{"id":50021354,"date":"2019-01-25T12:08:54","date_gmt":"2019-01-25T12:08:54","guid":{"rendered":"https:\/\/stage.dialogochino.net\/?p=21354"},"modified":"2022-12-02T14:50:10","modified_gmt":"2022-12-02T14:50:10","slug":"21337-venezuela-e-china-a-tempestade-perfeita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogue.earth\/pt-br\/negocios\/21337-venezuela-e-china-a-tempestade-perfeita\/","title":{"rendered":"Venezuela e China: a tempestade perfeita"},"content":{"rendered":"<p>A j\u00e1 vol\u00e1til situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na\u00a0Venezuela se agravou esta semana quando o l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o, Juan Guaid\u00f3, declarou-se presidente interino do conflituoso pa\u00eds sul-americano. Guaid\u00f3 era o presidente da Assembleia Nacional quando, em 2017, seu poder legislativo foi transferido para um novo Supremo Tribunal de Justi\u00e7a, integrado por legisladores leais ao l\u00edder agora em defesa de seu cargo, Nicol\u00e1s Maduro. Agora, a jogada do oposicionista provoca intensa turbul\u00eancia interna e divis\u00f5es internacionais.<\/p>\n<p>Como Guaid\u00f3 era l\u00edder da antiga\u00a0legislatura, confinada\u00a0por Maduro, os Estados Unidos, Canad\u00e1 e grandes economias\u00a0latino-americanas, como\u00a0Brasil, Argentina, Col\u00f4mbia, Peru e Chile, reconheceram-no como o leg\u00edtimo l\u00edder da Venezuela. Enquanto isso, a R\u00fassia condenou o que disse ser uma tentativa de golpe, e outros pa\u00edses, como M\u00e9xico, Uruguai e Alemanha, pediram uma negocia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica pac\u00edfica que possa levar a novas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<div class='block--pullout-stat block--pullout-stat--float cd-shortcode--factbox'>\n                <p class='block--pullout-stat__title'>US$60 bilh\u00f5es<\/p>\n                <div class='block--pullout-stat__content'>\n                    <br \/>\n\u00c9 o valor dos empr\u00e9stimos da China para a Venezuela<br \/>\n\n                <\/div>\n            <\/div>\n<p>Mas \u00e9 a China o pa\u00eds mais comprometido. Os chineses\u00a0emprestaram mais de 60 bilh\u00f5es de d\u00f3lares para a Venezuela desde o in\u00edcio dos anos 2000. Em jogo, eles e outros apoiadores da Venezuela dizem, est\u00e3o a soberania e a governan\u00e7a livre de interfer\u00eancias internacionais.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 1rem;\">Em uma t\u00edpica declara\u00e7\u00e3o sem comprometimentos,\u00a0Hua Chunying, portavoz do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, disse: \u201cn\u00f3s chamamos todas as partes envolvidas\u00a0a serem calmas e racionais, e buscarem uma solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dentro da constitui\u00e7\u00e3o venezuelana por meio de um di\u00e1logo pac\u00edfico. A China apoia os esfor\u00e7os do governo da Venezuela para proteger a soberania nacional, a independ\u00eancia e a estabilidade. A China sempre aderiu ao pr\u00ednc\u00edpio de n\u00e3o-interfer\u00eancia e op\u00f5e-se a qualquer interven\u00e7\u00e3o externa em quest\u00f5es internas da Venezuela\u201d.<\/span><\/p>\n<p>A China oferece apoio pol\u00edtico e financeiro \u00e0 Venezuela durante\u00a0uma\u00a0penosa\u00a0e demorada\u00a0derrocada\u00a0a uma crise econ\u00f4mica e humanit\u00e1ria sem precedentes. Mas a recusa de Pequim em reconhecer\u00a0o papel que seio apoio diplom\u00e1tico e seus\u00a0empr\u00e9stimos tiveram na\u00a0vagarosa deteriora\u00e7\u00e3o do pa\u00eds traz valiosas li\u00e7\u00f5es sobre tomadores de decis\u00f5es chineses, e seus parceiros internacionais. Seria tolice ignor\u00e1-las.<\/p>\n<h2>Trag\u00e9dia anunciada<\/h2>\n<p>Na primavera de 2012, eu recebi um convite do maior <em>think tank <\/em>chin\u00eas dedicado \u00e0 America Latina, o Instituto de Estudos Latino-americanos (ILAS, baseado em Pequim e parte da Academia Chinesa de Ci\u00eancias Sociais), para ministrar uma palestra sobre os riscos pol\u00edticos da Am\u00e9rica Latina. Achei a escolha do tema bastante interessante devido \u00e0s crescentes preocupa\u00e7\u00f5es relacionadas \u00e0 \u201cPrimavera \u00c1rabe\u201d e \u00e0s amea\u00e7as que ela representaria para os interesses comerciais da China em regi\u00f5es como a \u00c1frica e o Oriente M\u00e9dio. Na mesma \u00e9poca, o relacionamento financeiro e diplom\u00e1tico entre a China e Hugo Ch\u00e1vez, da Venezuela \u2013 baseado no com\u00e9rcio de petr\u00f3leo \u2013, despertou a curiosidade de alguns legisladores chineses e dos pesquisadores do <em>think tank<\/em>. Eu ainda n\u00e3o tinha explorado os riscos pol\u00edticos da Venezuela, mas foi o pa\u00eds que escolhi para a minha palestra.<\/p>\n<p>A Venezuela passou por uma crescente polariza\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica, pela politiza\u00e7\u00e3o e m\u00e1 gest\u00e3o do setor de petr\u00f3leo, e testemunhou a deteriora\u00e7\u00e3o do estado de sa\u00fade de Ch\u00e1vez. Para qualquer investidor ou credor, incluindo a China, esse cen\u00e1rio evidenciava riscos pol\u00edticos formid\u00e1veis, superiores aos de qualquer outro pa\u00eds do hemisf\u00e9rio ocidental. Inusitadamente, os pesquisadores do ILAS conclu\u00edram que a Venezuela n\u00e3o afetaria negativamente os interesses econ\u00f4micos e diplom\u00e1ticos da China, mesmo reconhecendo as tend\u00eancias preocupantes do pa\u00eds. A l\u00f3gica deles era simples: a Venezuela possu\u00eda bastante petr\u00f3leo e a China precisava de bastante petr\u00f3leo; a China tamb\u00e9m tinha muito dinheiro para comprar esse petr\u00f3leo.<\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<p><figure id=\"attachment_21318\" aria-describedby=\"caption-attachment-21318\" style=\"width: 900px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-21318 size-full\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2019\/01\/Maduro-Jan-2019inauguration.jpg\" alt=\"\" width=\"900\" height=\"600\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-21318\" class=\"wp-caption-text\">Nicol\u00e1s Maduro durante a posse de seu pol\u00eamico segundo mandato em 10 de janeiro de 2019. (foto: Presidencia de El Salvador)<\/figcaption><\/figure><\/p>\n<p><\/div>\n<p>Seis anos depois, Nicol\u00e1s Maduro era o sucessor de Ch\u00e1vez e completava a segunda semana do seu segundo mandato, que foi <a href=\"http:\/\/stage.dialogochino.net\/11187-maduros-disputed-re-election-jeopardises-repayment-of-china-debt\/\">veementemente contestado<\/a>, e o pa\u00eds era assolado por profundas crises econ\u00f4micas e humanit\u00e1rias. Uma das quest\u00f5es mais importantes da \u00e9poca \u2013 e tamb\u00e9m muito ignorada \u2013 era descobrir como a China deveria gerir o risco pol\u00edtico da Venezuela e como o relacionamento afetaria os seus esfor\u00e7os mais amplos para ser vista mundialmente como uma aliada do desenvolvimento.<\/p>\n<p>O relacionamento entre os pa\u00edses sempre foi marcado por superlativos: a Venezuela \u00e9 dona das maiores reservas de petr\u00f3leo do mundo, a China \u00e9 a maior importadora de petr\u00f3leo e emprestou mais dinheiro para a Venezuela do que qualquer outro pa\u00eds. Tamb\u00e9m foi marcado por fortes personalidades \u2013 pelo menos do lado venezuelano. Mas h\u00e1 muito o relacionamento perdeu o brilho e se tornou um embara\u00e7oso desastre. O aprofundamento da crise venezuelana vem sendo anunciado nas manchetes do mundo inteiro e, mesmo assim, a China n\u00e3o reconhece como contribuiu para esse desfecho, tampouco buscou uma forma de se manifestar a respeito das dificuldades que v\u00eam sendo enfrentadas por um dos seus aliados mais pr\u00f3ximos.<\/p>\n<p>Como surgiu esse relacionamento disfuncional? O que isso nos diz sobre os la\u00e7os da China com a Am\u00e9rica Latina, ou mesmo sobre os esfor\u00e7os not\u00f3rios do pa\u00eds asi\u00e1tico para <a href=\"https:\/\/www.chinausfocus.com\/finance-economy\/where-is-the-development-in-chinas-global-development-finance\">estimular o desenvolvimento global<\/a> e a coopera\u00e7\u00e3o Sul-Sul?<\/p>\n<h2>Uma tempestade perfeita<\/h2>\n<p>Na superf\u00edcie, o relacionamento entre a China e a Venezuela segue o mesmo padr\u00e3o dos outros: na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI, os chineses estabeleceram la\u00e7os financeiros com pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul para o com\u00e9rcio de mat\u00e9rias-primas. Entre 2003 e 2013, a China liderou um <em>boom<\/em> no com\u00e9rcio de <em>commodities<\/em>, o que resultou na intensifica\u00e7\u00e3o do fluxo comercial da Am\u00e9rica Latina para a China, principalmente nos setores agr\u00edcola (soja), de minera\u00e7\u00e3o (cobre e min\u00e9rio de ferro) e de energia (petr\u00f3leo). O pa\u00eds rapidamente se tornou o principal parceiro comercial de pa\u00edses como o Brasil, Chile e Peru. A Venezuela, que abriga as maiores reservas de petr\u00f3leo do mundo, parecia ser a parceira perfeita para o pa\u00eds que era o maior importador de petr\u00f3leo bruto do mundo.<\/p>\n<p>A Venezuela entrou em crise, mas a China continuou falando sobre a \u201ccomplementaridade\u201d natural do relacionamento entre eles, pelo no seu discurso oficial, e isso at\u00e9 gerou um pouco de estabilidade em meio \u00e0s tempestades. A China mant\u00e9m la\u00e7os com muitos pa\u00edses ricos em commodities, mas a verdade \u00e9 que, desde o in\u00edcio, seu relacionamento com a Venezuela era diferente dos outros. Ch\u00e1vez e o \u201csuperbanco\u201d chin\u00eas, o Banco de Desenvolvimento da China (BDC), criaram juntos uma parceria diplom\u00e1tica e um <a href=\"http:\/\/stage.dialogochino.net\/9830-china-a-demanding-partner-for-ecuador-and-venezuela\/\">modelo de empr\u00e9stimos pagos com petr\u00f3leo<\/a>. O objetivo era mostrar os benef\u00edcios de uma coopera\u00e7\u00e3o Sul-Sul, oportunizada pela ascens\u00e3o da China, que se tornara um ator global. No entanto, os resultados servem como um alerta sobre as consequ\u00eancias inesperadas do excesso de orgulho e autoconfian\u00e7a.<\/p>\n<div class='block--pullout-stat block--pullout-stat--float cd-shortcode--factbox'>\n                <p class='block--pullout-stat__title'>Voc\u00ea sabia que\u2026?<\/p>\n                <div class='block--pullout-stat__content'>\n                    <br \/>\nCh\u00e1vez tomou empr\u00e9stimos de 40 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em troca de petr\u00f3leo<br \/>\n\n                <\/div>\n            <\/div>\n<p>Ch\u00e1vez enxergava a China como uma parceira essencial que o ajudaria nos seus esfor\u00e7os de controlar os abundantes recursos de petr\u00f3leo da na\u00e7\u00e3o e na implementa\u00e7\u00e3o da sua radical agenda dom\u00e9stica e internacional. Expandir as exporta\u00e7\u00f5es venezuelanas para a China n\u00e3o s\u00f3 tinha tudo a ver com a ret\u00f3rica de diversifica\u00e7\u00e3o adotada por Ch\u00e1vez, que queria se tornar menos dependente dos <a href=\"https:\/\/www.npr.org\/sections\/thetwo-way\/2018\/05\/22\/613250814\/president-trump-approves-new-sanctions-on-venezuela\">EUA<\/a>, mas tamb\u00e9m proporcionou uma fonte est\u00e1vel de recursos econ\u00f4micos e pol\u00edticos, que nenhum outro credor internacional poderia ou mesmo teria interesse em proporcionar \u2013 gra\u00e7as aos acordos com o BDC, de empr\u00e9stimos pagos com remessas de petr\u00f3leo (que totalizaram 40 bilh\u00f5es de d\u00f3lares antes da morte de Ch\u00e1vez). Por refletir a boa-f\u00e9 socialista e revolucion\u00e1ria da China (por mais desbotada ou imagin\u00e1ria que esta fosse), Ch\u00e1vez tamb\u00e9m encontrou uma aliada conveniente, embora um tanto reticente, para a sua Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana, tanto em casa como no exterior.<\/p>\n<p>O relacionamento comercial e financeiro que a China usufru\u00eda com a Venezuela parecia, \u00e0 primeira vista, com qualquer outro relacionamento com pa\u00edses latino-americanos rico em commodities, mas ele logo se transformaria em algo bem diferente. Em vez de comprar o petr\u00f3leo venezuelano, como a \u00cdndia tinha feito, a estatal chinesa BDC assinou uma s\u00e9rie de acordos multibilion\u00e1rios visando a troca de empr\u00e9stimos por petr\u00f3leo. Esses empr\u00e9stimos representam, at\u00e9 hoje, a maior transa\u00e7\u00e3o financeira que a China j\u00e1 realizou com outro pa\u00eds.<\/p>\n<p>O entusiasmo do BDC de querer emprestar dinheiro para a Venezuela durante os anos em que a China esteve sob a lideran\u00e7a de Chen Yuan, o presidente aparentemente intoc\u00e1vel do Partido Comunista da China, pode ser explicado, em parte, pelo desejo da institui\u00e7\u00e3o de se estabelecer como a principal financiadora da China para acordos globais do setor de energia. N\u00e3o foi coincid\u00eancia que os maiores empr\u00e9stimos, incluindo um de 20 milh\u00f5es de d\u00f3lares em 2010, foram realizados quando a liquidez era ampla no sistema financeiro chin\u00eas em resposta \u00e0 crise financeira global.<\/p>\n<p>Ch\u00e1vez e o BDC convenceram-se de que a parceria entre eles era mais do que vi\u00e1vel: era econ\u00f4mica e politicamente astuta. Por\u00e9m, mesmo em 2012, j\u00e1 crescia uma certa inquieta\u00e7\u00e3o em Pequim a respeito da Venezuela, incluindo preocupa\u00e7\u00f5es sobre o delicado estado de sa\u00fade de Hugo Ch\u00e1vez. Ch\u00e1vez faleceu em 2014 e seu sucessor n\u00e3o inspirava tanta confian\u00e7a na China. Al\u00e9m disso, o pre\u00e7o global do petr\u00f3leo tinha sofrido uma grande queda. Isso tudo culminou em um cen\u00e1rio desastroso para a popula\u00e7\u00e3o da Venezuela e teve o efeito de <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/abs\/10.1080\/09692290.2016.1216005\">enfraquecer<\/a>, em todos os sentidos, o interesse que a China nutria pelo relacionamento.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo na Venezuela entrou em colapso e desde ent\u00e3o o governo n\u00e3o conseguiu cumprir as obriga\u00e7\u00f5es contratuais originais do empr\u00e9stimo de <a href=\"https:\/\/www.thedialogue.org\/map_list\/\">60 milh\u00f5es<\/a> de d\u00f3lares. O pa\u00eds se tornou <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/article\/us-venezuela-china\/exclusive-venezuela-faces-heavy-bill-as-grace-period-lapses-on-china-loans-sources-idUSKBN1HY2K0\">inadimplente<\/a> e passou a enviar um n\u00famero menor do que o acordado de remessas de petr\u00f3leo para a China. Essa crise na produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo na Venezuela contribuiu com um <a href=\"https:\/\/www.cnbc.com\/2018\/05\/20\/oil-after-recent-highs-in-crude-prices-china-us-trade-in-focus.html\">aumento<\/a> nos pre\u00e7os globais, o que aumentou as despesas da China com a importa\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo. De quase qualquer \u00e2ngulo que olhamos, constatamos que o relacionamento entre a China e a Venezuela tornou-se completamente disfuncional para os governos, neg\u00f3cios e cidad\u00e3os de ambos os pa\u00edses.<\/p>\n<h2>Li\u00e7\u00f5es mais amplas<\/h2>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de surpreender que as autoridades chinesas e venezuelanas n\u00e3o reconhe\u00e7am publicamente que o relacionamento falhou em atender \u00e0s altas expectativas que os pa\u00edses estabeleceram d\u00e9cadas atr\u00e1s. A China diminuiu drasticamente o escopo dos seus empr\u00e9stimos nos \u00faltimos anos, mas a cada novo sinal de decl\u00ednio na Venezuela, os lideres da pol\u00edtica externa chinesa fazem aquelas declara\u00e7\u00f5es padr\u00e3o sobre terem esperan\u00e7a em uma futura \u201cestabilidade\u201d da Venezuela. A China tem se recusado a desempenhar um papel p\u00fablico nos esfor\u00e7os regionais da Am\u00e9rica Latina, como por meio do Grupo Lima, para ajudar a Venezuela a encontrar um caminho mais sustent\u00e1vel.<\/p>\n<blockquote><p>A China lavou as m\u00e3os da crise que ela primeiro ajudou a criar, e depois resolveu que n\u00e3o ia ajudar a solucionar.<\/p><\/blockquote>\n<p>Al\u00e9m do que deu errado entre a China e a Venezuela, o relacionamento entre os pa\u00edses tem implica\u00e7\u00f5es ainda mais amplas, apesar de pouco apreciadas. A Venezuela claramente serviu como um teste que revelou o quanto os pesquisadores chineses, bem como as autoridades do governo e do mundo empresarial, entendem, ou n\u00e3o entendem, sobre os riscos pol\u00edticos na Am\u00e9rica Latina. Havia uma forte confian\u00e7a, por parte da China, de que a rela\u00e7\u00e3o complementar estabelecida entre o l\u00edder supremo da Venezuela e um dos maiores bancos estatais chineses, o BDC, atrav\u00e9s dos acordos de petr\u00f3leo, era inabal\u00e1vel. Ambas as partes acreditavam que o acordo possibilitaria \u00e0 China um fluxo constante de petr\u00f3leo e que os empr\u00e9stimos concedidos seriam pagos sem sobressaltos. Presumiam imunidade contra as vicissitudes econ\u00f4micas ou pol\u00edticas da Venezuela.<\/p>\n<p>Todas estas suposi\u00e7\u00f5es foram destru\u00eddas na Venezuela. Mesmo assim, a China decidiu apoiar outros pa\u00edses na \u00c1frica e na \u00c1sia que s\u00e3o abundantes em recursos, efetivamente trilhando o mesmo caminho. \u00c9 dif\u00edcil encontrar um parceiro como a Venezuela de Ch\u00e1vez, mas o Zimb\u00e1bue de Mugabe ou o Camboja de Hun Sen guardam algumas semelhan\u00e7as. O relacionamento que a China construiu com a Venezuela, <a href=\"https:\/\/www.worldpoliticsreview.com\/articles\/25522\/how-debt-traps-from-china-s-belt-and-road-initiative-could-upend-the-imf\">baseado em d\u00edvidas<\/a> massivas, deve servir de alerta para o mundo agora que a China busca expandir seu plano de infraestrutura, a Iniciativa Cintur\u00e3o e Rota (<em>Belt and Road Initiative<\/em>, como \u00e9 mais conhecido, em ingl\u00eas).<\/p>\n<h2>\u00daltimas reflex\u00f5es<\/h2>\n<p>J\u00e1 se passaram mais de seis anos desde a minha apresenta\u00e7\u00e3o no ILAS e, de l\u00e1 para c\u00e1, venho escrevendo, palestrando e ensinando sobre o relacionamento entre a China e a Venezuela, que mais parece um acidente de trem em c\u00e2mera lenta. Os Estados Unidos certamente cometeram erros muito maiores na Am\u00e9rica Latina e em outros lugares, mas alguma coisa precisa mudar. A China est\u00e1 trabalhando para mudar a governan\u00e7a clim\u00e1tica no pr\u00f3prio pa\u00eds e no exterior, ent\u00e3o precisa engajar a Venezuela e pensar em formas inovadoras de ajudar o pa\u00eds explorar de forma sustent\u00e1vel os recursos petrol\u00edferos. Como a China vem se tornando uma das maiores financiadoras do setor de energia e infraestrutura, uma avalia\u00e7\u00e3o mais honesta da sua experi\u00eancia na Venezuela \u00e9 necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>Ao refletir sobre os anos que passei pesquisando e escrevendo sobre a China e a Venezuela, al\u00e9m dos anos que passei lecionando em uma universidade chinesa (eu deixei a Universidade Tsinghua no ver\u00e3o passado), acho surpreendente constatar que, apesar de ter oferecido o que interpretei como cr\u00edticas construtivas, n\u00e3o fui desafiado uma \u00fanica vez, seja direta ou indiretamente. Na verdade, o oposto aconteceu, mesmo nas confer\u00eancias de <em>think tanks<\/em>, entrevistas concedidas \u00e0 m\u00eddia e em outros foros. Isso pode parecer pouco prov\u00e1vel uma vez que a China ganhou uma merecida reputa\u00e7\u00e3o de ser sens\u00edvel a cr\u00edticas relacionadas \u00e0s suas pol\u00edticas externas e \u00e0 aus\u00eancia de liberdade intelectual nas suas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que todos sempre me ouviram educadamente, mas as autoridades da pol\u00edtica externa e dos bancos da China fariam bem em adotar uma abordagem mais sens\u00edvel e emp\u00e1tica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Am\u00e9rica Latina e outras regi\u00f5es em desenvolvimento. Se fizerem isso, pode ser que evitem cometer os mesmos erros que outras pot\u00eancias mundiais cometeram.<\/p>\n<p><em>Uma vers\u00e3o deste artigo foi publicada originalmente na\u00a0<\/em><a href=\"https:\/\/revista.drclas.harvard.edu\/book\/china-venezuela-relations\"><em>ReVista<\/em><\/a><em>, the Harvard Review of Latin America. Ele \u00e9 republicado aqui com permiss\u00e3o. <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Especialistas veem grandes erros nos neg\u00f3cios entre China e Venezuela. 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