que as crian\u00e7as que jogam&nbsp;<em>piki-voley<\/em>&nbsp;(uma mistura de v\u00f4lei e futebol) em frente \u00e0 escola do vilarejo.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00edder e lutador, Benigno caminha com determina\u00e7\u00e3o enquanto acaricia uma folha de alfarroba. Ele me mostra o&nbsp;<em>samu\u2019u<\/em>, ou palo borracho, que est\u00e1 por toda parte, florindo e oferecendo suas sementes ao vento na forma de l\u00e3 de algod\u00e3o branco que cobre folhas, galhos e o solo, deixando o cen\u00e1rio esbranqui\u00e7ado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNo Chaco, quando h\u00e1 seca, h\u00e1 problemas; e quando h\u00e1 inunda\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m\u201d, diz Benigno.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cd-story-image aligncenter block--story-image block--story-image--wide\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\"><div class=\"block--story-image__column\"><div class=\"block--story-image__image\"><img class=\"lazy\" data-src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-21-scaled.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-21-scaled.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 600px) 768px, (max-width: 999px) 1024px, (max-width: 1400px) 1400px, (max-width: 2000px) 2000px, 2000px\" alt=\"Children play with plastic planes in the community of El Estribo\"\/><\/div><div class=\"block--story-image__content\"><div itemprop=\"caption\" class=\"block--story-image__caption\">Crian\u00e7as brincam na comunidade Enxet de El Estribo (Imagem: Santi Carneri\/Di\u00e1logo Chino)<\/div><\/div><\/div><meta itemprop=\"contentUrl\" content=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-21-scaled.jpg\"\/><meta itemprop=\"contentSize\" content=\"366 KB\"\/><meta itemprop=\"height\" content=\"1333\"\/><meta itemprop=\"width\" content=\"2000\"\/><meta itemprop=\"author\"\/><meta itemprop=\"representativeOfPage\" content=\"true\"\/><\/div>\n\n\n\n<p>No ecossistema, h\u00e1 sempre esta dualidade: aus\u00eancia total de chuva por mais de quatro meses, e at\u00e9 mesmo falta de \u00e1gua pot\u00e1vel, ou uma abund\u00e2ncia que transforma as estradas em p\u00e2ntanos, torna o acesso a hospitais imposs\u00edvel, e os mosquitos se proliferam. Mas tamb\u00e9m, m\u00e1quinas arrasam&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ultimahora.com\/en-3-anos-paraguay-perdio-756000-hectareas-bosques-deforestacion-n3025642.html\">220 mil hectares de floresta por ano<\/a>&nbsp;no lado&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.lanacion.com.ar\/sociedad\/tierra-arrasada-y-especies-en-riesgo-viaje-a-la-zona-cero-de-la-deforestacion-en-la-argentina-nid24072022\/?mc_cid=aaa1e2725a&amp;mc_eid=2df54c5b54\">paraguaio e 150 mil hectares por ano no lado argentino.&nbsp;<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A outra dualidade \u00e9 a desigualdade econ\u00f4mica e racial: de um lado, as grandes fazendas de gado de investidores paraguaios e estrangeiros, assim como as cidades menonitas de descend\u00eancia alem\u00e3, t\u00eam \u00e1gua corrente e eletricidade asseguradas, seus agricultores contam com grandes tratores, e pecuaristas, com contas e cr\u00e9ditos banc\u00e1rios. Por outro lado, as comunidades ind\u00edgenas sobrevivem com o essencial, quase sem apoio estatal para garantir os t\u00edtulos de terra e a \u00e1gua pot\u00e1vel dos&nbsp;<em>tajamares<\/em>, que \u00e9 como eles chamam os po\u00e7os que coletam a \u00e1gua da chuva.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cd-story-image aligncenter block--story-image block--story-image--wide\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\"><div class=\"block--story-image__column\"><div class=\"block--story-image__image\"><img class=\"lazy\" data-src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-22-scaled.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-22-scaled.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 600px) 768px, (max-width: 999px) 1024px, (max-width: 1400px) 1400px, (max-width: 2000px) 2000px, 2000px\" alt=\"Benigno Rojas shows one of the last water reserves of the tajamares, the wells that collect rainwater to for drinking when other sources are unavailable\"\/><\/div><div class=\"block--story-image__content\"><div itemprop=\"caption\" class=\"block--story-image__caption\">Benigno Rojas mostra uma das \u00faltimas reservas de \u00e1gua dos tajamares, os po\u00e7os que coletam \u00e1gua da chuva para beber quando outras fontes n\u00e3o est\u00e3o dispon\u00edveis (Imagem: Santi Carneri\/Di\u00e1logo Chino)<\/div><\/div><\/div><meta itemprop=\"contentUrl\" content=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-22-scaled.jpg\"\/><meta itemprop=\"contentSize\" content=\"428 KB\"\/><meta itemprop=\"height\" content=\"1333\"\/><meta itemprop=\"width\" content=\"2000\"\/><meta itemprop=\"author\"\/><meta itemprop=\"representativeOfPage\" content=\"true\"\/><\/div>\n\n\n\n<p>Estamos em setembro de 2022 e o Chaco vem sendo afetado pela seca h\u00e1 mais de cinco meses. A fuma\u00e7a dos inc\u00eandios, tanto do lado argentino quanto boliviano, cobrem o ar. Em El Estribo, comunidade de Benigno, a \u00e1gua pot\u00e1vel, comprada do Estado, est\u00e1 prestes a acabar.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, o Chaco \u00e9 um bioma praticamente desconhecido, ligado ao Pantanal, que gra\u00e7as \u00e0 novela de mesmo nome recebeu alguma aten\u00e7\u00e3o, embora n\u00e3o tanto quanto a Amaz\u00f4nia. A devasta\u00e7\u00e3o do Chaco brasileiro est\u00e1 diretamente ligada \u00e0&nbsp;<a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/full\/10.1002\/ece3.4137\">do Pantanal<\/a>, por causa do avan\u00e7o da fronteira agr\u00edcola nos \u00faltimos 40 anos pela regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cd-story-image aligncenter block--story-image block--story-image--wide\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\"><div class=\"block--story-image__column\"><div class=\"block--story-image__image\"><img class=\"lazy\" data-src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-30-scaled.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-30-scaled.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 600px) 768px, (max-width: 999px) 1024px, (max-width: 1400px) 1400px, (max-width: 2000px) 2000px, 2000px\" alt=\"From Puerto Diana you can see the forest burning on the other side of the river, near Puerto Mortinho, in Brazil\"\/><\/div><div class=\"block--story-image__content\"><div itemprop=\"caption\" class=\"block--story-image__caption\">De Puerto Diana, no lado paraguaio do rio, podem ser vistos inc\u00eandios florestais perto de Porto Murtinho, no Brasil, supostamente ateados para limpar terras para a pecu\u00e1ria (Imagem: Santi Carneri\/2019)<\/div><\/div><\/div><meta itemprop=\"contentUrl\" content=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/10\/Gran-Chaco-road_Santi-Carnieri_Dialogo-Chino_SCTChacoCh-30-scaled.jpg\"\/><meta itemprop=\"contentSize\" content=\"351 KB\"\/><meta itemprop=\"height\" content=\"1333\"\/><meta itemprop=\"width\" content=\"2000\"\/><meta itemprop=\"author\"\/><meta itemprop=\"representativeOfPage\" content=\"true\"\/><\/div>\n\n\n\n<p>Mar\u00eda Liz Paya, do povo ind\u00edgena&nbsp;Yshy, vive a duzentos metros do rio Paraguai, bem em frente \u00e0 fronteira com o Brasil. Fica pr\u00f3xima \u00e0 entrada do Pantanal, mas quase nunca h\u00e1 \u00e1gua pot\u00e1vel em sua casa. Ela \u00e9 cozinheira e vive em Puerto Diana, entre palmeiras e cactos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Liz Paya vai buscar \u00e1gua do rio com um balde (que depois receber\u00e1 cloro para se tornar pot\u00e1vel), ela observa a floresta arder do outro lado das \u00e1guas, perto de Porto Murtinho, no estado do Mato Grosso do Sul.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u00c9 o pasto de um fazendeiro brasileiro. Ele est\u00e1 queimando a floresta para dar lugar \u00e0s vacas\u201d, diz Paya.&nbsp;\u201cO fogo avan\u00e7a a cada ano na terra de nossos antepassados. O que o futuro reservar\u00e1 para nossos filhos?\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nova rodovia abre oportunidades de neg\u00f3cios na Am\u00e9rica Latina, mas amea\u00e7a povos ind\u00edgenas, florestas e animais de um bioma quase desconhecido<\/p>\n","protected":false},"featured_media":50059403,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","categories":[],"tags":[50003593,50004529],"country":[50003544],"class_list":["post-50059480","photo_story","type-photo_story","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","tag-biodiversidade","tag-povos-indigenas","country-paraguai"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO Premium plugin v26.0 (Yoast SEO v26.0) - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>O Gran Chaco sob amea\u00e7a: a casa da on\u00e7a-pintada est\u00e1 desaparecendo<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Nova rodovia abre oportunidades de neg\u00f3cios na Am\u00e9rica Latina, mas 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