{"id":50016580,"date":"2018-12-05T10:57:50","date_gmt":"2018-12-05T10:57:50","guid":{"rendered":"https:\/\/stage.dialogochino.net\/?p=16580"},"modified":"2023-05-12T17:39:04","modified_gmt":"2023-05-12T16:39:04","slug":"15576-a-mineradora-chinesa-e-sua-cidade-fantasma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogue.earth\/pt-br\/justica\/15576-a-mineradora-chinesa-e-sua-cidade-fantasma\/","title":{"rendered":"A mineradora chinesa e sua cidade-fantasma"},"content":{"rendered":"<p><em>A mineradora Chinalco, que opera o projeto Toromocho, no Peru, construiu uma cidade para assentar as 5 mil pessoas desalojadas de Morococha, e assim poder extrair cobre do subsolo local. Seis anos depois de constru\u00eddo, o novo povoado n\u00e3o tem futuro econ\u00f4mico e logo ser\u00e1 uma cidade-fantasma.<\/em><\/p>\n<p><strong><em>Convoca.pe<\/em><\/strong><em>&nbsp;e&nbsp;<strong>Di\u00e1logo Chino<\/strong>&nbsp;visitaram esta mina, localizada a cinco horas de Lima, onde comprovaram que, em meio \u00e0 frustra\u00e7\u00e3o dos reassentados, existe um segundo conflito social: os \u00faltimos moradores, que se recusam a ser transferidos, est\u00e3o sendo despejados de suas terras, e seu futuro \u00e9 cada vez mais incerto.<\/em><\/p>\n<p>Entre as geladas montanhas da serra central do Peru, a quase 5 mil metros de altitude, resfriam as reclama\u00e7\u00f5es dos \u00faltimos habitantes da antiga Morococha. A comunidade de 65 fam\u00edlias insiste em n\u00e3o desaparecer, por mais que, h\u00e1 seis anos, conviva com os tremores, a poeira e o ru\u00eddo das explos\u00f5es do ambicioso projeto mineiro Toromocho. O projeto j\u00e1 consumiu 4,5 bilh\u00f5es em investimento de sua operadora, a gigante chinesa Chinalco.<\/p>\n<p>Situada em uma zona de risco de desastres ambientais, Mocorocha \u00e9 hoje pontilhada pelos escombros das antigas edifica\u00e7\u00f5es do povoado, o que lhe d\u00e1 a apar\u00eancia de ter sido palco de uma recente cat\u00e1strofe. Mas a respons\u00e1vel \u00e9 a maquinaria pesada da companhia estatal chinesa, hoje \u00e0 beira de concluir a destrui\u00e7\u00e3o dos edif\u00edcios. Seu objetivo \u00e9 explorar, a c\u00e9u aberto, o cobre entranhado sob as terras que era habitadas por 5 mil peruanos at\u00e9 outubro de 2012.<\/p>\n<p>J\u00e1 abandonaram o povoado, distante 160 quil\u00f4metros da capital Lima, 96% de seus habitantes originais. Seu destino foi uma nova cidade, distante 12 quil\u00f4metros, constru\u00edda pela pr\u00f3pria empresa. Restou \u00e0s poucas centenas que ficaram protagonizar um conflito social que s\u00f3 se agrava.<\/p>\n<p>O projeto n\u00e3o s\u00f3 continua, mas, com um investimento adicional de 1,4 bilh\u00e3o de d\u00f3lares, ser\u00e1 ampliado para se tornar um dos mais importantes pontos de explora\u00e7\u00e3o de cobre no Peru. O pa\u00eds \u00e9 hoje o segundo maior produtor mundial do mineral.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 triste viver aqui. N\u00e3o h\u00e1 nada em meu com\u00e9rcio, n\u00e3o h\u00e1 nada\u201d, diz, entre l\u00e1grimas, Feliza Alania, do interior de seu desprestigiado armaz\u00e9m. Ela \u00e9 uma das \u00faltimas habitantes do velho vilarejo. Antes, vendia uma m\u00e9dia de 45 d\u00f3lares di\u00e1rios, conta. Agora, sua fam\u00edlia \u00e9 a \u00fanica a consumir as mercadorias de suas prateleiras empoeiradas.<\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<div id=\"attachment_12685\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<p><figure id=\"attachment_12685\" aria-describedby=\"caption-attachment-12685\" style=\"width: 998px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12685 \" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2018\/12\/MG_0049.jpg\" alt=\"\" width=\"998\" height=\"666\"><figcaption id=\"caption-attachment-12685\" class=\"wp-caption-text\">O reassentamento de Morococha gerou dois conflitos sociais, um no novo povoado e outro entre quem se recusa a sair do antigo. Foto: Marco Alegre\/Convoca<\/figcaption><\/figure><\/p>\n<\/div>\n<p><\/div>\n<p>A Chinalco tentou negociar um acordo com os moradores que permaneceram, mas estes asseguram que n\u00e3o aceitar\u00e3o as mesmas condi\u00e7\u00f5es que o empreendimento prop\u00f4s a seus antigos vizinhos. \u201cOfereceram-nos umas migalhas, eu diria\u201d, comenta o carpinteiro M\u00e1ximo D\u00edaz, marido de Alania e presidente da Frente Ampla de Defesa dos Interesses de Morococha (FADDIM), uma associa\u00e7\u00e3o fundada depois do in\u00edcio do processo de reassentamento.<\/p>\n<p>A empresa n\u00e3o reconhece o direito de propriedade dos residentes ao colocar valores para a compra de seu im\u00f3vel, assegura No\u00e9 Gamarra, representante dos antigos propriet\u00e1rios desalojados dali. A Chinalco, explica Gamarra, paga somente o pre\u00e7o das edifica\u00e7\u00f5es constru\u00eddas sobre a superf\u00edcie, n\u00e3o do terreno. Com este crit\u00e9rio, ressalta, as negocia\u00e7\u00f5es variaram entre 60 e 100 d\u00f3lares por metro quadrado. \u00c9 a m\u00e9dia do mercado, por\u00e9m n\u00e3o levam em conta que no subsolo existe tanto mineral, especialmente cobre, que d\u00e1 para aumentar a produ\u00e7\u00e3o di\u00e1ria da mina de 117 mil para 172 mil toneladas m\u00e9tricas.<\/p>\n<p>Na verdade, a corpora\u00e7\u00e3o chinesa calcula chegar a esta capacidade de processamento em 2020, quando finaliza a amplia\u00e7\u00e3o do projeto Toromocho, obra aprovada pelo Minist\u00e9rio de Minas e Energia do Peru em 23 de mar\u00e7o deste ano. Naquele mesmo dia, o ent\u00e3o vice-presidente Mart\u00edn Vizcarra assumia a presid\u00eancia do pa\u00eds, mergulhado em uma profunda crise pol\u00edtica que culminou com a ren\u00fancia de Pedro Pablo Kuczynski.<\/p>\n<p>Poucos meses depois, em junho, a Chinalco anunciou o in\u00edcio das obras em uma cerim\u00f4nia ao lado do pr\u00f3prio Vizcarra. \u201cQuando um investimento vai gerar progresso e desenvolvimento, encontra no Estado um aliado\u201d, disse o mandat\u00e1rio ao p\u00fablico. O que se espera, depois de terminada a amplia\u00e7\u00e3o, \u00e9 que o projeto alcance um valor de produ\u00e7\u00e3o anual de 2 bilh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que a companhia n\u00e3o poder\u00e1 cumprir a meta se ainda existirem moradores sobre o terreno que a gigante Chinalco ambiciona.<\/p>\n<p>\u201cSe n\u00e3o me apresentam [um acordo], que me deixem viver sossegado\u201d, reclama D\u00edaz. \u201cAs trepida\u00e7\u00f5es da mina sacodem tudo como se fosse um terremoto e em duas oportunidades afundaram o teto da minha oficina [com as pedras que caem]\u201d, conta.<\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-12710\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2018\/12\/MAPA_MOROCOCHA_PORTUGUE%CC%81S.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 844px) 100vw, 844px\" srcset=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2018\/12\/MAPA_MOROCOCHA_PORTUGUE\u0301S.jpg 844w, https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2018\/12\/MAPA_MOROCOCHA_PORTUGUE\u0301S-196x116.jpg 196w, https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2018\/12\/MAPA_MOROCOCHA_PORTUGUE\u0301S-300x178.jpg 300w, https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2018\/12\/MAPA_MOROCOCHA_PORTUGUE\u0301S-768x455.jpg 768w, https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2018\/12\/MAPA_MOROCOCHA_PORTUGUE\u0301S-700x415.jpg 700w\" alt=\"\" width=\"1001\" height=\"593\"><\/p>\n<p><\/div>\n<p>\u201cOs policiais todos os dias nos cercam. Vigilantes, basta algu\u00e9m sair,&nbsp; que est\u00e3o rondando. \u00c0s vezes acontecem disparos [detona\u00e7\u00f5es]. Obrigam a todos a se afastar\u201d, lamenta Feliza Alania. \u201cTodos s\u00e3o milimetricamente controlados\u201d, acrescenta D\u00edaz.<\/p>\n<p>N\u00e3o est\u00e3o exagerando. Os jornalistas do&nbsp;<a href=\"http:\/\/convoca.pe\/\"><strong>Convoca.pe<\/strong><\/a>&nbsp;e do Di\u00e1logo Chino puderam constatar como a vigil\u00e2ncia particular seguiu nossos passos pelo antigo povoado de Morococha, solicitando nossas identifica\u00e7\u00f5es e perguntando quais eram nossas atividades.<\/p>\n<p>Como consequ\u00eancia, a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o confia na lei e na autoridade. Elvis Atachahua, morador de Morococha, adverte que efetivos policiais transitam em ve\u00edculos contratados pela mineradora e d\u00e3o apoio \u00e0s demoli\u00e7\u00f5es que a Chinalco realiza na vila sem autoriza\u00e7\u00e3o municipal. Antigamente, um&nbsp;<a href=\"https:\/\/es.scribd.com\/document\/394794120\/Convenio-Chinalco-Peru-y-la-Policia-Nacional-del-Peru-2010\">acordo de colabora\u00e7\u00e3o firmado<\/a>&nbsp;pela Divis\u00e3o de Opera\u00e7\u00f5es Especiais da Pol\u00edcia Nacional e a companhia do governo chin\u00eas estabeleceu os privil\u00e9gios que beneficiam a empresa. Esta \u00e9 a imagem de desigualdade que os habitantes da antiga Morococha percebem na lei.<\/p>\n<p>A mineradora, por sua vez, trata de refor\u00e7ar a ideia de que \u00e9 uma empresa com responsabilidade social perante o mundo. N\u00e3o \u00e9 para menos: Toromocho \u00e9 muito importante para a Aluminum Corporation of China, matriz da Chinalco, em raz\u00e3o do enorme dep\u00f3sito de cobre que cobi\u00e7a e a quantidade do metal avermelhado que seu pa\u00eds necessita. As reservas da mina est\u00e3o estimadas em 1,5 bilh\u00e3o de toneladas. No primeiro semestre de 2018, as exporta\u00e7\u00f5es de cobre peruanas atingiram um valor de 7,7 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, segundo a Sociedade Nacional de Minera\u00e7\u00e3o e Petr\u00f3leo. A remessa de 61% deste metal teve como destino a China.<\/p>\n<p>\u201cComo \u00e9 sabido por todos, os minerais de cobre s\u00e3o escassos na China\u201d, disse Huang Shanfu, que foi presidente da Chinalco no Peru, em 13 de novembro de 2016, durante uma entrevista registrada pela cadeia internacional CCTV. \u201c\u00c0 medida que vai sendo implantado este projeto [Toromocho], est\u00e1 sendo tamb\u00e9m constru\u00edda, gradualmente, uma base s\u00f3lida para garantir os recursos de cobre para a China\u201d.<\/p>\n<p>Alguns ve\u00edculos da imprensa chinesa, como o Sina News Finance,&nbsp;<a href=\"http:\/\/finance.sina.com.cn\/money\/nmetal\/2018-06-08\/doc-ihcscwxa3260201.shtml\">questionaram<\/a>&nbsp;a decis\u00e3o de ampliar a mina em um contexto de queda de pre\u00e7os do mineral e perdas para a empresa. (As noticias sobre a mina de Toromocho na p\u00e1gina web da Chinalco n\u00e3o s\u00e3o&nbsp;<a href=\"http:\/\/chinalco.todayir.com\/s\/bus_overview.php\">atualizadas<\/a>&nbsp;desde 2013).<\/p>\n<p>Na ocasi\u00e3o, Huang Shanfu tamb\u00e9m insistiu em priorizar as necessidades da popula\u00e7\u00e3o de Morococha: \u201cConsideramos necess\u00e1rio esclarecer o sentido de responsabilidade de nossa empresa e conseguir um desenvolvimento sin\u00e9rgico entre a economia e as comunidades locais, em sintonia com nosso lema: primeiro contribuir para o desenvolvimento das comunidades locais, depois pensar na realiza\u00e7\u00e3o do projeto\u201d.<\/p>\n<p>\u201cQuantas vezes tentaram me tirar da minha casa!\u201d, exclama com energia Edelmira Artica, inquilina de uma edifica\u00e7\u00e3o em cuja fachada est\u00e1 estampado o logotipo da Chinalco. \u201cSeus vigilantes sabem a hora que chegamos, a hora que sa\u00edmos (\u2026). Veio at\u00e9 seu advogado dizendo: \u2018Voc\u00ea j\u00e1 perdeu sua outra casa [na nova cidade], n\u00e3o tem direito a nada\u2019. Eu n\u00e3o vou comer a casa, o que queremos \u00e9 trabalho! Com trabalho posso ter [algo] melhor que essa casa. S\u00f3 que todas as portas de trabalho foram fechadas\u201d, critica.<\/p>\n<p>Em Morococha, se algu\u00e9m tem a sorte de ter um emprego, precisa cuidar dele. \u201cDesde o dia que chegou a mineradora Chinalco, condicionaram nosso trabalho. Quando voc\u00ea come\u00e7a, est\u00e1 condicionado a algo. Se acaba seu contrato, j\u00e1 n\u00e3o querem renov\u00e1-lo\u201d, disse Rolando Jer\u00f3nimo, outro morador de Morococha.<\/p>\n<p>Diferente de muitos conflitos sociais onde a popula\u00e7\u00e3o resiste \u00e0 minera\u00e7\u00e3o, Morococha convive h\u00e1 s\u00e9culos com esta atividade e por quase 80 anos com a minera\u00e7\u00e3o em grande escala. Em um cen\u00e1rio como esse, uma solu\u00e7\u00e3o dependeria da disposi\u00e7\u00e3o da empresa, do Estado, como facilitador, e da popula\u00e7\u00e3o para encontrar outra regi\u00e3o para o assentamento, onde possa &nbsp;se estabilizar e seguir desenvolvendo suas atividades econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que a zona oferecida pela companhia n\u00e3o os convenceu.<\/p>\n<h2>Cortina de ferro<\/h2>\n<p>A 20 minutos do povoado em ru\u00ednas, no mesmo munic\u00edpio de Morococha, a Chinalco construiu uma nova cidade de pequenas casas de 54 metros quadrados, geminadas e alinhadas em longos pavilh\u00f5es silenciosos.<\/p>\n<p>A Nova Morococha tinha como objetivo receber as mais de 1.200 fam\u00edlias da antiga localidade. O reassentamento come\u00e7ou em outubro de 2012.<\/p>\n<p>Um&nbsp;<a href=\"https:\/\/es.scribd.com\/document\/394796841\/Nueva-Morococha-Informe-Tecnico-de-Riesgos-del-Ministerio-de-Vivienda-2011\">relat\u00f3rio do Minist\u00e9rio da Habita\u00e7\u00e3o<\/a>, de 2011, indicava que a zona escolhida n\u00e3o era a mais apropriada em fun\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de riscos, incluindo o afundamento do solo devido \u00e0 umidade, as inunda\u00e7\u00f5es e os terremotos. Esta \u00e1rea est\u00e1 entre duas lagoas, que poderiam transbordar com algum movimento tel\u00farico,&nbsp;<a href=\"https:\/\/es.scribd.com\/document\/394796841\/Nueva-Morococha-Informe-Tecnico-de-Riesgos-del-Ministerio-de-Vivienda-2011\">assinalou o governo<\/a>.<\/p>\n<p>Antes da mudan\u00e7a, a empresa prometeu aos moradores algumas melhorias. Hoje 87% das casas s\u00e3o fabricadas com cimento e tijolos e o acesso aos servi\u00e7os b\u00e1sicos aumentou bastante, pois 93% dos domic\u00edlios tem fornecimento de \u00e1gua e 95%, de eletricidade, segundo o&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.inei.gob.pe\/media\/MenuRecursivo\/publicaciones_digitales\/Est\/Lib1576\/libro.pdf\">\u00faltimo censo realizado no pa\u00eds<\/a>pelo Instituto Nacional de Estat\u00edstica e Inform\u00e1tica, em 2017.<\/p>\n<p>No entanto, a nova localidade ainda parece uma maquete. \u00c9 ordenada, pequena, vazia e inanimada.<\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<div id=\"attachment_12688\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<p><figure id=\"attachment_12688\" aria-describedby=\"caption-attachment-12688\" style=\"width: 996px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12688 \" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2018\/12\/MG_0136.jpg\" alt=\"\" width=\"996\" height=\"665\"><figcaption id=\"caption-attachment-12688\" class=\"wp-caption-text\">Este \u00e9 o panorama do povoado Nova Morococha, construido pela Chinalco. Foto: Marco Alegre\/Convoca<\/figcaption><\/figure><\/p>\n<\/div>\n<p><\/div>\n<p>\u201c\u00c0s vezes se v\u00ea mais cachorros que gente\u201d, confirma Karla Vitoria, moradora e presidente da associa\u00e7\u00e3o comercial desta nova localidade. \u201cOlhe a rua. \u00c9 sil\u00eancio. E \u00e9 assim todos os dias\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO grande problema \u00e9 que esta nova cidade n\u00e3o se consolidou como um espa\u00e7o de moradia adequado. As pessoas est\u00e3o fora do circuito econ\u00f4mico da regi\u00e3o, muito afastadas de [outras] oportunidades econ\u00f4micas\u201d, aponta o economista e antigo vice-ministro Jos\u00e9 de Echave.<\/p>\n<p>O pouco movimento preocupa os comerciantes. Ele reflete o baixo consumo e os parcos rendimentos dos moradores. Vit\u00f3ria tinha tr\u00eas restaurantes antes de ser reassentada. Hoje tem um. \u201cFalaram que a qualidade de vida ia ser muito melhor. Nunca nos disseram que \u00edamos piorar\u201d, admitiu.<\/p>\n<p>Um&nbsp;<a href=\"https:\/\/es.scribd.com\/document\/394898637\/UNCP-Diagnostico-socioeconomico-de-Nueva-Morococha\">estudo da Universidade Nacional do Centro<\/a>&nbsp;realizado este ano mostrou que 80,6% dos habitantes de Nova Morococha consideravam sua situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica melhor na antiga cidade, enquanto 76,2% acredita, que o com\u00e9rcio decaiu.<\/p>\n<p>O que pensavam antes da transfer\u00eancia? O&nbsp;<a href=\"https:\/\/es.scribd.com\/document\/394899755\/Estudio-de-percepciones-en-Morococha-2013-MINSA-CENSOPAS\">Instituto Nacional de Sa\u00fade pesquisou<\/a>&nbsp;as percep\u00e7\u00f5es da popula\u00e7\u00e3o que ainda vivia na antiga Morococha em 2013, pouco depois de iniciado o processo de reassentamento. Seu&nbsp;<a href=\"https:\/\/es.scribd.com\/document\/394899755\/Estudio-de-percepciones-en-Morococha-2013-MINSA-CENSOPAS\">relat\u00f3rio aponta<\/a>&nbsp;que 52% dos habitantes estavam de acordo com a mudan\u00e7a, ainda que 76% assegurassem n\u00e3o haver participado da mesa de conversas que decidiu esta medida, em 2006.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o se pode dizer que est\u00e1 finalizado o reassentamento. Nunca foram cumpridas todas as pautas estabelecidas, e uma preocupa\u00e7\u00e3o central era a viabilidade econ\u00f4mica da cidade\u201d, lembra Javier Jahncke, advogado que acompanhou a comunidade em suas negocia\u00e7\u00f5es com a Chinalco, atrav\u00e9s da ONG Red Muqui.<\/p>\n<p>O&nbsp;<a href=\"https:\/\/es.scribd.com\/document\/394796216\/Proyecto-Toromocho-Morococha-Estudio-de-Impacto-Ambiental-contratado-por-Chinalco\">Estudo de Impacto Ambiental<\/a>&nbsp;(EIA) do projeto Toromocho, elaborado para a Chinalco e publicado em 2009, assegurava que \u201co alojamento da [\u2026] opera\u00e7\u00e3o formar\u00e1 parte da nova cidade de Morococha\u201d. Esta medida contribuiria com seu movimento comercial, mas depois de seis anos da reurbaniza\u00e7\u00e3o continua sendo uma promessa das mesas de conversas.<\/p>\n<p>\u201cConstru\u00edram um edif\u00edcio, s\u00f3 que ali n\u00e3o h\u00e1 nenhum trabalhador\u201d, atesta Jahncke.<\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<p><figure id=\"attachment_20869\" aria-describedby=\"caption-attachment-20869\" style=\"width: 1000px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-20869 size-full\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2018\/12\/chinalco-peru.jpg\" alt=\"mineradora peru\" width=\"1000\" height=\"467\"><figcaption id=\"caption-attachment-20869\" class=\"wp-caption-text\">As casas de habitantes que resistem a sair da velha Morococha, como Edelmira Artica, j\u00e1 t\u00eam logotipos da Chinalco pintados. Foto: Marco Alegre\/Convoca<\/figcaption><\/figure><\/p>\n<p><\/div>\n<p>\u201cObjetivamente falando, no reassentamento, a Chinalco manteve conversa\u00e7\u00f5es permanentes com as autoridades locais e ofereceu concess\u00f5es, por\u00e9m, com um projeto t\u00e3o grande, \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o ter alguns problemas remanescentes\u201d, uma pessoa que conhecia o caso informou ao jornal chin\u00eas 21st Century Business Herald. Na verdade, a situa\u00e7\u00e3o de moradores que se recusam a deixar suas casas diante de um projeto \u00e9 t\u00e3o frequente que na China h\u00e1 uma express\u00e3o para isso: as \u2018casas-cravadas\u2019 ou \u2018ding zi fu\u2019.<\/p>\n<p>Na antiga Morococha, a realidade era muito diferente. Os empregados e subcontratados das empresas de minera\u00e7\u00e3o Volcan, Argentum e Austria-Duvaz viviam em alojamentos pr\u00f3ximos e visitavam com frequ\u00eancia o povoado. \u201cA din\u00e2mica econ\u00f4mica que os trabalhadores destas empresas geraram na [antiga] cidade com suas compras locais, e que fomenta [a] micro e pequenos neg\u00f3cios locais, n\u00e3o vai se alterar com o desenvolvimento do Projeto Toromocho\u201d,&nbsp;<a href=\"https:\/\/es.scribd.com\/document\/394796216\/Proyecto-Toromocho-Morococha-Estudio-de-Impacto-Ambiental-contratado-por-Chinalco\">afian\u00e7ava o Estudo de Impacto Ambiental<\/a>apresentado pela Chinalco.<\/p>\n<p>A nova cidade, contudo, atravessa um momento cr\u00edtico. Karla Vitoria lembra que o com\u00e9rcio agora depende quase de maneira exclusiva da atividade da Chinalco, que, segundo ela afirma, tem uma concess\u00e3o de produtos e alimentos em seu pr\u00f3prio alojamento, algo que desacelera o consumo na cidade. Tal situa\u00e7\u00e3o pode aumentar mais ainda a assimetria nas rela\u00e7\u00f5es entre a empresa e a comunidade. Sobretudo, se algu\u00e9m levanta a voz para reclamar.<\/p>\n<p>Karla Vitoria, que como representante da associa\u00e7\u00e3o de comerciantes reassentados transmite suas queixas \u00e0 Chinalco, diz ter ouvido coment\u00e1rios de alguns trabalhadores subcontratados pela mineradora. Lembra testemunhos como este: \u201cSenhora, n\u00e3o vamos consumir. Disseram que n\u00e3o podemos comprar de voc\u00ea. Motivos? N\u00e3o sei e n\u00e3o posso dar mais detalhes, s\u00f3 nos orientaram que devemos comprar de fulano e sicrano\u201d.<\/p>\n<p>\u201cE fulano e sicrano s\u00e3o os que nunca se queixam, os que nunca reclamam de nada, os que sempre est\u00e3o bem e s\u00e3o felicitados. N\u00e3o sei como interpretar isso\u201d.<\/p>\n<p>A depend\u00eancia econ\u00f4mica, portanto, provocou certa autocensura nos comerciantes e nos aspirantes aos postos de trabalho.<\/p>\n<p>\u201cO que queremos \u00e9 fazer as coisas com liberdade, sem temer que amanh\u00e3 nos \u2018marquem\u2019 ou que n\u00e3o comprem em nossos com\u00e9rcios\u201d, reclama Vitoria. \u201cPara isso temos que estar rodeados, como est\u00e1vamos antes, de mais empresas mineradoras. Se n\u00e3o, cada neg\u00f3cio vai se apagar como uma vela, como j\u00e1 est\u00e1 acontecendo\u201d, esclarece.<\/p>\n<p>Um exemplo claro da crise que atravessa o com\u00e9rcio local \u00e9 o novo mercado da cidade. \u00c0s 10 da manh\u00e3 de uma sexta-feira, os corredores est\u00e3o escuros e cobertos de terra. N\u00e3o h\u00e1 clientes nem comerciantes na maioria das cem bancas constru\u00eddas. S\u00f3 encontrei atendimento em dez, pr\u00f3ximas \u00e0 porta principal. \u201c\u00c9 dia de feira\u201d, informam.<\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<div id=\"attachment_12694\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<p><figure id=\"attachment_12694\" aria-describedby=\"caption-attachment-12694\" style=\"width: 998px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12694 \" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2018\/12\/MG_9908.jpg\" alt=\"\" width=\"998\" height=\"666\"><figcaption id=\"caption-attachment-12694\" class=\"wp-caption-text\">M\u00e1ximo D\u00edaz e um grupo de vizinhos da velha Morococha se uniram para resistir \u00e0 realoca\u00e7\u00e3o, por mais que a terra onde est\u00e3o suas casas tenha sido transferida \u00e0 Chinalco. Foto: Marco Alegre\/Convoca<\/figcaption><\/figure><\/p>\n<\/div>\n<p><\/div>\n<p>O desemprego \u00e9 mais um fator que atormenta os rendimentos e o consumo. Outro dos contextos que a mineradora&nbsp;<a href=\"https:\/\/es.scribd.com\/document\/394796216\/Proyecto-Toromocho-Morococha-Estudio-de-Impacto-Ambiental-contratado-por-Chinalco\">apresentava no Estudo de Impacto Ambiental<\/a>&nbsp;era \u201coferecer oportunidades de emprego de maneira equitativa para homens e mulheres, desde que reunissem os requisitos de capacita\u00e7\u00e3o necess\u00e1rios para trabalhar no Projeto [Toromocho]\u201d.<\/p>\n<p>Em 2017, por exemplo, o desemprego chegava a 52% da popula\u00e7\u00e3o, segundo uma pesquisa da Universidade Nacional do Centro em 294 resid\u00eancias da nova cidade. A falta de trabalho est\u00e1vel \u00e9 uma das principais raz\u00f5es para que os habitantes da antiga Morococha se oponham \u00e0 mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>Olhando para tr\u00e1s, C\u00e9sar Reyna, ex-assessor da prefeitura de Morococha para o processo de assentamento, acredita que foi um erro os moradores afetados aceitarem a venda de suas casas para a Chinalco sem haver fechado, antes, as negocia\u00e7\u00f5es sobre as condi\u00e7\u00f5es de sua reloca\u00e7\u00e3o e a viabilidade da nova cidade.<\/p>\n<p>Em outras palavras, o processo \u201cse deu ao contr\u00e1rio\u201d: com suas terras j\u00e1 transferidas, a comunidade perdeu a capacidade de pressionar para exigir da empresa o cumprimento de seus compromissos. Isto fica evidente na mesa de conversas que re\u00fane a popula\u00e7\u00e3o afetada, as autoridades e a mineradora, que come\u00e7ou a trabalhar em 2008 e ainda n\u00e3o fechou um acordo definitivo. Ao final, esta situa\u00e7\u00e3o s\u00f3 prejudica aos morocochanos.<\/p>\n<p>Enquanto isso, sem um desfecho claro, n\u00e3o se avizinha um futuro sustent\u00e1vel para a nova capital distrital. O temor de todos \u00e9 que Nova Morococha se transforme em uma cidade-fantasma.<\/p>\n<p>A maioria dos que partiram dali s\u00e3o mulheres: em 2007, Morococha tinha 5.397 habitantes: 3.176 eram homens e 2.122 mulheres, conforme o censo do Instituto Nacional de Estat\u00edstica e Inform\u00e1tica do governo peruano. Dez anos depois, no censo de 2017, dos 5.155 habitantes entrevistados no ano passado, 3.486 eram homens e somente 1.669, mulheres.<\/p>\n<p>Qual a viabilidade ambiental, social e econ\u00f4mica de Nova Morococha? \u201c\u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o extrema, onde a organiza\u00e7\u00e3o e o tecido social se romperam, n\u00e3o h\u00e1 unidade para participar dos espa\u00e7os de negocia\u00e7\u00e3o, existe um problema ambiental com um dep\u00f3sito de res\u00edduos t\u00f3xicos [a lagoa Huascocha com rejeitos e detritos resultantes da minera\u00e7\u00e3o] e a economia n\u00e3o funciona porque a empresa n\u00e3o cumpriu sua parte\u201d, reafirmou o advogado Javier Jahncke.<\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<div id=\"attachment_12697\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<p><figure id=\"attachment_12697\" aria-describedby=\"caption-attachment-12697\" style=\"width: 1000px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12697 \" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2018\/12\/MG_0020.jpg\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"667\"><figcaption id=\"caption-attachment-12697\" class=\"wp-caption-text\">Com 61% da produ\u00e7\u00e3o peruana de cobre vendida para a China, a expans\u00e3o da mina de Toromocho \u2013 da empresa chinesa Chinalco \u2013 foi anunciado com pompa pelo governo peruano. Foto: Marco Alegre\/Convoca<\/figcaption><\/figure><\/p>\n<\/div>\n<p><\/div>\n<p>Al\u00e9m disso, j\u00e1 s\u00e3o evidentes os primeiros sinais de contamina\u00e7\u00e3o ambiental. O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade diagnosticou, em abril deste ano, 27 crian\u00e7as menores de 12 anos com intoxica\u00e7\u00e3o por chumbo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que acontece. Em 2014, a Chinalco recebeu uma notifica\u00e7\u00e3o do \u00d3rg\u00e3o de Avalia\u00e7\u00e3o e Fiscaliza\u00e7\u00e3o Ambiental (OEFA) pelo mau uso da \u00e1gua e teve que suspender as opera\u00e7\u00f5es da mina temporariamente. Em uma entrevista na publica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica 21st Century Business Herald, executivos da empresa&nbsp;<a href=\"http:\/\/finance.sina.com.cn\/chanjing\/gsnews\/20140401\/023618672073.shtml\">sustentaram<\/a>&nbsp;que ela se comprometia a \u201ccumprir estritamente com todas as regulamenta\u00e7\u00f5es e a supervis\u00e3o local, imediatamente suspendendo suas atividades mineiras, contratando uma avalia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e implantando todas as medidas para reiniciar novamente suas atividades, t\u00e3o breve fosse poss\u00edvel\u201d.<\/p>\n<p>O investimento do estado peruano no distrito de Morococha \u00e9 reduzido. No or\u00e7amento de 2017 comprometeu apenas 1,5 d\u00f3lares per capita para assuntos ambientais; 0,7 d\u00f3lares para mat\u00e9ria econ\u00f4mica; 9 d\u00f3lares para o social e 160 d\u00f3lares para o institucional, conforme relat\u00f3rio do Centro Nacional de Planejamento Estrat\u00e9gico do governo do Peru.<\/p>\n<h2>A terra, o cobre e a lei<\/h2>\n<p>Perto das seis horas da manh\u00e3 da sexta-feira, 7 de setembro deste ano, efetivos da Divis\u00e3o de Opera\u00e7\u00f5es Especiais da Pol\u00edcia Nacional chegaram a Antiga Morococha em um mini\u00f4nibus branco sem identifica\u00e7\u00e3o oficial. Com escudos, capacetes e fuzis, cercaram o deteriorado edif\u00edcio municipal onde antes havia funcionado um abrigo de idosos. Os trabalhadores contratados pela Chinalco encostaram umas escadas no muro e iniciaram a demoli\u00e7\u00e3o do pr\u00e9dio.<\/p>\n<p>Os vizinhos exigiram ver a autoriza\u00e7\u00e3o para a demoli\u00e7\u00e3o, mas foram repelidos pelo destacamento policial. Por causa deste incidente, 17 deles haviam sido denunciados por supostos dist\u00farbios por um advogado da companhia, entre eles uma mulher de 80 anos, como consta nas&nbsp;<a href=\"https:\/\/es.scribd.com\/document\/394797768\/Chinalco-denuncia-a-los-vecinos-de-Morococha\">ocorr\u00eancias do Minist\u00e9rio P\u00fablico<\/a>&nbsp;\u00e0s quais o&nbsp;<a href=\"http:\/\/convoca.pe\/\">Convoca.pe<\/a>&nbsp;teve acesso. A prefeitura, por sua vez, tamb\u00e9m registrou uma den\u00fancia contra a empresa por delito agravado contra o patrim\u00f4nio e dano \u00e0 materialidade, devido \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de infraestrutura considerada p\u00fablica.<\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<p><figure id=\"attachment_20866\" aria-describedby=\"caption-attachment-20866\" style=\"width: 1000px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-20866 size-full\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2018\/12\/chinalco.jpg\" alt=\"peru mineradora\" width=\"1000\" height=\"467\"><figcaption id=\"caption-attachment-20866\" class=\"wp-caption-text\">At\u00e9 os pr\u00e9dios p\u00fablicos da velha Morococha foram vendidos para a Chinalco e devem ser demolidos na amplia\u00e7\u00e3o da mina. Foto: Marco Alegre\/Convoca<\/figcaption><\/figure><\/p>\n<p><\/div>\n<p>O abrigo, na realidade, \u00e9 uma pequena parte de um extenso terreno de 34 hectares que estava sendo disputado em um lit\u00edgio entre a comunidade e a estatal chinesa.<\/p>\n<p>At\u00e9 fevereiro deste ano o extenso pr\u00e9dio era propriedade da administra\u00e7\u00e3o municipal distrital de Morococha, que havia se comprometido, desde 2003, a destin\u00e1-lo para titula\u00e7\u00e3o dos moradores posseiros do local. Entretanto, os 34 hectares est\u00e3o agora em nome da Chinalco.<\/p>\n<p>\u201cIsto foi muito r\u00e1pido\u201d, revela Elvis Fuster, vice-presidente da Frente de Defesa dos Interesses de Morococha. O dirigente aponta que os movimentos burocr\u00e1ticos que fizeram com que os moradores da localidade perdessem suas terras coincidiram com os \u00faltimos meses de governo do ex-presidente Pedro Pablo Kuczynski, at\u00e9 pouco antes de sua ren\u00fancia.<\/p>\n<p>Para a surpreendente mudan\u00e7a de propriedade, s\u00f3 foi necess\u00e1ria a entrada em vig\u00eancia de duas normas. E aplic\u00e1-las.<\/p>\n<p>A primeira, publicada em novembro de 2017, foi um artigo da lei que agilizava as expropria\u00e7\u00f5es e que converteu em ilegal a posse de pr\u00e9dios em zonas de risco como medida de preven\u00e7\u00e3o de desastres. A norma foi aprovada pelo Congresso peruano no contexto da reconstru\u00e7\u00e3o nacional, depois do fen\u00f4meno clim\u00e1tico El Ni\u00f1o, que causou 162 mortes por chuvas e inunda\u00e7\u00f5es, deixou mais de 1,3 milh\u00f5es desabrigados e 373 mil constru\u00e7\u00f5es afetadas naquele ano, de acordo com um&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.indeci.gob.pe\/objetos\/noticias\/NTY=\/NTE1Mw==\/fil20170912123201.pdf\">relat\u00f3rio do Instituto Nacional de Defesa Civil<\/a>.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, a proibi\u00e7\u00e3o de posse nestas zonas deixaria \u00e0 margem da legalidade qualquer edifica\u00e7\u00e3o da antiga Morococha e de qualquer outro local de carater\u00edsticas similares. Como consequ\u00eancia, ficou estabelecido que a Superintend\u00eancia Nacional de Bens Nacionais (SBN) passaria a tutelar este tipo de terras.<\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<div id=\"attachment_12695\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<p><figure id=\"attachment_12695\" aria-describedby=\"caption-attachment-12695\" style=\"width: 1001px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12695 \" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2018\/12\/MG_0099.jpg\" alt=\"\" width=\"1001\" height=\"668\"><figcaption id=\"caption-attachment-12695\" class=\"wp-caption-text\">Enquanto isso, os residentes da Nova Morococha se queixam que o antigo povoado tinha uma economia muito mais din\u00e1mica e que as promessas da Chinalco nunca se tornaram realidade. Foto: Marco Alegre\/Convoca<\/figcaption><\/figure><\/p>\n<\/div>\n<p><\/div>\n<p>A segunda norma foi a regulamenta\u00e7\u00e3o desse mesmo artigo, que afasta os propriet\u00e1rios do processo das expropria\u00e7\u00f5es por estes motivos. E mais. Regulamentou a \u201cdeclara\u00e7\u00e3o de intangibilidade\u201d para fins de moradia neste tipo de zonas perigosas, de maneira que tais lugares ficaram inabit\u00e1veis. Esta \u00faltima disposi\u00e7\u00e3o entrou em vig\u00eancia em 10 de janeiro deste ano.<\/p>\n<p>As datas s\u00e3o essenciais para entender a celeridade do processo legal em Morococha.<\/p>\n<p>Um dia antes da entrada em vigor da regulamenta\u00e7\u00e3o, em 9 de janeiro, foi aprovada a proposta do Minist\u00e9rio de Minas e Energia peruano para nomear Ricardo Labou Fossa, ent\u00e3o vice-ministro de Minas, como presidente de Ativos Mineiros SAC (AMSAC), companhia estatal peruana dedicada \u00e0 descontamina\u00e7\u00e3o ambiental e \u00e0 supervis\u00e3o de projetos de minera\u00e7\u00e3o. Em 17 de janeiro, Labou assumiu as fun\u00e7\u00f5es de diretor. No dia 18, a ger\u00eancia geral da AMSAC solicitou a mencionada \u201cdeclara\u00e7\u00e3o de intangibilidade\u201d dos 34 hectares da antiga Morococha.<\/p>\n<p>O nome de Ricardo Labou se destaca nesta opera\u00e7\u00e3o. O economista, com longa trajet\u00f3ria no setor de minera\u00e7\u00e3o trabalhou, entre 2006 e 2014, na mineradora anglo-australiana Rio Tinto, que no Peru opera o projeto de cobre La Granja, em Cajamarca, norte do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Por sua vez, a Rio Tinto tem entre seus acionistas uma importante empresa chinesa. De acordo com seu \u00faltimo relat\u00f3rio anual corporativo (2017), a Aluminum Corporation of China \u2013 &nbsp;propriet\u00e1ria da Chinalco que atua na regi\u00e3o de Morococha \u2013 controla 10,32% do poder de voto na Rio Tinto Group, atrav\u00e9s de sua&nbsp;<em>offshore<\/em>&nbsp;Shining Prospect Pte Ltd, com sede em Singapura. Participa do capital desta corpora\u00e7\u00e3o desde 2009: ou seja, enquanto Labou prestava servi\u00e7os na companhia.<\/p>\n<p>De 26 de outubro at\u00e9 o fechamento dessa reportagem, insistimos reiteradamente em entrevistar com os representantes de Mineradora Chinalco Peru SA. Tentamos via telef\u00f4nica, enviamos correios eletr\u00f4nicos e apresentamos nossa solicita\u00e7\u00e3o via assessoria de imprensa. Tamb\u00e9m deixamos mensagens para \u00c1lvaro Barrenechea Ch\u00e1vez, gerente de assuntos corporativos e representante oficial, e uma carta nos escrit\u00f3rios da empresa em Lima, com nossas perguntas (que aqui repetimos). Da mesma maneira buscamos o antigo vice-ministro Ricardo Labou por telefone, correio eletr\u00f4nico e mensagens na sua conta pessoal em uma rede social. At\u00e9 hoje n\u00e3o recebemos nenhuma resposta da empresa ou do ex-funcion\u00e1rio.<\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<div id=\"attachment_12696\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<p><figure id=\"attachment_12696\" aria-describedby=\"caption-attachment-12696\" style=\"width: 1000px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12696 \" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2018\/12\/MG_9912-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"667\"><figcaption id=\"caption-attachment-12696\" class=\"wp-caption-text\">A realoca\u00e7\u00e3o de Morococha pela Chinalco foi catalogada como um caso bem-sucedido de reassentamento, mas a realidade mostra um cen\u00e1rio mais complexo, com dois conflitos sociais ativos. Foto: Marco Alegre\/Convoca<\/figcaption><\/figure><\/p>\n<\/div>\n<p><\/div>\n<p>Enquanto isso, o conflito continua latente em Morococha.<\/p>\n<p>\u201cQuando disseram que ia chegar a empresa Chinalco, [acredit\u00e1vamos] que voltaria a \u00e9poca da Cerro de Pasco Copper [Corporation]. A popula\u00e7\u00e3o se alegrava, se alegrava! Pela porta principal os senhores entraram! N\u00e3o sab\u00edamos que ia acontecer isso\u201d, diz M\u00e1ximo D\u00edaz, o carpinteiro de 66 anos que viu Morococha crescer durante muito tempo, gra\u00e7as \u00e0 explora\u00e7\u00e3o do mineral que est\u00e1 escondido debaixo da terra.<\/p>\n<p>Mesmo que hoje o gigantesco projeto Toromocho \u2013 que constitui o maior investimento de sua hist\u00f3ria \u2013 ameace a sobreviv\u00eancia de sua comunidade, M\u00e1ximo D\u00edaz se mant\u00e9m firme e confia no investimento respons\u00e1vel: \u201cN\u00e3o estamos contra a minera\u00e7\u00e3o, de nenhuma maneira. Apostamos 100% nela\u201d. Mas ele e os \u00faltimos moradores continuar\u00e3o exigindo as condi\u00e7\u00f5es que consideram justas. \u201cN\u00e3o h\u00e1 nada imposs\u00edvel para n\u00f3s. Estamos lutando para que nossos direitos sejam respeitados, n\u00e3o outra coisa\u201d.<\/p>\n<p><em>Esta investiga\u00e7\u00e3o \u00e9 produto de uma parceria entre Di\u00e1logo Chino e Convoca.pe.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O reassentamento de um povoado peruano pela mineradora Chinalco deflagrou dois conflitos sociais<\/p>\n","protected":false},"author":50000003,"featured_media":50015582,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[50039934],"tags":[50029724,50003604,50029739,50004529],"hashtags":[],"country":[50003540],"class_list":["post-50016580","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-justica","tag-direitos-a-terra","tag-direitos-humanos","tag-mineracao","tag-povos-indigenas","country-peru-pt-br"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO Premium plugin v26.0 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