{"id":50380900,"date":"2023-10-02T21:52:54","date_gmt":"2023-10-02T20:52:54","guid":{"rendered":"https:\/\/dialogochino.net\/?p=380900"},"modified":"2023-10-04T23:38:52","modified_gmt":"2023-10-04T22:38:52","slug":"380847-mudancas-climaticas-ameacas-cafeicultores-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogue.earth\/pt-br\/clima\/380847-mudancas-climaticas-ameacas-cafeicultores-brasil\/","title":{"rendered":"Mudan\u00e7as clim\u00e1ticas representam amea\u00e7as a cafeicultores no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap\">\u00c0 medida que a temporada de inc\u00eandios atinge seu pico na regi\u00e3o amaz\u00f4nica, produtores de caf\u00e9 localizados a milhares de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia tamb\u00e9m vivem seu inferno particular. Fazendas como a de Felipe Barretto Croce, em Mococa, no estado de S\u00e3o Paulo, t\u00eam visto as queimadas aumentarem nos \u00faltimos anos, pondo em risco a produ\u00e7\u00e3o daquele que \u00e9 o maior exportador de caf\u00e9 do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA gente v\u00ea que agosto e setembro s\u00e3o meses cr\u00edticos de final de \u00e9poca de seca, evapotranspira\u00e7\u00e3o, d\u00e9ficit de \u00e1gua no solo. Come\u00e7a a ficar cr\u00edtico e a gente v\u00ea muitos fogos, muito inc\u00eandio na regi\u00e3o\u201d, explica Croce.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A Fazenda Ambiental Fortaleza (FAF), propriedade da fam\u00edlia de Felipe, est\u00e1 situada interior de S\u00e3o Paulo, no meio de dois biomas \u2014 o Cerrado e a Mata Atl\u00e2ntica \u2014 onde dez hectares de caf\u00e9 <em>ar\u00e1bica<\/em> org\u00e2nico est\u00e3o cada vez mais vulner\u00e1veis \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, em grande parte acentuadas pela perda de vegeta\u00e7\u00e3o na Amaz\u00f4nia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNos \u00faltimos anos, tivemos mais dias com clima extremo: frio mais intenso e calor mais intenso. Estamos vendo um d\u00e9ficit de chuva no geral. Isso provavelmente por conta de muito desmatamento ao redor, no Cerrado e na Amaz\u00f4nia\u201d, diz Croce.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cd-article-image aligncenter block--article-image block--article-image--article\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\"><div class=\"block--article-image__column\"><div class=\"hide-expand block--article-image__image\"><img class=\"lazy\" data-src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2023\/10\/cultivo-cafe-Manhuacu_Alamy_2M5PYJW-scaled.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2023\/10\/cultivo-cafe-Manhuacu_Alamy_2M5PYJW-768x512.jpg 768w, https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2023\/10\/cultivo-cafe-Manhuacu_Alamy_2M5PYJW-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2023\/10\/cultivo-cafe-Manhuacu_Alamy_2M5PYJW-scaled.jpg 2560w\" data-sizes=\"(max-width: 600px) 768px, (max-width: 1024px) 1024px, 2560px\" alt=\"Planta\u00e7\u00e3o de caf\u00e9 ar\u00e1bica no estado de Minas Gerais, Brasil\"\/><\/div><div class=\"block--article-image__content\"><div itemprop=\"caption\" class=\"block--article-image__caption\">Planta\u00e7\u00e3o de caf\u00e9 ar\u00e1bica no estado de Minas Gerais, Brasil. O sabor rico e frutado faz do gr\u00e3o o preferido de muitos pequenos agricultores, embora seja mais suscet\u00edvel \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas (Imagem: Alexandre Rotenberg \/ Alamy)<\/div><\/div><\/div><meta itemprop=\"contentUrl\" content=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2023\/10\/cultivo-cafe-Manhuacu_Alamy_2M5PYJW-scaled.jpg\"\/><meta itemprop=\"contentSize\" content=\"2 MB\"\/><meta itemprop=\"height\" content=\"1705\"\/><meta itemprop=\"width\" content=\"2560\"\/><meta itemprop=\"author\"\/><meta itemprop=\"representativeOfPage\" content=\"true\"\/><\/div>\n\n\n\n<p>A previs\u00e3o \u00e9 que essas esta\u00e7\u00f5es secas e quentes se tornem piores e mais frequentes. A modelagem clim\u00e1tica da plataforma Gro Intelligence estima que o n\u00famero de dias com temperaturas extremas acima de 34 \u00b0C no per\u00edodo cr\u00edtico de flora\u00e7\u00e3o dos cafezais, entre setembro e outubro, aumentar\u00e1 em at\u00e9 <a href=\"https:\/\/www.gro-intelligence.com\/insights\/brazilian-buzzkill-coffee-crop-at-risk-due-to-climate-change\">dez dias por m\u00eas at\u00e9 2050<\/a>.&nbsp; Os dados sugerem que o caf\u00e9 do Brasil provavelmente ser\u00e1 o mais severamente afetado de todos os pa\u00edses produtores de caf\u00e9 estudados (Col\u00f4mbia, Peru, Qu\u00eania e Eti\u00f3pia), com a previs\u00e3o de que as chuvas tamb\u00e9m diminuam em 10% at\u00e9 meados do s\u00e9culo.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar das quedas do d\u00f3lar em rela\u00e7\u00e3o ao real e do volume do caf\u00e9 exportado em 2022, os pre\u00e7os do produto no mercado internacional mantiveram altas satisfat\u00f3rias, <a href=\"https:\/\/www.embrapa.br\/busca-de-noticias\/-\/noticia\/77856850\/exportacoes-dos-cafes-do-brasil-atingem-3935-milhoes-de-sacas-e-receita-cambial-recorde-de-us-923-bi-em-2022\">segundo o setor<\/a> cafeicultor, gerando uma receita recorde de US$ 9,23 bilh\u00f5es ano passado no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Os principais compradores do caf\u00e9 brasileiro no ano passado foram Estados Unidos, Alemanha, It\u00e1lia, B\u00e9lgica e Jap\u00e3o \u2014 mas vale ressaltar que at\u00e9 mesmo a Col\u00f4mbia, tamb\u00e9m famosa por seu caf\u00e9, tem aumentado as importa\u00e7\u00f5es do gr\u00e3o brasileiro e j\u00e1 figura no top 10 de pa\u00edses compradores, <a href=\"http:\/\/comexstat.mdic.gov.br\/pt\/geral\/94018\">conforme<\/a> a ComexStat, plataforma do governo brasileiro de dados do com\u00e9rcio exterior.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Embora a China n\u00e3o esteja entre os maiores importadores do caf\u00e9 brasileiro, suas compras v\u00eam escalando ano a ano, e isso j\u00e1 atraiu a aten\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/www.sna.agr.br\/cafe-do-brasil-ganha-espaco-no-mercado-da-china\/\">dos produtores nacionais<\/a>: 2023 ainda nem acabou, mas j\u00e1 \u00e9 o ano recorde de importa\u00e7\u00f5es do caf\u00e9 brasileiro pela China, com 29 toneladas compradas at\u00e9 agosto, segundo <a href=\"http:\/\/comexstat.mdic.gov.br\/pt\/geral\/94020\">a ComexStat<\/a>. Em uma d\u00e9cada, as importa\u00e7\u00f5es saltaram mais de dez vezes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Duas esp\u00e9cies de caf\u00e9 s\u00e3o cultivadas no Brasil \u2014 <em>robusta e ar\u00e1bica<\/em> \u2014, mas h\u00e1 muitas variedades nas 15 regi\u00f5es produtoras. O <em>ar\u00e1bica<\/em>, com seu sabor rico e frutado, \u00e9 o gr\u00e3o preferido de fazendas especializadas de pequenos produtores. No entanto, \u00e9 muito mais suscet\u00edvel a mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/bjpp\/a\/bDfpJwLr4xLcznSwy4b9zkf\/?lang=en\">Pesquisas<\/a> sugerem que a exposi\u00e7\u00e3o a temperaturas acima dos 30 \u00b0C leve a anormalidades e \u00e0 degenera\u00e7\u00e3o do cafeeiro. <a href=\"https:\/\/iopscience.iop.org\/article\/10.1088\/1748-9326\/aba471\">Desde 2010<\/a>, as temperaturas em todos os munic\u00edpios brasileiros produtores de caf\u00e9 aumentaram em m\u00e9dia 1,2 \u00b0C no per\u00edodo de flora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o clima extremo se tornando mais frequente, o tempo entre os estresses clim\u00e1ticos nos cafezais brasileiros est\u00e1 mais curto, o que significa que as plantas n\u00e3o t\u00eam a chance de se recuperar totalmente. Os efeitos de uma seca severa em 2020 e da pior geada em 27 anos em 2021 ainda s\u00e3o sentidos pela esp\u00e9cie <em>ar\u00e1bica<\/em>, altamente sens\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais ao sul, em Bragan\u00e7a Paulista, tamb\u00e9m no estado de S\u00e3o Paulo, Jos\u00e9 Oscar Ferreira Cintra, produtor da quinta gera\u00e7\u00e3o familiar de caf\u00e9, produz o que ele descreve como a \u201cFerrari do caf\u00e9\u201d. Mas ele est\u00e1 horrorizado com o comportamento err\u00e1tico de seus cafeeiros.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cd-pull-quote block--pull-quote\"><div class=\"block--pull-quote__wrapper\"><blockquote class=\"block--pull-quote__quote\"><br\/>Temos momentos em que era para estar seco, e est\u00e1 chovendo. O contr\u00e1rio tamb\u00e9m acontece. E a planta n\u00e3o sabe como reagir. Ela quebra totalmente a sua sequ\u00eancia l\u00f3gica<\/blockquote><cite class=\"block--pull-quote__cite\">Jos\u00e9 Oscar Ferreira Cintra, produtor de caf\u00e9<\/cite><\/div><\/div>\n\n\n\n<p>\u201cO clima est\u00e1 embaralhado. N\u00e3o h\u00e1 uma sequ\u00eancia l\u00f3gica como havia\u201d, diz Cintra. \u201cTemos momentos em que era para estar seco, e est\u00e1 chovendo. O contr\u00e1rio tamb\u00e9m acontece. E a planta n\u00e3o sabe como reagir. Ela quebra totalmente a sua sequ\u00eancia l\u00f3gica. A planta tem flor, chumbinho [fruto em est\u00e1gio inicial], caf\u00e9 maturado, caf\u00e9 seco, tudo ao mesmo tempo. Isso \u00e9 um horror\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Cintra ressalta que essa sequ\u00eancia il\u00f3gica resulta em uma matura\u00e7\u00e3o desigual do caf\u00e9, o que, por sua vez, n\u00e3o apenas resulta na diminui\u00e7\u00e3o da qualidade e do sabor dos gr\u00e3os como tamb\u00e9m torna os cafezais mais suscet\u00edveis a doen\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEssas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas afetam a sa\u00fade da planta. Quando voc\u00ea tem uma planta sadia, ela dificilmente pega doen\u00e7a. Ou se pega, ela resiste, combate. Agora, com a mudan\u00e7a, \u00e9 uma planta que est\u00e1 sem defesas\u201d, explica Cintra.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-impacto-at-em-regi-es-com-muita-gua\">Impacto at\u00e9 em regi\u00f5es com muita \u00e1gua<\/h2>\n\n\n\n<p>Desde as montanhas escarpadas das Matas de Minas, na divisa de Minas Gerais e Esp\u00edrito Santo, at\u00e9 as colinas onduladas da Mogiana, no estado de S\u00e3o Paulo, n\u00e3o h\u00e1 duas regi\u00f5es produtoras de caf\u00e9 iguais. Isso tamb\u00e9m significa que as experi\u00eancias dos agricultores e os impactos clim\u00e1ticos s\u00e3o variados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com mais de 1.400 metros de altitude em seu ponto mais alto, a fazenda de caf\u00e9 de Afonso Donizete Lacerda, em Dores do Rio Preto, no Esp\u00edrito Santo, escapou at\u00e9 agora de alguns dos problemas enfrentados pelos produtores de caf\u00e9 em outras regi\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00f3s temos muita \u00e1gua, n\u00f3s estamos em uma regi\u00e3o privilegiada. Todas as propriedades t\u00eam muitas nascentes, ent\u00e3o \u00e1gua n\u00e3o \u00e9 problema aqui. N\u00f3s temos uma chuva aqui de 1.600 mil\u00edmetros por ano, isso \u00e9 suficiente para os cafezais\u201d, diz Lacerda. \u201cA gente n\u00e3o precisa irrigar nada, ent\u00e3o isso favorece tamb\u00e9m a produ\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cd-article-image aligncenter block--article-image block--article-image--article\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\"><div class=\"block--article-image__column\"><div class=\"hide-expand block--article-image__image\"><img class=\"lazy\" data-src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2023\/10\/Afonso-frutos-cafe_arquivo.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2023\/10\/Afonso-frutos-cafe_arquivo-768x512.jpg 768w, https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2023\/10\/Afonso-frutos-cafe_arquivo-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2023\/10\/Afonso-frutos-cafe_arquivo.jpg 2560w\" data-sizes=\"(max-width: 600px) 768px, (max-width: 1024px) 1024px, 2560px\" alt=\"Afonso Donizete Lacerda, cafeicultor em Dores do Rio Preto, no Esp\u00edrito Santo\"\/><\/div><div class=\"block--article-image__content\"><div itemprop=\"caption\" class=\"block--article-image__caption\">Afonso Donizete Lacerda, cafeicultor em Dores do Rio Preto, no Esp\u00edrito Santo, explica que, mesmo em uma regi\u00e3o bastante chuvosa como a dele, a flora\u00e7\u00e3o do caf\u00e9 \u00e9 afetada pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas (Imagem: Afonso Lacerda)<\/div><\/div><\/div><meta itemprop=\"contentUrl\" content=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2023\/10\/Afonso-frutos-cafe_arquivo.jpg\"\/><meta itemprop=\"contentSize\" content=\"2 MB\"\/><meta itemprop=\"height\" content=\"1707\"\/><meta itemprop=\"width\" content=\"2560\"\/><meta itemprop=\"author\"\/><meta itemprop=\"representativeOfPage\" content=\"true\"\/><\/div>\n\n\n\n<p>Mas mesmo ali, na fazenda de Lacerda, produtora de caf\u00e9 h\u00e1 200 anos, os padr\u00f5es clim\u00e1ticos est\u00e3o mudando. \u201cNos \u00faltimos cinco anos, a florada de mar\u00e7o passou a produzir cada vez menos. Janeiro tem sido chuvoso, e a gente acha que \u00e9 isso que est\u00e1 afetando a diminui\u00e7\u00e3o da florada tardia aqui\u201d, explica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com a proje\u00e7\u00e3o de que mais de 50% das terras em todo o mundo se tornar\u00e3o in\u00f3spitas para o caf\u00e9 devido \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas at\u00e9 a virada do s\u00e9culo, conforme previu um <a href=\"https:\/\/journals.plos.org\/plosone\/article?id=10.1371\/journal.pone.0261976\">estudo<\/a> pela Universidade de Zurique no ano passado, pode parecer tentador considerar a migra\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de caf\u00e9 do Brasil para regi\u00f5es de altitude elevada ou mais frias.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o especialista em agrometeorologia Jurandir Zullo Junior, do Centro de Pesquisas Meteorol\u00f3gicas e Clim\u00e1ticas Aplicadas \u00e0 Agricultura da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), alerta para os riscos da migra\u00e7\u00e3o dos cafezais para outras \u00e1reas produtoras, menos tradicionais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA principal preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 que a produ\u00e7\u00e3o do caf\u00e9 necessita de uma estrutura. N\u00e3o \u00e9 uma planta que voc\u00ea vai deslocando facilmente como uma cultura de gr\u00e3os, que em 120 dias ou 90 dias voc\u00ea produz, como o caso do feij\u00e3o. O agricultor normalmente \u00e9 especializado, j\u00e1 tem uma tradi\u00e7\u00e3o, j\u00e1 tem uma experi\u00eancia. Por isso a adapta\u00e7\u00e3o de uma cultura perene \u00e9 muito dif\u00edcil\u201d, explica Zullo Junior.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esp\u00edrito Santo e Rond\u00f4nia s\u00e3o onde cresce outro tipo de gr\u00e3o de caf\u00e9 brasileiro, o <em>Canephora conilon<\/em> (semelhante ao <em>robusta<\/em>). Acredita-se que o <em>robusta<\/em> e o <em>conilon<\/em> sejam mais resistentes \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, mas um <a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pmc\/articles\/PMC9824350\/\">estudo<\/a> recente realizado por acad\u00eamicos na It\u00e1lia destaca a falta de pesquisas sobre o <em>robusta<\/em> em compara\u00e7\u00e3o com a esp\u00e9cie <em>ar\u00e1bica<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar disso, as previs\u00f5es sugerem que o Brasil <a href=\"https:\/\/link.springer.com\/article\/10.1007\/s10584-014-1306-x\">poder\u00e1 perder at\u00e9 60%<\/a> das \u00e1reas adequadas de cultivo de caf\u00e9 <em>conilon<\/em> at\u00e9 2050. Embora a produ\u00e7\u00e3o deste ano em Rond\u00f4nia n\u00e3o tenha sido afetada por condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas extremas, a hist\u00f3ria \u00e9 bem diferente no Esp\u00edrito Santo, onde os eventos clim\u00e1ticos, incluindo invernos frios e falta de chuvas, <a href=\"https:\/\/www.conab.gov.br\/ultimas-noticias\/5175-producao-de-cafe-esta-estimada-em-54-36-milhoes-de-sacas-3-maior-na-serie-historica\">reduziram<\/a> a produ\u00e7\u00e3o total de <em>conilon<\/em> em 10,8%.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-como-adaptar-uma-cultura-delicada\">Como adaptar uma cultura delicada<\/h2>\n\n\n\n<p>Com 78% de todo o caf\u00e9 no Brasil <a href=\"https:\/\/censoagro2017.ibge.gov.br\/templates\/censo_agro\/resultadosagro\/\">produzido por pequenas fazendas<\/a>, a adapta\u00e7\u00e3o ser\u00e1 fundamental, mas n\u00e3o h\u00e1 uma solu\u00e7\u00e3o \u00fanica que garantir\u00e1 a sobreviv\u00eancia dos cafeeiros nessas diversas regi\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com Zullo Junior, que pesquisa os efeitos do clima na agricultura h\u00e1 quase 40 anos, o caf\u00e9 \u00e9 uma cultura particularmente vulner\u00e1vel \u00e0s mudan\u00e7as de temperatura e ao regime de chuvas: \u201cAs perdas e a redu\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o s\u00e3o muito grandes, porque a planta, pela caracter\u00edstica pr\u00f3pria, tem um limite bem definido de adapta\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma planta de sub-bosque [\u00e1rea sombreada abaixo da copa da floresta], ela n\u00e3o tolera temperaturas muito altas, nem muito baixas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cd-article-image aligncenter block--article-image block--article-image--article\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\"><div class=\"block--article-image__column\"><div class=\"hide-expand block--article-image__image\"><img class=\"lazy\" data-src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2023\/10\/Fazenda-Ambiental-Fortaleza_drying-coffee-beans_02-2.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2023\/10\/Fazenda-Ambiental-Fortaleza_drying-coffee-beans_02-2-768x512.jpg 768w, https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2023\/10\/Fazenda-Ambiental-Fortaleza_drying-coffee-beans_02-2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2023\/10\/Fazenda-Ambiental-Fortaleza_drying-coffee-beans_02-2.jpg 2560w\" data-sizes=\"(max-width: 600px) 768px, (max-width: 1024px) 1024px, 2560px\" alt=\"Gr\u00e3os de caf\u00e9 secam em prateleiras suspensas na Fazenda Ambiental Fortaleza, em Mococa, S\u00e3o Paulo\"\/><\/div><div class=\"block--article-image__content\"><div itemprop=\"caption\" class=\"block--article-image__caption\">Gr\u00e3os de caf\u00e9 secam em prateleiras suspensas na Fazenda Ambiental Fortaleza, em Mococa, S\u00e3o Paulo. Cafeicultores observam que a instabilidade clim\u00e1tica pode reduzir a qualidade e o sabor do caf\u00e9 (Imagem: FAF)<\/div><\/div><\/div><meta itemprop=\"contentUrl\" content=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2023\/10\/Fazenda-Ambiental-Fortaleza_drying-coffee-beans_02-2.jpg\"\/><meta itemprop=\"contentSize\" content=\"2 MB\"\/><meta itemprop=\"height\" content=\"1708\"\/><meta itemprop=\"width\" content=\"2560\"\/><meta itemprop=\"author\"\/><meta itemprop=\"representativeOfPage\" content=\"true\"\/><\/div>\n\n\n\n<p>A t\u00e9cnica de adapta\u00e7\u00e3o mais usada no Brasil \u00e9 a irriga\u00e7\u00e3o, que permite aos cafeicultores regar suas lavouras durante os per\u00edodos mais secos, reduzindo o estresse das plantas. Mas cada regi\u00e3o tem diferentes suprimentos de \u00e1gua e, com <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/ana\/pt-br\/assuntos\/noticias-e-eventos\/noticias\/seca-fica-mais-branda-no-sul-e-se-intensifica-no-centro-oeste-nordeste-e-sudeste-segundo-ultima-atualizacao-do-monitor-de-secas\">o aumento das secas<\/a>, agricultores est\u00e3o preocupados com a gest\u00e3o dos recursos h\u00eddricos, exigindo melhores licen\u00e7as e controle do uso de aqu\u00edferos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um <a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/publication\/331395181_Low_levels_of_shade_and_climate_change_adaptation_of_Arabica_coffee_in_southeastern_Brazil\">estudo<\/a> da Unicamp descobriu que outra t\u00e9cnica de adapta\u00e7\u00e3o, o sombreamento, em que \u00e1rvores maiores s\u00e3o plantadas entre os cafezais para fornecer sombra, pode reduzir a temperatura do ar em 0,6 \u00b0C, al\u00e9m de reduzir outros estresses, como o vento e o aumento da umidade do ar. O sombreamento tamb\u00e9m evita a degrada\u00e7\u00e3o do solo, atua no controle de pragas e absorve carbono da atmosfera.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, de acordo com Zullo Junior, a adapta\u00e7\u00e3o requer investimentos. Ent\u00e3o, agora, as pesquisas est\u00e3o se voltando para ajudar a encontrar solu\u00e7\u00f5es que n\u00e3o apenas protejam os p\u00e9s de caf\u00e9 de doen\u00e7as e pragas, mas tamb\u00e9m os tornem resistentes ao clima.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMelhoramento gen\u00e9tico \u00e9 desenvolver plantas mais adaptadas a estresses de temperaturas. Essa provavelmente \u00e9 a t\u00e9cnica mais adequada, s\u00f3 que ela leva um tempo de desenvolvimento, pelo menos 15 anos\u201d, explica Zullo Junior.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-fazendas-familiares-parte-da-solu-o\">Fazendas familiares: parte da solu\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>A agricultura n\u00e3o \u00e9 apenas considerada um dos setores mais vulner\u00e1veis \u00e0 emerg\u00eancia clim\u00e1tica, mas \u00e9 tamb\u00e9m amplamente reconhecida como uma parte importante da solu\u00e7\u00e3o, devido \u00e0 sua capacidade de reduzir as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos produtores familiares de caf\u00e9 no Brasil est\u00e3o cientes disso, pois h\u00e1 gera\u00e7\u00f5es v\u00eam se esfor\u00e7ando para produzir caf\u00e9 de alta qualidade em harmonia com o delicado equil\u00edbrio de seu bioma local. Essa paix\u00e3o por proteger e restaurar a biodiversidade por meio da agrofloresta est\u00e1 no cerne da fazenda de Felipe Barretto Croce, a FAF, e essa abordagem est\u00e1 produzindo resultados positivos para a produ\u00e7\u00e3o e o planeta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEstou mudando completamente o manejo que vinha sido feito no passado. Hoje estou plantando com uma agrofloresta funcional no meio do caf\u00e9, totalmente mecanizada, para criar um habitat confort\u00e1vel, equilibrado e est\u00e1vel para o meu caf\u00e9\u201d, diz Croce.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cd-article-image aligncenter block--article-image block--article-image--article\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\"><div class=\"block--article-image__column\"><div class=\"hide-expand block--article-image__image\"><img class=\"lazy\" data-src=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2023\/10\/Fazenda-Ambiental-Fortaleza-Coffee-plants-resized-2.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2023\/10\/Fazenda-Ambiental-Fortaleza-Coffee-plants-resized-2-768x512.jpg 768w, https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2023\/10\/Fazenda-Ambiental-Fortaleza-Coffee-plants-resized-2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2023\/10\/Fazenda-Ambiental-Fortaleza-Coffee-plants-resized-2.jpg 2560w\" data-sizes=\"(max-width: 600px) 768px, (max-width: 1024px) 1024px, 2560px\" alt=\"\u00c1rvores plantadas junto \u00e0 lavoura de caf\u00e9\"\/><\/div><div class=\"block--article-image__content\"><div itemprop=\"caption\" class=\"block--article-image__caption\">Planta\u00e7\u00f5es de caf\u00e9 em sistema agroflorestal da Fazenda Ambiental Fortaleza. As \u00e1rvores plantadas proporcionam sombra e prote\u00e7\u00e3o contra o vento \u00e0s lavouras de caf\u00e9 (Imagem: FAF)<\/div><\/div><\/div><meta itemprop=\"contentUrl\" content=\"https:\/\/dialogue.earth\/content\/uploads\/2023\/10\/Fazenda-Ambiental-Fortaleza-Coffee-plants-resized-2.jpg\"\/><meta itemprop=\"contentSize\" content=\"2 MB\"\/><meta itemprop=\"height\" content=\"1707\"\/><meta itemprop=\"width\" content=\"2560\"\/><meta itemprop=\"author\"\/><meta itemprop=\"representativeOfPage\" content=\"true\"\/><\/div>\n\n\n\n<p>A FAF, que tamb\u00e9m tem mais de 40% de floresta em sua \u00e1rea, utiliza uma ampla gama de t\u00e9cnicas, como reflorestamento e prote\u00e7\u00e3o contra o vento (que mant\u00e9m a umidade no solo), para garantir n\u00e3o apenas a sa\u00fade das planta\u00e7\u00f5es de caf\u00e9 como tamb\u00e9m do solo e de polinizadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma <a href=\"https:\/\/abelha.org.br\/serie-chamada-publica-cnpq-marina-wolowski\/\">pesquisa<\/a> realizada pela Universidade Federal de Alfenas, em Minas Gerais, que incluiu a FAF, constatou aumento de 30% ou mais em produtividade devido \u00e0 boa poliniza\u00e7\u00e3o natural. No entanto, a pesquisa concluiu que S\u00e3o Paulo, Minas Gerais e Esp\u00edrito Santo abrigam 43% dos munic\u00edpios onde as taxas de reserva legal est\u00e3o abaixo do previsto pelo C\u00f3digo Florestal \u2014 ou seja, pelo menos 20% do bioma dentro da propriedade rural deve ser preservado, com exce\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, onde a prote\u00e7\u00e3o \u00e9 de 80%.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa delicada rede de produ\u00e7\u00e3o, prote\u00e7\u00e3o e regenera\u00e7\u00e3o da natureza parece estar produzindo bons resultados e tem o potencial de mitigar alguns impactos do clima. \u201cCom as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e a destrui\u00e7\u00e3o da biodiversidade ao nosso redor, nunca foi t\u00e3o importante nos preparar para um futuro complicado\u201d, conclui Croce.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Esta reportagem \u00e9 da <a href=\"https:\/\/brasil.mongabay.com\/2023\/10\/como-as-mudancas-climaticas-podem-por-em-risco-o-cafe-brasileiro\/\">Mongabay Brasil<\/a> e foi republicada aqui com sua 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