{"id":50037415,"date":"2020-09-14T16:01:46","date_gmt":"2020-09-14T15:01:46","guid":{"rendered":"https:\/\/stage.dialogochino.net\/?p=37415"},"modified":"2022-07-21T19:37:18","modified_gmt":"2022-07-21T18:37:18","slug":"37382-a-corrida-do-ouro-ameaca-o-pais-mais-verde-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogue.earth\/pt-br\/poluicao\/37382-a-corrida-do-ouro-ameaca-o-pais-mais-verde-do-mundo\/","title":{"rendered":"A Corrida do Ouro Amea\u00e7a o Pa\u00eds mais Verde do Mundo"},"content":{"rendered":"<p>Homens, em ritmo acelerado, carregando pesadas bolsas<span style=\"font-weight: 400;\"> esportivas com ouro, passam pela entrada de uma das lojas de ouro no centro de Paramaribo, a capital do Suriname. O vigia, um homem de \u00f3culos escuros e bermuda, observa do estacionamento e sua m\u00e3o repousa na pochete, presa sobre o seu peito. L\u00e1 dentro, os idiomas chin\u00eas, portugu\u00eas e holand\u00eas podem ser ouvidos,\u00a0 \u00e0 medida que os quilogramas de ouro passam de m\u00e3o em m\u00e3o. Ningu\u00e9m pergunta aos homens de onde o ouro foi extra\u00eddo antes deles sa\u00edrem da loja. As bolsas agora est\u00e3o pesadas com dinheiro vivo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No balc\u00e3o, Harry Souza*, um brasileiro musculoso, mostra suas tatuagens e um pequeno balde de metal cheio de barras de ouro em diferentes cores e tamanhos.\u00a0 Existem at\u00e9 algumas &#8220;esponjas&#8221;, outro nome para o am\u00e1lgama de merc\u00fario e ouro vindo diretamente das minas e parecido com um luxuoso recife de coral. \u201cQuanto mais vermelho, maior a qualidade\u201d, diz Souza. \u201cQuanto mais verde ou preto, menos [valioso].\u201d Nos fundos da loja de ouro, um ma\u00e7arico cospe chamas e Souza retorna para queimar o excesso de merc\u00fario sob um exaustor. A quantidade de ouro deixada para tr\u00e1s no balde pesa cerca de um quilograma &#8211; um valor de mercado de mais de US$ 62.000 (pre\u00e7o em 4 de setembro)<\/span><\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<p><figure id=\"attachment_37383\" aria-describedby=\"caption-attachment-37383\" style=\"width: 2000px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-37383 size-full\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2020\/09\/Gold-burning-suriname-scaled.jpg\" alt=\"A worker burns off surplus mercury from the gold\" width=\"2000\" height=\"1333\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-37383\" class=\"wp-caption-text\">Um trabalhador queima o resto de merc\u00fario do ouro para evapor\u00e1-lo (imagem: Bram Ebus\/InfoAmazonia)<\/figcaption><\/figure><\/p>\n<p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A minera\u00e7\u00e3o de ouro \u00e9 a for\u00e7a motriz da economia do Suriname, um pequeno pa\u00eds no canto nordeste da Am\u00e9rica do Sul. No papel, o Suriname produziu cerca de 32.800 quilos de ouro em 2019 e mais da metade disso veio da minera\u00e7\u00e3o artesanal e de pequena escala. O ouro \u00e9 respons\u00e1vel por mais de 80% da receita do Suriname em exporta\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tal como na <a href=\"http:\/\/stage.dialogochino.net\/pt-br\/infraestrutura-pt-br\/21419-china-amplia-sua-influencia-na-guiana\/\">Guiana<\/a>, a ind\u00fastria do ouro no Suriname \u00e9 sustentada pelo mercado negro do merc\u00fario<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, o metal t\u00f3xico usado no processo de extra\u00e7\u00e3o. O pa\u00eds usa mais de 50 toneladas de merc\u00fario ao ano, e os especialistas acreditam que toda essa quantia entra hoje ilegalmente no pa\u00eds. A polui\u00e7\u00e3o por merc\u00fario \u00e9 galopante em todo o pa\u00eds, da capital litor\u00e2nea at\u00e9 remotas bacias hidrogr\u00e1ficas do interior, mas, sem a assist\u00eancia do governo, os pequenos mineradores geralmente precisam escolher entre sustentar as redes de tr\u00e1fico de merc\u00fario ou perder seus meios de subsist\u00eancia.<\/span><\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-37386 size-full\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2020\/09\/Map-Suriname.jpg\" alt=\"map showing the mercury route\" width=\"793\" height=\"534\" \/><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nas imagens de sat\u00e9lite, o Suriname \u00e9 quase totalmente verde. A selva cobre 93% do pa\u00eds, tornando-o uma das na\u00e7\u00f5es mais densamente florestadas do mundo. Mas uma moderna corrida pelo ouro est\u00e1 amea\u00e7ando as exuberantes florestas do pa\u00eds.<\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400;\"> Projetos legais e ilegais de extra\u00e7\u00e3o de ouro se tornaram os maiores respons\u00e1veis pelo desmatamento no Suriname.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por toda a floresta tropical, muitas comunidades dependem da minera\u00e7\u00e3o, incluindo os Maroons, descendentes de escravos africanos que escaparam das planta\u00e7\u00f5es holandesas no litoral, estabelecendo-se no interior e que possuem fortes conex\u00f5es culturais com a minera\u00e7\u00e3o e o ouro. O aumento vertiginoso dos pre\u00e7os do ouro no in\u00edcio do s\u00e9culo 21 levou a uma r\u00e1pida expans\u00e3o da ind\u00fastria da minera\u00e7\u00e3o, especialmente no territ\u00f3rio quilombola. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Projetos legais e ilegais de extra\u00e7\u00e3o de ouro se tornaram os maiores respons\u00e1veis pelo desmatamento no Suriname.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> O desmatamento anual no Suriname aumentou 12% em 2018, sendo a quinta maior taxa de desmatamento no mundo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O impacto da ind\u00fastria \u00e9 maior em assentamentos de f\u00e1cil acesso, como Brownsweg, uma pequena vila maroon no interior do Suriname. A maioria da popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 envolvida na minera\u00e7\u00e3o. \u00c0 noite, alguns poucos garimpeiros mais abastados aparecem para festejar em frente aos supermercados chineses e \u00e0s lojas de bebidas alc\u00f3olicas, perambulando com seus Lexus ES 360 na selva. Mas a maioria deles s\u00e3o garimpeiros de subsist\u00eancia e fazem de tudo para se virar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em um garimpo a uma hora de Brownsweg, um dos l\u00edderes da comunidade marron local, chamados de capit\u00e3es, anda pelas crateras de cor ocre, que formam uma cicatriz na floresta verde. Com chinelos esportivos e uma Pangi, a roupa tradicional\u00a0 marron usada sobre seu ombro direito, \u201cCapy\u201d explica que seus garimpeiros usam maquin\u00e1rio pesado para escavar as minas, mas precisam do merc\u00fario para separar o ouro da lama.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 o merc\u00fario que faz girar as economias de minera\u00e7\u00e3o locais. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Cerca de 98% dos garimpeiros do Suriname usam merc\u00fario, que se liga aos pequenas fagulhas de ouro misturados \u00e0 \u00e1gua e \u00e0 lama<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, que s\u00e3o eliminadas das minas. Sem o\u00a0 azougue l\u00edquido, os garimpos artesanais seriam incapazes de extrair de forma eficiente o ouro preso no solo da selva, de acordo com Jessica Naarendorp, diretora financeira da NANA Resources, uma empresa surinamesa que anteriormente extra\u00eda ouro, mas que agora explora principalmente para empresas de minera\u00e7\u00e3o nacionais e estrangeiras.<\/span><\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<p><figure id=\"attachment_37389\" aria-describedby=\"caption-attachment-37389\" style=\"width: 2000px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-37389 size-full\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2020\/09\/Gold-miners-Suriname-scaled.jpg\" alt=\"Gold miners at work in Suriname\" width=\"2000\" height=\"1333\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-37389\" class=\"wp-caption-text\">Garimpeiros trabalham em mina ilegal no Suriname (imagem: Bram Ebus\/InfoAmazonia)<\/figcaption><\/figure><\/p>\n<p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para cada quilograma de ouro extra\u00eddo, s\u00e3o utilizados aproximadamente tr\u00eas quilogramas de merc\u00fario, e a maior parte \u00e9 liberada no fr\u00e1gil ecossistema da Amaz\u00f4nia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mais de 100 quil\u00f4metros ao norte da mina do Capy, Paul Ouboter, bi\u00f3logo e diretor do <\/span><a href=\"https:\/\/www.neowild.org\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">Institute for Neotropical Wildlife and Environmental Studies no Suriname (tamb\u00e9m conhecido como NeoWild),<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> senta-se no terra\u00e7o da sua casa em Paramaribo. Ele tra\u00e7a na tela do seu laptop as vias fluviais do pa\u00eds nos mapas. Grande parte do merc\u00fario liberado pelo setor de minera\u00e7\u00e3o acaba se acumulando nos rios da regi\u00e3o, segundo Ouboter. De l\u00e1, o merc\u00fario acaba chegando \u00e0 cadeia alimentar. Comunidades ind\u00edgenas, como os Maroons, que dependem em grande parte do peixe na sua dieta alimentar, est\u00e3o expostas a n\u00edveis particularmente altos de merc\u00fario.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Pesquisas mostram que quase metade dos peixes predadores pescados no Suriname apresenta n\u00edveis elevados de merc\u00fario. &#8220;Isso \u00e9 um problema, porque as pessoas gostam de comer peixes grandes&#8221;, ele diz com um sorriso largo. &#8220;N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil mudar os h\u00e1bitos alimentares das pessoas, mas \u00e9 o que precisamos fazer&#8221;. Peixe lobo gigante, piranhas e v\u00e1rios bagres deveriam ser evitados no card\u00e1pio do Suriname, de acordo com Ouboter.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas o merc\u00fario n\u00e3o \u00e9 transportado apenas pela \u00e1gua e pelos peixes, ele tamb\u00e9m viaja pelo ar, ap\u00f3s sua evapora\u00e7\u00e3o das superf\u00edcies da \u00e1gua e da vegeta\u00e7\u00e3o, ou depois que os garimpeiros queimam o merc\u00fario do am\u00e1lgama no local. &#8220;O que acontece ent\u00e3o \u00e9 que o metal segue com os ventos al\u00edsios do nordeste para o oeste e depois \u00e9 depositado novamente, especialmente quando chove&#8221;, diz Ouboter. O merc\u00fario suspenso no ar pode chegar a regi\u00f5es sem nenhum garimpo, como a bacia superior do rio Coppename.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ouboter est\u00e1 solicitando a proibi\u00e7\u00e3o imediata do merc\u00fario, apesar de advertir que \u00e9 imposs\u00edvel a revers\u00e3o dos danos causados aos sistemas fluviais. O merc\u00fario que j\u00e1 se encontra no ecossistema permanecer\u00e1 por l\u00e1 durante s\u00e9culos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Capy, o garimpeiro em Brownsweg, est\u00e1 ciente do impacto ambiental da sua opera\u00e7\u00e3o, mas afirma que isso n\u00e3o \u00e9 nada, se comparado \u00e0s corpora\u00e7\u00f5es internacionais, que escavam mais profundamente do que os garimpeiros de pequena e m\u00e9dia escalas e que aplicam cianeto t\u00f3xico no seu processo de extra\u00e7\u00e3o. A polui\u00e7\u00e3o por cianeto, embora n\u00e3o t\u00e3o persistente quanto a contamina\u00e7\u00e3o por merc\u00fario, \u00e9 ainda uma grave amea\u00e7a \u00e0 vida selvagem e \u00e0 sa\u00fade humana. &#8220;A meu ver, o governo possui grandes interesses nessas grandes empresas&#8221;, ele diz, &#8220;ent\u00e3o eles n\u00e3o se importam&#8221;.<\/span><\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<p><figure id=\"attachment_37433\" aria-describedby=\"caption-attachment-37433\" style=\"width: 2000px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-37433 size-full\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2020\/09\/river-suriname-scaled.jpg\" alt=\"Sunset in the Coppename river in Suriname\" width=\"2000\" height=\"1333\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-37433\" class=\"wp-caption-text\">O rio Coppename. (imagem: Bram Ebus\/InfoAmazonia)<\/figcaption><\/figure><\/p>\n<p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As duas grandes multinacionais estrangeiras de minera\u00e7\u00e3o no Suriname, IAMGOLD e Newmont Mining, utilizam um processo chamado lixivia\u00e7\u00e3o por cianeto, que consegue extrair concentra\u00e7\u00f5es mais finas de ouro do solo. Com esses m\u00e9todos avan\u00e7ados, os investidores estrangeiros podem trabalhar em terrenos anteriormente minerados pelos Maroons, que conseguem capturar apenas cerca de 30% do ouro dispon\u00edvel.<\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400;\">Na cidade, eles acham que n\u00f3s, residentes do interior, n\u00e3o somos bons, nada do que fazemos \u00e9 bom<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O capit\u00e3o maroon reclama que as minas n\u00e3o s\u00e3o a \u00fanica fonte de polui\u00e7\u00e3o por merc\u00fario. As lojas de ouro em Paramaribo, ele argumenta, usam as mesmas t\u00e9cnicas para queimar o merc\u00fario e isolar o ouro.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> &#8220;Na cidade, eles acham que n\u00f3s, residentes do interior, n\u00e3o somos bons, nada do que fazemos \u00e9 bom&#8221;<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, diz ele. \u201cMas quando trazemos nosso ouro para a cidade, a mesma coisa acontece l\u00e1. E ningu\u00e9m pode me dizer que isso n\u00e3o \u00e9 prejudicial\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Paramaribo, a pequena e agitada capital do Suriname, \u00e9 um caldeir\u00e3o de etnias. Antigas casas coloniais holandesas e uma cozinha internacional fazem da cidade um destino para turistas, a maioria chegando em voos diretos da Holanda. Apesar da sua pequena popula\u00e7\u00e3o de 586.000 habitantes, o pa\u00eds n\u00e3o possui uma etnia dominante. Trabalhadores indianos e chineses, trazidos depois do fim da escravid\u00e3o em 1863, constituem\u00a0 atualmente mais de um quarto da popula\u00e7\u00e3o do Suriname. O idioma oficial \u00e9 o holand\u00eas, e o idioma comum \u00e9 o Sranan Tongo, crioulo de base holandesa, inglesa e portuguesa, mas o portugu\u00eas \u00e9 dominante na parte norte da cidade, em um bairro chamado Little Bel\u00e9m &#8211; em homenagem \u00e0 cidade brasileira localizada a mais de 1.000 km de dist\u00e2ncia de Paramaribo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Little Bel\u00e9m caracteriza-se por ter muitos supermercados e fachadas de lojas brasileiras anunciando em portugu\u00eas a &#8220;compra de ouro&#8221;. A comunidade de migrantes foi constru\u00edda em d\u00e9cadas de migra\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra de brasileiros em busca de melhores perspectivas econ\u00f4micas. A maioria deles encontrou trabalho como garimpeiros, mineradores ilegais de ouro ou operando o com\u00e9rcio nas lojas de ouro de Paramaribo, que despejam vapor de merc\u00fario sobre o ar da cidade pelas chamin\u00e9s dos telhados.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Dennis Wip, professor s\u00eanior na Universidade do Suriname, especialista em polui\u00e7\u00e3o por merc\u00fario, alerta que essas chamin\u00e9s podem ser lentos assassinos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8220;A polui\u00e7\u00e3o por merc\u00fario \u00e9 um grande problema no Suriname&#8221;, diz Wip, e n\u00e3o apenas em locais remotos de minera\u00e7\u00e3o, como muitas pessoas sup\u00f5em. &#8220;Na cidade de Paramaribo, a polui\u00e7\u00e3o \u00e9 bastante alta&#8221;, diz ele. Ocasionalmente, as emiss\u00f5es na cidade das lojas de ouro elevam os n\u00edveis atmosf\u00e9ricos de merc\u00fario para 30.000 nanogramas por metro c\u00fabico, significativamente mais altos do que os padr\u00f5es considerados seguros pela Uni\u00e3o Europeia e pelos Estados Unidos, segundo o cientista. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">&#8220;Em Paramaribo, vimos medi\u00e7\u00f5es seis a doze vezes mais altas do que nos campos aur\u00edferos&#8221;<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, diz ele. &#8220;Isso significa que precisamos cuidar dos neg\u00f3cios de ouro da cidade&#8221;.<\/span><\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<p><figure id=\"attachment_37393\" aria-describedby=\"caption-attachment-37393\" style=\"width: 2000px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-37393 size-full\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2020\/09\/Burning-mercury-off-gold-scaled.jpg\" alt=\"Two people burning gold at a shop in Suriname\" width=\"2000\" height=\"1333\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-37393\" class=\"wp-caption-text\">Queimando ouro em uma loja no Suriname (imagem: Bram Ebus\/InfoAmazonia)<\/figcaption><\/figure><\/p>\n<p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os equipamentos das lojas de ouro, especialmente as retortas, que s\u00e3o dispositivos de captura de merc\u00fario, s\u00e3o geralmente disfuncionais ou est\u00e3o em mau estado, de acordo com Wip. A maioria dos funcion\u00e1rios das lojas de ouro consultada por esta reportagem n\u00e3o estava ciente dos danos causados pela contamina\u00e7\u00e3o por merc\u00fario ou subestimava seu impacto, o que os especialistas atribuem \u00e0 \u201ccultura machista\u201d da ind\u00fastria, \u00e0 falta de acesso aos medicamentos e \u00e0 natureza de a\u00e7\u00e3o lenta da toxina.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sem melhores equipamentos e educa\u00e7\u00e3o sobre os riscos, as emiss\u00f5es de merc\u00fario em Paramaribo poderiam continuar a aumentar, enquanto os pre\u00e7os do ouro continuam a subir e mais do precioso metal segue seu caminho at\u00e9 as lojas de ouro da capital.<\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400;\">The wide availability of mercury in Suriname and the fact that no single legal mercury import took place in over 15 years gives rise to the suspicion that all the mercury on the market entered the country illegally<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em 2018, O Suriname ratificou a Conven\u00e7\u00e3o de Minamata sobre Merc\u00fario, um tratado global projetado para reduzir a polui\u00e7\u00e3o por merc\u00fario, em parte pela elimina\u00e7\u00e3o do seu uso na extra\u00e7\u00e3o do ouro. Mas o merc\u00fario continua chegando em grande quantidade por suas fronteiras, principalmente pelos canais ilegais. Embora o merc\u00fario possa ser legalmente importado com uma licen\u00e7a, nenhuma permiss\u00e3o foi concedida desde 2004.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.iucn.nl\/files\/groene_economie\/regional_mercury_report_suriname.pdf\"><span style=\"font-weight: 400;\">Estima-se que 56 toneladas<\/span><\/a> <span style=\"font-weight: 400;\">de merc\u00fario foram utilizadas em 2018 no Suriname, o ano mais recente para o qual h\u00e1 dados dispon\u00edveis, e v\u00e1rias lojas de ferramentas de minera\u00e7\u00e3o, operadas por propriet\u00e1rios brasileiros, indianos e chineses, confirmam que conseguem arranjar merc\u00fario ao cliente. &#8220;A ampla disponibilidade de merc\u00fario no Suriname e o fato de que nenhuma importa\u00e7\u00e3o legal de merc\u00fario ocorreu em mais de 15 anos provocam a suspeita de que todo o merc\u00fario do mercado entrou no pa\u00eds de forma ilegal&#8221;, diz Marieke Heemskerk, uma antrop\u00f3loga com um hist\u00f3rico de uma longa trajet\u00f3ria pesquisando o setor do ouro no Suriname.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A princ\u00edpio, nenhum dos lojistas divulgaria como adquiriu o merc\u00fario, mas acaba n\u00e3o sendo dif\u00edcil descobrir, se voc\u00ea sabe a quem perguntar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por volta das seis da tarde, os bares pr\u00f3ximos \u00e0s lojas de ouro de Little Bel\u00e9m e as ruas de Paramaribo come\u00e7am a ficar mais barulhentos, \u00e0 medida que o sol se p\u00f5e sobre a cidade. Um motorista de t\u00e1xi indiano d\u00e1 um gole nervoso em uma lata de meio litro de cerveja Heineken, enquanto fica ao lado do seu t\u00e1xi na Anamoestraat, a principal rua de Little Bel\u00e9m. Quando questionado sobre o merc\u00fario, ele se oferece para ir a um posto de gasolina pr\u00f3ximo, para fazer uma liga\u00e7\u00e3o r\u00e1pida para um traficante. Ele desliga e anuncia que um quilograma de merc\u00fario custar\u00e1 US$ 110 e que um vendedor est\u00e1 a caminho.<\/span><\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<p><figure id=\"attachment_37396\" aria-describedby=\"caption-attachment-37396\" style=\"width: 2000px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-37396 size-full\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2020\/09\/used-bottle-mercury-scaled.jpg\" alt=\"used bottle of mercury\" width=\"2000\" height=\"1333\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-37396\" class=\"wp-caption-text\">Trabalhador mostra uma garrafa de merc\u00fario usada (imagem: Bram Ebus\/InfoAmazonia)<\/figcaption><\/figure><\/p>\n<p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Dentro de alguns minutos, aparece outro carro. O motorista abaixa a janela e segura um jornal enrolado que trouxe com ele. &#8220;Vem da Guiana&#8221;, diz o homem. Embrulhada no seu interior est\u00e1 uma pequena garrafa branca cheia de um l\u00edquido pesado e prateado. O traficante destampa a garrafa de pl\u00e1stico e despeja uma pequena quantidade de prata-viva na tampa da garrafa, para provar que ele tem o produto. Quando perguntado sobre quanto mais merc\u00fario ele poderia conseguir, ele pergunta: &#8220;Quanto voc\u00ea quer?&#8221; Parece n\u00e3o haver escassez desse produto, e nem um \u00fanico carregamento de merc\u00fario foi confiscado na rota da Guiana desde 2014.<\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400;\">Se vem da China, s\u00f3 \u00e9 necess\u00e1rio passar por um local&#8230; O porto.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nem todo o merc\u00fario il\u00edcito do pa\u00eds vem da Guiana, de acordo com uma fonte em Paramaribo, que concordou em dar entrevista, com a condi\u00e7\u00e3o de que s\u00f3 seria identificado como um an\u00f4nimo &#8220;empres\u00e1rio do ouro&#8221;. Em viagens regulares ao sul para trabalhar nas minas no interior do pa\u00eds, ele aprendeu que existem outras rotas por onde o merc\u00fario entra no pa\u00eds. Durante a entrevista, ele liga para o seu comerciante de equipamentos de minera\u00e7\u00e3o chin\u00eas-surinam\u00eas para obter mais informa\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">O comerciante chin\u00eas-surinam\u00eas afirma que os chineses fornecem agora a maior parte do merc\u00fario ao pa\u00eds. As lojas compram cont\u00eaineres de merc\u00fario por US$ 3000 e os vendem por US$ 3200, com um lucro de US$ 200. &#8220;Se vem da China, s\u00f3 \u00e9 necess\u00e1rio passar por um local&#8221;, diz o empres\u00e1rio. &#8220;O porto [mar\u00edtimo].&#8221;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um estudo de 2020 da Union for Conservation of Nature National Committee of the Netherlands <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">(<\/span><a href=\"https:\/\/www.iucn.nl\/files\/groene_economie\/lr_mercury_brochure_digitaal_gebruik.pdf\"><span style=\"font-weight: 400;\">IUCN NL<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">)<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">descobriu que nenhuma remessa ilegal de merc\u00fario vinda da China foi interceptada, mas informantes disseram aos investigadores que as autoridades alfandeg\u00e1rias geralmente recebem propinas para permitir que mercadorias il\u00edcitas entrem no pa\u00eds. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">De volta \u00e0 \u201cbacktrack\u201d, como s\u00e3o chamadas as travessias fluviais informais entre a Guiana e o Suriname, um traficante surinam\u00eas com seu barco zela por todo o rio Corentyne, pr\u00f3ximo de <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Nieuw Nickerie<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">. Ele afirma que o merc\u00fario \u00e9 levado do Suriname para a Guiana e que as rotas de contrabando s\u00e3o muito fugazes. Ele pr\u00f3prio transportou merc\u00fario pelo rio na dire\u00e7\u00e3o oposta, da Guiana para o Suriname, em embalagens em tamanho industrial at\u00e9 aproximadamente cinco meses atr\u00e1s. &#8220;As pessoas compram as garrafas grandes&#8230; e embalam<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A corrup\u00e7\u00e3o, a r\u00e1pida mudan\u00e7a do modus operandi e a falta de recursos frustram alguns dos policiais bem-intencionados do Suriname. &#8220;A fronteira est\u00e1 aberta&#8221;, diz um policial local da municipalidade de Nieuw Nickerie. V\u00e1rios pontos de passagem oferecem amplas oportunidades para os contrabandistas. Nas margens surinamesas do rio, existem muitas invas\u00f5es e canais informais, facilitando uma entrada f\u00e1cil. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cN\u00e3o podemos ter olhos para todos os lugares ao mesmo tempo&#8221;, diz ele, acrescentando que os contrabandistas est\u00e3o \u201cse tornando cada vez mais inteligentes&#8221;.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Capy, o propriet\u00e1rio maroon, administra sua mina perto de Brownsweg h\u00e1 15 anos. Assim como a maioria dos garimpeiros entrevistados para esta reportagem, ele espera abandonar o merc\u00fario, mas falta orienta\u00e7\u00e3o adequada. &#8220;N\u00f3s estamos dispostos. Se eles dizem que h\u00e1 outra maneira, queremos trabalhar com ela\u201d, diz Capy. \u201cMas eles [o governo] n\u00e3o dizem nada; eles n\u00e3o nos ensinam nada&#8221;.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O argumento do minerador \u00e9 ecoado por Naarendorp. &#8220;Ningu\u00e9m pode ser contra Minamata&#8221;, diz ela, &#8220;mas no momento em que voc\u00ea diz que alguma coisa ser\u00e1 proibida, precisa apresentar uma alternativa.&#8221;<\/span><\/p>\n<div class='cdo-shortcode--image'><\/p>\n<p><figure id=\"attachment_37399\" aria-describedby=\"caption-attachment-37399\" style=\"width: 2000px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-37399 size-full\" src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2020\/09\/Capy-mine-scaled.jpg\" alt=\"Capy\u2019s mine in Suriname\" width=\"2000\" height=\"1333\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-37399\" class=\"wp-caption-text\">A mina de Capy no Suriname (imagem: Bram Ebus\/InfoAmazonia)<\/figcaption><\/figure><\/p>\n<p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Muitos dos garimpeiros do interior s\u00e3o trabalhadores esfor\u00e7ados, mas sem instru\u00e7\u00e3o, de acordo com Naarendorp. Ela argumenta que os garimpeiros precisam n\u00e3o apenas ser educados, mas tamb\u00e9m ser convencidos de m\u00e9todos alternativos ou seguros, que geralmente s\u00e3o muito caros ou de dif\u00edcil acesso. &#8220;Todos n\u00f3s queremos ser sustent\u00e1veis&#8221;, diz ela, &#8220;mas isso deve ser acess\u00edvel.&#8221;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Capy admite que precisam comprar merc\u00fario no mercado negro. \u201cN\u00e3o existe um local espec\u00edfico onde possa ser comprado, porque \u00e9 proibido, assim como a coca\u00edna, a maconha e o ecstasy. Esse tipo de coisa que voc\u00ea s\u00f3 encontra na rua porque \u00e9 uma coisa proibida&#8221;.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">*Some names have been changed to protect the identities of interviewees.<\/span><\/p>\n<p><em>Esta reportagem \u00e9 parte da s\u00e9rie \u201c<\/em><i><span style=\"font-weight: 400;\">MERC\u00daRIO\u201d, uma produ\u00e7\u00e3o do <\/span><\/i><a href=\"https:\/\/infoamazonia.org\/\"><i><span style=\"font-weight: 400;\">InfoAmazonia<\/span><\/i><\/a><i><span style=\"font-weight: 400;\">, uma rede de rep\u00f3rteres que investiga as principais quest\u00f5es ambientais nos nove pa\u00edses da Amaz\u00f4nia. A investiga\u00e7\u00e3o foi conduzida em quatro pa\u00edses por um ano. O trabalho foi feito em parceria com jornalistas do <\/span><\/i><a href=\"https:\/\/armando.info\/\"><i><span style=\"font-weight: 400;\">Armando.Info,<\/span><\/i><\/a><i><span style=\"font-weight: 400;\"> naVenezuela, e do <\/span><\/i><a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/fantastico\/\"><i><span style=\"font-weight: 400;\">Fant\u00e1stico (TV Globo),<\/span><\/i><\/a> no<i><span style=\"font-weight: 400;\"> Brasil. Junto com a s\u00e9rie especial, ser\u00e1 lan\u00e7ado um document\u00e1rio dirigido por <\/span><\/i><a href=\"https:\/\/www.tomlaffay.com\/about\/\"><i><span style=\"font-weight: 400;\">Tom Laffay<\/span><\/i><\/a><i><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">A produ\u00e7\u00e3o foi apoiada pelo <\/span><\/i><a href=\"https:\/\/pulitzercenter.org\/rainforest-journalism-fund-0\"><i><span style=\"font-weight: 400;\">Rainforest Journalism Fund<\/span><\/i><\/a><i><span style=\"font-weight: 400;\"> do Pulitzer Center e da <\/span><\/i><a href=\"https:\/\/www.iucn.nl\/en\"><i><span style=\"font-weight: 400;\">IUCN (International Union for Conservation of Nature) <\/span><\/i><\/a><i><span style=\"font-weight: 400;\">The Netherlands committee.<\/span><\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homens, em ritmo acelerado, carregando pesadas bolsas esportivas com ouro, passam pela entrada de uma das lojas de ouro no centro de Paramaribo, a capital do Suriname. 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