{"id":50006145,"date":"2016-05-11T11:42:43","date_gmt":"2016-05-11T10:42:43","guid":{"rendered":"https:\/\/stage.dialogochino.net\/?p=6145"},"modified":"2023-05-23T17:26:52","modified_gmt":"2023-05-23T16:26:52","slug":"6117-china-a-beira-de-um-conflito-pesqueiro-na-america-do-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogue.earth\/pt-br\/oceanos\/6117-china-a-beira-de-um-conflito-pesqueiro-na-america-do-sul\/","title":{"rendered":"China \u00e0 beira de um conflito pesqueiro na Am\u00e9rica do Sul"},"content":{"rendered":"<p>O m\u00eas de mar\u00e7o de 2016 ser\u00e1 lembrado pelo abalo diplom\u00e1tico entre China e Argentina. Em somente 10 dias, duas embarca\u00e7\u00f5es pesqueiras chinesas foram <a href=\"http:\/\/stage.dialogochino.net\/argentina-endurece-posicao-contra-pesca-ilegal\/?lang=pt-pt\">metralhadas<\/a> pela guarda-costeira do pa\u00eds sul-americano enquanto fugiam de sua Zona Econ\u00f4mica Exclusiva (ZEE); uma delas n\u00e3o conseguiu evadir-se levando sua tripula\u00e7\u00e3o para alto mar e descansa nas profundezas do Atl\u00e2ntico Sul. Um fato excepcional e que teve repercuss\u00e3o na m\u00eddia global. O barco pesqueiro que conseguiu fugir, o Hua Li 8, acabou <a href=\"http:\/\/www.fis.com\/fis\/worldnews\/worldnews.asp?monthyear=&amp;day=26&amp;id=83877&amp;l=e&amp;special=0&amp;ndb=0\">sendo capturado<\/a> enquanto cruzava \u00e1guas da Indon\u00e9sia que, por sua vez, aproveitou o pedido de captura internacional da Interpol para continuar sua luta contra a pesca pirata. A sucess\u00e3o de incidentes com a Marinha Argentina n\u00e3o escapou da agenda governamental chinesa, depois que sua embaixada em Buenos Aires pediu oficialmente uma investiga\u00e7\u00e3o sobre o naufr\u00e1gio do Lu Yan Yuan Yu 010. Estes fatos, que podem parecer extraordin\u00e1rios, n\u00e3o surpreendem quem conhece o contexto da pesca global e regional. Significaram, por\u00e9m, um duro recado \u00e0 comunidade internacional e s\u00e3o uma advert\u00eancia sobre a import\u00e2ncia de uma melhor coordena\u00e7\u00e3o na prote\u00e7\u00e3o dos ecossistemas marinhos vulner\u00e1veis. <strong>Uma regi\u00e3o \u00fanica<\/strong> O Atl\u00e2ntico Sul \u00e9 uma das regi\u00f5es com maior biodiversidade marinha do planeta.&nbsp;O encontro da corrente mar\u00edtima quente do Brasil com a corrente fria das Malvinas, junto com um fundo oce\u00e2nico semelhante a uma extensa plan\u00edcie, que termina em uma abrupta queda, s\u00e3o algumas das caracter\u00edsticas que fazem com que a vida marinha seja abundante em todas suas formas, com uma grande variedade de esp\u00e9cies \u00edcticas, mam\u00edferos marinhos e aves. Devido ao conflito de soberania entre Argentina e Reino Unido, n\u00e3o prosperaram as tentativas de ambos os pa\u00edses para regulamentar a pesca na regi\u00e3o e expulsar os barcos IUU (de pesca Ilegal, N\u00e3o Regulada e N\u00e3o Registrada). Isso levou o Reino Unido a optar pela alternativa de liberar a zona sob sua jurisdi\u00e7\u00e3o a qualquer barco que pague uma taxa anual, sem nenhum requisito de seguran\u00e7a trabalhista ou ambiental e sem nenhum tipo de fiscaliza\u00e7\u00e3o sobre a realiza\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas pesqueiras. Para a Argentina, \u00e9 quase imposs\u00edvel um controle 100% efetivo dos milhares de quil\u00f4metros de fronteira mar\u00edtima para evitar a entrada ilegal de barcos na sua ZEE. Suas inten\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas para resolver a pesca ilegal ao longo dessa \u00e1rea, al\u00e9m das \u00e1guas internacionais divis\u00f3rias, foram in\u00fateis ou inexistentes. Tudo isso junto \u00e9 uma mistura perfeita para uma frota de barcos que aproveita o descontrole, a aus\u00eancia de acordos regionais e a falta de um organismo multilateral que regule e limite a explora\u00e7\u00e3o. <strong>Os oceanos vazios<\/strong> De acordo com os mais recentes <a href=\"http:\/\/www.fao.org\/3\/a-i3720e\/index.html\">relat\u00f3rios<\/a> da FAO &#8211; ONU, 90% das zonas pesqueiras do mundo est\u00e3o superexploradas no seu limite m\u00e1ximo ou em colapso. Poucas regi\u00f5es escapam desta realidade. O Atl\u00e2ntico Sul, a partir do final da d\u00e9cada de 90, passou a fazer parte dessa estat\u00edstica, colapsado pela entrada descontrolada e massiva da frota espanhola no Mar Argentino, autorizada pelo Governo da \u00e9poca. Atualmente, s\u00f3 falta identificar se a zona pesqueira est\u00e1 esgotada, plenamente explorada ou superexplorada, j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que preenche a estat\u00edstica mais sombria. Durante as duas \u00faltimas d\u00e9cadas, a frota de embarca\u00e7\u00f5es de grande porte da China procurou novas zonas de pesca, devido \u00e0 not\u00f3ria escassez em seu mar jurisdicional, o aumento do consumo interno e a crescente resist\u00eancia dos pa\u00edses da \u00c1sia e da Oceania aos novos acordos pesqueiros com o gigante asi\u00e1tico. Entre os aproximadamente 500 barcos estrangeiros que operam no Atl\u00e2ntico Sul Ocidental, a bandeira que mais tremula \u00e9 a da China, com 45% do total, seguida por Taiwan, com 20%, Coreia do Sul, com 17% e Espanha com 13% (alguns com bandeira das Ilhas Malvinas). Uma das raz\u00f5es para que estas cidades flutuantes se mantenham durante anos pescando nas \u00e1guas do hemisf\u00e9rio sul \u00e9 o apoio log\u00edstico que recebem do Porto de Montevid\u00e9u e do Porto Argentino, nas Malvinas. Se assim n\u00e3o fosse, os custos para permanecer na regi\u00e3o seriam pouco atrativos, sem contar que <a href=\"http:\/\/www.fis.com\/attach_fck\/Lista%20incidentes(1).pdf\">a m\u00e3o de obra escrava<\/a> e a inexist\u00eancia de regulamenta\u00e7\u00f5es ambientais e de seguran\u00e7a diminuem ainda mais os custos de opera\u00e7\u00e3o. <strong>Um porto chin\u00eas no Uruguai<\/strong> A China \u00e9 um grande <a href=\"http:\/\/stage.dialogochino.net\/china-deixa-de-receber-tratamento-privilegiado-da-argentina\/?lang=pt-pt\">investidor<\/a> na Argentina, mas at\u00e9 agora n\u00e3o havia feito investimentos de maneira t\u00e3o not\u00f3ria no pa\u00eds vizinho, o Uruguai. A grande aflu\u00eancia dos barcos pesqueiros e reefers (reabastecimento e armazenamento refrigerado) ao Porto de Montevid\u00e9u motivou uma empresa chinesa a <a href=\"http:\/\/www.republica.com.uy\/empresa-china-3\/564689\/\">propor investir<\/a> US$200 milh\u00f5es em um porto pesqueiro no Uruguai, junto a oficinas de conserto de barcos e facilidades para congelar o pescado. Se concretizada a constru\u00e7\u00e3o do Porto por parte da Companhia de Pesca no Uruguai, a China obteria, na pr\u00e1tica, uma por\u00e7\u00e3o da soberania no Atl\u00e2ntico Sul, como aconteceu com a f\u00e1brica de celulose finlandesa, instalada na margem oriental do Rio Uruguai, que conta com uma Zona Franca que lhe permite despachar os barcos sem a intromiss\u00e3o do governo uruguaio. Literalmente, a China passaria a ter dom\u00ednio no Rio da Prata, uma vantagem log\u00edstica e comercial que se transformaria em um atrativo extra para as frotas pesqueiras migrat\u00f3rias. <strong>Impactos ambientais inestim\u00e1veis<\/strong> A principal esp\u00e9cie procurada pela frota IUU \u00e9 o calamar (<em>Illex argentinus<\/em>) ou lula, seguida da merluza de cola ou \u2018hoki\u2019, a merluza comum, a merluza negra (tamb\u00e9m chamada bacalhau de profundidade), a polaca e o calamarete. O calamar \u00e9 uma das principais fontes de alimento da merluza (a outra principal esp\u00e9cie comercial do Mar Argentino), al\u00e9m de ser tamb\u00e9m uma importante fonte aliment\u00edcia para esp\u00e9cies de delfins, baleias e aves, como os pinguins. O calamar \u00e9 uma esp\u00e9cie que, em seu ciclo migrat\u00f3rio (e de vida) anual, entra na ZEE do Brasil, Uruguai, Argentina, a zona circundante das Malvinas e em \u00e1guas internacionais. Ainda que n\u00e3o existam estudos cient\u00edficos abundantes sobre os impactos no ecossistema, foram documentadas grandes diminui\u00e7\u00f5es nas popula\u00e7\u00f5es de pinguins e elefantes marinhos nas Malvinas. Nos primeiros, de at\u00e9 80% nas popula\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas. Tamb\u00e9m foi comprovado que essas e outras esp\u00e9cies se alimentam nas zonas de maior intensidade pesqueira. S\u00e3o desconhecidos os volumes exatos da pesca, mas estima-se que somente de calamar a frota estrangeira captura mais de <a href=\"http:\/\/pescare.com.ar\/capturas-de-calamar-por-potero\/),\">600 mil toneladas anuais<\/a>, o equivalente a US$ 600 milh\u00f5es, levando\u2013se em conta o pre\u00e7o de mercado, em 2015, de U$S 1.000 a tonelada. Pouco se sabe do resto das esp\u00e9cies, e n\u00e3o se conhece absolutamente nada da captura incidental; n\u00e3o existe, tamb\u00e9m, controle sobre o tamanho ou a idade dos exemplares capturados, o que causa um forte impacto na capacidade de renova\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m dos impactos da superexplora\u00e7\u00e3o, captura incidental e rejeitos, existem outros impactos ambientais severos, como a polui\u00e7\u00e3o do mar: todas as descargas de \u00f3leo, combust\u00edveis, subst\u00e2ncias t\u00f3xicas e lixo acontecem impunemente, sem que se conhe\u00e7a as dimens\u00f5es do dano. <strong>Redu\u00e7\u00e3o e controle<\/strong> Para evitar o colapso do ecossistema do Atl\u00e2ntico Sul, \u00e9 necess\u00e1rio come\u00e7ar a reduzir o esfor\u00e7o pesqueiro e exercer controle sobre todos os barcos que operem na regi\u00e3o. Todos os barcos tamb\u00e9m precisam cumprir as regulamenta\u00e7\u00f5es trabalhistas exigidas pela Organiza\u00e7\u00e3o Mar\u00edtima Internacional e contar com observadores a bordo, designados multilateralmente pelos pa\u00edses da regi\u00e3o. Devem obedecer todas as medidas de pesca necess\u00e1rias, tendo em vista o princ\u00edpio da preven\u00e7\u00e3o, incluindo a proibi\u00e7\u00e3o de by-catch e transbordos em alto mar. Os lan\u00e7amentos de lixo e res\u00edduos em alto mar devem ser proibidos. O controle no Porto, a esta frota, deve ser transparente e as apreens\u00f5es de embarca\u00e7\u00f5es e\/ou poss\u00edveis incidentes t\u00eam que ser de conhecimento p\u00fablico. Mais ainda, nenhum barco envolvido em qualquer ato il\u00edcito pode ser autorizado a pescar na regi\u00e3o, seja na ZEE ou em \u00e1guas internacionais circundantes. O sistema de identifica\u00e7\u00e3o por sat\u00e9lite de cada embarca\u00e7\u00e3o deve ser obrigat\u00f3rio e permanente. De acordo com a an\u00e1lise dos dados de sat\u00e9lites, da investiga\u00e7\u00e3o de embarca\u00e7\u00f5es e empresas e tamb\u00e9m dos incidentes ocorridos na regi\u00e3o, o cumprimento desses requisitos resultar\u00e1 na redu\u00e7\u00e3o da frota do total de barcos em 20% ou menos do total atual. O simples fato de ter uma anota\u00e7\u00e3o de ilegalidade no prontu\u00e1rio deixar\u00e1 fora de opera\u00e7\u00e3o 30% da frota de mais de 400 embarca\u00e7\u00f5es identificadas que operam na zona. As bandeiras e empresas que quiserem pescar na regi\u00e3o ter\u00e3o que respeitar a sustentabilidade e a salubridade do ecossistema, a dignidade dos trabalhadores, as economias locais e a seguran\u00e7a da navega\u00e7\u00e3o. A recente onda de incidentes que envolvem barcos de bandeira chinesa, nos mares de outros pa\u00edses, deve servir para uma reavalia\u00e7\u00e3o do comportamento pesqueiro do pa\u00eds com a maior frota do mundo. A aus\u00eancia de uma mudan\u00e7a de conduta na atividade levar\u00e1 a mais incidentes, de caracter\u00edsticas mais s\u00e9rias que as ocorridas nestes dias, com consequ\u00eancias ainda piores. O oceano n\u00e3o \u00e9 infinito, isso se sabia h\u00e1 s\u00e9culos, as esp\u00e9cies que o habitam tampouco, esse \u00e9 um fato sabido pela sociedade e cada vez sustentado com maior firmeza pelos Estados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recentes incidentes refor\u00e7am necessidade de cuidar melhor dos mares<\/p>\n","protected":false},"author":40000225,"featured_media":50006114,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[50039947],"tags":[50040055,50029983,50029684],"hashtags":[],"country":[50003524,20000110,50003528],"class_list":["post-50006145","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-oceanos","tag-conflito-pt-br","tag-legislacao","tag-pesca-pt-br","country-argentina-pt-br","country-china","country-china-pt-br"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO Premium plugin 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