{"id":50037246,"date":"2020-09-03T16:23:30","date_gmt":"2020-09-03T15:23:30","guid":{"rendered":"https:\/\/stage.dialogochino.net\/?p=37246"},"modified":"2022-07-21T14:42:06","modified_gmt":"2022-07-21T13:42:06","slug":"37219-oncas-na-bolivia-apreensoes-em-baixa-levam-a-suspeitas-de-novas-mafias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogue.earth\/pt-br\/natureza\/37219-oncas-na-bolivia-apreensoes-em-baixa-levam-a-suspeitas-de-novas-mafias\/","title":{"rendered":"On\u00e7as na Bol\u00edvia: apreens\u00f5es em baixa levam a suspeitas de novas m\u00e1fias"},"content":{"rendered":"<p>Em 2016, em meio \u00e0s primeiras investiga\u00e7\u00f5es sobre o tr\u00e1fico de on\u00e7a-pintada na Bol\u00edvia, a bi\u00f3loga \u00c1ngela N\u00fa\u00f1ez recebeu uma curta mensagem de \u00e1udio no Whatsapp: &#8220;Dentes, Tigre&#8221;. Isso era tudo o que ela podia ouvir, e era suficiente. O arquivo foi enviado por um informante que estava muito pr\u00f3ximo \u00e0 Reserva Nacional de Vida Silvestre Amaz\u00f4nica Manuripi-Heath em Pando, e ele afirmou que a voz era a de um trabalhador chin\u00eas que estava ajudando a construir uma ponte na regi\u00e3o. Embora a bi\u00f3loga tenha alertado seus colegas que estavam trabalhando com ela na \u00e9poca no Servi\u00e7o Nacional de \u00c1reas Protegidas (Sernap), ela confessa que, devido \u00e0 falta de or\u00e7amento, eles n\u00e3o conseguiram chegar ao local.<\/p>\n<p>Estas s\u00e3o algumas das hist\u00f3rias que N\u00fa\u00f1ez e outros cientistas que estudam on\u00e7as-pintadas na Bol\u00edvia coletaram em campo durante os \u00faltimos sete anos. Al\u00e9m disso, h\u00e1 an\u00fancios em r\u00e1dios locais e at\u00e9 mesmo pap\u00e9is colados nas ruas que promovem a ca\u00e7a de on\u00e7as-pintadas para vender as partes do animal. Ao longo do caminho, as autoridades conseguiram investigar e processar alguns desses traficantes. Exatamente 21, de acordo com os n\u00fameros da Dire\u00e7\u00e3o Geral da Biodiversidade (DGBAP). Destes, cinco foram condenados.<\/p>\n<p>Estes avan\u00e7os, no entanto, come\u00e7aram a desacelerar h\u00e1 mais de um ano. A aus\u00eancia de novas apreens\u00f5es de pe\u00e7as de on\u00e7a-pintada desde janeiro de 2019 \u00e9 uma das evid\u00eancias mais concretas. Entretanto, a Bol\u00edvia come\u00e7ou a agir, e atualmente participa de uma das mais <a href=\"http:\/\/stage.dialogochino.net\/pt-br\/comercio-e-investimento-pt-br\/36363\/\">fortes campanhas<\/a> da Am\u00e9rica Latina, unindo cientistas e entidades p\u00fablicas para deter a perda de 6 mil a 7 mil on\u00e7as-pintadas dentro do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O n\u00famero \u00e9 otimista, segundo Marco Ribera, assessor cient\u00edfico da Opera\u00e7\u00e3o On\u00e7a-Pintada e parceiro da ONG Savia, levando em conta os inc\u00eandios de 2019 em \u00e1reas importantes para a on\u00e7a-pintada e a aus\u00eancia de apreens\u00f5es. O que est\u00e1 acontecendo com a on\u00e7a-pintada na Bol\u00edvia?<\/p>\n<h2>As brechas que facilitam o tr\u00e1fico<\/h2>\n<p>feitas pelos cientistas que a estudavam dentro de \u00e1reas naturais protegidas. Rob Wallace, que juntamente com Guido Ayala e Mar\u00eda Viscarra est\u00e1 liderando um estudo da Wildlife Conservation Society (WCS) sobre a popula\u00e7\u00e3o de on\u00e7as-pintadas no Parque Nacional Madidi, diz que em 2014, em meio \u00e0 instala\u00e7\u00e3o de armadilhas fotogr\u00e1ficas, eles ouviram no r\u00e1dio uma mensagem que n\u00e3o ouviam desde 2000, quando come\u00e7aram os trabalhos na \u00e1rea. O an\u00fancio oferecia a compra de dentes de on\u00e7a-pintada.<br \/>\nA Opera\u00e7\u00e3o On\u00e7a-Pintada, um projeto desenvolvido pela IUCN na Holanda com a organiza\u00e7\u00e3o Savia na Bol\u00edvia, indica que entre 2014 e 2016 cerca de 760 presas foram apreendidas na Bol\u00edvia. Mais alarmante, 200 on\u00e7as-pintadas poderiam ter sido mortas. S\u00f3 o servi\u00e7o postal boliviano, Ecobol, descobriu cerca de 300 destas presas em 16 pacotes com destino \u00e0 \u00c1sia.<\/p>\n<p>Um ano depois, em 2017, as bi\u00f3logas Angela Nu\u00f1ez e Enzo Aliaga come\u00e7aram a reunir todos os casos conhecidos e relatados perante diferentes entidades p\u00fablicas. Eles encontraram apreens\u00f5es de pe\u00e7as de on\u00e7a-pintada feitas durante inspe\u00e7\u00f5es domiciliares ou em pris\u00f5es associadas a outros crimes. Eles tamb\u00e9m coletaram casos associados a an\u00fancios de r\u00e1dio, o m\u00e9todo mais comum usado para solicitar as presas, muitos dos quais terminaram com a pris\u00e3o dos envolvidos. &#8220;Em muitos casos, o incentivo econ\u00f4mico pode ser tentador para os traficantes locais&#8230; os traficantes tiram proveito dessas necessidades&#8221;, dizem os especialistas.<\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<p><figure id=\"attachment_37233\" aria-describedby=\"caption-attachment-37233\" style=\"width: 1560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-37233 size-full\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2020\/08\/JaguarCraneo_Cuero-aceea.png\" alt=\"Jaguar parts storaged by communities in Bolivia\" width=\"1560\" height=\"878\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-37233\" class=\"wp-caption-text\">Nuno Negr\u00f5es e uma equipe de cientistas entrevistaram 600 fam\u00edlias no noroeste da Bol\u00edvia. Embora n\u00e3o tenham encontrado evid\u00eancias de mortes de on\u00e7as por tr\u00e1fico, h\u00e1 comunidades que guardam partes do gato. (Imagem: ACEAA- Conservaci\u00f3n Amaz\u00f3nica)<\/figcaption><\/figure><\/p>\n<p><\/div>\n<p>As apreens\u00f5es continuaram at\u00e9 2018. De janeiro de 2019 at\u00e9 hoje, ou seja, em 19 meses, a Pol\u00edcia Florestal e de Conserva\u00e7\u00e3o Ambiental (Pofoma) n\u00e3o relatou nenhuma descoberta nova de pe\u00e7as de on\u00e7a-pintada. &#8220;N\u00e3o sabemos se devemos lamentar ou ficar felizes por n\u00e3o termos recebido mais den\u00fancias de tr\u00e1fico de on\u00e7a-pintada na Bol\u00edvia, muito menos reclama\u00e7\u00f5es&#8221;, diz Rodrigo Herrera, assessor jur\u00eddico da DGBAP do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente.<\/p>\n<p>Eles n\u00e3o est\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es de dizer que houve um decl\u00ednio no tr\u00e1fico do felino, porque tamb\u00e9m poderiam ser novas formas de continuar o com\u00e9rcio ilegal. Entretanto, o que eles podem confirmar \u00e9 que o tr\u00e1fico de outras esp\u00e9cies de animais selvagens aumentou, incluindo outros felinos como pumas e jaguatiricas. &#8220;Sabemos que o mercado asi\u00e1tico n\u00e3o \u00e9 abastecido apenas pela on\u00e7a-pintada&#8221;, diz Herrera.<\/p>\n<p>\u00c9 claro para a comunidade cient\u00edfica que esta falta de apreens\u00f5es \u00e9 uma not\u00edcia alarmante. &#8220;N\u00f3s bi\u00f3logos estamos preocupados com esta situa\u00e7\u00e3o, n\u00f3s a discutimos nas oficinas que foram realizadas este ano. N\u00f3s nos perguntamos se a acusa\u00e7\u00e3o de 21 casos de tr\u00e1fico teve algum efeito ou se eles est\u00e3o trabalhando de maneiras menos \u00f3bvias, como fazem as m\u00e1fias&#8221;, diz Marco Ribera da Opera\u00e7\u00e3o On\u00e7a-Pintada.<\/p>\n<p>Diante de um cen\u00e1rio de incerteza, surgem v\u00e1rias hip\u00f3teses. Rob Wallace, da WCS, diz que a aus\u00eancia de apreens\u00f5es pode estar associada \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o das m\u00e1fias no encobrimento de suas a\u00e7\u00f5es, embora tamb\u00e9m possa se dever ao sucesso das a\u00e7\u00f5es tomadas para impedi-las. H\u00e1 uma terceira hip\u00f3tese, que \u00e9 compartilhada por v\u00e1rios especialistas em on\u00e7a-pintada e que est\u00e1 ligada ao conflito dos animais com os pecuaristas.<\/p>\n<p>&#8220;Sempre houve conflitos entre on\u00e7as-pintadas e pessoas. Onde h\u00e1 gado, h\u00e1 uma possibilidade de conflito. Assim, durante todos esses anos, a on\u00e7a-pintada foi ca\u00e7ada para fins n\u00e3o comerciais, apenas para controlar um problema&#8221;, diz o cientista. Mas n\u00e3o havia sido considerado se essas pessoas tinham pe\u00e7as de on\u00e7a-pintada (cabe\u00e7as, peles e presas) em estoque. &#8220;Quando o mercado de tr\u00e1fico aparece, \u00e9 prov\u00e1vel que tenha havido um estoque&#8221;, diz ele.<\/p>\n<p>Isto significa que as m\u00e1fias poderiam estar se abastecendo dessas pessoas, algo que as autoridades bolivianas n\u00e3o estavam considerando em suas investiga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Melissa Arias, pesquisadora do Departamento de Zoologia da Universidade de Oxford, argumenta que este conflito entre as on\u00e7as-pintadas e pecuaristas precisa ser examinado mais de perto. &#8220;\u00c9 poss\u00edvel que o com\u00e9rcio de presas de on\u00e7a-pintada seja um subproduto deste conflito com os seres humanos&#8221;, acrescenta ela.<\/p>\n<p>Nuno Negr\u00f5es, um cientista que at\u00e9 o ano passado liderou a\u00e7\u00f5es de monitoramento na Associa\u00e7\u00e3o Boliviana de Pesquisa e Conserva\u00e7\u00e3o dos Ecossistemas Andino-Amaz\u00f4nicos (Aceaa), publicou em dezembro passado um estudo com outros cientistas no qual eles analisam como a percep\u00e7\u00e3o da on\u00e7a-pintada, que eles qualificam como perigosa, pode levar a conflitos e a subsequente morte do animal.<\/p>\n<p>Negr\u00f5es diz que no noroeste da Bol\u00edvia eles descobriram que as mortes de on\u00e7as-pintadas s\u00e3o frequentes, mas que o tr\u00e1fico n\u00e3o \u00e9 sua principal causa. &#8220;N\u00e3o encontramos evid\u00eancias de que as pessoas saiam e matem on\u00e7as para vender as partes, mas essas pe\u00e7as podem acabar sendo vendidas a traficantes&#8221;, acrescenta ele. O especialista acredita que a aus\u00eancia desses dados tem a ver com a falta de capacidade de responder rapidamente \u00e0s diferentes formas como o felino \u00e9 traficado.<\/p>\n<p>O surgimento de novas modalidades de tr\u00e1fico pode ser consequ\u00eancia da fiscaliza\u00e7\u00e3o mais r\u00edgida nos \u00faltimos anos, diz Pauline Verheij, pesquisadora e advogada ambiental especializada em crimes contra a vida selvagem. &#8220;Eles n\u00e3o v\u00e3o mais anunciar no r\u00e1dio porque est\u00e3o sendo vigiados. O que tem acontecido em outros pa\u00edses com problemas de tr\u00e1fico de animais selvagens \u00e9 que as rotas e metodologias mudam&#8221;, diz ele.<\/p>\n<p>Por enquanto, os especialistas que fazem parte da Opera\u00e7\u00e3o On\u00e7a-Pintada, juntamente com fiscais e autoridades ambientais na Bol\u00edvia, identificaram pontos de coleta e compra das pe\u00e7as de felinos, al\u00e9m de outras cidades potenciais de onde partiriam os embarques internacionais. A an\u00e1lise indica que as partes animais s\u00e3o coletadas tanto no nordeste como no sudeste da Bol\u00edvia, em \u00e1reas onde a on\u00e7a-pintada \u00e9 conhecida por viver, e depois s\u00e3o traficadas atrav\u00e9s da fronteira para o Peru.<\/p>\n<p>&#8220;O tr\u00e1fico de pe\u00e7as de on\u00e7a-pintada e outros animais selvagens \u00e9 um crime, e, como o tr\u00e1fico de drogas ou de pessoas, usa rotas e locais muito remotos, com pouca vigil\u00e2ncia e uma popula\u00e7\u00e3o pequena. Eles podem at\u00e9 ser crimes relacionados entre si&#8221;, diz Marco Ribera, consultor cient\u00edfico da Opera\u00e7\u00e3o On\u00e7a-Pintada.<\/p>\n<p>O bi\u00f3logo Enzo Aliaga, que desde janeiro \u00e9 o diretor geral de Biodiversidade e \u00c1reas Protegidas (DGBAP), \u00e9 cr\u00edtico do papel que o Estado tem desempenhado neste controle.<\/p>\n<p>&#8220;Falamos com Pofoma &#8211; a ag\u00eancia policial &#8211; para descobrir porque n\u00e3o h\u00e1 mais apreens\u00f5es, mas n\u00e3o h\u00e1 resposta. Os resultados obtidos em anos anteriores foram casuais, eles n\u00e3o estavam procurando especificamente o tr\u00e1fico de on\u00e7a-pintada&#8221;, diz ele.<\/p>\n<p>O assessor jur\u00eddico da DGBAP Rodrigo Herrera concorda com Aliaga, acrescentando que at\u00e9 o momento n\u00e3o existe nenhuma lei que proteja os animais selvagens. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 san\u00e7\u00f5es para o tr\u00e1fico. Os 21 processos judiciais que conseguimos \u00e9 porque constru\u00edmos com v\u00e1rias normas e leis uma acusa\u00e7\u00e3o de destrui\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio p\u00fablico&#8221;, diz o advogado.<\/p>\n<p>Este problema significa que as penas s\u00e3o menos severas e que aqueles que mais se beneficiam s\u00e3o as m\u00e1fias, diz Enzo Aliaga. &#8220;Das cinco senten\u00e7as obtidas, apenas tr\u00eas receberam penas de pris\u00e3o, variando de tr\u00eas a seis anos, com a possibilidade de negociar a liberdade condicional&#8221;, diz ele. O pr\u00f3ximo passo, segundo Aliaga, \u00e9 ir atr\u00e1s dos traficantes. Mas antes de fazer isso, \u00e9 preciso entender como eles funcionam e ter penalidades mais severas.<\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<p><figure id=\"attachment_37230\" aria-describedby=\"caption-attachment-37230\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-37230 size-full\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2020\/08\/jaguares-bolivia-7.jpg\" alt=\"A jaguar caught by a camera trap in the north of Bolivia\" width=\"1500\" height=\"871\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-37230\" class=\"wp-caption-text\">Jaguar capturado por armadilha fotogr\u00e1fica no norte da Bol\u00edvia. (Imagem: ACEAA- Conservaci\u00f3n Amaz\u00f3nica)<\/figcaption><\/figure><\/p>\n<p><\/div>\n<h2>Fechando o cerco aos traficantes<\/h2>\n<p>H\u00e1 um fato que n\u00e3o pode ser ignorado: dos 21 processados por tr\u00e1fico de on\u00e7a-pintada, 17 s\u00e3o cidad\u00e3os chineses. A advogada ambientalista Pauline Verheij aponta em seu relat\u00f3rio no in\u00edcio de 2019 &#8211; com a Uni\u00e3o Internacional para a Conserva\u00e7\u00e3o da Natureza (UICN) na Holanda &#8211; que desde 2013, a compra de presas por cidad\u00e3os chineses &#8220;para contrabande\u00e1-las para a China, \u00e0s vezes com a ajuda de bolivianos&#8221; come\u00e7ou a ser registrada.<\/p>\n<p>O advogado ambiental tamb\u00e9m confirma que das 16 embalagens contendo 300 presas &#8211; detectadas pelo servi\u00e7o postal boliviano e destinadas \u00e0 \u00c1sia &#8211; 14 foram enviadas por cidad\u00e3os chineses que trabalham na Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>&#8220;Esse pa\u00eds \u00e9 o destino final. Quando foram encontrados produtos de felinos em outras partes da \u00c1sia foi porque eles estavam em tr\u00e2nsito para a China&#8221;, diz Vincent Nijman, antrop\u00f3logo da Universidade Oxford Brookes. A pesquisadora e Tha\u00eds Morcatty, entre outros cientistas, publicou recentemente um estudo sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o investimento chin\u00eas em projetos de infraestrutura e o tr\u00e1fico de felinos, um padr\u00e3o j\u00e1 visto na \u00c1frica, onde as popula\u00e7\u00f5es de le\u00f5es tamb\u00e9m est\u00e3o sendo reduzidas.<\/p>\n<figure id=\"attachment_37240\" aria-describedby=\"caption-attachment-37240\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-37240\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2020\/08\/jaguares-bolivia-3.jpg\" alt=\"Jaguar Bolivia\" width=\"400\" height=\"279\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-37240\" class=\"wp-caption-text\">Entre 2014 e 2016, os traficantes de pe\u00e7as de on\u00e7a-pintada utilizaram principalmente o servi\u00e7o postal boliviano. Estas foram encontradas principalmente sob a forma de j\u00f3ias ou lembran\u00e7as. Foto: Ecobol.<\/figcaption><\/figure>\n<p>O governo boliviano prefere ser cauteloso e se referir em termos gerais \u00e0 \u00c1sia ao falar sobre o destino e o mercado interessado nessas partes da on\u00e7a-pintada. &#8220;N\u00e3o queremos encorajar a xenofobia&#8221;, diz o advogado Rodrigo Herrera. Ele tamb\u00e9m acrescenta que houve a inten\u00e7\u00e3o de trabalhar em conjunto com a embaixada chinesa que come\u00e7ou em 2018, quando ela emitiu um aviso para destacar a proibi\u00e7\u00e3o de compra e movimenta\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as de on\u00e7a-pintada; entretanto, a embaixada n\u00e3o se comunicou com a entidade estatal desde ent\u00e3o, diz o advogado.<\/p>\n<p>&#8220;A posi\u00e7\u00e3o da China tem sido neutra. Eles nos disseram que a maior interven\u00e7\u00e3o que poderiam fazer era recomendar a seus cidad\u00e3os que n\u00e3o consumissem esses produtos&#8221;, diz Herrera. Em resposta, o assessor jur\u00eddico do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente diz que as visitas \u00e0s empresas chinesas que operam nos territ\u00f3rios onde a on\u00e7a-pintada vive, especialmente no departamento de Beni, t\u00eam se intensificado. &#8220;Tem sido dif\u00edcil porque a maioria dos operadores n\u00e3o fala espanhol ou n\u00e3o est\u00e1 interessada em ouvir sobre o assunto&#8221;, acrescenta o especialista.<\/p>\n<p>Uma das maiores preocupa\u00e7\u00f5es das autoridades bolivianas \u00e9 que o tr\u00e1fico deste animal \u00e9 um canal que facilita o com\u00e9rcio ilegal de outras esp\u00e9cies para a \u00c1sia. &#8220;Detectamos interesse nesse mercado para o urso andino, por exemplo, que temos que come\u00e7ar a proteger com mais for\u00e7a&#8221;, disse Herrera.<\/p>\n<p>Para Tha\u00eds Morcatty, doutoranda em antropologia pela Universidade de Oxford Brookes e especialista em tr\u00e1fico de animais silvestres, os pa\u00edses com governan\u00e7a fraca e altos n\u00edveis de investimento da China, bem como florestas mal servidas, s\u00e3o aqueles com os mais altos n\u00edveis de com\u00e9rcio ilegal de animais silvestres, especificamente on\u00e7as-pintadas. Isto j\u00e1 foi advertido desde 2016 pela bi\u00f3loga \u00c1ngela N\u00fa\u00f1ez, especialista em quest\u00f5es de tr\u00e1fico com a Opera\u00e7\u00e3o On\u00e7a-Pintada. Especialmente entre 2016 e 2017, acrescenta, &#8220;descobrimos que estavam sendo realizados trabalhos com capital chin\u00eas em Pando e na fronteira entre La Paz e Beni, onde foram encontrados cidad\u00e3os chineses pedindo presas ou em que partes deste animal foram apreendidas\u201d.<\/p>\n<p>Com respeito ao trabalho liderado por Morcatty, a pesquisadora disse ao Mongabay Latam que ela coletou informa\u00e7\u00f5es desde 2012 da <a href=\"http:\/\/stage.dialogochino.net\/pt-br\/comercio-e-investimento-pt-br\/36363\/\">Am\u00e9rica Central<\/a> e do Sul, e que conseguiu identificar que esta rela\u00e7\u00e3o comercial estabelecida com a China tamb\u00e9m permitiu o estabelecimento de uma cadeia legal de troca monet\u00e1ria que pode cobrir transfer\u00eancias ilegais de dinheiro.<\/p>\n<p>No entanto, ao analisar as apreens\u00f5es de pe\u00e7as de on\u00e7a-pintada, ela descobriu que apenas 34% delas eram destinadas \u00e0 China. &#8220;Os outros 66% n\u00e3o tinham um destino claro ou seriam utilizados para o com\u00e9rcio ilegal na Bol\u00edvia&#8221;, disse Morcatty.<\/p>\n<p>O antrop\u00f3logo Vincent Nijman, que tamb\u00e9m fez parte dessa pesquisa, diz que \u00e9 sobre esses 66% que podem ser feitas mais pesquisas, revelando quem mais faz parte da cadeia do tr\u00e1fico. &#8220;A ideia n\u00e3o \u00e9 estigmatizar uma comunidade ou um pa\u00eds, mas trabalhar em ambos os lados do problema para resolv\u00ea-lo. N\u00e3o queremos inferir que todos os trabalhadores chineses que v\u00eam para obras de infraestrutura na Am\u00e9rica Latina s\u00e3o criminosos, provavelmente a grande maioria n\u00e3o est\u00e1 ligada ao crime&#8221;, diz ele.<br \/>\n&#8220;Em nossas investiga\u00e7\u00f5es estamos procurando criminosos, n\u00e3o pessoas de certa nacionalidade&#8221;, diz Andrea Crosta, diretora executiva da Earth League International (ELI), que investiga o tr\u00e1fico de animais selvagens em todo o mundo.<\/p>\n<h2>Abrigos para on\u00e7as-pintadas e como salv\u00e1-las<\/h2>\n<figure id=\"attachment_37227\" aria-describedby=\"caption-attachment-37227\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-37227\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2020\/08\/jaguares-bolivia-2.jpg\" alt=\"Jaguar Bolivia\" width=\"450\" height=\"300\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-37227\" class=\"wp-caption-text\">Desde 2014, o registro do tr\u00e1fego de pe\u00e7as de on\u00e7a-pintada, especialmente para a China, come\u00e7ou. No entanto, h\u00e1 informa\u00e7\u00f5es de que este tr\u00e2nsito ilegal come\u00e7ou em 2013 naquele pa\u00eds. (Imagem: Clovis de la Jaille)<\/figcaption><\/figure>\n<p>As amea\u00e7as \u00e0s on\u00e7as-pintadas na Bol\u00edvia &#8211; e no <a href=\"http:\/\/stage.dialogochino.net\/pt-br\/comercio-e-investimento-pt-br\/36363\/\">resto da Am\u00e9rica Latina<\/a> &#8211; n\u00e3o s\u00e3o resolvidas apenas pelo controle do tr\u00e1fico de animais silvestres. H\u00e1 outros problemas a serem resolvidos. &#8220;Ainda temos que lidar com a perda do habitat e a diminui\u00e7\u00e3o das presas consumidas pela on\u00e7a-pintada, o que a obriga a continuar a viajar por \u00e1reas maiores e \u00e9 mais prov\u00e1vel que entre em conflito com as pessoas&#8221;, diz o diretor da DGBAP, Enzo Aliaga. Em junho do ano passado, Mongabay Latam relatou a aus\u00eancia da on\u00e7a-pintada na Unidade de Conserva\u00e7\u00e3o do Patrim\u00f4nio Natural (UPCN) Santa Cruz La Vieja, justamente por causa do crescimento da fronteira agr\u00edcola e o consequente desmatamento da \u00e1rea.<\/p>\n<p>Um estudo publicado em 2018 por Leonardo Maffei &#8211; em conjunto com outros pesquisadores &#8211; sobre a situa\u00e7\u00e3o da on\u00e7a-pintada na Bol\u00edvia aponta que o avan\u00e7o das fronteiras agr\u00edcola e pecu\u00e1ria \u00e9 a principal raz\u00e3o pela qual o habitat da on\u00e7a-pintada passou de cobrir 75% do territ\u00f3rio nacional para um pouco mais de 50%.<\/p>\n<p>&#8220;A perspectiva a m\u00e9dio prazo \u00e9 que esta \u00e1rea ser\u00e1 reduzida mais drasticamente por pol\u00edticas estatais de seguran\u00e7a alimentar que promovam a expans\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o&#8221;, adverte a pesquisa.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, as grandes queimadas registrados em 2019 afetaram uma grande parte do territ\u00f3rio coberto pela on\u00e7a-pintada. Panthera, a organiza\u00e7\u00e3o mundial de conserva\u00e7\u00e3o de felinos selvagens, estimou que pelo menos 500 on\u00e7as-pintadas adultas morreram ou foram deslocadas pelos inc\u00eandios no Brasil e na Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>Maikol Melgar, chefe do Servi\u00e7o Nacional de \u00c1reas Protegidas (Sernap), cita a pesquisa da Funda\u00e7\u00e3o para a Conserva\u00e7\u00e3o da Floresta de Chiquitano, uma das mais danificadas pelas queimadas. &#8220;Foi identificado que 2,8 milh\u00f5es de hectares haviam sido arrasados, o que significa 16,5% do territ\u00f3rio da on\u00e7a-pintada no ecossistema de Chiquitano, em Santa Cruz&#8221;, disse o oficial.<\/p>\n<p>Diante deste panorama de riscos, v\u00e1rias iniciativas promovidas pelo Estado come\u00e7aram a surgir, com o apoio de entidades privadas, universidades e cientistas independentes. O primeiro passo foi a cria\u00e7\u00e3o da Alian\u00e7a Nacional para a Conserva\u00e7\u00e3o da On\u00e7a-Pintada, um espa\u00e7o para facilitar a troca de informa\u00e7\u00f5es e a tomada de decis\u00f5es. O resultado foi a publica\u00e7\u00e3o de um Plano de A\u00e7\u00e3o para a Conserva\u00e7\u00e3o da On\u00e7a-Pintada.<\/p>\n<p>Outra proposta que est\u00e1 atualmente em fase de rascunho no Minist\u00e9rio da Presid\u00eancia da Bol\u00edvia \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de uma Lei de Prote\u00e7\u00e3o Animal, a primeira de seu tipo no pa\u00eds. &#8220;Precisamos mudar o c\u00f3digo penal para tornar as san\u00e7\u00f5es mais dr\u00e1sticas eficazes para crimes como o tr\u00e1fico de pe\u00e7as de on\u00e7a-pintada&#8221;, diz Aliaga. Estas modifica\u00e7\u00f5es propostas pelo projeto de lei consideram o biocida animal, que tem uma pena m\u00e1xima de 15 anos de pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma parte essencial desta luta inclui a prote\u00e7\u00e3o de \u00e1reas naturais protegidas. Na Bol\u00edvia, a maior parte da pesquisa que tem sido capaz de monitorar on\u00e7as-pintadas por muito tempo \u00e9 encontrada nestas \u00e1reas. Um exemplo deste trabalho \u00e9 aquele realizado pela WCS no Parque Nacional Madidi, onde eles puderam monitorar a popula\u00e7\u00e3o de on\u00e7as-pintadas por 20 anos em \u00e1reas onde os madeireiros haviam desmatado grande parte da floresta.<\/p>\n<p>Rob Wallace, um dos pesquisadores da WCS neste projeto, diz que em cada interven\u00e7\u00e3o eles t\u00eam cerca de 100 esta\u00e7\u00f5es com armadilhas para c\u00e2meras. Em uma dessas \u00e1reas, localizada entre os vales dos rios Tuichi e Hondo, eles encontraram resultados surpreendentes. Enquanto em 2001 obtiveram uma densidade de meia on\u00e7a-pintada por 100 quil\u00f4metros quadrados, em 2008 aumentaram para duas, e em 2014 entre 5 e 6 on\u00e7as-pintadas. H\u00e1 algumas semanas eles conseguiram terminar de processar os dados coletados pelas armadilhas fotogr\u00e1ficas naquele ponto e observaram at\u00e9 9 on\u00e7as por 100 quil\u00f4metros quadrados, mais do dobro da m\u00e9dia sul-americana (4 por 100 km2)<br \/>\n.<br \/>\nEmbora Wallace ressalte que os resultados recentes s\u00e3o de um \u00fanico ponto em Madidi, \u00e9, no entanto, uma evid\u00eancia encorajadora da import\u00e2ncia das \u00e1reas protegidas na conserva\u00e7\u00e3o da vida selvagem. &#8220;\u00c9 claro que a primeira coisa que precisamos refor\u00e7ar \u00e9 a prote\u00e7\u00e3o nestas \u00e1reas&#8221;, acrescenta ele.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o na Bol\u00edvia \u00e9 animadora, pois, segundo o diretor da Sernap, Maikol Melgar, a on\u00e7a-pintada \u00e9 encontrada em doze \u00e1reas protegidas. No total, h\u00e1 mais de 20 milh\u00f5es de hectares que garantiriam pelo menos 70% da presen\u00e7a da esp\u00e9cie, de acordo com pesquisas realizadas pela Opera\u00e7\u00e3o On\u00e7a-Pintada.<\/p>\n<p>No entanto, os perigos ainda est\u00e3o presentes. \u00c9 por isso que a pr\u00f3xima miss\u00e3o que os cientistas bolivianos encamparam e fazer com que a Uni\u00e3o Internacional para a Conserva\u00e7\u00e3o da Natureza aprove em seu pr\u00f3ximo congresso a Mo\u00e7\u00e3o 106 apresentada pela Bol\u00edvia, que pede para elevar a categoria de prote\u00e7\u00e3o global da on\u00e7a-pintada de \u201cQuase Amea\u00e7ada\u201d para \u201cVulner\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p><em>Est\u00e1 reportagem \u00e9 parte de uma <a href=\"https:\/\/es.mongabay.com\/2020\/08\/jaguares-bolivia-trafico-mafias\/\">parceria editorial<\/a> com o Mongabay Latam.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2016, em meio \u00e0s primeiras investiga\u00e7\u00f5es sobre o tr\u00e1fico de on\u00e7a-pintada na Bol\u00edvia, a bi\u00f3loga \u00c1ngela N\u00fa\u00f1ez recebeu uma curta mensagem de \u00e1udio no Whatsapp: &#8220;Dentes, Tigre&#8221;. 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