A seca de 2023 no Uruguai produziu uma das imagens mais marcantes de sua crise hídrica: o reservatório de Paso Severino, principal fonte de abastecimento da região metropolitana de Montevidéu, no centro-sul do país, ficou praticamente vazio. Por 70 dias, o governo precisou abastecer 1,7 milhão de pessoas com uma mistura de água doce e salobra.
O Uruguai enfrenta secas recorrentes desde 2018, com mais de 60% do território afetado entre 2022 e 2023. Diante da crise, sucessivos governos defenderam suas soluções.
O ex-presidente Luis Lacalle Pou (2020-2025) encampou o Projeto Neptuno, que previa construir uma estação de tratamento de água no Rio da Prata, e próximo a ela, uma área cercada por diques para drenar e controlar o fluxo d’água.
Mas o atual presidente, Yamandú Orsi, descartou o projeto ao assumir o cargo em março de 2025. Em seu lugar, o novo governo retomou os planos de construir uma barragem em Casupá, no departamento de Florida, centro-sul do país. Um reservatório a cem quilômetros de Montevidéu garantiria boa parte do abastecimento hídrico à região mais populosa do Uruguai. Mas o projeto enfrenta resistência de agricultores locais, que poderiam ser desapropriados, e de especialistas.
Barragem de Casupá
Casupá fica a leste da capital do departamento, também chamada Florida, e estaria localizado entre vales, serras e áreas úmidas. Seu nome significa “na borda da grande floresta” em guarani.
O projeto remonta à década de 1960 e ressurgiu em 2019 em meio a outra crise hídrica. Em outubro de 2025, o governo garantiu um financiamento de US$ 130 milhões do Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe para atualizar o estudo de impacto ambiental, feito em 2017, e construir a barragem. As obras devem começar em 2027 e ser concluídas em 2029.
O que é La Niña?
La Niña é um fenômeno meteorológico que provoca um resfriamento anormal nas temperaturas superficiais do mar no Oceano Pacífico equatorial. Isso leva, por exemplo, à ocorrência de fortes ventos e redução de chuvas em várias partes do continente. Assim como o El Niño, sua fase oposta, ela afeta os padrões de precipitação e pressão atmosférica em todo o mundo.
Enquanto isso, o Uruguai atravessa mais um verão intenso, que pressiona suas reservas. Entre novembro e fevereiro, grande parte do país registrou poucas chuvas e temperaturas elevadas. Isso é resultado da influência do fenômeno climático La Niña, conforme o Instituto Nacional de Meteorologia do Uruguai. Em 30 de dezembro, a Companhia Estatal de Águas do Uruguai (OSE) acionou o alerta, com a preparação de infraestrutura emergencial e iniciativas para economizar água.
O meteorologista Nubel Cisneros disse ao Dialogue Earth que a escassez de água deve se intensificar até fevereiro, e as chuvas deste verão devem ficar entre 40% e 60% abaixo da média histórica.
Impactos do reservatório de Casupá
A barragem de Casupá seria uma solução à crise hídrica no longo prazo, mas suas obras compreendem uma série de impactos socioambientais.
Segundo um relatório encomendado pela OSE, a obra provocaria o desmatamento de 426 hectares de floresta nativa e 787 hectares de pastagens naturais. O estudo de impacto ambiental da barragem também identificou 26 espécies prioritárias à conservação, incluindo aves como tiziu (Volatinia jacarina) e iguaninha-azul (Stenocercus azureus) e mamíferos como a capivara.
Além disso, o traçado do reservatório se estende pelas Serras do Leste, região essencial para a conservação da biodiversidade local.
A pecuarista Leticia Peralta e sua família, que cuidam de quase mil cabeças de gado, teriam cerca de 40% de suas terras inundadas pelo projeto. As câmeras de segurança de suas terras já registraram vários animais selvagens em sua propriedade: “É muito importante manter seus habitats e ecossistemas intactos. Se eles circulam por aqui, é porque tudo está em equilíbrio”.
O projeto apresentado pela OSE incluiu um programa de resgate da vida selvagem, que transferiria espécies de baixa mobilidade para áreas de conservação próximas. Também seria criada uma área protegida de 800 hectares em volta do reservatório, com a intenção de compensar a perda de florestas e pastagens nativas, restaurando ecossistemas e corredores biológicos.
A situação da bacia do rio Santa Lucía também é preocupante. O estudo de impacto ambiental da barragem encontrou altos níveis de fósforo na água, resultado da poluição agrícola. A análise sugere que esses minerais poderiam também contaminar o reservatório, facilitando a proliferação de algas e dificultando o aproveitamento da água para o consumo humano.
María Selva Ortiz, presidente da Rede Amigos da Terra, lembrou que, em 2013, uma infestação de cianobactérias na estação de tratamento Aguas Corrientes fez com que toda a região metropolitana de Montevidéu recebesse água com gosto e cheiro desagradáveis.
José Langone, biólogo aposentado que trabalhou 35 anos na OSE, alerta que a barragem de Casupá pode levar mais tempo do que o previsto para fornecer água potável de forma segura e contínua. Segundo ele, os cerca de 10 mil hectares de plantações de eucalipto ao norte da barragem também competiriam por essa mesma água.
Papel das comunidades
A área que será permanentemente inundada para a construção do reservatório de Casupá cobre 2.126 hectares e chega a 3.935 hectares se incluída a zona de amortecimento. O empreendimento deve exigir a desapropriação total ou parcial de pelo menos 46 fazendas produtivas dessa área.
“Não sabemos quem ou quantos serão desapropriados”, disse Carlos Sarrosa, engenheiro agrônomo e pecuarista, ao Dialogue Earth. “Eles não fizeram nenhum estudo socioeconômico e anunciaram isso como um slogan de campanha política”.
Sarrosa diz não ter recebido informações oficiais e claras sobre o projeto, mas calcula que poderia ter 300 hectares de sua área inundada.
“Eles não sabem como, quando ou quem será responsável pelo projeto, nem como ajudarão as pessoas afetadas, nem como mitigarão os danos ambientais, sociais ou agrícolas”, acrescentou a pecuarista Peralta.
O ministro do Meio Ambiente, Edgardo Ortuño, visitou a área entre setembro e outubro e garantiu às 80 famílias potencialmente afetadas que o projeto avançaria, mas sem muitos detalhes.
Luis Oliva, prefeito de Casupá, afirma que o projeto tem gerado atritos entre agricultores e os 2,3 mil moradores da cidade, “onde há poucas fontes de emprego”. Ele estima que a população possa crescer 50% durante as obras, impulsionando o mercado imobiliário e a demanda por infraestrutura. Antes defensor da iniciativa, Oliva agora teme os impactos das desapropriações de fazendas.
Governança ambiental
Agricultores da região dizem que a OSE não realizou medições diretas na área prevista para a barragem, baseando parte dos estudos em dados de drones e satélites. A própria estatal reconheceu que ainda faltam estudos ambientais, que dependem de análises do Ministério do Meio Ambiente.
Oito empresas uruguaias e oito estrangeiras apresentaram propostas para o projeto. Entre elas, estão as empresas chinesas China International Water & Electric Corporation e Sinohydro Corporation, e um consórcio chino-uruguaio composto por CCCC Water Resources and Hydropower Construction, Yellow River Engineering Consulting e a Impacto Construcciones.
O Ministério do Meio Ambiente e a OSE não responderam aos questionamentos do Dialogue Earth. Antes de assumir o cargo no ministério, Ortuño foi diretor da OSE no governo anterior. Em entrevista ao Dialogue Earth na época, ele sugeriu que o projeto Neptuno havia sido apressado por motivos eleitorais e defendeu que se atingisse um consenso em novos projetos de infraestrutura.
Em seu site, o Ministério do Meio Ambiente reconhece a necessidade de atualizar o estudo de impacto ambiental de Casupá.
Alternativas para a crise hídrica
O geólogo Marcel Achkar, da Universidade da República, defende a descentralização do sistema hídrico, com o uso de fontes locais, cursos d’água menores e aquíferos. Ele também propõe atacar o desperdício causado por falhas na distribuição. Hoje, no Uruguai, cerca de metade da água que entra na rede não chega a ser usada nem faturada, índice muito acima da média regional, de 30% a 35%.
“É uma corrida contra o tempo, mas ainda é possível restaurar sua qualidade ambiental”, disse Achkar.
Em 2023, quando era prefeito de Canelones, o próprio Orsi alertou para a deterioração da bacia, citando práticas “inaceitáveis” de extração de areia que alteravam o curso do rio. A maior poluição da área vem da agricultura, de acordo com uma análise da Universidade da República.
O biólogo José Langone afirma que “apenas 7% da bacia não foi impactada pela ação humana e só 2% ainda é coberta por floresta nativa”. Ex-técnico da OSE, ele lembra a construção de uma estação de tratamento em Aguas Corrientes e diz que uma nova unidade prevista para Juan Lacaze, no departamento de Colonia, pode ajudar a reduzir os problemas de salinidade da água.
María Selva Ortiz, da Rede Amigos da Terra, afirmou que uma das principais vantagens da nova barragem seria garantir um abastecimento de água mais estável e confiável em períodos de crise.
Precisamos de uma nova cultura hídrica, porque nossas sociedades se desenvolveram em um mundo que não existe maisMiguel de França Doria, do Programa Mundial de Avaliação da Água da Unesco
Mas outros especialistas criticam a falta de avanço para enfrentar a insegurança hídrica. “Estamos no mesmo lugar em que estávamos naquela seca extrema”, disse Langone, em referência à crise histórica de 2023. Ele também ressalta que ainda não houve a implementação de um plano para reparar a rede de distribuição de Montevidéu, responsável por parte das perdas de água.
Miguel de França Doria, do Programa Mundial de Avaliação da Água da Unesco, afirmou que o Uruguai precisa mudar sua relação com a água. Para ele, o país precisa aumentar a resiliência, limitar o uso da água potável ao consumo humano e animal, aproveitar os aquíferos e melhorar a eficiência no abastecimento. Segundo ele, a barragem de Casupá poderia fazer parte dessa estratégia.
“Precisamos de uma nova cultura hídrica, porque nossas sociedades se desenvolveram em um mundo que não existe mais”, concluiu.


