{"id":50058302,"date":"2022-09-15T12:00:46","date_gmt":"2022-09-15T11:00:46","guid":{"rendered":"https:\/\/stage.dialogochino.net\/?p=58302"},"modified":"2023-01-30T22:09:57","modified_gmt":"2023-01-30T22:09:57","slug":"57158-da-floresta-a-fabrica-como-a-amazonia-se-tornou-um-polo-global-de-exportacoes-agricolas","status":"publish","type":"podcast","link":"https:\/\/dialogue.earth\/pt-br\/florestas\/57158-da-floresta-a-fabrica-como-a-amazonia-se-tornou-um-polo-global-de-exportacoes-agricolas\/","title":{"rendered":"Como a Amaz\u00f4nia se tornou um polo global de exporta\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Integrar para n\u00e3o entregar&#8221;. Sob esse lema nacionalista contra uma suposta amea\u00e7a estrangeira, milhares de migrantes partiram rumo \u00e0 Amaz\u00f4nia no in\u00edcio dos anos 1970 em busca da prosperidade que o governo militar prometia.<\/p>\n<div class='block--pullout-stat block--pullout-stat--float cd-shortcode--factbox'>\n                <p class='block--pullout-stat__title'><strong>Ou\u00e7a agora<\/strong><\/p>\n                <div class='block--pullout-stat__content'>\n                    <br \/>\nEste artigo \u00e9 um resumo do primeiro epis\u00f3dio de Amaz\u00f4nia Ocupada, uma nova s\u00e9rie de podcast do <em>Di\u00e1logo Chino<\/em>.<br \/>\n\n                <\/div>\n            <\/div>\n<p>Naquela \u00e9poca, agricultores que viviam em meio \u00e0 pobreza no Sul do Brasil enxergavam na propaganda da ditadura um novo horizonte, onde diziam que a terra era farta e acess\u00edvel \u2014 at\u00e9 de gra\u00e7a \u2014 numa regi\u00e3o inexplorada do Centro-Oeste.<\/p>\n<p>&#8220;Eu sou catarinense, criado l\u00e1 no Sul e estava exclu\u00eddo financeiramente e socialmente em geral&#8221;, conta Elmo Leitzke, hoje um rico fazendeiro e dono da fazenda Minuano, com 7.000 hectares \u2014 o equivalente a 7.000 campos de futebol \u2014 em Sinop, no Mato Grosso. &#8220;Era comum ser procurar novas fronteiras agr\u00edcolas, e elas estavam todas no Centro-Oeste.<\/p>\n<p>Assim come\u00e7ava um movimento massivo da coloniza\u00e7\u00e3o de uma \u00e1rea na transi\u00e7\u00e3o entre o Cerrado e a Amaz\u00f4nia. E assim tamb\u00e9m eram dados os primeiros passos em dire\u00e7\u00e3o a um modelo de extra\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o que traduz como o pa\u00eds ainda hoje enxerga a floresta: um empecilho ao progresso, que precisa ser tirado do caminho da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola.<\/p>\n<p>&#8220;At\u00e9 1975, a floresta estava praticamente intacta&#8221;, afirmou o historiador ambiental Jos\u00e9 Augusto P\u00e1dua, professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro. &#8220;Ent\u00e3o, n\u00f3s temos que entender o movimento [migrat\u00f3rio] a partir da\u00ed&#8221;.<\/p>\n<p>Essa intrincada hist\u00f3ria e seus personagens fazem parte do nosso primeiro podcast, <strong>Amaz\u00f4nia Ocupada<\/strong>, uma s\u00e9rie de reportagens em \u00e1udio lan\u00e7ada nesta quinta-feira (15) pelo <em>Di\u00e1logo Chino<\/em>, em parceria com a Trov\u00e3o M\u00eddia. Em cinco epis\u00f3dios, mostramos como a maior floresta do mundo foi colonizada para a explora\u00e7\u00e3o de <em>commodities<\/em>.<\/p>\n<h2>BR-163, a rodovia &#8216;espinha de peixe&#8217;<\/h2>\n<p>O ouvinte viajar\u00e1 pela rodovia BR-163 \u2014 um projeto de infraestrutura do governo militar que buscava impulsionar a ocupa\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia \u2014 para entender como a soja, a pecu\u00e1ria, o garimpo e a extra\u00e7\u00e3o de madeira se estabeleceram na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o da rodovia, que corta o Brasil de norte a sul por mais de 3,5 mil quil\u00f4metros, teve um papel fundamental no processo de ocupa\u00e7\u00e3o, uma vez que desse eixo vi\u00e1rio \u00e9 que foram surgindo vilas, que se tornaram grandes cidades.<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<figure id=\"attachment_58317\" aria-describedby=\"caption-attachment-58317\" style=\"width: 2000px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-58317 size-full\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/09\/Ilson-Redivo-presidente-do-Sindicato-Rural-de-Sinop-migrou-do-Sul-nos-anos-1980-1-scaled.jpg\" alt=\"Ilson Redivo, presidente do Sindicato Rural de Sinop, migrou do Sul nos anos 1980 (Imagem: Felipe Betim \/ Di\u00e1logo Chino) Amazonia podcast ocupada desmatamento bolsonaro\" width=\"2000\" height=\"1333\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-58317\" class=\"wp-caption-text\">Ilson Redivo, presidente do Sindicato Rural de Sinop, migrou do Sul nos anos 1980 (Imagem: Felipe Betim \/ Di\u00e1logo Chino)<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/div>&#8220;Imagina uma espinha de peixe&#8221;, resume Ilson Redivo, presidente do Sindicato Rural de Sinop e vice-presidente Norte da Aprosoja. &#8220;O que alimenta uma espinha de peixe \u00e9 a coluna central. Essa coluna central \u00e9 a BR-163&#8221;.<\/p>\n<p>Os resultados da coloniza\u00e7\u00e3o desenfreada s\u00e3o sentidos hoje, com a emerg\u00eancia de conflitos fundi\u00e1rios, o <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/564942-sinop-onde-a-amazonia-virou-asfalto-e-soja\">deslocamento e mortes<\/a> de popula\u00e7\u00f5es tradicionais e o desmatamento da Amaz\u00f4nia, que registra as maiores taxas dos \u00faltimos 15 anos.<\/p>\n<p>&#8220;Quando abriram a BR-163, morreu muita gente, principalmente o povo Panar\u00e1&#8221;, contou Krekreans\u00e3 Panar\u00e1, lideran\u00e7a ind\u00edgena de uma das etnias deslocadas de seu territ\u00f3rio original para a constru\u00e7\u00e3o da rodovia. Krekreans\u00e3 explica que por conta do contato com doen\u00e7as rec\u00e9m-introduzidas, como o sarampo, apenas cerca de 80 indiv\u00edduos sobreviveram e foram levado para o <a href=\"https:\/\/dialogue.earth\/pt-br\/pt\/como-a-agroindustria-ilhou-o-xingu-mais-antiga-reserva-indigena-do-brasil\/\">Parque Ind\u00edgena do Xingu<\/a>.<\/p>\n<h2>Sinop, capital da soja<\/h2>\n<p>Munic\u00edpio do norte de Mato Grosso, Sinop foi um dos primeiros destinos dos imigrantes sulistas, e, portanto, \u00e9 a primeira parada do podcast. Ao longo dos \u00faltimos 50 anos, a cidade tornou-se o epicentro nacional da produ\u00e7\u00e3o de soja, hoje o principal produto de exporta\u00e7\u00e3o do <a href=\"https:\/\/dialogue.earth\/pt-br\/nao-categorizado\/boom-do-agronegocio-brasileiro-aplaca-atritos-politicos-do-governo-bolsonaro\/\">agroneg\u00f3cio brasileiro<\/a>.<\/p>\n<p>Com o incentivo do governo e a ocupa\u00e7\u00e3o de seus biomas para a monocultura, o Brasil se tornou o maior produtor e <a href=\"https:\/\/ipad.fas.usda.gov\/cropexplorer\/cropview\/commodityView.aspx?cropid=2222000\">exportador<\/a> de soja do mundo, com mais de 60% de sua produ\u00e7\u00e3o sendo vendida para outros pa\u00edses, sobretudo a <a href=\"https:\/\/dialogue.earth\/pt-br\/agricultura-pt-br\/43925-para-larissa-wachholz-china-nao-deve-impor-clausulas-de-sustentabilidade-que-dificultem-sua-seguranca-alimentar\/\">China<\/a>, segundo <a href=\"http:\/\/comexstat.mdic.gov.br\/pt\/geral\/63739\">dados<\/a> do com\u00e9rcio exterior. Se o Mato Grosso fosse uma na\u00e7\u00e3o, seria o terceiro maior produtor de soja do mundo, atr\u00e1s do pr\u00f3prio Brasil e dos Estados Unidos.<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<figure id=\"attachment_58322\" aria-describedby=\"caption-attachment-58322\" style=\"width: 2000px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-58322 size-full\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/09\/Campo-de-soja-em-Sinop-no-Mato-Grosso-estado-que-e-a-capital-do-agronegocio-brasileiro-1-scaled.jpg\" alt=\"Campo de soja em Sinop, no Mato Grosso, estado que \u00e9 a capital do agroneg\u00f3cio brasileiro\" width=\"2000\" height=\"1333\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-58322\" class=\"wp-caption-text\">Campo de soja em Sinop, no Mato Grosso, estado que \u00e9 a capital do agroneg\u00f3cio brasileiro (Imagem: Felipe Betim \/ Di\u00e1logo Chino)<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/div>Sinop \u00e9 sigla para Sociedade Imobili\u00e1ria no Noroeste do Paran\u00e1, a empresa que come\u00e7ou a desmatar a floresta tropical e fundou a cidade naquela \u00e1rea. Hoje, ela abriga 150 mil hectares de lavoura, <a href=\"https:\/\/cidades.ibge.gov.br\/brasil\/mt\/sinop\/pesquisa\/14\/10193\">segundo dados do IBGE de 2020<\/a>.<\/p>\n<p>Embora seja um munic\u00edpio rural, Sinop n\u00e3o tem apar\u00eancia de cidade de interior. No centro urbano, circulam carros importados em avenidas bem asfaltadas. H\u00e1 shoppings, lojas de grife e restaurantes caros normalmente encontrados em grandes metr\u00f3poles. <em>Outdoors<\/em> de novos empreendimentos imobili\u00e1rios, destinados \u00e0 elite do agroneg\u00f3cio que vive ali, fazem parte da paisagem urbana.<\/p>\n<p>O munic\u00edpio se consolidou como um importante centro de abastecimento de produtos, servi\u00e7os e oportunidades da regi\u00e3o. <a href=\"https:\/\/cidades.ibge.gov.br\/brasil\/mt\/sinop\/panorama\">De acordo com dados do IBGE<\/a>, cerca de 150 mil pessoas vivem em Sinop, que registrou um PIB per capita de mais de R$ 46 mil em 2019, superior \u00e0 m\u00e9dia nacional daquele ano \u2014 de cerca de R$ 35 mil.<\/p>\n<p>At\u00e9 chegar a esse ponto, Sinop <a href=\"https:\/\/journals.openedition.org\/confins\/44549#tocto1n2\">viveu outros ciclos<\/a> produtivos. O primeiro, que coincidiu com a funda\u00e7\u00e3o da cidade, foi o da extra\u00e7\u00e3o e venda da madeira. &#8220;A extra\u00e7\u00e3o da madeira \u00e9 que pagava as contas do in\u00edcio da mecaniza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola [como era chamado o desmatamento] que eu fazia na \u00e9poca. Era comum se procurar novas fronteiras agr\u00edcolas&#8221;, conta Leitzke.<\/p>\n<p>Uma vez abertas as cidades, a regi\u00e3o viveu o ciclo da pecu\u00e1ria, uma forma de ocupar esses espa\u00e7os abertos com baixo custo. E, por \u00faltimo, nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas, veio o <em>boom<\/em> da soja e do milho.<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<figure id=\"attachment_58326\" aria-describedby=\"caption-attachment-58326\" style=\"width: 2000px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-58326 size-full\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2022\/09\/Avenida-central-de-Sinop.-Vias-sao-asfaltadas-e-por-elas-cruzam-veiculos-importados-embora-seja-uma-cidade-agricola-1-scaled.jpg\" alt=\"Avenida central de Sinop. Vias s\u00e3o asfaltadas e por elas cruzam ve\u00edculos importados, embora seja uma cidade agr\u00edcola\" width=\"2000\" height=\"1333\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-58326\" class=\"wp-caption-text\">Avenida central de Sinop. Vias s\u00e3o asfaltadas e por elas cruzam ve\u00edculos importados, embora seja uma cidade agr\u00edcola (Imagem: Felipe Betim \/ Di\u00e1logo Chino)<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/div>Toda essa pujan\u00e7a atraiu o capital multinacional das <em>traders<\/em>, como Bunge e Cargill, dos Estados Unidos, a chinesa Cofco e a brasileira Amaggi. S\u00e3o essas empresas que fazem a intermedia\u00e7\u00e3o entre agricultores e compradores, al\u00e9m de terem trazido cr\u00e9ditos, insumos e t\u00e9cnicas que impulsionam a monocultura brasileira.<\/p>\n<p>Contraditoriamente, a propaganda difundida pelo governo militar afirmava que a Amaz\u00f4nia era alvo da &#8220;cobi\u00e7a estrangeira&#8221;, sobretudo dos Estados Unidos. A coloniza\u00e7\u00e3o do bioma serviria, portanto, para defender o territ\u00f3rio de uma amea\u00e7a iminente \u2014 uma vis\u00e3o nacionalista que encontra ecos at\u00e9 hoje na pol\u00edtica.<\/p>\n<p>&#8220;Existia uma grande press\u00e3o internacional para que a Amaz\u00f4nia n\u00e3o fosse brasileira, que ela fosse pertencer ao mundo&#8221;, lembra Leitzke. &#8220;A ideia era botar o povo brasileiro na Amaz\u00f4nia&#8221;.<\/p>\n<p><em>Ou\u00e7a <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/show\/4OShpL0AYLDaOUUfESu6FS\"><strong>aqui<\/strong><\/a> o primeiro epis\u00f3dio de Amaz\u00f4nia Ocupada, ou ou\u00e7a na <a href=\"https:\/\/podcasts.apple.com\/us\/podcast\/amazon-occupied\/id1645133461\">Apple<\/a>, <a href=\"https:\/\/music.amazon.com.br\/podcasts\/ee93d912-6195-4312-8ece-46d2f2fa456e\">Amazon<\/a> ou <a href=\"https:\/\/deezer.page.link\/iX6hK3fMyK1NZxDx5\">Deezer<\/a>. O segundo epis\u00f3dio e o artigo que o acompanha ser\u00e3o lan\u00e7ados na segunda-feira (19).<\/em><\/p>\n<div style=\"position: static !important;\"><\/div>\n<div style=\"position: static !important;\"><\/div>\n<div style=\"position: static !important;\"><\/div>\n<div style=\"position: static !important;\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em novo podcast, narramos o processo desde os anos 1970 em que militares promoveram ocupa\u00e7\u00e3o da floresta, atraindo imigrantes para desmatar e desenvolver agropecu\u00e1ria<\/p>\n","protected":false},"featured_media":50058531,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","categories":[50039926],"tags":[50003600,50003594,50029815],"country":[50003526],"class_list":["post-50058302","podcast","type-podcast","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","category-florestas","tag-amazonia-pt-br","tag-desmatamento","tag-soja-pt-br-2","country-brasil-pt-br"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is 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