Energia

Trump, China e os 300 bilhões de barris de petróleo venezuelano

A ofensiva dos EUA sobre o ‘Eldorado do petróleo’ na América Latina reacende disputas geopolíticas e levanta alertas ambientais na Venezuela
<p>Navio petroleiro fretado pela Chevron no Lago Maracaibo, Venezuela. Oficial americano diz que empresa tem interesse de ampliar investimentos no país (Imagem: Jose Bula Urrutia / Alamy)</p>

Navio petroleiro fretado pela Chevron no Lago Maracaibo, Venezuela. Oficial americano diz que empresa tem interesse de ampliar investimentos no país (Imagem: Jose Bula Urrutia / Alamy)

“Inviável para investidores”. Esse foi o veredito do CEO da Exxon, Darren Woods, sobre o petróleo venezuelano no início do mês. A declaração foi feita durante uma reunião na Casa Branca, em Washington, com o presidente dos EUA, Donald Trump, e executivos de 17 empresas petrolíferas.

Mesmo assim, Trump segue disposto a assumir a decadente indústria petrolífera da Venezuela após destituir seu presidente, Nicolás Maduro. Trump diz que seriam necessários US$ 100 bilhões em investimentos para ressuscitar o “Eldorado do petróleo”, como a Venezuela ficou conhecida nos anos 1990.

E há petroleiras interessadas. Após a declaração de Woods em Washington, o secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, disse que a americana Chevron, a britânica Shell, a espanhola Repsol e a italiana Eni estavam dispostas a “aumentar imediatamente” os investimentos na Venezuela. Segundo Wright, há outra dúzia de empresas dispostas a entrar na jogada.

Qualquer petroleira que seguir os planos de Trump enfrentará incertezas. De acordo com o Centro de Divulgação de Informações Econômicas (Cedice) da Venezuela, o governo venezuelano expropriou milhares de empresas entre 1999 e 2019. Sob a gestão de Hugo Chávez (1999-2013), as nacionalizações dos ativos da Exxon lhe provocaram um prejuízo de US$ 1 bilhão — que só começou a ser restituído na última década.

Especialistas estimam que os investimentos necessários à indústria petrolífera venezuelana estejam próximos de US$ 180 bilhões – quase o dobro do anunciado por Trump.

Enquanto isso, outras empresas estão de olho no relativo sucesso das operações de gás na Venezuela. Um exemplo é o campo Perla (Cardón IV), operado pela Repsol, que supre toda a demanda interna de gás. Apesar das sanções econômicas impostas pela administração de Trump contra a Venezuela em 2017, a Chevron manteve operações no país sul-americano.

Exigências da Casa Branca

Trump afirmou que os EUA poderiam lucrar com o petróleo venezuelano em apenas 18 meses. Mas especialistas dizem que isso exigirá uma estrutura fiscal e contratual que hoje não existe no país, além de pelo menos uma década de “trabalho árduo em um contexto democrático”. O economista José Manuel Puente estima que, além dos quase US$ 2 bilhões em investimentos, serão necessários 15 anos de trabalho institucional.

Patrick Pouyanné, CEO da petrolífera francesa TotalEnergies, tem uma visão parecida. Sem um quadro jurídico de garantia de direitos, diz ele, seria muito caro e lento voltar à produção de três milhões de barris por dia.

Bomba de óleo em campo petrolífero no Lago Maracaibo
Bomba de óleo em campo petrolífero no Lago Maracaibo, Venezuela. O país tem reservas estimadas em 300 bilhões de barris de petróleo bruto pesado e extrapesado, mais difícil de extrair, transportar e refinar (Imagem: Jose Bula Urrutia / Science Photo Library / Alamy)

Na semana passada, o governo da Venezuela anunciou que a presidente interina, Delcy Rodríguez, enviará uma nova Lei de Hidrocarbonetos à Assembleia Nacional, além de outra para simplificar o processo de licitação.

A estratégia do governo interino é promover “contratos de partilha de produção”. Isso permitiria que empresas estrangeiras recuperassem seus investimentos com a venda de uma parte do petróleo bruto extraído.

No entanto, petrolíferas estrangeiras pressionam por mudanças mais profundas. A agência Reuters informou que as empresas defendem a redução da carga tributária, com o retorno a um modelo baseado em royalties. Também pleiteiam o direito de comercializar a maior parte do petróleo produzido, com acesso direto à infraestrutura de exportação.

Essa infraestrutura, atualmente deteriorada e defeituosa, inclui milhares de quilômetros de oleodutos e gasodutos, 16 terminais de embarque, 153 usinas de compressão de gás e seis grandes refinarias.

Economia reage à operação na Venezuela

Após a captura de Maduro, a Bolsa de Valores de Caracas registrou um aumento de 124%, valorização acompanhada por uma queda na taxa de câmbio do mercado paralelo.

A disparada das ações foi atribuída à notícia de que a venda de petróleo venezuelano pelos EUA teria gerado cerca de US$ 330 milhões. Esse montante teve como destino cinco bancos privados venezuelanos, com a intermediação do Banco Central da Venezuela.

Para viabilizar as transações, Delcy Rodríguez anunciou a criação de dois fundos soberanos: um destinado ao reajuste dos salários do funcionalismo público e outro voltado à recuperação de serviços públicos deteriorados no país.

O salário mínimo na Venezuela equivale hoje a apenas US$ 0,38 por mês. Em maio de 2025, Nicolás Maduro decretou a criação de uma “renda mínima integral indexada” de US$ 160 mensais para servidores públicos, paga por meio de títulos em bolívares. No setor privado, a renda média era de US$ 237 por mês no início de 2025.

Migrantes venezuelanos chegam a Cúcuta, na Colômbia
Migrantes venezuelanos chegam a Cúcuta, na Colômbia, em fevereiro de 2020. Na última década, milhões de venezuelanos deixaram o país devido às dificuldades econômicas e políticas (Imagem: Comissão Interamericana de Direitos Humanos / Flickr, CC BY)

O governo interino anunciou ainda a revisão de oito códigos legais. As mudanças incluem reformas nas leis de serviços de eletricidade e de propriedade intelectual industrial, além da legislação sobre preços e direitos socioeconômicos, com o objetivo de preservar um modelo econômico misto, que combine maior abertura de mercado com a participação do Estado.

Não está claro, no entanto, se essas reformas trarão a estabilidade que as empresas petrolíferas americanas demandam para operar com segurança e lucratividade.

Logística e corrupção

O petróleo venezuelano é abundante, mas de baixa qualidade. As reservas estimadas em cerca de 300 bilhões de barris no Cinturão do Orinoco — o maior depósito de petróleo do mundo — são compostas majoritariamente por óleo bruto pesado e extrapesado, mais difíceis e custosos de extrair, transportar e refinar.

Isso acendeu o alerta entre especialistas, que destacam a necessidade de seguros para operações marítimas e os riscos associados às más condições dos oleodutos e outras instalações do país. Também não há clareza sobre onde o petróleo será refinado — se na Venezuela ou nos Estados Unidos.

“Você teria que ser forçado à mão armada para tentar ganhar dinheiro com [o petróleo venezuelano]”, resumiu Patrick Galey, diretor de investigações sobre combustíveis fósseis da Global Witness, em uma publicação no início do mês.

Também há preocupações com segurança. Apesar da promessa de Trump de proteger as petroleiras, seu governo aconselhou cidadãos americanos a deixar a Venezuela devido ao risco de sequestro por milícias chavistas. Por isso, o governo dos EUA já cogita contratar empresas privadas para proteger as instalações petrolíferas.

A tão esperada transição democrática e a realização de eleições livres fazem parte de uma outra conversa que, por enquanto, segue em segundo plano.

A Venezuela ainda é comandada pelo mesmo governo que acumulou dezenas de casos de corrupção nos últimos anos. Um dos escândalos envolvendo executivos da estatal petrolífera PDVSA resultou em prejuízos de US$ 16 bilhões associados a atividades ilegais com criptomoedas. Enquanto isso, uma rede ferroviária financiada com bilhões de dólares em investimentos chineses nunca foi concluída.

Plataforma da PDVSA no Lago Maracaibo
Plataforma da PDVSA no Lago Maracaibo. O governo venezuelano acumula escândalos de corrupção, incluindo atividades ilegais com a estatal petrolífera e projetos de infraestrutura inacabados (Imagem: Jose Bula Urrutia / Alamy)

Papel da China

A Venezuela já foi central para os investimentos chineses na América do Sul, tornando-se o maior devedor de Beijing na região. Agora, com os movimentos do governo dos Estados Unidos, o país volta a se ver no centro de uma disputa entre superpotências.

O petróleo venezuelano representa apenas 3% das importações de óleo cru da China, de acordo com uma análise publicada este mês pelo Centro de Política Energética Global, dos Estados Unidos. Mas a análise destaca a importância dessas importações para as refinarias privadas chinesas, especializadas no processamento de petróleo bruto não convencional.

A dívida da Venezuela com a China está estimada entre US$ 10 bilhões e US$ 19 bilhões. Como ela vem sendo paga lentamente, com a venda de petróleo bruto, autoridades chinesas procuraram seus homólogos venezuelanos e americanos para tentar obter garantias de pagamento diante do novo contexto político após os bombardeios americanos.

Paradoxalmente, alguns analistas sugeriram que a estabilização da situação econômica da Venezuela e o levantamento das sanções dos EUA poderiam aumentar as chances dos bancos de desenvolvimento chineses recuperarem seus investimentos.

Danos ambientais incertos

Os impactos ambientais da retomada da indústria petrolífera venezuelana ainda são incertos. Embora a exploração não envolva o avanço sobre novas áreas protegidas ou territórios indígenas, os planos geram preocupações ambientais.

Atualmente, há perdas na casa das dezenas de milhões de dólares em gás metano que vaza de tubulações danificadas, conforme uma reportagem da Bloomberg Green. Além disso, o metano também é jogado na atmosfera por meio do gas flaring, atividade na qual a Venezuela ocupa o quinto lugar no ranking mundial.

Alguns analistas sugeriram a necessidade de mais transparência e tecnologias mais modernas para contornar a situação. 

Juan Carlos Sánchez, co-vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 2007 por seu trabalho no Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas e funcionário da PDVSA por 21 anos, disse ao Dialogue Earth que está pessimista com o cenário ambiental do país. Ele destacou que Trump promove o negacionismo climático, enquanto a atuação de petrolíferas em outros países da América Latina está marcada por um histórico de danos ambientais. 

“Na minha experiência, quando as petrolíferas decidem cortar custos para aumentar os lucros, os orçamentos mais afetados são os projetos ambientais”, disse Sánchez. 

Ele acrescentou que a Venezuela apresenta um atraso significativo no desenvolvimento de estruturas institucionais ligadas às políticas de enfrentamento às mudanças climáticas: “Somente um governo venezuelano genuinamente interessado em questões e políticas ambientais será capaz de exigir salvaguardas no futuro”.

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