{"id":50025498,"date":"2019-04-02T23:56:37","date_gmt":"2019-04-02T22:56:37","guid":{"rendered":"https:\/\/stage.dialogochino.net\/?p=25498"},"modified":"2023-06-02T21:31:47","modified_gmt":"2023-06-02T20:31:47","slug":"25460-uruguai-usa-vespas-para-combater-agrotoxicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogue.earth\/pt-br\/alimentos\/25460-uruguai-usa-vespas-para-combater-agrotoxicos\/","title":{"rendered":"Uruguai usa vespas para combater agrot\u00f3xicos"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 ter\u00e7a-feira em Dolores, cidade na regi\u00e3o oeste do Uruguai. Uma enorme m\u00e1quina conhecida como \u201cmosquito\u201d se desloca pelos campos verdes de soja. Os enormes bra\u00e7os abertos, como as asas de um inseto, foram projetados para aplicar pesticidas sobre a planta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desta vez, contudo, a m\u00e1quina cumpre outra fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pesquisadores uruguaios a adaptaram para lan\u00e7ar c\u00e1psulas com ovos de vespas, que ao nascer combatem pragas agr\u00edcolas e reduzem a necessidade de agrot\u00f3xicos. Tamb\u00e9m vale mencionar que a soja ali cultivada \u00e9 n\u00e3o transg\u00eanica.<\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/PNd8FATTgHc\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><\/div>\n<p>A soja \u00e9 o principal cultivo agr\u00edcola do Uruguai. O pa\u00eds cultiva um milh\u00e3o de hectares de soja geneticamente modificada, e cerca de 11.000 de soja n\u00e3o transg\u00eanica. A maior parte da produ\u00e7\u00e3o transg\u00eanica \u00e9 exportada para a China, que a utiliza para alimentar porcos e galinhas.<\/p>\n<p>A China importa cerca de 90 milh\u00f5es de toneladas de soja por ano, a maior parte transg\u00eanica, e consome 15 milh\u00f5es de toneladas de soja n\u00e3o transg\u00eanica. A maior parte desta \u00faltima \u00e9 produzida internamente.<\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2019\/04\/WhatsApp-Image-2019-04-01-at-17.52.01-1.jpeg\" alt=\"\" width=\"1477\" height=\"739\" class=\"alignnone size-full wp-image-25525\" \/><\/p>\n<p><\/div>\n<h2>Anos de negocia\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>O governo uruguaio espera realizar este ano o primeiro embarque de soja n\u00e3o transg\u00eanica para a China, uma ideia que j\u00e1 leva alguns anos de negocia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 2016, o governo uruguaio iniciou uma s\u00e9rie de \u201cfortes di\u00e1logos com a China\u201d sobre soja n\u00e3o transg\u00eanica, lembra Federico Montes, diretor geral de Servi\u00e7os Agr\u00edcolas do Minist\u00e9rio da Pecu\u00e1ria, Agricultura e Pesca do Uruguai (MGAP).<\/p>\n<p>No ano seguinte, a China enviou ao Uruguai cinco variedades de soja n\u00e3o transg\u00eanica para que fossem estudadas pelo Instituto Nacional de Pesquisa Agropecu\u00e1ria (INIA). O objetivo era vender essas esp\u00e9cies ap\u00f3s uma an\u00e1lise de qualidade, n\u00edveis de prote\u00edna e \u00f3leo.<\/p>\n<p>A China utiliza soja n\u00e3o transg\u00eanica para consumo humano, mas at\u00e9 o momento n\u00e3o a compra do Uruguai. Contudo, isso pode mudar em alguns meses, anuncia Enzo Benech, ministro da Pecu\u00e1ria, Agricultura e Pesca do Uruguai.<\/p>\n<p>\u201cO Uruguai pode ser um exportador confi\u00e1vel de soja para consumo humano para a China, oferecendo diversas garantias. \u00c9 uma oportunidade para o pa\u00eds\u201d, afirmou Montes em entrevista ao Di\u00e1logo Chino.<\/p>\n<h2>Pagando mais pelo diferencial<\/h2>\n<p>Tomo ocupa um territ\u00f3rio menor que Argentina, Paraguai e Brasil, o Uruguai n\u00e3o pode posicionar-se como produtor de grande escala no mercado. O objetivo do governo uruguaio, portanto, \u00e9 alcan\u00e7ar uma produ\u00e7\u00e3o pequena, mas diferenciada.<\/p>\n<p>Nesse sentido, Sergio Ceretta, diretor do Programa de Cultivo de Sequeiros do INIA, afirma: \u201cEstamos enfatizando a qualidade do gr\u00e3o e suas caracter\u00edsticas. Queremos mirar no mercado de soja para alimenta\u00e7\u00e3o humana direta da China, para al\u00e9m do que hoje em dia vendemos aos chineses.\u201d<\/p>\n<p>H\u00e1 hoje certos mercados dispostos a pagar mais em fun\u00e7\u00e3o do modo de produ\u00e7\u00e3o. \u00c9 por isso que o Uruguai est\u00e1 \u201ctentando captar esses sinais do mercado e produzir cultivos pelos quais o resto mundo est\u00e1 disposto a pagar um pouco mais\u201d, conta Benech.<\/p>\n<p>No caso do mercado chin\u00eas, a produ\u00e7\u00e3o de soja n\u00e3o transg\u00eanica \u00e9 uma tentativa do Uruguai de \u201cexplorar um mercado que pode pagar mais\u201d por esse diferencial, estima Ceretta. De qualquer maneira, o pre\u00e7o ainda \u00e9 incerto porque n\u00e3o h\u00e1 refer\u00eancias de mercado como tem a soja geneticamente modificada.<\/p>\n<h2>Vespas, soja e agrot\u00f3xicos<\/h2>\n<p>Um grupo de pesquisadores e produtores est\u00e1 em busca desse mercado que pode pagar mais. Com o objetivo de diminuir o uso de agroqu\u00edmicos, eles est\u00e3o introduzindo insetos, chamados controladores biol\u00f3gicos, para conter o avan\u00e7o de pragas no cultivo da soja.<\/p>\n<p>O Uruguai j\u00e1 tem casos de uso desses controladores biol\u00f3gicos desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XX, quando o pa\u00eds come\u00e7ou a trazer do exterior insetos para combater pragas agr\u00edcolas\u2014algumas tamb\u00e9m trazidas de fora\u2014de maneira controlada para n\u00e3o alterar o ecossistema.<\/p>\n<p>Contudo, com o surgimento dos inseticidas qu\u00edmicos nos anos 1940, interrompeu-se o desenvolvimento da estrat\u00e9gia de controle de pragas com inimigos naturais. De l\u00e1 para c\u00e1, houve apenas algumas experi\u00eancias ocasionais.<\/p>\n<div class='block--pullout-stat block--pullout-stat--float cd-shortcode--factbox'>\n                <p class='block--pullout-stat__title'>1940<\/p>\n                <div class='block--pullout-stat__content'>\n                    <br \/>\nO ano em que agrot\u00f3xicos foram introduzidos no Uruguai.<br \/>\n\n                <\/div>\n            <\/div>\n<p>C\u00e9sar Basso, professor da Universidade da Rep\u00fablica do Uruguai, investigou em seu doutorado a possibilidade de utilizar uma pequena vespa de menos de meio mil\u00edmitro para controlar a tra\u00e7a, um inseto cuja lavra afeta o cultivo de cana. \u00c9 essa mesma vespa que hoje se utiliza para a produ\u00e7\u00e3o de soja.<\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2019\/04\/Cesar-Basso-en-lab-1-1.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"1536\" class=\"alignnone size-full wp-image-25529\" \/><\/p>\n<p><\/div>\n<p>\u201cEm vez de aplicar um inseticidada, soltamos o inseto. N\u00e3o \u00e9 t\u00f3xico nem contaminante\u201d, argumenta Basso. \u00c9 necess\u00e1rio, contudo, montar laborat\u00f3rios e uma ind\u00fastria de produ\u00e7\u00e3o desses inimigos naturais.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia com a soja come\u00e7ou de forma quase artesanal no Uruguai, em 2005. Um grupo de pesquisadores depositava nas planta\u00e7\u00f5es pequenos envelopes de papel contendo os ovos das vespas. Hoje, a m\u00e1quina \u201cmosquito\u201d lan\u00e7a c\u00e1psulas automaticamente sobre grandes superf\u00edcies.<\/p>\n<p>As c\u00e1psulas cont\u00eam ovos das vespas, e aos agricultores s\u00f3 resta esperar. Como o processo acontece no ver\u00e3o, as altas temperaturas provocam a eclos\u00e3o dos ovos em apenas alguns dias. As vespas ent\u00e3o nacem e parasitam os ovos da praga, impedindo seu desenvolvimento.<\/p>\n<p>A introdu\u00e7\u00e3o de vespas no cultivo da soja tem o objetivo de combater a praga conhecida como lagarta. H\u00e1 algunos anos, a empresa francesa Bioline se uniu \u00e0 empreitada. Embora os testes sejam realizados em 1800 hectares de soja n\u00e3o transg\u00eanica, o m\u00e9todo pode servir tamb\u00e9m para a soja geneticamente modificada, uma vez comprovada sua efic\u00e1cia.<\/p>\n<p>At\u00e9 agora, os resultados s\u00e3o animadores, assegurou Basso. O pesquisador espera poder dar o grande salto em breve, aumentando a extens\u00e3o de cultivo sobre a qual se aplica a t\u00e9cnica. Os testes foram feitos em pequenas planta\u00e7\u00f5es de soja n\u00e3o transg\u00eanica de Barraca Erro, e a empresa est\u00e1 interessada em ampliar a experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Ainda assim, h\u00e1 desafios adiante. Os controladores biol\u00f3gicos s\u00e3o mais caros que os agrot\u00f3xicos, e requerem maior trabalho e dedica\u00e7\u00e3o por parte do produtor. Basso afirma que o diferencial de uma produ\u00e7\u00e3o de menos impacto ambiental ser\u00e1 reconhecido pelos mercados, que aceitar\u00e3o pagar mais pela soja produzida com esse m\u00e9todo.<\/p>\n<h2>Do campo ao navio<\/h2>\n<p>Uruguai e China t\u00eam rodadas anuais de negocia\u00e7\u00e3o bilateral. Nelas, os dois pa\u00edses discutem e iniciam procesos de habilita\u00e7\u00e3o para comercializar produtos.<\/p>\n<p>Nesse marco, o Uruguai solicitou em 2018 os requisitos para vender a soja n\u00e3o transg\u00eanica \u00e0 China. A resposta desatou um trabalho que est\u00e1 em curso. A China pediu garantias para assegurar a pureza da soja n\u00e3o transg\u00eanica \u2014 ou seja, uma demonstra\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o h\u00e1 contamina\u00e7\u00e3o com a soja transg\u00eanica.<\/p>\n<p>Montes projeta a rastreabilidade da soja \u201cda semente ao navio\u201d como um elemento chave na demonstra\u00e7\u00e3o de qualidade do produto. O Uruguai j\u00e1 havia ralizado algo semelhante para a carne, com um sistema de rastreabilidade que vai das vacas no campo at\u00e9 o prato.<\/p>\n<p>\u201cEstamos desenvolvendo o mesmo processo para a soja. Nesse marco pode estar a soja n\u00e3o transg\u00eanica. Para lan\u00e7\u00e1-la ao mundo e competir no mercado de soja de consumo humano, temos que dar garantias\u201d, afirma Montes.<\/p>\n<p>Para a China, o papel do governo uruguaio \u00e9 crucial. Para o pa\u00eds asi\u00e1tico, o respons\u00e1vel pelo produto \u00e9 o governo. \u00c9 \u201co que respalda\u201d a produ\u00e7\u00e3o, explica Benech. \u00c9 por isso que o minist\u00e9rio est\u00e1 trabalhando junto aos produtores de soja n\u00e3o transg\u00eanica para avaliar os protocolos e exig\u00eancias associadas \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o para a China.<\/p>\n<h2>Empres\u00e1rios interessados<\/h2>\n<p>No setor empresarial, a soja n\u00e3o transg\u00eanica come\u00e7a a ganhar terreno com a crescente demanda de mercados como a China e a Europa. At\u00e9 agora, apenas 11.000 hectares correspondem a soja n\u00e3o transg\u00eanica, um n\u00famero recorde que a empresa respons\u00e1vel, Barraca Erro, espera superar a cada ano \u00e0 medida que o consumo da soja n\u00e3o transg\u00eanica aumente. A Erro \u00e9 um dos principais produtores de soja do pa\u00eds, e o \u00fanico que planta soja n\u00e3o transg\u00eanica em n\u00edvel comercial.<\/p>\n<p>Diego Meikle, gerente de projeto da Erro, defende que a produ\u00e7\u00e3o de soja n\u00e3o transg\u00eanica dever\u00e1 encher um navio inteiro com destino \u00e0 Europa. At\u00e9 agora, essa soja era exportada em cont\u00eainers com destino aos Estados Unidos. A China, contudo, \u00e9 um mercado muito interessante, reconhece Meikle.<\/p>\n<blockquote><p>Para lan\u00e7\u00e1-la ao mundo e competir no mercado de soja de consumo humano, temos que dar garantias<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 como pensa tamb\u00e9m Germ\u00e1n Brememann, gerente comercial da Erro, que v\u00ea a china como um o player \u201cmais importante\u201d do mercado mundial.<\/p>\n<p>A empresa acrescenta que uma das vantagens comparativas por parte do Uruguai \u00e9 a \u201cpureza\u201d e \u201crastreabilidade\u201d da soja, j\u00e1 que \u00e9 poss\u00edvel certificar que o gr\u00e3o \u00e9 100% n\u00e3o transg\u00eanico. Isso confere ao produto um \u201cvalor agregado\u201d que deve ser valorizado na comercializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>Passo a passo<\/h2>\n<p>O INIA come\u00e7ou a trabalhar em 2017 com variedades de soja n\u00e3o transg\u00eanicas que vieram da China dentro do Programa de Melhoramento da Soja. O instituto avalia os n\u00edveis de prote\u00edna e \u00f3leo para desenvolver uma soja atrativa para o mercado.<\/p>\n<p>O INIA do Uruguai e a Academia de Ci\u00eancias Agr\u00edcolas da China est\u00e3o \u201cavan\u00e7ando passo a passo\u201d rumo a um acordo de coopera\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, afirma Ceretta. Trata-se de uma colabora\u00e7\u00e3o cient\u00edfica para o melhoramento gen\u00e9tico da soja.<\/p>\n<p>O Programa de Melhoramento da Soja do INIA busca atingir maior produtividade, maior rendimento por hectar e estabilidade dos rendimentos. Nesse cen\u00e1rio, desenvolvem soja n\u00e3o transg\u00eanica, ou seja, gr\u00e3os n\u00e3o geneticamente modificados.<\/p>\n<p>\u201cA aproxima\u00e7\u00e3o com a China vem refor\u00e7ar nosso objetivo: o melhoramento gen\u00e9tico, uma aposta de longo prazo. Desde o in\u00edcio dos cruzamentos de variedades de soja at\u00e9 chegar a uma variedade comerci\u00e1vel, s\u00e3o oito ou 10 anos\u201d, explica Ceretta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 ter\u00e7a-feira em Dolores, cidade na regi\u00e3o oeste do Uruguai. Uma enorme m\u00e1quina conhecida como \u201cmosquito\u201d se desloca pelos campos verdes de soja. Os enormes bra\u00e7os abertos, como as asas de um inseto, foram projetados para aplicar pesticidas sobre a planta\u00e7\u00e3o. Desta vez, contudo, a m\u00e1quina cumpre outra fun\u00e7\u00e3o. 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