{"id":50028173,"date":"2019-06-19T17:44:14","date_gmt":"2019-06-19T16:44:14","guid":{"rendered":"https:\/\/stage.dialogochino.net\/?p=28173"},"modified":"2023-06-02T21:52:03","modified_gmt":"2023-06-02T20:52:03","slug":"28166-a-batalha-dos-jumentos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogue.earth\/pt-br\/negocios\/28166-a-batalha-dos-jumentos\/","title":{"rendered":"A batalha dos jumentos"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Desde que uma decis\u00e3o judicial proibiu o abate de jumentos na Bahia em novembro, o restaurante de Jos\u00e9 Bispo dos Santos, na cidade de Amargosa, vive \u00e0s moscas. Boa parte dos clientes de Santos, ou Zeca de Patr\u00e3o, como \u00e9 conhecido pelos amigos, trabalhava no matadouro da cidade e perdeu o emprego. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O matadouro Frinordeste existia desde junho de 2017, depois que o abate de jumentos fora regulamentado na Bahia como parte de uma negocia\u00e7\u00e3o internacional entre diplomatas brasileiros e chineses. Os chineses usam o couro do jumento para fabricar ejiao, um rem\u00e9dio que, acredita-se, combate desde o envelhecimento at\u00e9 a falta de apetite sexual das mulheres. Eles tamb\u00e9m comem a carne do animal.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas apreciar um hamb\u00farguer de jumento, comum nas ruas <\/span><a href=\"https:\/\/baike.baidu.com\/item\/%E7%8E%8B%E8%83%96%E5%AD%90%E9%A9%B4%E8%82%89%E7%81%AB%E7%83%A7%EF%BC%88%E9%BC%93%E6%A5%BC%E5%BA%97%EF%BC%89\"><span style=\"font-weight: 400;\">de Pequim<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, \u00e9 algo impens\u00e1vel para o baiano Zeca. Apesar dos preju\u00edzos &#8211; al\u00e9m da queda no movimento no restaurante, o filho dele, Luiz Fernando da Cruz, foi um dos que perderam o emprego no frigor\u00edfico &#8211; ele \u00e9 contra o abate agora proibido.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cOs jumentos ajudaram muito meus antepassados, trabalhado\u201d, disse. \u201cO pessoal aqui \u00e9 fiel ao jegue\u201d.<\/span><\/p>\n<div class='block--pullout-stat block--pullout-stat--float cd-shortcode--factbox'>\n                <p class='block--pullout-stat__title'>4 milh\u00f5es<\/p>\n                <div class='block--pullout-stat__content'>\n                    <br \/>\nO n\u00famero de peles de jumento consumidos pela China por ano<br \/>\n\n                <\/div>\n            <\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Jumentos est\u00e3o no centro de uma batalha judicial que exp\u00f5e como diferen\u00e7as culturais podem ter um peso em quest\u00f5es de com\u00e9rcio internacional \u2014 e como o apetite chin\u00eas por ejiao causa temores por todo o mundo de que a extin\u00e7\u00e3o do jumento seja uma amea\u00e7a real.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A demanda por importa\u00e7\u00e3o de couro pela China est\u00e1 crescendo. Apesar de o pa\u00eds p<\/span><a href=\"http:\/\/data.163.com\/18\/0513\/11\/DHMBPPS1000181IU.html\"><span style=\"font-weight: 400;\">roduzir 1,8 milh\u00e3o<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> peles por ano, seu consumo \u00e9 de 4 milh\u00f5es. Com isso, a China passou a comprar couro de jumento de diversos pa\u00edses em desenvolvimento. A proibi\u00e7\u00e3o de novembro torna o Brasil o \u00faltimo em uma lista de mais <\/span><a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2018\/01\/02\/science\/donkeys-africa-china-ejiao.html?_ga=2.185000361.1466944534.1557220852-1865349441.1543888166\"><span style=\"font-weight: 400;\">15 pa\u00edses<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> que baniram o abate de jumentos \u2014 a maioria na \u00c1frica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas, diferente de Zeca, quem lucra com o abate de jumentos est\u00e1 longe de desistir da batalha no Brasil.<\/span><\/p>\n<h2>Uma conta que n\u00e3o fecha<\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tudo come\u00e7ou com uma portaria publicada pela Ag\u00eancia de Defesa Agropecu\u00e1ria da Bahia, Adab. O documento, com apenas nove artigos, poderia ter se perdido no meio de tantos outros publicados no Di\u00e1rio Oficial de 29 de junho de 2016. N\u00e3o foi o que aconteceu. Ao regulamentar o abate de jumentos, muares e bardotos em todo territ\u00f3rio baiano, aqueles poucos artigos mexeram em um vespeiro, tornando-se o estopim para uma acirrada batalha jur\u00eddica, econ\u00f4mica e \u00e9tica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O documento pretendia resolver o problema hist\u00f3rico dos animais errantes que, \u201cal\u00e9m de provocar acidentes rodovi\u00e1rios, poderiam servir de agentes disseminadores de doen\u00e7as\u201d. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Apesar de considerados s\u00edmbolos do Nordeste, nos \u00faltimos anos os animais foram largamente abandonados, substitu\u00eddos por um meio de transporte muito mais r\u00e1pido, se menos amig\u00e1vel: a <\/span><a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/globo-reporter\/noticia\/2012\/11\/jegues-estao-sendo-trocados-por-motos-no-nordeste.html\"><span style=\"font-weight: 400;\">motocicleta<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">. No Cear\u00e1, o problema se tornou t\u00e3o grave, que o departamento de tr\u00e2nsito local frequentemente envia equipe para recolher os animais abandonados e evitar acidentes de tr\u00e2nsito. S\u00f3 no \u00faltimo <\/span><a href=\"http:\/\/www.detran.ce.gov.br\/equipes-do-detran-ce-recolhem-115-animais-em-rodovias-estaduais-durante-operacao-reveillon\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">feriado de ano novo<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, foram 115 jumentos recolhidos.<\/span><\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/qtIRq207PnI\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><\/div><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas a portaria era mais que uma resposta a um novo problema social. Ela dava o sinal verde para o in\u00edcio de um projeto que vinha sendo articulado por empres\u00e1rios e pelo governo baiano h\u00e1 anos: a exporta\u00e7\u00e3o de carne e couro de jumentos para a China. Um neg\u00f3cio que, na \u00e9poca, a ent\u00e3o ministra da Agricultura, K\u00e1tia Abreu, afirmou que poderia chegar na casa dos <\/span><a href=\"https:\/\/veja.abril.com.br\/economia\/jumento-tipo-exportacao-renderia-us-3-bilhoes-ao-brasil\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">tr\u00eas bilh\u00f5es<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> de d\u00f3lares. <\/span><a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/economia\/jumento-tipo-exportacao-4235052\"><span style=\"font-weight: 400;\">A articula\u00e7\u00e3o existia<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> pelo menos desde 2012, quando foi assinado um acordo comercial sobre jumentos entre China e Brasil. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Dias depois da portaria entrar em vigor, a empresa FrigoCezar, no munic\u00edpio de Miguel Calmon\/BA, iniciou o abate. S\u00f3 na primeira semana foram mortos aproximadamente 300 jumentos. \u00a0Um ano depois, em 26 de junho de 2017, em uma solenidade que contou at\u00e9 com o governador da Bahia, Rui Costa, era inaugurado o frigor\u00edfico Frinordeste, vizinho do restaurante de Z\u00e9 do Patr\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O empreendimento, feito em parceria com os chineses, come\u00e7ou a funcionar gerando 150 empregos diretos, 270 indiretos e com a expectativa de produzir e exportar mensalmente 300 toneladas de carne para o mercado asi\u00e1tico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O Frinordeste \u00e9 uma sociedade formada por uma empresa brasileira e dois s\u00f3cios chineses: Zhen Yongwei e Ran Yang. Ambos residem na China, e n\u00e3o foram localizados pela reportagem. A reportagem tentou entrar com seu representante legal no pa\u00eds, mas n\u00e3o obteve retorno. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na esteira do Frinordeste, mais dois frigor\u00edficos come\u00e7aram a operar no abate de jumentos na Bahia: o Cabra Forte, em Sim\u00f5es Filho, e o Sudoeste, em Itapetinga. O primeiro em dezembro de 2017 e o segundo em agosto de 2018.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Do ponto de vista econ\u00f4mico, a incipiente cadeia produtiva caminhava bem. Somando os tr\u00eas frigor\u00edficos \u2013 \u00fanicos no Brasil autorizados para o abate de jumentos\u2013 foram criados 376 empregos diretos e 1.360 indiretos, segundo dados do governo da Bahia. Al\u00e9m disso, a cadeia produtiva gerava emprego e renda para mais de 500 produtores, vaqueiros e ajudantes na<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0coleta de jumentos abandonados nas diversas regi\u00f5es do estado. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas os argumentos econ\u00f4micos n\u00e3o convenceram os defensores dos animais, organizados globalmente. Depois de contestar a portaria de 2016 sem sucesso, eles continuaram protestando e, principalmente, brigando na Justi\u00e7a. At\u00e9 que, em 30 de novembro de 2018, a ju\u00edza Arali Maciel Duarte, da 1\u00aa Vara Federal, em Salvador, concedeu liminar proibindo o abate de jumentos em todo territ\u00f3rio da Bahia. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A decis\u00e3o resultou de uma a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica contra a Uni\u00e3o e o Estado da Bahia, de autoria da Uni\u00e3o Defensora dos Animais \u2013 Bicho Feliz, da Rede de Mobiliza\u00e7\u00e3o pela Causa Animal, do F\u00f3rum Nacional de Prote\u00e7\u00e3o e Defesa Animal, da SOS Animais de Rua e da Frente Nacional de Defesa dos Jumentos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um fato foi decisivo para que a ju\u00edza Arali Maciel suspendesse o abate de jumentos. Em 4 de setembro de 2018, mais de <\/span><a href=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/noticia\/nid\/mais-de-200-jumentos-sao-encontrados-mortos-em-fazenda-no-interior-da-bahia\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">200 animais<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> foram encontrados mortos, provavelmente de fome e sede, em uma fazenda na zona rural de Itapetinga\/BA. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O local servia para o confinamento de jumentos antes de serem abatidos no Frigor\u00edfico Sudoeste. O caso teve ampla repercuss\u00e3o na m\u00eddia e chocou a opini\u00e3o p\u00fablica baiana. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na argumenta\u00e7\u00e3o, a ju\u00edza fala dos maus-tratos sofridos pelos animais na \u201ccaptura\u201d, durante o transporte e, principalmente, no confinamento. A magistrada demonstrou, ainda, preocupa\u00e7\u00e3o com quest\u00f5es de sa\u00fade p\u00fablica. Ao n\u00e3o serem cumpridas todas as exig\u00eancias legais no processo de abate dos jumentos, eles poderiam se tornar transmissor de doen\u00e7as, argumentou.<\/span><\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-28175 size-full\" title=\"jumento brasil\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2019\/06\/infograficoJumentos2.png\" alt=\"jumento brasil\" width=\"1920\" height=\"1080\" \/><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas foi em uma uma conta r\u00e1pida, usando dados do Conselho Regional de Veterin\u00e1ria e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), que a ju\u00edza construiu seu principal argumento: o plano das novas empresas de abater 200 mil animais por ano poderia levar a extin\u00e7\u00e3o dos jumentos nordestinos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cCom uma estimativa de popula\u00e7\u00e3o atual de 600.000 animais no Nordeste, considerando o ritmo de abate, nos pr\u00f3ximos [3] anos a popula\u00e7\u00e3o de jumentos nordestinos estar\u00e1 extinta!&#8221;, escreveu.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O governo da Bahia, por meio da Procuradoria Geral do Estado, tentou derrubar a liminar e restabelecer o abate dos jumentos. Na argumenta\u00e7\u00e3o, Marcos Sampaio, Procurador Geral do Estado, diz que a ju\u00edza extrapolou sua compet\u00eancia administrativa mandando paralisar toda uma cadeia produtiva relevante, \u201cproduto de acordos privados e compromissos p\u00fablicos assumidos internacionalmente\u201d pelo governo da Bahia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para o procurador, a proibi\u00e7\u00e3o do abate nada faria para dirimir a crise que matava os jumentos de fome e sede. \u201cQuando um agente econ\u00f4mico ou p\u00fablico comete uma irregularidade, a ordem n\u00e3o pode ser de proibi\u00e7\u00e3o da atividade desempenhada, mas de exigir a corre\u00e7\u00e3o da atitude&#8221;.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A decis\u00e3o foi mantida em segunda inst\u00e2ncia. Mas a batalha legal continua.<\/span><\/p>\n<h2>Neg\u00f3cio empacado<\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Enquanto as entidades protetoras dos animais comemoram a vit\u00f3ria parcial na Justi\u00e7a Federal, os empres\u00e1rios contabilizam os preju\u00edzos. Ainda \u00e9 dif\u00edcil dimensionar seu tamanho.Falta transpar\u00eancia em boa parte da cadeia produtiva de carne e couro de jumentos. Entre as empresas, a regra \u00e9 o sil\u00eancio e a falta de clareza na condu\u00e7\u00e3o dos neg\u00f3cios. S\u00f3 para se ter uma ideia, dos tr\u00eas frigor\u00edficos autorizados, apenas o de Sim\u00f5es Filho tem p\u00e1gina na internet e canal de comunica\u00e7\u00e3o com os clientes.<\/span><\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'>\n<figure id=\"attachment_28181\" aria-describedby=\"caption-attachment-28181\" style=\"width: 2048px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-28181 size-full\" title=\"jumento brasil\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2019\/06\/090519MZ_AbeteJumentos_-3.jpg\" alt=\"jumento brasil\" width=\"2048\" height=\"1152\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-28181\" class=\"wp-caption-text\">Frigor\u00edfico de Sim\u00f5es Filho, na Bahia, segue parado. Cr\u00e9dito: In\u00eas Campelo\/MZ Conte\u00fado<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><\/div><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Dados do Minist\u00e9rio da Agricultura, levantados pelo jornal<\/span><a href=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/noticia\/nid\/justica-proibe-o-abate-de-jumentos-na-bahia-apos-casos-de-maus-tratos\/\"><span style=\"font-weight: 400;\"> Correio da Bahia<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, apontam que os tr\u00eas frigor\u00edficos autorizados para o abate de jumentos exportaram mais de 25 mil toneladas de carne e couro de \u201ccavalos, asininos e muares\u201d, com uma receita pr\u00f3xima a 40 milh\u00f5es de d\u00f3lares, em 2018, para Vietn\u00e3 e Hong Kong.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Reginaldo Filho, propriet\u00e1rio do Cabra Forte, em Sim\u00f5es Filho, trabalha com abate de animais desde 1997, quando sua fam\u00edlia adquiriu o frigor\u00edfico que na \u00e9poca operava com bovinos e su\u00ednos. Em 2015, ele realizou um estudo para atestar a viabilidade econ\u00f4mica do abate de equ\u00eddeos (jumentos, muares e bardotos), chegando at\u00e9 a visitar a China. Em dezembro de 2017, ap\u00f3s conseguir autoriza\u00e7\u00e3o do Servi\u00e7o de Inspe\u00e7\u00e3o Federal, come\u00e7ou a operar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando veio a proibi\u00e7\u00e3o, o Cabra Forte abatia cerca de 200 jumentos por dia, de segunda a sexta-feira, com capacidade instalada para chegar a 500. Para isso, contava com 180 funcion\u00e1rios \u2013120 perderam o emprego depois da decis\u00e3o da justi\u00e7a. Segundo \u00a0Reginaldo, o investimento total no projeto foi de cerca de 1,5 milh\u00e3o de d\u00f3lares.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Com um ano de funcionamento, o neg\u00f3cio comandado por Reginaldo ainda n\u00e3o dava lucro. Em m\u00e9dia, com a exporta\u00e7\u00e3o do couro e da carne, a previs\u00e3o de receita era de R$ 370 por animal abatido. O problema \u00e9 que, por quest\u00f5es \u201cburocr\u00e1ticas\u201d (faltava alguns certificados), o Cabra Forte n\u00e3o conseguia vender direto para a China, tendo que negociar com Hong Kong e com o Vietn\u00e3, cujas empresas atuavam<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">como intermedi\u00e1rios. Caso exportasse direto para a China, como era o caso do frigor\u00edfico de Amargosa\/BA, a receita subiria para R$ 870 por animal. \u201cHavia uma luz no fim do t\u00fanel\u201d, lamenta Reginaldo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O principal interesse dos importadores chineses \u00e9 o couro. Dele \u00e9 retirada uma subst\u00e2ncia que serve de princ\u00edpio ativo para fazer o ejiao. Seu pre\u00e7o vem subindo, junto com sua popularidade, nos \u00faltimos anos. Hoje, .uma caixa com 250 gramas do produto custa em torno de 180 d\u00f3lares.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m da exporta\u00e7\u00e3o da carne e do couro de jumento, a proibi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m afetou outro projeto que o frigor\u00edfico Cabra Forte vinha tocando. Inspirado no que viu quando visitou a China, Reginaldo se preparava para inaugurar um centro de equoterapia que atenderia crian\u00e7as com defici\u00eancias ou necessidades especiais, utilizando os animais que n\u00e3o passassem na triagem para o abate. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m de uma fonte extra de recursos e do aproveitamento de animais que n\u00e3o seriam aproveitados (abaixo do peso ou prenhe), o centro tamb\u00e9m funcionaria como um projeto social da empresa ao atender gratuitamente crian\u00e7as das comunidades vizinhas ao frigor\u00edfico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Reginaldo Filho discorda da proibi\u00e7\u00e3o do abate, mas prefere evitar pol\u00eamica. \u201cT\u00e1 tudo l\u00e1 no processo\u201d. Mesmo assim, reclama da demora para se chegar a uma decis\u00e3o. Segundo ele, isso gera inseguran\u00e7a para quem quer investir no neg\u00f3cio. Reginaldo ressalta que cumpre com todas as normas e est\u00e1 pagando pelos erros dos outros. \u201cS\u00f3 quem deveria ser punido \u00e9 quem fez algo errado\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ruim para os empres\u00e1rios, pior para os trabalhadores e para os pequenos comerciantes que prosperaram em torno dos frigor\u00edficos . Em Amargosa, por exemplo, cerca de 150 pessoas perderam o emprego com a paralisa\u00e7\u00e3o das atividades do Frinordeste \u2014 incluindo o filho de Zeca do Patr\u00e3o, dono do restaurante local. Outros 270 postos de trabalhos indiretos tamb\u00e9m foram fechados.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Lucas Oliveira, de 23 anos, \u00e9 um dos que foram diretamente afetados pela proibi\u00e7\u00e3o do abate. Lucas trabalhou como auxiliar de desossa por um ano e meio. Neste per\u00edodo, quando pela primeira vez conseguiu a carteira de trabalho assinada, teve um filho e muitos planos para o futuro. H\u00e1 quatro meses vive de \u201cbicos\u201d e do seguro-desemprego. \u201cS\u00f3 eu sei a falta que t\u00e1 fazendo. Mas a gente tem esperan\u00e7a de voltar\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: inherit; font-family: Enriqueta, serif; font-size: 26px;\">Nosso irm\u00e3o<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um trecho da pol\u00eamica decis\u00e3o da ju\u00edza Arali Maciel Duarte que n\u00e3o foi questionado por nenhuma das partes \u00e9 a que ressalta a import\u00e2ncia do jumento para a popula\u00e7\u00e3o nordestina:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8220;A popula\u00e7\u00e3o brasileira e principalmente a nordestina respeita e reconhece a import\u00e2ncia hist\u00f3rica e social dos jumentos\u201c, ela escreveu.\u201cOs jumentos t\u00eam na hist\u00f3ria uma contribui\u00e7\u00e3o incalcul\u00e1vel para o desenvolvimento do pa\u00eds, principalmente do Nordeste.\u201d<\/span><\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'>\n<figure id=\"attachment_28245\" aria-describedby=\"caption-attachment-28245\" style=\"width: 2048px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-28245 size-full\" title=\"jumento brasil\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2019\/06\/090519MZ_AbeteJumentos_-149.jpg\" alt=\"jumento brasil\" width=\"2048\" height=\"1152\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-28245\" class=\"wp-caption-text\">Jumenta criada em Carpina \u00e9 produtora de leite. Cr\u00e9dito: In\u00eas Campelo\/MZ Conte\u00fado<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><\/div><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A ju\u00edza chama aten\u00e7\u00e3o \u00e0s est\u00e1tuas de jumentos pelos estados nordestinos, e \u00e0s m\u00fasicas que foram feitas em homenagem ao bicho. O nome de uma delas, de Luiz Gonzaga, talvez resuma o sentimento que muitos nordestinos t\u00eam pelo jumento: \u201cApologia Ao Jumento (O Jumento \u00c9 Nosso Irm\u00e3o)\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o existe pesquisa de opini\u00e3o confi\u00e1vel sobre o assunto. Mas a rejei\u00e7\u00e3o do nordestino ao abate de jumentos fica clara no apoio \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es promovidas pelas organiza\u00e7\u00f5es de defesa dos animais ou mesmo nos coment\u00e1rios deixados nas redes sociais. \u00a0Das dezenas de pessoas ouvidas para a elabora\u00e7\u00e3o dessa reportagem, com exce\u00e7\u00e3o daquelas diretamente envolvidas na cadeia de produ\u00e7\u00e3o, todas eram contra o abate.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao proibir o abate, a ju\u00edza n\u00e3o fugiu da quest\u00e3o cultural. Para a maioria dos brasileiros que nasceram na regi\u00e3o Nordeste, a rela\u00e7\u00e3o com o \u00a0jumento mistura religiosidade, gratid\u00e3o e estima.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Origin\u00e1rio do norte da \u00c1frica, o jumento &#8211; um animal forte e resistente &#8211; adaptou-se perfeitamente ao clima \u00e1rido que predomina no Nordeste brasileiro. Desde muito tempo, o nordestino tem o animal \u201cque levou o menino Jesus no lombo\u201d como um aliado para o trabalho de arar a terra, carregar a \u00e1gua ou puxar a carro\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em uma entrevista publicada no portal do Instituto Humanitas Unisinos, K\u00e1tia Lopes, doutora em Ci\u00eancia Animal e s\u00f3cia-fundadora da ONG Defesa da Natureza e dos Animais, de Mossor\u00f3\/RN resumiu esse sentimento: \u201cNa forma\u00e7\u00e3o da nossa civiliza\u00e7\u00e3o muita gente defende que foi no lombo de um jumento que a na\u00e7\u00e3o nordestina nasceu. Ele \u00e9 o s\u00edmbolo da resist\u00eancia da nossa regi\u00e3o.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao ressaltar o companheirismo entre jumentos e trabalhadores no nordeste, a ju\u00edza Duarte deixou escapar ainda uma cutucada na cultura chinesa:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cJuntos passavam fome, por\u00e9m, nunca cogitaram a possibilidade de inclu\u00ed-los no rol de alimentos.&#8221;<\/span><\/p>\n<h2>Guerra em Canudos<\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O cen\u00e1rio era de guerra. Quando os fiscais da Ag\u00eancia de Defesa Agropecu\u00e1ria da Bahia e da Secretaria Municipal de Meio Ambiente chegaram \u00e0 fazenda Santa Rita, em Canudos, Sert\u00e3o do estado, encontraram por volta de 200 jumentos mortos. Outros cerca de 800 animais continuavam confinados ilegalmente no espa\u00e7o e aparentavam estar desnutridos e desidratados. O cen\u00e1rio foi revelado no dia 1\u00ba de fevereiro de 2019, dois meses ap\u00f3s a proibi\u00e7\u00e3o do abate de jumentos pela Justi\u00e7a Federal.<\/span><\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'>\n<figure id=\"attachment_28208\" aria-describedby=\"caption-attachment-28208\" style=\"width: 2048px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-28208 size-full\" title=\"jumento brasil\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2019\/06\/090519MZ_AbeteJumentos_-66.jpg\" alt=\"jumento brasil\" width=\"2048\" height=\"1152\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-28208\" class=\"wp-caption-text\">Jumento na beira da estrada em Pernambuco. Cr\u00e9dito: In\u00eas Campelo\/MZ Conte\u00fado<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><\/div><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Segundo o relat\u00f3rio produzido pela fiscaliza\u00e7\u00e3o, o destino dos animais seria o abate em Itapetinga e Amargosa, ambas cidades baianas. A suspens\u00e3o das atividades pegou de surpresa os respons\u00e1veis pelo confinamento e transporte dos jumentos, dois chineses cujos nomes n\u00e3o foram revelados. Sem destino, os animais foram abandonados.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por conta dos maus-tratos, os jumentos continuaram morrendo na fazenda Santa Rita. Atualmente, apenas cerca de 420 est\u00e3o vivos. Em uma entrevista por telefone, a a bi\u00f3loga Patr\u00edcia Tatemoto, contou que existe o risco de mais mortes devido a uma doen\u00e7a metab\u00f3lica conhecida por hiperlipemia, sequela das condi\u00e7\u00f5es adversas . Patr\u00edcia \u00e9 a \u00fanica representante no Brasil da ONG brit\u00e2nica The Donkey Sanctuary, que atua globalmente na defesa dos jumentos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A The Donkey Sanctuary faz parte, junto com outras entidades, da Frente Nacional de Defesa dos Jumentos. Por determina\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a, s\u00e3o as entidades que agora t\u00eam a tutela dos animais e s\u00e3o respons\u00e1veis por mant\u00ea-los. Isso, claro, tem um custo elevado e exigem recursos que os ativistas n\u00e3o possuem. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para se ter uma ideia, o gasto di\u00e1rio s\u00f3 com a alimenta\u00e7\u00e3o dos sobreviventes \u00e9 de R$ 890, somado com outras despesas (veterin\u00e1rio, rem\u00e9dios) chega a algo em torno de R$ 50 mil ao m\u00eas. Uma campanha de financiamento coletivo, na plataforma Catarse, foi iniciada para arrecadar fundos. At\u00e9 o momento, apenas 11% da meta estabelecida foram atingidos.<\/span><\/p>\n<p><em>Esta reportagem \u00e9 uma parceria entre Di\u00e1logo Chino e <a href=\"https:\/\/marcozero.org\/\">Marco Zero Conte\u00fado<\/a>, uma organiza\u00e7\u00e3o de jornalismo independente em Recife, Brasil.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde que uma decis\u00e3o judicial proibiu o abate de jumentos na Bahia em novembro, o restaurante de Jos\u00e9 Bispo dos Santos, na cidade de Amargosa, vive \u00e0s moscas. Boa parte dos clientes de Santos, ou Zeca de Patr\u00e3o, como \u00e9 conhecido pelos amigos, trabalhava no matadouro da cidade e perdeu o emprego. 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