{"id":50008247,"date":"2017-01-04T12:00:41","date_gmt":"2017-01-04T12:00:41","guid":{"rendered":"https:\/\/stage.dialogochino.net\/?p=8247"},"modified":"2023-07-25T14:45:38","modified_gmt":"2023-07-25T13:45:38","slug":"8206-mulheres-sao-vitimas-das-mudancas-climaticas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogue.earth\/pt-br\/clima\/8206-mulheres-sao-vitimas-das-mudancas-climaticas\/","title":{"rendered":"Mulheres s\u00e3o v\u00edtimas das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas"},"content":{"rendered":"<p>Hafiza Khatun se lembra de uma manh\u00e3, h\u00e1 dois anos, em que seu marido havia voltado aflito correndo do trabalho para casa. A parede do dique que mantinha suas casas e campos protegidos do oceano no distrito de Cox Bazaar, em Bangladesh, havia se rompido de novo e a \u00e1gua do mar estava inundando a \u00e1rea. As planta\u00e7\u00f5es j\u00e1 n\u00e3o prosperariam ali e as casas e pertences tinham sido levados pelo saque das mar\u00e9s.<\/p>\n<p>O marido de Khatun, gerente de uma fazenda de folhas de betel (esp\u00e9cie de pimenteira t\u00edpica da \u00cdndia), estava desempregado. Eles resistiram por algum tempo, vendendo a maior parte do rebanho para sobreviver, mas no fim o marido precisou ir para a Mal\u00e1sia trabalhar. Ele partiu junto com 20 outros homens de aldeias vizinhas, viajando clandestinamente em um barco via Myanmar.<\/p>\n<p>Khatun ficou sozinha com tr\u00eas filhos pequenos. Pela manh\u00e3, trabalhava como empregada dom\u00e9stica para uma das fam\u00edlias mais abastadas da cidade; na parte da tarde, era trabalhadora rural em uma horta de folhas de betel. Embora o filho mais velho a ajudasse, os dois menores ficavam em casa, impossibilitados de frequentar a escola. A comida nunca era suficiente para os quatro. Khatun adoeceu. Sua condi\u00e7\u00e3o oscilava entre branda e grave o suficiente para afast\u00e1-la do trabalho, privando-a da renda di\u00e1ria de que eles t\u00e3o desesperadamente necessitavam.<\/p>\n<p>Um relat\u00f3rio divulgado no m\u00eas passado chamou aten\u00e7\u00e3o para o impacto devastador e crescente que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas exercem sobre a migra\u00e7\u00e3o no Sul da \u00c1sia. Intitulado \u201c<a href=\"http:\/\/www.actionaid.org\/publications\/climate-change-knows-no-borders\">Climate Change Knows no Borders<\/a>\u201d (Mudan\u00e7as clim\u00e1ticas n\u00e3o conhecem fronteiras, em portugu\u00eas), o relat\u00f3rio foi preparado pela ActionAid, Climate Action Network &#8211; Sul da \u00c1sia, e Brot Fuer Die Welt (P\u00e3o Para o Mundo), e faz um apelo para que os respons\u00e1veis pelas pol\u00edticas p\u00fablicas de cada pa\u00eds monitorem os impactos da migra\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica na vida das mulheres e que remediem, com urg\u00eancia, essa lacuna em suas pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<h2>Falta de seguran\u00e7a na migra\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>&#8220;Os direitos dos migrantes e os de suas fam\u00edlias est\u00e3o amea\u00e7ados pela falta de seguran\u00e7a do processo migrat\u00f3rio, que muitas vezes tem como base o desespero e a falta de op\u00e7\u00f5es provocadas por cat\u00e1strofes clim\u00e1ticas. Os impactos da migra\u00e7\u00e3o na popula\u00e7\u00e3o feminina, tanto nas mulheres que imigram quanto naquelas que s\u00e3o deixadas para tr\u00e1s, ainda n\u00e3o foi compreendido ou tratado de forma adequada pelas pol\u00edticas nacionais e internacionais\u201d, afirmou Harjeet Singh, l\u00edder de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas do ActionAid Global, ao indiaclimatedialogue.net.<\/p>\n<p>\u201cA migra\u00e7\u00e3o ambiental \u00e9 um processo que afeta os g\u00eaneros de forma diferente, mas as discuss\u00f5es que acontecem nas esferas p\u00fablicas, pol\u00edticas e acad\u00eamicas n\u00e3o costumam fazer essa diferencia\u00e7\u00e3o. Existem poucos estudos que contemplam a liga\u00e7\u00e3o entre a migra\u00e7\u00e3o, o ambiente e o g\u00eanero&#8221;, explicou a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional para as Migra\u00e7\u00f5es (OIM) em 2014, sinalizando a lacuna, durante o Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (PIMC), que no seu quinto relat\u00f3rio de avalia\u00e7\u00e3o diz ser \u201cprevisto que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas causem o aumento do deslocamento de pessoas ao longo deste s\u00e9culo&#8221;.<\/p>\n<p>De acordo com a OIM, as vulnerabilidades, as experi\u00eancias, as necessidades e as prioridades dos <a href=\"http:\/\/stage.dialogochino.net\/el-nino-calor-e-administracao-ruim-levam-seca-a-bolivia\/?lang=pt-pt\">migrantes ambientais<\/a> variam de acordo com os diferentes pap\u00e9is desempenhados por mulheres e homens, assim como suas responsabilidades, acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, recursos, educa\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a f\u00edsica e oportunidades de emprego.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio da ActionAid refletiu sobre os impactos dessa quest\u00e3o no Sul da \u00c1sia, advertindo: \u201cAs mulheres jovens do Nepal e de Bangladesh, pa\u00edses vizinhos, que imigram para a \u00cdndia, bem como as migrantes rurais que se mudam para os centros urbanos, encontram-se em situa\u00e7\u00e3o cada vez maior de vulnerabilidade ao abuso e ao tr\u00e1fico. \u00c9 frequente o uso de intermedi\u00e1rios conhecidos como \u201cagentes\u201d, que podem acabar se revelando traficantes, para ajudar as mulheres a encontrar trabalho. Quando elas chegam \u00e0s cidades, podem ser for\u00e7adas a trabalhar em bord\u00e9is&#8221;.<\/p>\n<p>O Relat\u00f3rio Global de 2016 sobre <a href=\"http:\/\/www.unodc.org\/documents\/data-and-analysis\/glotip\/2016_Global_Report_on_Trafficking_in_Persons.pdf\">Tr\u00e1fico de Pessoas<\/a>, divulgado pelo Escrit\u00f3rio das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) em dezembro do mesmo ano, diz que as mulheres e as meninas comp\u00f5em 71% das v\u00edtimas de tr\u00e1fico humano. Pela primeira vez, foi inclu\u00eddo um cap\u00edtulo tem\u00e1tico sobre as liga\u00e7\u00f5es entre tr\u00e1fico, migra\u00e7\u00e3o e conflitos, onde se ressalta que o tr\u00e1fico de pessoas e os fluxos migrat\u00f3rios se assemelham e aumentam a vulnerabilidade das v\u00edtimas de migra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada.<\/p>\n<p>Depois que repetidos eventos clim\u00e1ticos extremos ou de desenrolar mais lento reduzem as fam\u00edlias rurais \u00e0 extrema pobreza, aparece a migra\u00e7\u00e3o de mulheres mais jovens, geralmente filhas (mesmo as menores de idade). Esta parece ser, cada vez mais, a melhor op\u00e7\u00e3o para as fam\u00edlias, constatou um <a href=\"http:\/\/www.iom.int\/jahia\/webdav\/shared\/shared\/mainsite\/published_docs\/brochures_and_info_sheets\/Rural-Women-and-Migration-Fact-Sheet-2012.pdf\">estudo<\/a> da OIM.<\/p>\n<h2>Fator de atra\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Isso ocorre porque est\u00e1 crescendo a demanda por trabalhadores em nichos que exigem pouca qualifica\u00e7\u00e3o, mas que s\u00e3o altamente segregados por g\u00eanero, como o trabalho dom\u00e9stico e o de cuidados de crian\u00e7as e idosos. Mulheres migrantes bengalesas s\u00e3o vistas com frequ\u00eancia crescente em tais ocupa\u00e7\u00f5es nas cidades de Calcut\u00e1 e Mumbai, na \u00cdndia. Somadas \u00e0s demandas das ind\u00fastrias do vestu\u00e1rio e do entretenimento na \u00cdndia, este \u00e9 como um poderoso fator de atra\u00e7\u00e3o. Isso vem acontecendo porque, as mulheres das cidades do Sul da \u00c1sia, que tem forma\u00e7\u00e3o superior, vem exercendo cada vez mais carreiras profissionais fora de casa.<\/p>\n<p>Mesmo assim, os dados dispon\u00edveis indicam que a migra\u00e7\u00e3o masculina \u00e9 mais comum na regi\u00e3o. Milh\u00f5es de mulheres que como Hafeza Khatun s\u00e3o deixadas para tr\u00e1s e carregam um fardo esmagador.<\/p>\n<p>Pesquisas t\u00eam documentado que a carga de trabalho das mulheres que ficam para tr\u00e1s \u00e9 multiplicada exponencialmente devido \u00e0 natureza incerta do trabalho migrat\u00f3rio; as remessas de dinheiro dos homens migrantes s\u00e3o muitas vezes espor\u00e1dicas e incertas. A agricultura continua sendo uma atividade essencial para a sobreviv\u00eancia das fam\u00edlias que permanecem em seus lares, segundo um estudo do <a href=\"http:\/\/iwmi.cgiar.org\/\">Instituto Internacional de Gest\u00e3o da \u00c1gua<\/a> (IWMI).<\/p>\n<h2>Mulheres sobrecarregadas<\/h2>\n<p>As mulheres se responsabilizam n\u00e3o apenas pelas tarefas dom\u00e9sticas e o cuidado das crian\u00e7as e idosos, mas tamb\u00e9m pela gera\u00e7\u00e3o de renda pois, normalmente, assumem o papel dos maridos na agricultura. Elas n\u00e3o t\u00eam acesso ao capital ou a cr\u00e9dito, competem diretamente com homens na presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os agr\u00edcolas, cuja \u00e1rea \u00e9 inteiramente dominada por eles, e precisam ainda negociar v\u00e1rias barreiras culturais.<\/p>\n<p>As mulheres relatam exaust\u00e3o, pobreza e doen\u00e7a, e os campos v\u00e3o sendo deixados sem cultivo, enquanto elas lutam sozinhas para sobreviver. Em muitas \u00e1reas, essas mulheres s\u00e3o chamadas de vi\u00favas da seca ou de vi\u00favas da enchente, e relatam um aumento na incid\u00eancia de agress\u00f5es e viol\u00eancia. Quando acontecem desastres, como o terremoto de 2015 no Nepal, a falta de homens na aldeia pode colocar as comunidades em perigo ainda maior, informa o relat\u00f3rio da ActionAid.<\/p>\n<p>Os desafios enfrentados por mulheres que s\u00e3o migrantes ambientais j\u00e1 foram documentados, mas n\u00e3o existem dados estat\u00edsticos para a formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas eficazes. O cerne da quest\u00e3o \u00e9 que, embora seja prov\u00e1vel que a migra\u00e7\u00e3o provocada por desastres aumente ainda mais, n\u00e3o existem dados sistem\u00e1ticos e registros estat\u00edsticos sobre a migra\u00e7\u00e3o interna e a transfronteiri\u00e7a nos quais os governos possam basear suas pol\u00edticas.<\/p>\n<p>O <a href=\"http:\/\/www.iwmi.cgiar.org\/Publications\/infographics\/infographic-migration-matters.pdf?galog=no\">infogr\u00e1fico<\/a> do IWMI de 2016 demonstra que mais que 3,23 milh\u00f5es de migrantes origin\u00e1rios de Bangladesh vivem na \u00cdndia. O ministro do Interior da \u00cdndia informou ao Parlamento, em novembro, que <a href=\"http:\/\/timesofindia.indiatimes.com\/india\/Two-crore-Bangladeshi-immigrants-illegally-staying-in-India-Centre-informs-Rajya-Sabha\/articleshow\/55457903.cms\">20 milh\u00f5es de migrantes<\/a> bengaleses em situa\u00e7\u00e3o irregular, o equivalente \u00e0 popula\u00e7\u00e3o da Austr\u00e1lia, estavam na \u00cdndia. Em 2004, o Parlamento foi informado de que os dados de 2001 eram de 12 milh\u00f5es. Um relat\u00f3rio recente da revista <a href=\"http:\/\/www.economist.com\/news\/international\/21712137-flow-people-poor-countries-other-poor-countries-little-noticed\">The Economist<\/a> mencionou que 15 milh\u00f5es de bengaleses vivem na \u00cdndia, segundo um antigo chefe de pesquisa do servi\u00e7o de intelig\u00eancia externo da \u00cdndia, o Research and Analysis Wing (RAW). Um estudo da OIM realizado em 2016, intitulado \u201cMigrant Smuggling Data and Research: A global review of the emerging evidence base\u201d (Pesquisa e dados sobre a imigra\u00e7\u00e3o clandestina: uma revis\u00e3o global das evid\u00eancias emergentes, em portugu\u00eas), diz que por volta de 25.000 bengaleses entram na \u00cdndia anualmente.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o existam dados dispon\u00edveis relativos \u00e0 idade ou que considerem o sexo como vari\u00e1vel na an\u00e1lise da situa\u00e7\u00e3o dos migrantes de pa\u00edses vizinhos em situa\u00e7\u00e3o irregular na \u00cdndia, particularmente oriundos de Bangladesh e do Nepal, as estimativas podem ser inferidas atrav\u00e9s de um estudo de 2015 realizado pelo Alto Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Refugiados (ACNUR). Eles constataram que a popula\u00e7\u00e3o de migrantes irregulares que saiu de Bangladesh, Paquist\u00e3o, Sri Lanka e Nepal para pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio, como o Qatar, Bahrein, Om\u00e3, L\u00edbia, Kuwait, Ar\u00e1bia Saudita e Emirados \u00c1rabes Unidos, \u00e9 composta predominantemente por mulheres. Elas trabalham como empregadas dom\u00e9sticas.<\/p>\n<p>Em 2012, o Escrit\u00f3rio da UNODC do Sul da \u00c1sia afirmou que a \u00cdndia n\u00e3o mant\u00e9m um registro sistem\u00e1tico das migra\u00e7\u00f5es irregulares, quer seja estadual ou nacional. Entretanto, h\u00e1 uma clareza maior sobre a dimens\u00e3o das quest\u00f5es de g\u00eanero na migra\u00e7\u00e3o global. O Departamento das Na\u00e7\u00f5es Unidas de Assuntos Econ\u00f4micos e Sociais (UNDESA) estimou, em 2015, que havia cerca de 244 milh\u00f5es de migrantes no mundo, sendo que cerca de metade eram mulheres e meninas. A Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT) estimou, em 2013, que de um total de 150 milh\u00f5es de trabalhadores migrantes internacionais, 44% eram mulheres.<\/p>\n<p>O Atlas das Migra\u00e7\u00f5es Ambientais de 2016 da OIM, estudo mais recente e mais extenso sobre o assunto, afirma que, em 2015, 19 milh\u00f5es de pessoas foram deslocadas devido \u00e0 desastres clim\u00e1ticos no mundo todo. Este n\u00famero n\u00e3o inclui os deslocamentos devidos \u00e0s secas e outros fen\u00f4menos mais lentos de degrada\u00e7\u00e3o ambiental. De modo geral, podemos afirmar que um bilh\u00e3o dos sete bilh\u00f5es de pessoas do planeta est\u00e3o em movimento, dentro dos pa\u00edses ou al\u00e9m das fronteiras.<\/p>\n<p>A crescente participa\u00e7\u00e3o de mulheres com variados n\u00edveis de capacita\u00e7\u00e3o na migra\u00e7\u00e3o regional \u2013 for\u00e7ada ou volunt\u00e1ria \u2013 \u00e9 impulsionada, em grande parte, por fatores socioecon\u00f4micos. Isso faz aumentar a sensibilidade e o cuidado com que as leis, pol\u00edticas, programas e at\u00e9 mesmo estudos de migra\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica devam tratar as quest\u00f5es de g\u00eanero.<\/p>\n<h2>Resposta lenta<\/h2>\n<p>Fora a falta de dados concretos, \u00e9 preciso compreender o que mais vem impedindo os governos do Sul da \u00c1sia de agir de acordo com a urg\u00eancia necess\u00e1ria que a migra\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica exige. Tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio abordar a migra\u00e7\u00e3o por motivos econ\u00f4micos, tamb\u00e9m conhecida como migra\u00e7\u00e3o Sul-Sul, que vem acontecendo desde h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<p>Para um pobre bengal\u00eas que quer melhorar sua renda ou escapar da pobreza, a migra\u00e7\u00e3o irregular para a \u00cdndia custa apenas USD 40 a USD 60, incluindo o pagamento do traficante de migrantes, segundo os dados que constam no relat\u00f3rio \u201cMigrant Smuggling Data and Research\u201d (Estudos e dados sobre migra\u00e7\u00e3o clandestina, em portugu\u00eas) da OIM.<\/p>\n<p>\u201cA migra\u00e7\u00e3o sempre ocorreu no Sul da \u00c1sia, muito tempo antes de as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas se tornarem um problema. Os fatores de repuls\u00e3o incluem conflitos, pobreza, acesso \u00e0 terra e etnia; embora existam tamb\u00e9m muitos fatores de atra\u00e7\u00e3o, como o desenvolvimento, a subsist\u00eancia, o trabalho sazonal, a afinidade cultural e o acesso \u00e0 sa\u00fade e servi\u00e7os&#8221;, explica Singh, da ActionAids. &#8220;Por isso, pa\u00edses do Sul da \u00c1sia s\u00e3o lentos para reconhecer o papel das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas como um fator adicional de repuls\u00e3o e a entender como como isso est\u00e1 afetando a migra\u00e7\u00e3o. As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas s\u00e3o, portanto, praticamente invis\u00edveis no discurso sobre as migra\u00e7\u00f5es no Sul da \u00c1sia&#8221;.<\/p>\n<p>Quando a migra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, desencadeada por mudan\u00e7a clim\u00e1ticas extremas, \u00e9 somada \u00e0 migra\u00e7\u00e3o com fins econ\u00f4micos, as brigas por recursos e empregos, xenofobia e exclus\u00e3o pol\u00edtica s\u00e3o facilmente desencadeadas, como pode ser visto nas crises em curso na Europa. &#8220;H\u00e1 uma necessidade de definir claramente o que s\u00e3o as migra\u00e7\u00f5es e os deslocamentos clim\u00e1ticos, e estas defini\u00e7\u00f5es devem ser usadas pelos governos nacionais para coletar e analisar dados sobre o papel das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas na migra\u00e7\u00e3o, e no desenvolvimento de pol\u00edticas adequadas nesse sentido&#8221;, disse Singh.<\/p>\n<p>No Sul da \u00c1sia, e atualmente na maioria dos pa\u00edses, a redu\u00e7\u00e3o do risco de cat\u00e1strofes e o aumento da resili\u00eancia aos perigos do clima s\u00e3o um componente chave das pol\u00edticas que buscam diminuir a migra\u00e7\u00e3o causada por este tipo de adversidade. Considerando-se os altos n\u00edveis de pobreza, os baixos indicadores de desenvolvimento e a depend\u00eancia em grande escala da agricultura presente no Sul da \u00c1sia, a constru\u00e7\u00e3o dessa resili\u00eancia em um prazo aceit\u00e1vel continuar\u00e1 se mostrando um grande desafio. Um desafio que Hafiza Khatun continuar\u00e1 enfrentando por muitos anos pelo bem dos seus tr\u00eas filhos.<\/p>\n<p>Quando o barco se aproxima do p\u00eder pr\u00f3ximo \u00e0 vila Hariakhali, Khatun disputa um espa\u00e7o aos solavancos com v\u00e1rias outras mulheres esperan\u00e7osas, explorando com o olhar os rostos desgastados dos homens castigados pelo tempo que haviam sido resgatados de uma pris\u00e3o em Myanmar. Eles foram presos quando atracavam na costa em um barco de pesca, sem documentos; um por um, os homens reencontram suas esposas e filhos, felizes por terem seus pais de volta. Todos foram embora e, para Khatun, restou apenas o som das ondas quebrando na praia.<\/p>\n<p><em>Esta mat\u00e9ria foi publicada&nbsp;primeiramente&nbsp;pelo <\/em><em><a href=\"http:\/\/indiaclimatedialogue.net\/\">India Climate Dialogue<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reconhecimento do governo \u00e9 lento e n\u00e3o h\u00e1 a\u00e7\u00f5es 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