{"id":50005667,"date":"2016-03-22T17:08:58","date_gmt":"2016-03-22T17:08:58","guid":{"rendered":"https:\/\/stage.dialogochino.net\/?p=5667"},"modified":"2023-05-09T17:24:07","modified_gmt":"2023-05-09T16:24:07","slug":"5638-nova-era-na-relacao-eua-com-cuba-e-argentina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogue.earth\/pt-br\/negocios\/5638-nova-era-na-relacao-eua-com-cuba-e-argentina\/","title":{"rendered":"Nova era na rela\u00e7\u00e3o EUA com Cuba e Argentina"},"content":{"rendered":"<p>Pela primeira vez em 88 anos, um presidente dos Estados Unidos fez uma visita oficial a Cuba. A viagem hist\u00f3rica de Barack Obama \u00e0 ilha caribenha, advers\u00e1ria de longa data dos Estados Unidos na Am\u00e9rica Latina, ser\u00e1 seguida de uma visita a um rival mais recente: a Argentina, pa\u00eds que n\u00e3o recebe um chefe de estado norte-americano h\u00e1 quase 20 anos. Neste meio tempo, a China tornou-se um dos principais investidores na Am\u00e9rica Latina. Hoje, \u00e9 a segunda maior parceira comercial tanto de Cuba quanto da Argentina. Em entrevista ao Di\u00e1logo Chino, especialistas discutem o que a viagem de Obama e a normaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es com Cuba e Argentina dizem sobre o desenvolvimento da Am\u00e9rica Latina e sua rela\u00e7\u00e3o com a China. &nbsp; <em><strong>Gonzalo Paz, <a href=\"https:\/\/www.georgetown.edu\/\">Georgetown &nbsp;University<\/a><\/strong><\/em> A visita do Presidente Obama a Cuba e \u00e0 Argentina ser\u00e1, claramente, uma parte importante do \u201crecorde\u201d dos dois per\u00edodos de Obama frente \u00e0 Casa Branca. No caso de Cuba, v\u00e1rios processos est\u00e3o sendo desenvolvidos simultaneamente: a aproxima\u00e7\u00e3o progressiva entre Washington e Havana (com a interven\u00e7\u00e3o inicial do Papa Francisco), e a negocia\u00e7\u00e3o para atingir a paz na Col\u00f4mbia. Venezuela e China, os dois principais s\u00f3cios de Cuba, observam atentamente, o mesmo que fazem os pa\u00edses da ALBA (Alian\u00e7a Bolivariana para as Am\u00e9ricas), os companheiros de rota ideol\u00f3gicos da esquerda e o populismo latino-americano. A atitude positiva de Cuba &#8211; a campe\u00e3 da esquerda latino-americana \u2013 em rela\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos desconcerta a esquerda na regi\u00e3o. Ao visitar Cuba, Obama desativa ou atenua algumas das cr\u00edticas mais importantes dessa esquerda contra os Estados Unidos, que j\u00e1 vem de d\u00e9cadas. O principal ponto, no caso da visita \u00e0 Argentina, \u00e9 reconstruir uma <a href=\"http:\/\/stage.dialogochino.net\/argentina-e-china-uma-relacao-desigual\/?lang=pt-pt\">rela\u00e7\u00e3o bilateral<\/a> que historicamente teve muitas mudan\u00e7as, altos e baixos, e que durante as administra\u00e7\u00f5es de N\u00e9stor Kirchner e Cristina Kirchner foi se deteriorando progressivamente, algumas vezes por interesses diferentes, quase sempre por diferen\u00e7as ideol\u00f3gicas. O novo presidente da Argentina, <a href=\"http:\/\/stage.dialogochino.net\/macri-vai-rever-acordos-com-china\/?lang=pt-pt\">Mauricio Macri<\/a>, considera importante contar com a colabora\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos para abordar problemas cruciais, como a luta contra o narcotr\u00e1fico, o terrorismo e a situa\u00e7\u00e3o financeira. Somando-se a isso, busca manter uma boa rela\u00e7\u00e3o com a China e a R\u00fassia, mas sem deixar perceber que s\u00e3o os \u00fanicos ou os principais aliados da Argentina internacionalmente. Um dos temas recorrentes no caso de Cuba e Argentina em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 China, relevante para ser discutido durante a visita, \u00e9 que na \u00faltima d\u00e9cada e meia Pequim ressaltou o componente econ\u00f4mico da rela\u00e7\u00e3o com a regi\u00e3o e, frequentemente, tratou de diminuir a import\u00e2ncia dos aspectos pol\u00edticos. O certo \u00e9 que <a href=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2016\/03\/ARTICLE-GONZALO-S-PAZ-CHINA-QUARTERLY-March-2012-1.pdf\">o antiamericanismo (e\/ou anti-imperialismo) criou oportunidades importantes para a China<\/a>. A relev\u00e2ncia deste fator n\u00e3o pode ser menosprezada. Adverti, h\u00e1 algum tempo, que seria um grave erro chin\u00eas assumir que o antiamericanismo existente em muitos pa\u00edses e setores das sociedades latino-americanas n\u00e3o podia ser confundido como uma atitude a seu favor. E isso porque, atr\u00e1s dessa consci\u00eancia n\u00e3o s\u00f3 existem posi\u00e7\u00f5es de esquerda, mas, tamb\u00e9m, o nacionalismo, sendo que este elemento nacionalista pode funcionar como antiamericanismo e, ao mesmo tempo, ou sequencialmente, como um movimento contr\u00e1rio aos chineses. Isto se viu claramente na Argentina com as cr\u00edticas \u00e0 instala\u00e7\u00e3o da base do espa\u00e7o profundo na Patag\u00f4nia, para apoiar o programa espacial de China, ou com os protestos de ind\u00edgenas e camponeses no <a href=\"http:\/\/stage.dialogochino.net\/protestos-violentos-desafiam-cooperacao-china-peru-na-area-de-mineracao\/?lang=pt-pt\">Peru<\/a> e <a href=\"http:\/\/stage.dialogochino.net\/protesto-indigena-coloca-em-xeque-governo-do-equador\/?lang=pt-pt\">Equador<\/a>, contra a minera\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo por parte de empresas chinesas. Mesmo que essa aproxima\u00e7\u00e3o entre os Estados Unidos, Cuba e Argentina tenha uma din\u00e2mica das pr\u00f3prias rela\u00e7\u00f5es bilaterais entre pa\u00edses, um efeito muito importante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 China \u00e9 diminuir a possibilidade de usar o antiamericanismo como justificativa de um estreitamento das rela\u00e7\u00f5es com o pa\u00eds asi\u00e1tico. <em><strong>Guy Edwards, codiretor do <a href=\"http:\/\/www.climatedevlab.brown.edu\/about.html\">Laborat\u00f3rio de Clima e Desenvolvimento<\/a>, da Brown University e associado da ONG <a href=\"http:\/\/stage.dialogochino.net\/obamas-cuba-and-argentina-visits-usher-in-new-era\/nivela.org\">Nivela<\/a><\/strong><\/em> As visitas do presidente Obama a Cuba e \u00e0 Argentina vir\u00e3o em um momento importante, ap\u00f3s a ado\u00e7\u00e3o do <a href=\"http:\/\/stage.dialogochino.net\/acordo-de-paris-traz-esperanca-a-luta-contra-as-mudancas-climaticas\/?lang=pt-pt\">Acordo de Paris <\/a>sobre as Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas em dezembro do ano passado. A derradeira visita de Obama \u00e0 regi\u00e3o e a primeira de um presidente americano a Cuba em quase 90 anos poder\u00e1 desencadear o in\u00edcio de uma nova era, no que diz respeito \u00e0s rela\u00e7\u00f5es hemisf\u00e9ricas. Sua ida \u00e0 Argentina para encontrar o presidente Mauricio Macri tamb\u00e9m pode significar um rein\u00edcio das rela\u00e7\u00f5es EUA-Argentina. Estas viagens acontecem em um momento em que as rela\u00e7\u00f5es entre Estados Unidos e Am\u00e9rica Latina t\u00eam sido analisadas cada vez mais no contexto da crescente presen\u00e7a chinesa na regi\u00e3o. De maneira geral, apesar do <a href=\"http:\/\/stage.dialogochino.net\/china-e-forte-promotora-da-degradacao-ambiental-na-america-latina\/?lang=pt-pt\">avan\u00e7o r\u00e1pido da China na Am\u00e9rica Latina<\/a>, os Estados Unidos mant\u00eam boas rela\u00e7\u00f5es com os pa\u00edses latino-americanos (com exce\u00e7\u00e3o das dificuldades pol\u00edticas relacionadas \u00e0 Venezuela). O presidente Obama pode encontrar alguns importantes pontos em comum a serem discutidos com seus anfitri\u00f5es no que diz respeito \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, pontos estes que os chineses ainda n\u00e3o come\u00e7aram a realmente explorar. Por meio da Parceria sobre Energia e Clima das Am\u00e9ricas (<a href=\"http:\/\/ecpamericas.org\/\">ECPA<\/a>), os Estados Unidos est\u00e3o trabalhando com v\u00e1rios pa\u00edses latino-americanos para promover energia renov\u00e1vel, florestas sustent\u00e1veis e efici\u00eancia energ\u00e9tica. Atualmente, a China n\u00e3o desenvolve uma iniciativa compar\u00e1vel na regi\u00e3o. Obama poder\u00e1 basear-se na ECPA e no Acordo de Paris para discutir os <a href=\"http:\/\/stage.dialogochino.net\/eleitores-argentinos-nao-se-interessam-por-meio-ambiente\/?lang=pt-pt\">planos clim\u00e1ticos nacionais<\/a> da Argentina e de Cuba, analisando como a coopera\u00e7\u00e3o e os investimentos dos Estados Unidos poder\u00e3o ajudar. Cuba tem planos de produzir 24% de sua eletricidade a partir de fontes renov\u00e1veis at\u00e9 2030, enquanto a Argentina pretende aumentar a participa\u00e7\u00e3o de renov\u00e1veis na matriz energ\u00e9tica do pa\u00eds para 20% ao longo da pr\u00f3xima d\u00e9cada. A Argentina possui algumas das maiores reservas naturais de <a href=\"http:\/\/stage.dialogochino.net\/a-china-de-olho-na-riqueza-das-minas-argentinas-2\/?lang=pt-pt\">g\u00e1s de xisto <\/a>no mundo. Em primeiro lugar, o presidente Obama deve dar prioridade \u00e0s discuss\u00f5es sobre as oportunidades de desenvolvimento do potencial de energia renov\u00e1vel da Argentina. Em ambos os casos, a visita de Obama pode servir como um empurr\u00e3ozinho para que oficiais argentinos e cubanos incentivem bancos e investidores chineses a fomentarem mais as impressionantes oportunidades de desenvolvimento com baixo carbono e energias renov\u00e1veis, ao inv\u00e9s de manterem o atual foco na extra\u00e7\u00e3o de recursos naturais. <em><strong>Gerardo Munck, <a href=\"https:\/\/dornsife.usc.edu\/cf\/faculty-and-staff\/faculty.cfm?pid=1003560\">University of Southern California<\/a><\/strong><\/em> A visita do Presidente Obama a Cuba e \u00e0 Argentina acontece no \u00faltimo ano de seu segundo mandato. Ou seja, este n\u00e3o \u00e9 um momento em que a administra\u00e7\u00e3o de Obama possa lan\u00e7ar iniciativas ambiciosas. A aten\u00e7\u00e3o, nos Estados Unidos, est\u00e1 voltada para a corrida eleitoral que vai eleger o pr\u00f3ximo presidente. Por\u00e9m esta viagem, especialmente em sua etapa caribenha, \u00e9 significativa. A visita de Obama a Cuba \u00e9 hist\u00f3rica, e consolida a recente mudan\u00e7a nas suas rela\u00e7\u00f5es com os Estados Unidos, que incluiu o restabelecimento de rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas formais no<a href=\"http:\/\/stage.dialogochino.net\/mudanca-climatica-e-tema-na-cupula-das-americas\/?lang=pt-pt\"> ano passado<\/a>. Mesmo que os candidatos republicanos anunciem sua oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica de Obama com Cuba, e sabendo que falta muito por fazer para normalizar plenamente as rela\u00e7\u00f5es entre os dois pa\u00edses, o esfor\u00e7o do presidente americano para superar este legado da guerra fria certamente ser\u00e1 lembrado como uma das suas grandes conquistas. Sem desconhecer o papel do Presidente Raul Castro, o corajoso deslocamento de Obama transformou o tabuleiro das rela\u00e7\u00f5es entre os Estados Unidos e a Am\u00e9rica Latina. A visita \u00e0 Argentina se ajusta a outro eixo de conflito, o conflito aberto pelo surgimento de governos populistas de esquerda, especialmente na Am\u00e9rica do Sul. A recente elei\u00e7\u00e3o do Presidente Macri na Argentina colocou fim ao ciclo kirchnerista e \u00e9 o sinal mais claro do retrocesso dessa tend\u00eancia que teve Hugo Ch\u00e1vez como seu l\u00edder mais vis\u00edvel. E \u00e9 claro que, ao visitar a Argentina, o Presidente Obama quer mostrar seu apoio a esta nova pol\u00edtica, ainda incipiente na Am\u00e9rica do Sul. Entretanto, a influ\u00eancia de Obama sobre este processo vai ser muito pequena. A reacomoda\u00e7\u00e3o das for\u00e7as pol\u00edticas, que tiveram um importante dom\u00ednio na Am\u00e9rica do Sul h\u00e1 alguns anos, ser\u00e1 uma quest\u00e3o chave nos pr\u00f3ximos anos. Mas esse \u00e9 um desafio que dever\u00e1 ser enfrentado pelo pr\u00f3ximo presidente dos Estados Unidos. <em><strong>Marcos Azambuja, membro <a href=\"http:\/\/www.cebri.org\/\">Centro Brasileiro de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais<\/a> e ex-embaixador do Brasil na Fran\u00e7a e na Argentina<\/strong><\/em> A visita de Obama a Cuba encerra um dos \u00faltimos vest\u00edgios da Guerra Fria.&nbsp; O Muro de Berlim j\u00e1 caiu e o Pacto de Vars\u00f3via \u00e9, hoje, parte da hist\u00f3ria. O Vietn\u00e3 \u00e9 um vigoroso parceiro e rival das democracias industrializadas na produ\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os. Washington e Havana j\u00e1 trocaram Embaixadas, mas faltava o gesto maior de uma visita presidencial \u00e0 ilha para marcar, com solenidade, o fim de um ciclo de tens\u00f5es e enfrentamentos relativamente longo e certamente muito perigoso da vida internacional. O momento de maior risco da Guerra Fria foi a chamada crise dos m\u00edsseis, em novembro de 1962, quando o mundo viveu a imin\u00eancia de um catastr\u00f3fico conflito nuclear entre as ent\u00e3o duas Superpot\u00eancias. Ao celebrar o momento que vivemos n\u00e3o quero parecer ing\u00eanuo em meu otimismo; entre Washington e Havana grandes problemas perduram. O embargo econ\u00f4mico n\u00e3o foi abolido. Guant\u00e1namo persiste como uma fonte de disc\u00f3rdias. Obama vive os \u00faltimos meses de seu segundo mandato e \u00e9 prov\u00e1vel que um eventual sucessor republicano desfa\u00e7a boa parte do avan\u00e7o que hoje se comemora. N\u00e3o fa\u00e7o, contudo, previs\u00f5es. A ideia mesma de que um Presidente afrodescendente dos Estados Unidos visitaria Cuba com a sua mulher e filhas enquanto Fidel Castro, embora fragilizado pela doen\u00e7a e pela idade, continua vivo com seu irm\u00e3o e fiel seguidor no comando do governo, teria sido considerada at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s um disparate. Devemos estar prontos para novas surpresas, mas, pessoalmente, acredito que os ventos da Guerra Fria j\u00e1 se dissiparam no Caribe e que os dois pa\u00edses viraram a p\u00e1gina ao abrirem um novo cap\u00edtulo de suas rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pela primeira vez em 88 anos, um presidente dos Estados Unidos fez uma visita oficial a Cuba. 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