{"id":50031291,"date":"2019-10-31T03:20:48","date_gmt":"2019-10-31T03:20:48","guid":{"rendered":"https:\/\/stage.dialogochino.net\/?p=31291"},"modified":"2023-06-04T16:14:19","modified_gmt":"2023-06-04T15:14:19","slug":"31279-maca-as-falsas-promessas-afrodisiacas-que-viajaram-dos-andes-ate-a-china","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogue.earth\/pt-br\/alimentos\/31279-maca-as-falsas-promessas-afrodisiacas-que-viajaram-dos-andes-ate-a-china\/","title":{"rendered":"Maca: as falsas promessas afrodis\u00edacas que viajaram dos Andes at\u00e9 a China"},"content":{"rendered":"<p>No planalto de Bomb\u00f3n, no centro da Cordilheira dos Andes, o visitante sente-se dentro de uma geladeira. Contudo, se ele n\u00e3o tomar cuidado, o sol do meio-dia queima seu rosto como se estivesse em um forno.<\/p>\n<p>O planalto foi catalogado pelo governo peruano como Reserva Nacional de Jun\u00edn \u2014 onde se encontra o lago hom\u00f4nimo, tamb\u00e9m chamado de Chinchaycocha em quechua, desde a \u00e9poca dos incas. \u00c9 uma das fontes da \u00e1gua que abastece Lima, capital do Peru, mas tamb\u00e9m est\u00e1 contaminado pela minera\u00e7\u00e3o irrespons\u00e1vel das \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Foi nessas terras \u00e1ridas onde nasceu um \u201csuperalimento\u201d que atraiu aten\u00e7\u00e3o do mundo inteiro: a f\u00e9rtil maca (<em>Lepidium meyenii<\/em>), que viveu um boom econ\u00f4mico e em seguida desapareceu. O sumi\u00e7o se deu porque seu material gen\u00e9tico saiu do pa\u00eds sem permiss\u00e3o \u2014 em outras palavras, foi alvo de biopirataria.<\/p>\n<h2>Direto \u00e0 raiz<\/h2>\n<p>As ruas est\u00e3o vazias e nada parece esquentar as m\u00e3os. S\u00e3o 7 horas da manh\u00e3 e o term\u00f4metro marca -2 graus c\u00e9lsius. Na pra\u00e7a do centro do povoado de Huayre (4.113 metros acima do n\u00edvel do mar), no distrito de Jun\u00edn, eleva-se um extravagante monumento de vidro arroxeado em homenagem \u00e0 maca. A escultura lembra o espermatozoide de um dinossauro psicod\u00e9lico.<\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<p><figure id=\"attachment_31368\" aria-describedby=\"caption-attachment-31368\" style=\"width: 2000px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-31368 size-full\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2019\/10\/Huayre-Peru-3.jpg\" alt=\"Huayre Peru 3\" width=\"2000\" height=\"1337\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-31368\" class=\"wp-caption-text\">O centro de Huayre \u00e9 reconhecido por todos os moradores dos Andes peruanos como o ber\u00e7o da maca. Imagem: Jack Lo Lau.<\/figcaption><\/figure><\/p>\n<p><\/div>\n<p>Huayre tem apenas 1,2 mil habitantes, segundo o Instituto Nacional de Estat\u00edstica e Inform\u00e1tica peruano. Segundo os moradores de Jun\u00edn, nessa parte dos Andes nasceu a maca, causadora de uma riqueza ef\u00eamera que deslumbrou muita gente h\u00e1 pouco mais de seis anos.<\/p>\n<p>Desde a \u00e9poca dos incas, a maca teve diferentes usos e valores. A raiz \u00e9 capaz tanto de estimular a fertilidade como de combater a ins\u00f4nia. Pouco a pouco, contudo, a maca foi sendo deixada de lado. Na d\u00e9cada de 1980, foi declarada uma esp\u00e9cie em perigo de extin\u00e7\u00e3o. Segundo Iv\u00e1n Manrique, pesquisador do Centro Internacional da Batata (CIP, na sigla em espanhol), calcula-se que naqueles anos apenas havia 50 hectares de maca cultivados, que abasteciam os agricultores e pecuaristas no planalto de Bomb\u00f3n.<\/p>\n<p>No final dos anos 1990, a maca voltou a chamar aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 do Peru, mas da \u00c1sia. O governo do ent\u00e3o presidente Alberto Fujimori vendeu no Jap\u00e3o a ideia de que a maca era um alimento capaz de combater a impot\u00eancia sexual: uma esp\u00e9cie de viagra andino. Foi o in\u00edcio de uma onda de desinforma\u00e7\u00e3o que persiste at\u00e9 hoje, vinte anos depois.<\/p>\n<blockquote><p>N\u00f3s cheg\u00e1vamos, eles abriam o porta-malas e colocavam tudo ali. Nem contavam o dinheiro, e ent\u00e3o volt\u00e1vamos. Eu me sentia num desses filmes de m\u00e1fia<\/p><\/blockquote>\n<p>Em 2004, o governo do Peru declarou a maca \u2014 conhecida em outros pa\u00edses como ginseng ou gengibre peruano \u2014 como produto-bandeira do pa\u00eds. No entanto, os investimentos em pesquisas cient\u00edficas n\u00e3o deram conta dessa ambi\u00e7\u00e3o. No Peru, s\u00e3o poucas as institui\u00e7\u00f5es dedicadas a estudar esse alimento, entre as quais se destacam a Universidade Peruana Cayetano Heredia, a Universidade Nacional Agraria La Molina e o Centro Internacional da Batata.<\/p>\n<p>Sabe-se que o consumo da maca ajuda a melhorar a mem\u00f3ria, o aprendizado e a fertilidade (que n\u00e3o \u00e9 o mesmo que curar impot\u00eancia). Tamb\u00e9m eleva a resist\u00eancia ao estresse, ajuda a combater problemas na pr\u00f3stata, a manter energia e aumenta a vitalidade. H\u00e1 mais de dez variedades reconhecidas por suas cores: negra, vermelha, amarela, branca, rosa, cor de chumbo e outras. Cada cor oferece diferentes benef\u00edcios \u00e0 sa\u00fade.<\/p>\n<p>Entretanto, o que atra\u00eda a aten\u00e7\u00e3o dos consumidores na \u00c1sia eram as supostas propriedades afrodis\u00edacas da maca \u2014 especialmente na China.<\/p>\n<div class=\"cdo-shortcode--image\"><div id=\"galleryControls-31377\" class=\"carousel slide\" data-ride=\"carousel\"><div class=\"carousel-inner\"><\/div><a class=\"carousel-control-prev\" href=\"#galleryControls-31377\" role=\"button\" data-slide=\"prev\"><span class=\"carousel-control-prev-icon\" aria-hidden=\"true\"><\/span><span class=\"sr-only\">Previous<\/span><\/a><a class=\"carousel-control-next\" href=\"#galleryControls-31377\" role=\"button\" data-slide=\"next\"><span class=\"carousel-control-next-icon\" aria-hidden=\"true\"><\/span><span class=\"sr-only\">Next<\/span><\/a><\/div><\/div><p>&nbsp;<\/p>\n<h2>O boom da maca<\/h2>\n<p>\u201cTodo mundo ficou maluco. E como n\u00e3o? Vieram os chineses e come\u00e7aram a levar tudo. Levaram at\u00e9 os agricultores para tentar replicar nossas t\u00e9cnicas na China\u201d, lembra Teo Quispe. \u201cEu nunca tinha trabalhado com agricultura, mas tamb\u00e9m me animei. Ent\u00e3o, quando tentei vender, os chineses n\u00e3o voltaram mais e perdi tudo\u201d, conta, em meio a risadas, o motorista que j\u00e1 n\u00e3o quer nada com a maca e transporta passageiros pelos povoados de Jun\u00edn.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o soubemos cuidar da mat\u00e9ria-prima nem do mercado. N\u00e3o trabalhamos de maneira sustent\u00e1vel. Os chineses vieram e roubaram a informa\u00e7\u00e3o. Hoje, manipulam a maca como se fosse deles, mas a maca n\u00e3o cresce em nenhum outro lugar com a qualidade que temos em Jun\u00edn\u201d, comenta Mois\u00e9s Alderete, produtor de maca em Jun\u00edn, que se dedica \u00e0 pesquisa desse alimento nos Andes peruanos. Alderete divide seu tempo entre a pecu\u00e1ria e a maca, assim como quase todos os habitantes de Jun\u00edn, regi\u00e3o do Peru onde as atividades econ\u00f4micas giram em torno de vacas, algumas ovelhas, e planta\u00e7\u00f5es de batata e maca.<\/p>\n<p>Como relata Alderete e outros produtores, em 2013 negociantes chineses come\u00e7aram a aparecer em Jun\u00edn em busca de maca. E, como se estivessem comprando caramelos, levaram toda a colheita. Se a maca nessa \u00e9poca custava 3 d\u00f3lares por quilo, eles ofereciam 100, 150 e at\u00e9 200 d\u00f3lares.<\/p>\n<p>\u201cEles pagavam em cash (dinheiro). Chegavam com mochilas entupidas de dinheiro\u201d, conta Teo, contratado em tr\u00eas ocasi\u00f5es para dirigir 10 horas at\u00e9 Lima apenas para buscar malas cheias de d\u00f3lares. \u201cN\u00f3s cheg\u00e1vamos, eles abriam o porta-malas e colocavam tudo ali. Nem contavam o dinheiro, e ent\u00e3o volt\u00e1vamos. Eu me sentia num desses filmes de m\u00e1fia\u201d, acrescenta. Por causa disso, Jun\u00edn encheu-se de caminhonetes 4x4, bares e outros neg\u00f3cios, que foram t\u00e3o ef\u00eameros quanto o boom da raiz andina.<\/p>\n<p>\u201cOs agricultores n\u00e3o se importaram com nada. Venderam a alma para o diabo e agora estamos vivendo as consequ\u00eancias. Nessa \u00e9poca surgiu uma m\u00e1fia. Come\u00e7aram a tirar ilegalmente o bulbo da maca do pa\u00eds, pela fronteira com a Bol\u00edvia e pelo porto de Callao. Declaravam estar levando farinha de maca, mas as malas estavam cheias de bulbos. Isso era completamente ilegal\u201d, comenta Alejandra Velazco. Ela \u00e9 gerente de exporta\u00e7\u00f5es da Hersil, empresa peruana que fabrica medicamentos e produtos naturais h\u00e1 mais de 50 anos, e tamb\u00e9m presidente do Comit\u00ea de Produtos Naturais da Associa\u00e7\u00e3o de Exportadores do Peru (Adex).<\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-31304\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2019\/10\/Maca-Peru-2.jpg\" alt=\"Maca Peru\" width=\"2000\" height=\"1337\" \/><\/p>\n<p><\/div>\n<h2>Maca chinesa<\/h2>\n<p>Os empres\u00e1rios chineses n\u00e3o levaram apenas a maca, mas tamb\u00e9m sementes da planta e at\u00e9 o solo do planalto de Bomb\u00f3n.<\/p>\n<p>\u201cQuando comecei minha pesquisa, queria comprar sementes de maca. Mesmo que custasse 30 ou 40 soles (10-13 d\u00f3lares) o quilo, ningu\u00e9m queria vender por menos de 3 mil soles (900 d\u00f3lares). O ambiente em Jun\u00edn ficou tenso. As pessoas n\u00e3o se sentiam seguras. Havia m\u00e1fias que faziam press\u00e3o para que os produtores vendessem maca apenas para os chineses\u201d, conta Claudia Janampa, bi\u00f3loga e empreendedora que criou sua pr\u00f3pria marca de derivados de maca.<\/p>\n<p>Segundo Iv\u00e1n Manrique, do CIP, \u00e9 muito f\u00e1cil levar um pouco de maca e reproduzi-la pelo mundo. \u201cDentro de uma caneta vazia pode-se guardar 4 gramas de sementes de maca. Em cada grama, podem caber 2 mil sementes. Ou seja, \u00e9 poss\u00edvel tirar 8 mil sementes do pa\u00eds, com essa facilidade. Com essa quantidade, \u00e9 poss\u00edvel plantar meio hectare de maca. Se cada planta produz em m\u00e9dia duas mil sementes, pode-se plantar milhares de hectares ap\u00f3s um ano\u201d, explica.<\/p>\n<p>\u00c9 t\u00e3o f\u00e1cil que, na China, empres\u00e1rios come\u00e7aram a plantar maca na regi\u00e3o montanhosa da prov\u00edncia de Yunnan, no sul do pa\u00eds, cujos campos f\u00e9rteis est\u00e3o a 4 mil metros acima do n\u00edvel do mar \u2014 assim como no Peru.<\/p>\n<blockquote><p>O que aconteceu com a maca n\u00e3o \u00e9 culpa da China, mas do Peru, que est\u00e1 deixando outros pa\u00edses levarem seus produtos, sem proteg\u00ea-los<\/p><\/blockquote>\n<p>\u201cCalculamos que a maca come\u00e7ou a sair do Peru de forma ilegal em torno de 2002 e 2003. Hoje em dia, a China produz mais maca do que o Peru\u201d, afirma Andr\u00e9s Valladolid, presidente da Comiss\u00e3o Nacional contra a Biopirataria do Instituto Nacional de Defesa da Compet\u00eancia e Produ\u00e7\u00e3o da Propriedade Intelectual (Indecopi) do governo peruano.<\/p>\n<p>Em 2001, a Comiss\u00e3o Nacional de Planejamento de Sa\u00fade do governo chin\u00eas declarou a maca como recurso aliment\u00edcio. Os datas n\u00e3o coincidem, mas indicam uma alta dos cultivos chineses: segundo a empres\u00e1ria Alejandra Velazco, em 2014 a China tinha 12 mil hectares de cultivo de maca, enquanto o Peru \u2014 ber\u00e7o da planta \u2014 tinha apenas 5 mil. A Xinhua, ag\u00eancia de not\u00edcias estatal e \u00f3rg\u00e3o do governo chin\u00eas, explica que em 2012 havia 1.660 hectares de cultivo de maca em Yunnan, que se expandiriam para 13 mil hectares em 2020.<\/p>\n<p>Em 2014, o Peru sentiu o baque. \u201cSe em 2014 export\u00e1vamos cerca de 5 milh\u00f5es de d\u00f3lares, no ano seguinte esse valor era zero, e nunca mais exportamos para a China. Tamb\u00e9m perdemos clientes da Europa e dos Estados Unidos, que come\u00e7aram a comprar da China. Eles quiseram vender maca at\u00e9 para n\u00f3s, acredita?\u201d, pergunta Velazco. \u201cA maca chinesa tem cor e cheiro diferentes, n\u00e3o tem as mesmas propriedades, tem outra forma, lembra o gengibre. N\u00e3o funcionou bem, mas ainda assim roubaram muito do nosso mercado\u201d, conclui.<\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-31348\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2019\/10\/Chinese-biopirates-even-took-soil-from-the-Bombo\u0301n-plateau.jpg\" alt=\"\" width=\"2000\" height=\"1337\" \/><\/p>\n<p><\/div>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 permitido tirar nenhum tipo de material gen\u00e9tico do Peru sem permiss\u00e3o. Al\u00e9m disso, as compras feitas naqueles anos foram ilegais. No Peru, todas as transa\u00e7\u00f5es devem ser feitas por meio de bancos. E os empres\u00e1rios chineses pagaram em dinheiro, sem deixar rastros nem pagar impostos\u201d, conta Valladolid, que est\u00e1 organizando e fortalecendo estrat\u00e9gias para evitar situa\u00e7\u00f5es ilegais como essa, seja com a maca ou com outros alimentos peruanos.<\/p>\n<p>A bonan\u00e7a ef\u00eamera da maca n\u00e3o durou mais de tr\u00eas anos. Os produtores se endividaram, venderam suas caminhonetes e fecharam os bares. O pre\u00e7o da maca baixou at\u00e9 alcan\u00e7ar um valor menor do que o que tinha antes da chegada dos empres\u00e1rios chineses.<\/p>\n<p>Por outra parte, segundo a ag\u00eancia Xinhua, os produtores de maca na China denunciam estar sentindo o golpe da especula\u00e7\u00e3o dos empres\u00e1rios. Se antes vendiam cada quilo por quase 3 mil d\u00f3lares, agora o vendem por 3 d\u00f3lares, mudan\u00e7a que chamam de \u201cfraude da maca\u201d.<\/p>\n<p>Da mesma forma, acredita-se que pode n\u00e3o haver terra suficiente para cultivo se o ritmo de produ\u00e7\u00e3o da maca em Yunnan continuar a crescer. Os dados oficiais asseguram que no pr\u00f3ximo ano esse alimento de origem peruana ocupar\u00e1 mais de 13 mil hectares de solo chin\u00eas.<\/p>\n<h2>Pirataria biol\u00f3gica<\/h2>\n<p>\u201cQuando terceiros t\u00eam acesso a um recurso gen\u00e9tico peruano sem o consentimento do governo, que se d\u00e1 por meio de um contrato de acesso, isso \u00e9 chamado de biopirataria\u201d, reafirma Valladolid, que tem buscado as patentes no exterior que usam a marca como recurso. \u201cIdentificamos 1,7 mil solicita\u00e7\u00f5es de patente relacionadas \u00e0 maca em todo o mundo. E 75% delas s\u00e3o da China\u201d, confirma.<\/p>\n<blockquote><p>No caso da maca, agora precisamos descobrir a melhor maneira de nos relacionar com a China<\/p><\/blockquote>\n<p>A China exporta maca pelo mundo e est\u00e1 causando confus\u00e3o. Em junho de 2019, um carregamento da marca chinesa Maca Per\u00fa foi detido nos Estados Unidos ap\u00f3s a detec\u00e7\u00e3o de silnadefil, componente do viagra, motivo pelo qual a FDA \u2014 ag\u00eancia federal americana que regula alimentos e produtos farmac\u00eauticos nos Estados Unidos \u2014 recomendou evitar a compra dessa empresa.<\/p>\n<p>Como uma marca chinesa pode usar o nome do Peru e tamb\u00e9m um de seus principais produtos? \u00c9 a quest\u00e3o que Valladolid e sua equipe est\u00e3o investigando. \u201cOs chineses continuam vendendo a ideia da maca como estimulante sexual, e sei que est\u00e3o acrescentando a subst\u00e2ncia do viagra ao produto. \u00c9 uma maneira muito irrespons\u00e1vel de vender e enganar consumidores\u201d, argumenta Valladolid.<\/p>\n<p>Os empres\u00e1rios chineses se aproveitaram de um governo peruano indiferente. Da corrup\u00e7\u00e3o em todos os n\u00edveis, da aus\u00eancia de normas t\u00e9cnicas, da desorganiza\u00e7\u00e3o e sobretudo da pobreza dos produtores. O que fazer?<\/p>\n<h2>Prote\u00e7\u00e3o da maca peruana<\/h2>\n<p>Por ora, a associa\u00e7\u00e3o de exportadores Adex e a entidade de prote\u00e7\u00e3o de propriedade intelectual Indecopi est\u00e3o trabalhando em diversas estrat\u00e9gias para proteger o patrim\u00f4nio peruano.<\/p>\n<p>\u201cQueremos acabar com as janelas legais para tirar o germoplasma, por isso estamos trabalhando em modelos de contratos com a Adex e o Indecopi. Contudo, todas as organiza\u00e7\u00f5es estatais devem participar. O que aconteceu com a maca n\u00e3o \u00e9 culpa da China, mas do Peru, que est\u00e1 deixando outros pa\u00edses levarem seus produtos, sem proteg\u00ea-los\u201d, sentencia Velazco.<\/p>\n<blockquote><p>Podemos reclamar, iniciar alguma a\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica ou legal, mas o fato \u00e9 que uma vez que os recursos saem, n\u00e3o h\u00e1 retorno<\/p><\/blockquote>\n<p>Moradores dos Andes tamb\u00e9m pedem mais presen\u00e7a do governo peruano. \u201cN\u00e3o h\u00e1 projetos para apoiar a agroind\u00fastria e estimular o crescimento dos produtores. Nasci em Jun\u00edn e me considero filho da maca. \u00c9 um produto que tem alto valor nutritivo, econ\u00f4mico e social. O governo tem que apoiar os produtores, promover pesquisa e investir mais. \u00c9 preciso trabalhar na maca desde o solo at\u00e9 o produto final\u201d, explica o campesino Mois\u00e9s Alderete.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s como cons\u00f3rcio queremos o desenvolvimento integral do cultivo. Queremos desenvolver normas t\u00e9cnicas que protejam e organizem a ind\u00fastria da maca. Por isso, \u00e9 muito importante que o governo apoie de uma vez por todas os produtores e destine parte do or\u00e7amento para melhorar a produ\u00e7\u00e3o. Como pa\u00eds, demos ao mundo a batata. E recebemos algum retorno por isso? Ao contr\u00e1rio, n\u00f3s que fomos os primeiros produtores de batata hoje n\u00e3o a produzimos, mas a compramos. E ningu\u00e9m nos agradece\u201d, afirma Johnny V\u00edlchez, gerente geral da Associa\u00e7\u00e3o de Produtores de Maca (Apromaca) Peru, que integra nove associa\u00e7\u00f5es das regi\u00f5es de Jun\u00edn e Pasco.<\/p>\n<p>Segundo pesquisadores e produtores, a maca est\u00e1 prestes a revolucionar n\u00e3o apenas a alimenta\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m a sa\u00fade mundial.<\/p>\n<p>Nesse contexto, o Conselho Nacional de Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o Tecnol\u00f3gica (Concytec) do Peru, em conv\u00eanio com o Banco Mundial, est\u00e1 financiando um projeto do doutorado em ci\u00eancias da sa\u00fade na Universidade Cat\u00f3lica Santa Mar\u00eda (UCSM) de Arequipa, que analisa as propriedades desse superalimento para retardar os sintomas de Alzheimer. O governo peruano espera que essa seja uma boa oportunidade para gerar conhecimento e proteger seu patrim\u00f4nio.<\/p>\n<p>\u201cComo o recurso j\u00e1 saiu do pa\u00eds, n\u00e3o tem mais como traz\u00ea-lo de volta. Podemos reclamar, iniciar alguma a\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica ou legal, mas o fato \u00e9 que uma vez que os recursos saem, n\u00e3o h\u00e1 retorno\u201d, explica Manuel Ruiz, assessor da Sociedade Peruana de Direito Ambiental (SPDA), que realiza estudos e pesquisas em com\u00e9rcio internacional e biodiversidade.<\/p>\n<p>\u201cNo caso da maca, agora precisamos descobrir a melhor maneira de nos relacionar com a China. Desde j\u00e1 \u00e9 nossa responsabilidade garantir que nosso patrim\u00f4nio n\u00e3o saia do pa\u00eds com tanta facilidade. E isso n\u00e3o est\u00e1 acontecendo apenas com a maca, mas tamb\u00e9m com o sacha inchi, o yacon e outros produtos origin\u00e1rios do Peru\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>Com esse novo caminho, talvez seja poss\u00edvel evitar que a maca n\u00e3o seja apenas uma lembran\u00e7a, mas que se possa compartilhar seus benef\u00edcios com o mundo sem excluir os agricultores andinos, que preservaram o alimento durante tanto tempo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No planalto de Bomb\u00f3n, no centro da Cordilheira dos Andes, o visitante sente-se dentro de uma geladeira. Contudo, se ele n\u00e3o tomar cuidado, o sol do meio-dia queima seu rosto como se estivesse em um forno. 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