{"id":50022289,"date":"2019-02-07T13:19:47","date_gmt":"2019-02-07T13:19:47","guid":{"rendered":"https:\/\/stage.dialogochino.net\/?p=22289"},"modified":"2023-06-02T21:10:01","modified_gmt":"2023-06-02T20:10:01","slug":"22287-os-sem-teto-de-chalhuahuacho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogue.earth\/pt-br\/justica\/22287-os-sem-teto-de-chalhuahuacho\/","title":{"rendered":"Os sem-teto de Chalhuahuacho"},"content":{"rendered":"<h5>De suas casas sem luz ou \u00e1gua, dezenas de comunidades ind\u00edgenas no sul do Peru observam os lucros da minera\u00e7\u00e3o passarem pelas ruas. Os moradores do distrito de Chuicuni s\u00e3o ref\u00e9ns do mau uso de dinheiro p\u00fablico, da falta de estudos para a concess\u00e3o de direitos de explora\u00e7\u00e3o de \u00e1gua a empresas, da perda de propriedades coletivas e da viola\u00e7\u00e3o de seus direito \u00e0 consulta pr\u00e9via. Por isso, desconfiam de projetos de minera\u00e7\u00e3o como o Las Bambas, da empresa chinesa MMG Limited.<\/h5>\n<p>\u201cVoc\u00eas vieram com quem?\u201d, pergunta Rogers Ccoropuna, presidente da comunidade Chuicuni. O vento gelado parece ignorar o sol a 3,8 mil metros acima do n\u00edvel do mar. \u00c9 tempo de colheita nos Andes, e as planta\u00e7\u00f5es de trigo brilham mais do que nunca na fazenda do l\u00edder de Chuicuni, comunidade ind\u00edgena situada ao lado de um dos maiores e mais caros projetos de minera\u00e7\u00e3o do Peru \u2013 o Las Bambas, operado pela empresa chinesa MMG Limited, subsidi\u00e1ria da China Minmetals.<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00eas vieram com quem?\u201d, insiste Ccoropuna.<br \/>\n\u201cViemos sozinhos\u201d.<br \/>\n\u201cN\u00e3o acredito. Aqui, a maioria dos jornalistas v\u00eam com a mineradora\u201d.<\/p>\n<p>A desconfian\u00e7a j\u00e1 \u00e9 a regra b\u00e1sica de conviv\u00eancia em Chuicuni. A influ\u00eancia do Las Bambas permeia todas as comunidades situadas no distrito de Challhuahuacho. As emissoras de r\u00e1dio e seus programas s\u00e3o patrocinados pela mineradora; nos restaurantes, os fregueses s\u00e3o funcion\u00e1rios da empresa; nos hot\u00e9is, os h\u00f3spedes s\u00e3o consultores, engenheiros ou outros empregados da companhia \u2014 as mesmas pessoas que frequentam os bares e as discotecas da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Chuicuni est\u00e1 situada ao lado da mina, a 10 minutos de Challhuahuacho. Ao contr\u00e1rio de sua vizinha, Chuicuni n\u00e3o tem luz el\u00e9trica, lojas, ou edif\u00edcios com mais de um andar. Os habitantes da comunidade consomem a \u00e1gua captada de um manancial, que chega por um cano at\u00e9 a caixa d\u2019\u00e1gua no centro do povoado.<\/p>\n<p>\u201cPara esta obra, cada morador gastou entre 10 e 15 soles (equivalentes a 15 e 17 reais) para cobrir os gastos\u201d, explica Ccoropuna. \u201cN\u00f3s mesmos fizemos essa obra, n\u00e3o foi o munic\u00edpio nem o governo estadual. Apenas n\u00f3s\u201d.<\/p>\n<p>Tudo em Chuicuni foi constru\u00eddo pelos pr\u00f3prios moradores. A \u00fanica forma de chegar ao povoado \u00e9 por meio de uma ponte de pedestres que eles mesmos constru\u00edram \u201csem aprova\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica\u201d, explica o l\u00edder, um pouco irritado. \u201cN\u00e3o sabemos ao certo quantas pessoas ou qual o peso que essa ponte pode suportar\u201d. Ainda assim, o que mais tem preocupado Rogers Ccoropuna n\u00e3o \u00e9 a ponte, mas a \u00e1gua. O que pode acontecer se o manancial que abastece a comunidade um dia desaparecer, ou se a mina come\u00e7ar a afetar a qualidade da \u00e1gua?<\/p>\n<p>A regi\u00e3o \u00e9 conhecida como \u201ccorredor minerador sul\u201d pela quantidade de megaprojetos extrativistas ali concentrados. O Peru \u00e9 o segundo maior produtor mundial de cobre, zinco e prata. Estima-se que 40% da produ\u00e7\u00e3o nacional de cobre v\u00eam desse corredor.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o gostamos de viver aqui. N\u00e3o ganhamos nada por morar ao lado da mina\u201d.<\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-22313\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2019\/02\/Las-Bambas-PT.png\" alt=\"Map Las Bambas\" width=\"1400\" height=\"784\" \/><\/div>\n<h2>Sem \u00e1gua, mas observando a riqueza vizinha<\/h2>\n<p>A vida em Chuicuni come\u00e7a antes das 5 da manh\u00e3 e a uma temperatura de 4 graus. De um dos morros mais altos da comunidade, j\u00e1 se podem ver os caminh\u00f5es movimentando-se na \u00e1rea da mina. Do outro lado, h\u00e1 uma enorme cerca de metal que divide as terras privadas da empresa da propriedade coletiva da comunidade. O eco dos caminh\u00f5es quebra o sil\u00eancio das montanhas. Abaixo, no povoado, as mulheres se levantam para buscar \u00e1gua do tanque coletivo e preparam o caf\u00e9 da manh\u00e3 das crian\u00e7as. Alguns homens levam o gado para pastar.<\/p>\n<p>De p\u00e9 sobre o morro, Javier Huillca Puma, vice-presidente de Chuicuni, aponta para as fronteiras da comunidade. \u201cAntes, nosso vizinho era a comunidade de Fuerabamba, nosso gado ia de um lugar para outro sem problema. N\u00f3s nos entend\u00edamos. Isso n\u00e3o acontece mais\u201d, conta.<\/p>\n<p>Em 2004, o governo do ex-presidente Alejandro Toledo outorgou os direitos de explora\u00e7\u00e3o do Las Bambas. Em 2014, com o in\u00edcio das opera\u00e7\u00f5es, a comunidade de Fuerabamba foi realocada para uma zona urbanizada nos arredores de Challhuahuacho, com todos os servi\u00e7os b\u00e1sicos. Chuicuni permaneceu no mesmo local, sem \u00e1gua ou luz, e assim recebeu a gigante da minera\u00e7\u00e3o como vizinha.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, os moradores da comunidade convivem com o barulho, a poeira e os pequenos tremores de terra causados pelas explos\u00f5es na mina. As 200 fam\u00edlias do povoado tamb\u00e9m viram a empresa instalar um sistema de tratamento de \u00e1gua para servir a seus pr\u00f3prios funcion\u00e1rios. Mais tarde, o povoado tamb\u00e9m se viu ocupado pelos enormes cabos que come\u00e7aram a fornecer energia el\u00e9trica \u00e0 mina, deixando os moradores no escuro.<\/p>\n<p>Apesar de estar pr\u00f3xima \u00e0 zona mineradora, o governo n\u00e3o considera que Chuicuni esteja dentro da zona de influ\u00eancia direta da mina. \u201cO munic\u00edpio nos diz que devemos negociar com a mineradora, e a mineradora nos diz que devemos exigir obras do governo, porque n\u00f3s n\u00e3o estamos sob influ\u00eancia direta da mina\u201d, reclama Ccoropuna.<\/p>\n<p>O presidente da comunidade pede \u00e1gua e saneamento b\u00e1sico. \u201cTemos medo de o volume do rio diminuir, e que a gente fique sem \u00e1gua. \u00c0s vezes n\u00e3o sai muita \u00e1gua da fonte, e precisamos fazer fila porque o que temos n\u00e3o \u00e9 suficiente\u201d, conta.<\/p>\n<p>A explora\u00e7\u00e3o do Las Bambas come\u00e7ou em 2014. At\u00e9 agora, n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancias do impacto da mina sobre os recursos h\u00eddricos da regi\u00e3o. Numa reuni\u00e3o com a Ojo-Publico.com, os funcion\u00e1rios da Autoridade Local de Recursos H\u00eddricos admitiram que n\u00e3o havia estudos h\u00eddricos detalhados sobre a bacia de Apur\u00edmac quando os direitos de explora\u00e7\u00e3o da \u00e1gua foram concedidos \u00e0 mineradora, e quando se aprovou o Estudo de Impacto Ambiental.<\/p>\n<p>Os estudos mais atuais que existem \u2013 explicaram timidamente os funcion\u00e1rios da Autoridade Local \u2013 foram feitos pelas pr\u00f3prias mineradoras como parte do procedimento para solicitar uma licen\u00e7a de uso de \u00e1gua com fins de minera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um estudo de Prioriza\u00e7\u00e3o de Mananciais para a Gest\u00e3o de Recursos H\u00eddricos de 2016 estabeleceu zonas de baixo, m\u00e9dio e alto risco em rela\u00e7\u00e3o ao uso e disposi\u00e7\u00e3o da \u00e1gua. Rogers Ccoropuna n\u00e3o sabe, mas esse documento qualifica a Interbacia do Alto Apurimac \u2013 onde se encontra o territ\u00f3rio de sua comunidade \u2013 como n\u00edvel de risco h\u00eddrico muito alto. As conclus\u00f5es se baseiam em an\u00e1lises das seguintes vari\u00e1veis: demanda e oferta de \u00e1gua, secas, explora\u00e7\u00e3o de aqu\u00edferos e estudos sobre disponibilidade, qualidade, contamina\u00e7\u00e3o, conflitos por \u00e1gua, popula\u00e7\u00e3o e pobreza.<\/p>\n<p>Apenas nas quatro prov\u00edncias do corredor minerador sul, o governo peruano outorgou 147 direitos de explora\u00e7\u00e3o h\u00eddrica com fins de minera\u00e7\u00e3o. Destes, 40% correspondem a \u00e1guas subterr\u00e2neas, consideradas por especialistas um recurso n\u00e3o renov\u00e1vel.<\/p>\n<p>O n\u00famero de direitos outorgados para fins agr\u00edcolas e dom\u00e9sticos \u00e9 muito maior, mas a concentra\u00e7\u00e3o dos pontos de capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua para a minera\u00e7\u00e3o est\u00e1 em zonas chamadas \u201ccabeceiras de bacias\u201d, espa\u00e7os estrat\u00e9gicos para a gera\u00e7\u00e3o de \u00e1gua e considerados vulner\u00e1veis pela legisla\u00e7\u00e3o atual.<\/p>\n<p>A outorga desses direitos de explora\u00e7\u00e3o de \u00e1guas limpas para uso em atividades mineradoras n\u00e3o \u00e9 acompanhada de obras p\u00fablicas que garantem o acesso a \u00e1gua pot\u00e1vel para as popula\u00e7\u00f5es urbanas e ind\u00edgenas vizinhas \u00e0s mineradoras. Uma revis\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o or\u00e7amental realizada por governos locais e regionais detalha que se investiu mais em edif\u00edcios e na manuten\u00e7\u00e3o de rodovias do que obras de saneamento.<\/p>\n<p>Rogers Ccoropuna reconhece que, no in\u00edcio, a comunidade viu com entusiasmo o projeto de minera\u00e7\u00e3o: \u201cFomos totalmente a favor da mineradora porque pensamos que ela ia causar um impacto positivo, porque eles disseram que ia haver educa\u00e7\u00e3o, saneamento b\u00e1sico, luz, tudo isso. Ent\u00e3o a gente apoiou, mas n\u00e3o recebemos nada em troca\u201d.<\/p>\n<p>O dia em Chuicuni acaba quando o sol se esconde. Em sua casa, a pequena Nadith, de 8 anos \u2013 sobrinha de Rogers \u2013, acende uma vela para ler um livro. L\u00e1 fora, s\u00f3 h\u00e1 escurid\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-22325 size-full\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2019\/02\/Captura-de-pantalla-2019-02-06-a-las-10.59.26-p.-m.-2.png\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"881\" \/><\/p>\n<h2>As contradi\u00e7\u00f5es do distrito mais rico<\/h2>\n<p>Uma das primeiras coisas que um visitante nota ao chegar em Challhuahuacho \u00e9 o n\u00famero de caminhonetes que circulam pelas ruas de terra cobertas por po\u00e7as d\u2019\u00e1gua. O tamanho dos ve\u00edculos 4&#215;4 \u2013 todos de marca e modelos caros \u2013 contrasta com as ruas estreitas e labir\u00ednticas do povoado. As poderosas caminhonetes foram os primeiros bens que os campesinos compraram ao receber o pagamento pelas vendas de suas terras ou pela compensa\u00e7\u00e3o do projeto minerador Las Bambas.<\/p>\n<p>O distrito mais rico dos Andes do sul tem provavelmente um dos maiores n\u00fameros de caminhonetes para um distrito de 7 mil habitantes. Ainda assim, n\u00e3o tem acesso a \u00e1gua pot\u00e1vel, e seu esgoto \u00e9 despejado no rio. Challhuahuacho tem 38 comunidades campesinas qu\u00e9chuas e um or\u00e7amento estimado em 41 milh\u00f5es de d\u00f3lares este ano, um montante similar aos dos distritos mais ricos em Lima. Em apenas 6 anos, o or\u00e7amento do munic\u00edpio aumentou em quase 30 vezes.<\/p>\n<p>Challhuahuacho parece ter sido alvo da mesma maldi\u00e7\u00e3o de outros distritos mineradores no Peru: or\u00e7amentos milion\u00e1rios, execu\u00e7\u00e3o deficiente de obras p\u00fablicas, indicadores sociais estagnados e corrup\u00e7\u00e3o. O atual prefeito Antol\u00edn Chipana Lima foi preso e est\u00e1 sendo investigado por lavagem de dinheiro e mau uso de recursos p\u00fablicos. Antes de ser eleito em 2014, Lima foi uma das vozes mais cr\u00edticas \u00e0 mineradora. Quando foi preso em mar\u00e7o de 2018, a pol\u00edcia encontrou em sua casa o equivalente a 3,5 mil d\u00f3lares em dinheiro. Na casa de seu secret\u00e1rio-geral, Dionisio Maldonado \u2013 que tamb\u00e9m foi detido \u2013, foram encontrados 14,9 mil d\u00f3lares.<\/p>\n<p>H\u00e1 tanta poeira em Challhauhuacho que n\u00e3o vale a pena limpar as janelas dos autom\u00f3veis, casas e lojas: uma espessa camada de terra cobre tudo, todos os dias. Ao tr\u00e2nsito das caminhonetes no povoado se somam os t\u00e1xis coletivos e, sobretudo, dezenas de caminh\u00f5es gigantescos que todos os dias transportam toneladas de cobre processado.<\/p>\n<p>Outro desfile de caminhonetes acontece no terreno do Centro de Sa\u00fade de Challhuahuacho. S\u00e3o autom\u00f3veis danificados ou em mau estado. \u201cRecebemos ve\u00edculos n\u00e3o adequados \u00e0 realidade desta regi\u00e3o, que se danificam em pouco tempo, e em outros casos nos doam autom\u00f3veis j\u00e1 obsoletos\u201d, explicaram funcion\u00e1rios do centro de sa\u00fade, que preferiram n\u00e3o ser identificados.<\/p>\n<p>Os ve\u00edculos danificados n\u00e3o s\u00e3o o principal problema do Centro de Sa\u00fade. O bi\u00f3logo Hubert Firata afirma que a anemia e a m\u00e1 qualidade da \u00e1gua est\u00e3o amea\u00e7ando a sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o de Challhuahuacho e das dezenas de comunidades ind\u00edgenas localizadas na zona de influ\u00eancia da mineradora. \u201cA \u00e1gua n\u00e3o \u00e9 segura. A [\u00e1gua] que chega \u00e0s casas \u00e9 encanada e raramente recebe a dose necess\u00e1ria de cloro\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Uma semana antes de nossa visita, Hubert Firata analisou v\u00e1rias amostras da \u00e1gua que chega nas casas da regi\u00e3o. \u201cPara ser segura, a \u00e1gua deve ter 0,5 mg\/L de cloro, mas nas amostras que analisamos de v\u00e1rios setores de Challhuahuacho as quantidades de cloro n\u00e3o chegavam nem a 0,1 mg\/L. Com essa propor\u00e7\u00e3o, \u00e9 imposs\u00edvel eliminar a carga bacteriol\u00f3gica da \u00e1gua. O munic\u00edpio deveria realizar a limpeza e a clora\u00e7\u00e3o, mas isso n\u00e3o acontece\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Segundo os dados da Dire\u00e7\u00e3o Regional de Sa\u00fade, entre 2016 e 2017 a desnutri\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica na regi\u00e3o aumentou cerca de 30%. \u201cH\u00e1 inclusive profissionais de sa\u00fade que sofrem de desnutri\u00e7\u00e3o e anemia. Os casos mais graves at\u00e9 agora, contudo, s\u00e3o as gestantes\u201d, explica Firata.<\/p>\n<p>O aumento nos n\u00edveis de desnutri\u00e7\u00e3o e anemia se explica em parte pelas mudan\u00e7as nos h\u00e1bitos alimentares das comunidades. Como foi o caso em outras regi\u00f5es impactadas por atividades extrativistas, os investimentos dinamizam a economia local, h\u00e1 mais empregos e com\u00e9rcio. \u201cAs crian\u00e7as e adultos agora comem mais carboidratos e alimentos processados. Est\u00e3o abandonando o consumo de produtos locais\u201d, conta Firata. Todos os dias, o centro de sa\u00fade recebe cerca de 30 crian\u00e7as como pacientes.<\/p>\n<p>O centro de sa\u00fade n\u00e3o tem todas as especialidades m\u00e9dicas. Em emerg\u00eancias, os pacientes t\u00eam que ir a Tambobamba, localizado a uma hora de dist\u00e2ncia. Em casos mais graves, devem ir a Cusco, uma viagem de carro que dura oito horas.<\/p>\n<p>Pela falta de ambul\u00e2ncias, os pacientes n\u00e3o podem ser transferidos a hospitais especializados. Se as fam\u00edlias t\u00eam recursos, cobrem o gasto da transfer\u00eancia, mas as fam\u00edlias mais pobres t\u00eam de ser tratadas na regi\u00e3o. Um dos m\u00e9dicos do posto de sa\u00fade conta o caso de uma paciente menor de idade que queimou as m\u00e3os em \u00e1gua fervente. \u201cEla precisa de um tratamento especializado, mas n\u00e3o pode viajar a Cusco porque seus pais n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es financeiras de pagar pela transfer\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Os contrastes econ\u00f4micos na regi\u00e3o s\u00e3o vis\u00edveis. H\u00e1 duas formas de entender Chualhuahuacho: pela falta de servi\u00e7os b\u00e1sicos em comunidades como Chuicuni; e por todos os servi\u00e7os que a mineradora garantiu a Nueva Fuerabamba, o setor para o qual a comunidade foi transferida quando a enorme mina de cobre foi descoberta.<\/p>\n<p>Fuerabamba \u00e9 um enorme complexo residencial de 500 casas. S\u00e3o todas iguais: tr\u00eas andares, um quintal e grades. As ruas s\u00e3o asfaltadas, t\u00eam energia el\u00e9trica, \u00e1gua e saneamento permanente, escola com todos os servi\u00e7os e um centro de sa\u00fade completo. Muitos moradores da comunidade se dedicam ao com\u00e9rcio.<\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-22322\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2019\/02\/Captura-de-pantalla-2019-02-06-a-las-11.00.05-p.-m..png\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"878\" \/><\/div>\n<h2>Direito \u00e0 terra e minera\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Mais da metade das comunidades ind\u00edgenas qu\u00e9chua n\u00e3o t\u00eam seus limites de terras coletivas georreferenciados corretamente. As terras n\u00e3o t\u00eam t\u00edtulos nem est\u00e3o inscritas nos Registros P\u00fablicos. Entre 2012 e 2015, grande parte dos projetos de minera\u00e7\u00e3o propostos na zona do corredor de minera\u00e7\u00e3o sul foi aprovada nessas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>As autoridades tamb\u00e9m discutiram a publica\u00e7\u00e3o da base de dados de comunidades ind\u00edgenas com direito aos processos de consulta pr\u00e9via. O mecanismo obrigava o governo a consultar as comunidades sobre os projetos ou iniciativas que poderiam afetar suas vidas, territ\u00f3rios e direitos.<\/p>\n<p>Durante aqueles anos \u2013 como revelou uma investiga\u00e7\u00e3o anterior de Ojo-Publico.com \u2013, o governo do ex-presidente Ollanta Humala teve acesso a uma base de dados preliminar que identificava comunidades ind\u00edgenas qu\u00e9chuas no corredor de minera\u00e7\u00e3o sul, mas decidiu n\u00e3o disponibilizar a informa\u00e7\u00e3o para o p\u00fablico geral. A nova lista completa foi publicada apenas em 2016, quando v\u00e1rios projetos de minera\u00e7\u00e3o j\u00e1 haviam come\u00e7ado.<\/p>\n<p>Nunca houve consulta pr\u00e9via em Chuicuni, apesar do que dizia a base de dados preliminar de povos ind\u00edgenas \u00e0 qual o governo teve acesso quando aprovou o in\u00edcio das opera\u00e7\u00f5es do Las Bambas. Na publica\u00e7\u00e3o em 2016 da lista final de comunidades ind\u00edgenas com direito a consulta pr\u00e9via, Chuicuni j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 classificada como ind\u00edgena. Rogers Ccoropuna n\u00e3o tinha conhecimento algum sobre a inclus\u00e3o da comunidade na lista, no passado ou no presente.<\/p>\n<p>Por que antes Chuicuni aparecia na lista, e agora n\u00e3o? Quem \u00e9 ind\u00edgena no Peru? Os Andes concentram mais de 70% dos povos ind\u00edgenas em todo o pa\u00eds. A comunidade de Chuicuni est\u00e1 inscrita nos Registros P\u00fablicos, mas seus limites comuns tampouco est\u00e3o georreferenciados corretamente. A comunidade foi reconhecida como tal em 1986 e agora tem 854 hectares. O argumento do estado para n\u00e3o realizar a consulta pr\u00e9via nas comunidades ind\u00edgenas pr\u00f3ximas ao Las Bambas foi que n\u00e3o se conhecia a base de dados e que, al\u00e9m disso, as comunidades n\u00e3o tinham limites geogr\u00e1ficos claros.<\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-22334\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2019\/02\/Captura-de-pantalla-2019-02-06-a-las-10.59.00-p.-m..png\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"881\" \/><\/div>\n<p>Rogers Ccoropuna explica que n\u00e3o foi poss\u00edvel georreferenciar os limites da comunidade at\u00e9 agora porque a elabora\u00e7\u00e3o dos expedientes t\u00e9cnicos \u00e9 muito cara. \u201cN\u00e3o temos dinheiro para fazer tudo isso\u201d, conta. Os montantes baixos que a comunidade consegue economizar s\u00e3o utilizados para construir, por exemplo, uma rede de encanamento improvisada que leva \u00e1gua do manancial para o cora\u00e7\u00e3o do povoado.<\/p>\n<p>As comunidades localizadas sob a zona de influ\u00eancia do Las Bambas tamb\u00e9m n\u00e3o foram consultadas sobre uma modifica\u00e7\u00e3o do Estudo de Impacto Ambiental que substitu\u00eda a instala\u00e7\u00e3o de um duto subterr\u00e2neo para o transporte de minerais (mineroduto) pelo transporte rodovi\u00e1rio do min\u00e9rio. \u201cNunca soubemos de nada disso\u201d, conta o l\u00edder do povoado.<\/p>\n<p>At\u00e9 2014, o Las Bambas pertencia \u00e0 Glencore Xtrata, a gigante su\u00ed\u00e7a da minera\u00e7\u00e3o. Nesse ano, o projeto foi vendido a um cons\u00f3rcio de empresas chinesas lideradas pela MMG Limited. No in\u00edcio das opera\u00e7\u00f5es, a comunidade de Chuicuni e outras da regi\u00e3o concordavam com o projeto. \u201cMuitos de n\u00f3s apoiamos; acredit\u00e1vamos que \u00edamos ter emprego. Ela [Glencore Xtrata] nos ofereceu tudo. Agora, quando reclamamos, eles dizem que esses acordos foram feitos com a empresa anterior\u201d.<\/p>\n<p>Javier Guillca, vice-presidente da comunidade de Chuicuni, afirma que quando a Glencore Xtrata era a dona do Las Bambas, havia se comprometido a pagar um montante pelo uso das terras para o mineroduto. Contudo, com as mudan\u00e7as no estudo de impacto ambiental e a substitui\u00e7\u00e3o do mineroduto pelo transporte rodovi\u00e1rio, Chuicuni ficou sem compensa\u00e7\u00e3o alguma.<\/p>\n<p>Com poucas oportunidades para a comunidade proporcionadas pela mineradora, at\u00e9 mesmo as fontes de renda mais tradicionais est\u00e3o escasseando. As vendas de truta nos mercados dominicais em Haquira e Patahuasi est\u00e3o em queda. \u201cAs pessoas t\u00eam medo de que os peixes estejam contaminados\u201d, explica Huillca.<\/p>\n<p><em>Esta reportagem foi realizada por Ojo P\u00fablico como parte de s\u00e9rie investigativa \u201c<a href=\"https:\/\/duenosdelagua.ojo-publico.com\/\">Donos da \u00e1gua<\/a>\u201d. A Di\u00e1logo Chino agradece a permiss\u00e3o de reproduzir uma vers\u00e3o editada da <a href=\"https:\/\/duenosdelagua.ojo-publico.com\/los-despojados.html\">reportagem<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De suas casas sem luz ou \u00e1gua, dezenas de comunidades ind\u00edgenas no sul do Peru observam os lucros da minera\u00e7\u00e3o passarem pelas ruas. 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