Madeira da Amazônia: lei avança, mas só 10% da extração é regular Projeto ferroviário marcado por atrasos e críticas de ativistas ambientais ameaça a própria indústria do turismo que busca apoiar Português Português Español English Compartilhar a matéria × Copy link to page Copy link to page × Republicar esta matéria Você pode republicar os textos do Dialogue Earth sob a licença Creative Commons. Por favor, confira nossa política de republicação. Amazônia Ocupada, episódio 3: Spotify Emilio Godoy Setembro 22, 2022Janeiro 30, 2023 Para chegar a Cachoeira do Aruã, uma remota comunidade ribeirinha do Pará, é preciso sair do porto de Santarém e percorrer o rio Arapiuns. O trajeto até lá, de quatro horas de lancha, é margeado por floresta nativa, o que dá a sensação de que estamos chegando a um local praticamente intocado de floresta amazônica. Ouça agora Este artigo é um resumo do terceiro episódio de Amazônia Ocupada, uma nova série em podcast do Diálogo Chino. Mas a realidade é bem diferente. A área ao redor de Cachoeira do Aruã é um polo de extração de madeira. Hoje, a vila abriga cerca de 130 famílias, e a população cresce desde que as madeireiras começaram a explorar a região. Há sinais da atividade madeireira em meio à densa floresta nativa. Nas margens do rio Arapiuns, duas clareiras com grandes balsas atracadas são o ponto de partida de imensos carregamentos de toras de madeira amazônica — especialmente no período da seca, entre julho e janeiro. Aruã, que se tornou uma atração turística por conta da cachoeira que dá seu nome, ganhou as manchetes em março de 2021, quando o ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, esteve na região, logo após a apreensão, pela Polícia Federal, de mais de 226 mil metros cúbicos de madeira — cujo valor de mercado supera os R$ 129 milhões. View this post on Instagram Salles foi até lá para tentar intermediar a situação entre a polícia e as madeireiras, como afirmou na época. Mas logo surgiram denúncias de que o próprio ministro poderia ter envolvimento com o mercado ilegal de madeira e que ele estaria tentando interferir nas investigações — o que ele nega. “É uma sensação de que Cachoeira ficou conhecida mundialmente”, diz Elinelma Sampaio, uma das moradoras de Aruã. “Cachoeira, como o nome diz, é um lugar extraordinário. A cachoeira é linda, mas também é constrangedor por conta dos desmatamentos. Cachoeira está sendo falada mundialmente, e mal falada, né?” Ribeirinha Elinelma Sampaio: "Cachoeira ficou conhecida mundialmente por causa de desmatamento" (Imagem: Flávia Milhorance / Diálogo Chino) A extração de madeira é o tema do terceiro episódio do podcast Amazônia Ocupada, que explica o modelo de exploração da Amazônia, patrocinado pelo governo militar, a partir dos anos 1970, e que impulsiona, até hoje, o avanço da fronteira agrícola. Essa série mostra que a história da colonização se repete na floresta amazônica, começando pela retirada das madeiras mais valiosas e que segue com a pecuária e a soja. Hoje, assim como nos casos da soja e da pecuária, existem formas de explorar a madeira legalmente, ao mesmo tempo em que se mantém a floresta em pé. Houve avanços regulatórios para impedir sua extração predatória, com a criação das chamadas concessões florestais, em meados dos anos 2000. Há, inclusive, empresas atuando em Cachoeira do Aruã por essas concessões. “Você tem uma área florestal, divide em 30 partes e explora uma parte por ano, conseguindo manter esse ciclo”, explica Marco Lentini, coordenador de projetos do Imaflora, organização que trabalha fortalecendo as bases da exploração florestal aliada à conservação do meio ambiente. “Dessa forma, você consegue manter esse ciclo. Aquela floresta sempre vai ser floresta, capaz de manter seu nível de produção a longo prazo”. Floresta amazônica às margens do rio Arapiuns, no Pará. Área preservada, mas com atuação madeireira (Imagem: Flávia Milhorance / Diálogo Chino) A regulamentação da atividade nesses moldes foi uma forma que o governo brasileiro encontrou, nas últimas duas décadas, de manter enormes parcelas de área pública sob controle e ao mesmo tempo gerar renda para comunidades locais. Sob esse regime de concessão, empresários precisam monitorar a área, que também recebe a fiscalização periódica de órgãos ambientais. Rubens Zilio, diretor da concessionária Patauá Florestal, é um exemplo vivo de como a colonização da Amazônia avançou do Mato Grosso ao Pará pela BR-163, como a gente vem contando desde o início da série. Ele começou a extrair madeira na região de Sinop, na transição entre o Cerrado e a Amazônia, mas emigrou, nos anos 1980, em direção ao norte, em busca de “novos horizontes”. “Eu vim buscar o que eu não tinha lá, o que estava acabando na região, que estava virando uma área agrícola. Não tinha mais madeira”, explica Zilio. Hoje, a Patauá Florestal tem duas concessões de 40 anos, que abrangem uma área de 362 mil hectares na Floresta Nacional de Altamira. “Eu vim buscar uma área onde eu possa trabalhar o resto da minha vida”, afirma o madeireiro. Vista aérea de uma concessão florestal no rio Arapiuns. Normas avançaram, mas mercado ilegal ainda é forte (Imagem: Flávia Milhorance / Diálogo Chino) Lentini acredita que seriam necessários 25 milhões de hectares com manejo florestal para suprir, de forma mais sustentável, a demanda por madeira amazônica. “Isso é basicamente 5% da área da Amazônia. Além de tornar a vida das comunidades tradicionais muito melhor, permitiria que a gente eliminasse em definitivo esse problema no suprimento ilegal de madeira”, afirma o especialista. Apesar de avanços importantes na regulamentação do setor madeireiro e de exemplos de concessão florestal que funcionam, o Imaflora estima que só 10% da oferta de madeira da Amazônia venha de fontes comprovadamente legais. A extração de madeira ilegal segue sendo um negócio lucrativo, atraindo inclusive facções criminosas para a atividade. Leia a segunda história da série: Por que pecuária é atividade que mais desmata a Amazônia Nos últimos anos, foram várias as ações da polícia, dos órgãos ambientais e do Ministério Público contra a madeira ilegal na região da Cachoeira do Aruã. No caso do carregamento apreendido no ano passado, a Polícia Federal encontrou indícios de tentativa de “lavagem” da madeira. Isso ocorre quando se mistura carga legal com a obtida de forma irregular — um mecanismo parecido com a “lavagem” ou o “esquentamento” do gado, como explicado no episódio anterior do podcast. Hoje, apenas entre 16% e 25% da madeira amazônica é exportada, sobretudo para a Europa e os Estados Unidos, segundo a estimativa do Imaflora. O restante fica no mercado interno, que se preocupa mais com preço e qualidade do que com a origem do produto. No entanto, esse comportamento está começando a mudar entre as empresas fornecedoras de madeira. “Ficamos surpreendidos ao descobrir que por volta de 40% das empresas que compram madeira no mercado nacional já fazem algum tipo de mapeamento das cadeias dos seus fornecedores”, explica Lentini, sobre um recente levantamento feito pela organização. Ouça aqui o terceiro episódio de Amazônia Ocupada, ou ouça na Apple, Amazon ou Deezer. O quarto episódio e o artigo que o acompanha serão lançados na segunda-feira (26). Mais detalhes sobre a série Podcast Amazônia Como a Amazônia se tornou um polo global de exportações agrícolas Em novo podcast, narramos o processo desde os anos 1970 em que militares promoveram ocupação da floresta, atraindo imigrantes para desmatar e desenvolver agropecuária Podcast Amazônia Por que a pecuária é a atividade que mais desmata a Amazônia De Guarantã do Norte, em Mato Grosso, segundo episódio de podcast explica como gado impulsiona a ocupação de terras públicas na floresta tropical Podcast Amazônia Garimpo na Amazônia: uma história de esperanças e conflitos Quarto episódio de podcast explora, por terra e pelo ar, uma reserva garimpeira criada pelo governo militar, nos anos 1970, e onde o garimpo continua a avançar avançar Continue lendo Reportagem Infraestrutura Empresa chinesa encarregada do Trem Maia, no México, tem histórico de corrupção em nível internacional Reportagem Infraestrutura Trem Maia do novo presidente mexicano preocupa indígenas e ambientalistas Reportagem Desmatamento Plano para impulsionar ferrovias pressiona Amazônia brasileira Reportagem Lítio Lítio no México: uma miragem no deserto? 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