Negócios Coronavírus atinge economias da América Latina Chile, Peru e Brasil serão os mais afetados pela queda da demanda chinesa por commodities, conforme caem as previsões de crescimento regional Português Português Español English Compartilhar a matéria × Copy link to page Copy link to page × Copyright Leia nossa política de republicação para saber mais sobre esse tipo de licença. Um cinema fechado em Quito, Equador. A atividade econômica na América Latina entrou em colapso como resultado do coronavírus, e os países exportadores de commodities sofreram os piores efeitos (Imagem: Santiago Armas / VWPics / Alamy) Alejandra Cuéllar, Manuela Andreoni, Andrés Bermúdez Liévano, Fermín Koop Abril 1, 2020Julho 5, 2022 Atualmente, há mais de 14 mil casos confirmados do novo coronavírus na América Latina. Argentina, Uruguai, Colômbia, Chile, Equador, Peru, Guatemala, El Salvador e Bolívia estão sob quarentena, e há medidas de isolamento voluntário na maioria dos países. “A crise do COVID-19 entrará na história como uma das piores pelas quais mundo já passou”, advertiu Alicia Bárcena, secretária executiva da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), no momento em que a América Latina se mobiliza para enfrentar a pandemia que devastou o mundo no mês passado. “A doença compromete a saúde humana e afetará uma economia mundial já enfraquecida, atingindo-a tanto no lado da oferta quanto no da demanda”, afirmou Bárcena. 1,8% A contração esperada na economia A CEPAL estima que vá haver uma contração de 1,8% no Produto Interno Bruto regional (PIB), o que pode significar o aumento do desemprego em 10% e a elevação do número de pessoas que vivem na pobreza em 35 milhões, para cerca de 220 milhões, dos seus 620 milhões de habitantes totais. O número dos que vivem em extrema pobreza pode aumentar de 67,4 para 90 milhões. A diminuição da atividade econômica em geral e declínios no comércio, turismo e investimentos apontam para uma crise iminente. A queda nas trocas econômicas com a China, principal destino das exportações de commodities de várias economias da América Latina, torna particularmente exposta a dependência que Chile, Peru e Brasil têm da China — e a vulnerabilidade desses países. A CEPAL estima que as exportações da região para o país asiático possam cair em 10,7% em valor. “A principal fonte de risco de perdas para a América Latina é uma deterioração dos números do comércio provocada pelo profundo e duradouro impacto de uma desaceleração nos preços das commodities na China”, disse à Reuters Alberto Ramos, chefe de pesquisa da América Latina no Goldman Sachs. À medida que o golpe econômico agita a região, com os governos correndo para tentar salvar as populações mais vulneráveis, também ficou evidente a dependência dos países latino-americanos em relação a exportações sem valor agregado e a necessidade de que diversifiquem aquilo que exportam. Chile e cobre O presidente chileno, Sebastián Piñera, disse que o surto de coronavírus terá um “grande” impacto econômico devido aos preços globais mais baixos do cobre, a principal exportação do país. Metade deste cobre é enviada para a China. O Bank of America reduziu sua expectativa de crescimento para o Chile de 1,3% para 0,9% neste ano, devido aos problemas adicionais causados pelo coronavírus e ao menor investimento no país após conflitos sociais no ano passado. A Comissão Chilena de Cobre (Cochilco) disse que as exportações de cobre diminuirão não apenas em valor, mas também em quantidades neste ano. Os embarques do minério para a China já foram remarcados. “Esperamos que isso seja apenas de curto prazo. Se não for esse o caso, teremos que mudar nossos planos ”, disse Victor Garay, coordenador de mercados de mineração da Cochilco. Peru – farinha de peixe e cobre O Peru também sofreu um declínio significativo em suas exportações para a China, seu principal mercado externo. Somente em janeiro, as exportações caíram 16% em relação a 2019, afetando principalmente dois produtos básicos: farinha de peixe (que teve queda de 38%) e os minérios (que caíram 10%), segundo a ADEX, sindicato que reúne as exportadoras do país. Embora a queda do minério possa ser atribuída à menor demanda da China por cobre e a reduções nos preços internacionais, os exportadores atribuem a queda nas vendas de farinha de peixe a uma queda na produção relacionada a flutuações no rendimento da anchova nos mares do Peru por razões naturais. A escassez de insumos chineses também afetará as indústrias manufatureiras do Peru. “Haverá uma queda na demanda chinesa, e as indústrias farmacêutica e têxtil daqui, que dependem de matérias-primas chinesas e que não as recebem em condições normais, terão menos produtividade e menos vendas”, disse o presidente da ADEX, Erik Fischer, à televisão peruana RPP, enfatizando que, tradicionalmente, janeiro e fevereiro são meses mais fracos em termos de exportações para a China. “Em março e abril, veremos o quanto esse problema nos afeta”, afirmou. Brasil e soja As autoridades brasileiras nesta semana reduziram as estimativas de crescimento para 2020 para 0,02%, de 2,3% no final do ano passado. As exportações já começaram a sofrer o golpe, caindo 6,2% em relação ao ano passado. As exportações de commodities caíram mais de 20%, principalmente como consequência da crise econômica na China, o maior parceiro comercial do Brasil. Você sabia que…? Em 2017, a China comprou 11% das exportações latino-americanas Mas, na segunda-feira da semana passada, grupos de lobby do setor disseram que as exportações de soja não serão afetadas pela crise, e mantiveram a previsão de que o Brasil venderia cerca de 73 milhões de toneladas este ano. O setor não vê sinais de que a demanda por soja diminua, já que 20% de sua próxima colheita já será vendida em contratos futuros. “Os brasileiros podem ter certeza de que faremos nossa parte para manter a economia aquecida, mesmo com esse problema de coronavírus” disse Bartolomeu Braz Pereira, presidente da Associação Brasileira de Produtores de Soja. No mercado de ações, o quadro é bem diferente, e as empresas brasileiras acumularam perdas. A BRF, uma das principais empresas de alimentos do Brasil, perdeu 56,5% de seu valor de mercado este ano. Argentina: carne bovina e soja Já à beira de um novo default de sua dívida, os preços mais baixos e as menores exportações de commodities representam um grande golpe para a Argentina. Prevê-se que o PIB caia de 0,3% a 0,5% a mais por causa da pandemia, contraindo 2% no total, em vez dos 1,5% estimados anteriormente. “O principal efeito direto do coronavírus se manifesta na exportação de commodities, como soja e, acima de tudo, carnes”, disse a consultoria Abeceb em um relatório. “A China é o segundo mercado da Argentina, e, por isso, menos compras de lá teriam um grande efeito na nossa economia”. O principal efeito direto do coronavírus se manifesta na exportação de commodities, como soja e, acima de tudo, carnes A consultoria estima que vá haver uma queda de 5% nas exportações este ano devido ao surto de coronavírus. Isso significa 3,4 bilhões de dólares a menos em receitas, devido a menos vendas e preços mais baixos de soja (1,36 bilhão de dólares), carne bovina (790 milhões de dólares), milho e trigo (460 milhões de dólares) e petróleo bruto (400 milhões de dólares). Em janeiro, as exportações de carne bovina caíram 32,8% em relação ao último trimestre de 2019. A China responde por 75% das exportações de carne bovina da Argentina, e menos embarques de lá são a principal razão do declínio, segundo a câmara de comércio de carne bovina argentina, CICCRA. Uruguai e carne bovina Enquanto isso, o Uruguai também espera grandes perdas devido ao coronavírus, já que quase 80% de sua soja vai para a China, assim como 60% de sua carne bovina. A Uruguai XXI, agência de promoção de investimentos e exportações do país, afirmou em seu último relatório mensal que o vírus está “travando o comércio internacional até agora neste ano”, alegando que as exportações de alimentos são as mais afetadas até agora. No geral, as exportações uruguaias caíram 18,7% em fevereiro em comparação com o mesmo mês do ano passado. Isso ocorreu principalmente devido às menores vendas de carne bovina, laticínios, madeira e celulose para a China, mostraram dados do governo. No entanto, o especialista em comércio uruguaio Marcos Soto disse que a maior parte do impacto será vista nos primeiros meses do ano, alegando haver esperança de que as exportações se recuperem mais tarde, à medida que a China começar a exigir mais alimentos. Equador: menos camarão, mais cobre Embora as vendas de cobre tenham caído em toda a região, a realidade tem sido diferente para o Equador, pois sua polêmica mina de cobre na faixa Condor da Amazônia começou a produção quase ao mesmo tempo em que eclodiu o surto de Covid-19 na China. O consórcio Ecuacorriente, liderado pelas empresas estatais chinesas Tongling Nonferrous Metals Group e China Railway Construction Corporation(CRCC), enviou 22 mil toneladas de concentrado de cobre para a China em janeiro. Outras 36 mil toneladas foram embarcadas na semana passada. Como o Diálogo Chino relatou no ano passado, o Mirador é um projeto de mineração controverso na Amazônia, considerado de importância estratégica para o governo equatoriano. Ele foi legalmente contestado pelas comunidades indígenas locais, que alegam que muitas pessoas foram despejadas à força e exigem o direito de consulta prévia. As exportações de camarão, no entanto, caíram drasticamente no mesmo período. Os preços caíram após a China restringir as importações de frutos do mar, um grande golpe para um país que quadruplicou a produção nos últimos oito anos e apostou na China como seu principal mercado. O comércio reabriu recentemente, mas a demanda da Europa caiu e o clima permanece sombrio, de acordo com a Undercurrent News, que monitora o setor. A necessidade de diversificação da América Latina A demanda chinesa por commodities primárias continuou aumentando na última década. Em 2017, a China comprou 11% do total de exportações da América Latina, incluindo 16% dos produtos agrícolas e 26% das exportações do setor extrativo, de acordo com a edição de 2019 do Boletim Econômico China-América Latina da Universidade de Boston. É necessário diversificar além da exploração dos recursos naturais, caso contrário estaremos sempre à mercê das demandas da China ou de qualquer grande potência econômica “É assim que, como latino-americanos, estamos participando da globalização”, disse Yolanda Trápaga, economista agrícola da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). “Somos um elo muito fraco nas cadeias de produção, porque exportamos principalmente matérias-primas sem valor agregado e com baixos salários”. Segundo Trápaga, a diversificação da economia é muito importante para a América Latina, mas a região deve assumir o controle da tomada de decisões econômicas e não contar com parceiros comerciais. “É necessário diversificar além da exploração dos recursos naturais, caso contrário estaremos sempre à mercê das demandas da China ou de qualquer grande potência econômica”, explicou ela. “Temos que fazer uma mudança radical e concluir que esta é uma oportunidade de evoluir na maneira como fazemos as coisas.” Continue lendo Reportagem Covid-19 Economia chinesa precisa de injeção de sustentabilidade após coronavírus Reportagem Vida selvagem Surto de coronavírus reacende debate sobre consumo de carne de animais silvestres Reportagem Covid-19 Coronavírus altera agenda de reuniões ambientais Reportagem Energias renováveis Com pandemia, Argentina interrompe desenvolvimento de energias renováveis Reportagem Direitos humanos Coronavírus dificulta ratificação do Acordo de Escazú Reportagem Covid-19 América Latina busca apoio financeiro da China para combater o coronavírus Reportagem Finanças China continua a reduzir empréstimos a América Latina Reportagem Petróleo Grandes projetos de petróleo entram em colapso junto com preços