Por três séculos, as baleias-francas-austrais foram consideradas animais propícios para a caça. Sua docilidade, baixa velocidade e corpos flutuantes tornavam esses mamíferos marinhos presas fáceis para os baleeiros. Na década de 1920, a população global estimada da espécie foi praticamente eliminada, restando apenas cerca de 300 dos 70 mil espécimes originais. Para evitar a completa extinção das baleias-francas, a caça foi proibida em 1935.
Desde então, várias iniciativas têm buscado preservar a espécie. Uma delas é a Comissão Baleeira Internacional, organização intergovernamental responsável por regulamentar a caça de baleias e conservar todas as espécies desses animais. A comissão comemora seu 80º aniversário este ano.
Atualmente, as populações de baleias-francas-austrais na costa argentina mostram sinais de recuperação. O Golfo de San Matías, no norte da Patagônia, virou um local particularmente relevante para sua reprodução e desenvolvimento. No entanto, uma nova ameaça se aproxima após décadas de esforços para cuidar da espécie.
Ao lado do golfo, a província de Río Negro pode se transformar em um importante eixo dos planos nacionais de exportação de gás natural liquefeito (GNL). À medida que as operações de extração se intensificam no campo de Vaca Muerta — um dos maiores depósitos de petróleo e gás de xisto do mundo —, a exportação é promovida pelo governo nacional de Javier Milei. O presidente inclusive descreveu o GNL argentino como “o maior investimento da história da Argentina”.
A Argentina está de olho nos mercados globais de GNL, como Europa, Índia, China, Coreia do Sul, Japão e Brasil. Ainda não há acordos selados com nenhum desses países, embora alguns já tenham manifestado seu interesse na compra do gás argentino.
O Golfo de San Matías é uma área de enorme valor ecológico, abrigando cinco reservas marinhas nacionais e provinciais. Há cerca de 20 anos, o local é reconhecido internacionalmente como um dos ecossistemas mais ricos da Argentina. O golfo abriga fitoplâncton e captura grandes quantidades de CO₂. É também um dos poucos lugares no mundo onde as baleias-francas-austrais podem ser observadas da praia.
Biólogos e oceanógrafos disseram ao Dialogue Earth que a instalação de projetos de petróleo e gás na área representa um risco crítico para essas baleias, bem como para o resto do ecossistema.
Até pouco mais de três anos atrás, as atividades petrolíferas eram proibidas no Golfo de San Matías. Porém, em 2022, uma reforma na lei 3.308 de 1999, da província de Río Negro, abriu o caminho para a construção de um porto focado nas exportações de GNL e em outros projetos estratégicos.
O Golfo de San Matías foi escolhido por ser um dos poucos pontos da costa atlântica da Argentina suficientemente profundo e conectado diretamente aos campos de Vaca Muerta.
Quatro obras importantes — um gasoduto, um porto e duas usinas flutuantes de GNL — estão em diferentes estágios de desenvolvimento, e já há outros quatro projetos em planejamento. Os planos enfrentam resistência de ambientalistas e cientistas, que temem os impactos cumulativos sobre a área.
Colisões de navios e vazamento de óleo
Os críticos dos projetos afirmam que eles podem aumentar o risco de vazamentos de petróleo e alterar a dinâmica marinha local. Segundo eles, esses projetos também resultarão em um aumento generalizado das emissões de gases de efeito estufa.
Também foram identificados vários riscos para as baleias e outros animais que vivem no Golfo de San Matías, alertou a ecologista Belén Braga, do Instituto Internacional de Conservação das Baleias. Ela explicou que uma das principais ameaças são as colisões com navios, algo que tende a aumentar caso os projetos avancem. Outros riscos, acrescentou Braga, são o emaranhamento nas redes da indústria pesqueira e a proliferação de algas marinhas associada à maior presença de navios de liquefação de gás, elevando o risco de doenças.
“Estamos falando de colisões, poluição sonora e vazamentos. Todos esses alertas estão em discussão”, disse Braga. Os impactos não comprometeriam apenas a vida selvagem, explicou ela, mas também a economia regional, que se baseia na pesca artesanal e no turismo.
Em seu estudo de impacto ambiental, a estatal Yacimientos Petrolíferos Fiscales (YPF) reconhece que o oleoduto necessário e duas enormes plataformas flutuantes usadas para carregar navios-tanque apresentam riscos de vazamento de óleo. Em razão disso, foi elaborado um plano de “gestão de operação segura” em caso de vazamento.
Um estudo de 2025, porém, concluiu que o petróleo poderia se espalhar por 30 horas a mais do que o previsto pela YPF. O estudo foi coordenado pelo Fórum para a Conservação do Mar Patagônico.
Várias fontes consultadas pelo Dialogue Earth apontaram que os estudos de impacto ambiental dos projetos petrolíferos no Golfo de San Matías foram produzidos de forma fragmentada. Como resultado, disseram os especialistas, não houve uma análise abrangente dos impactos cumulativos desses empreendimentos na área.
Cristian Fernández, coordenador jurídico da Fundação para o Meio Ambiente e Recursos Naturais, questionou as projeções sobre o potencial aumento de emissões: “O estudo de impacto ambiental não traz uma análise séria das emissões, incluindo dióxido de carbono, metano e compostos orgânicos voláteis, como o benzeno”.
Fernández afirma que o Golfo de San Matías está sendo tratado como uma “zona de sacrifício” em nome do desenvolvimento econômico.
Planos argentinos para o GNL
Até o momento, quatro projetos ligados ao plano de exportação de GNL foram aprovados pelo governo nacional. O maior deles é um oleoduto de quase 500 quilômetros de extensão chamado Vaca Muerta Oleoducto Sur. O presidente e CEO da YPF, Horacio Marín, descreveu a obra como “o maior projeto de infraestrutura do país”. Além da YPF, o oleoduto tem como acionistas a mexicana Vista Energy, a argentina Pampa Energía e a canadense Pan American Energy.
O traçado do gasoduto começa em Loma Campana, Neuquén, no coração de Vaca Muerta. Ele vai até Punta Colorada, município localizado entre duas áreas protegidas no Golfo de San Matías. A partir daí, o GNL deve seguir para o porto e as duas plataformas flutuantes.
Além disso, duas embarcações flutuantes da empresa norueguesa Golar LNG, chamadas Hilli Epiceyo e MK II, devem chegar à costa argentina para executar o processo de liquefação do gás. Os navios têm entre 300 e 400 metros de comprimento e 112 metros de altura. Esse projeto está sendo conduzido pelo consórcio Southern Energy, formado pelas empresas Pan American Energy, YPF, Pampa Energía, Golar LNG e Harbour Energy.
De acordo com a concessionária Southern Energy, o primeiro navio começaria a operar em 2027 e o segundo em 2028. A expectativa é que os dois processem cerca de 17% da produção atual de gás da Argentina.
Também há outro projeto de gasoduto em fase de licitação, no qual a empresa ítalo-argentina Techint disputa a concessão com várias concorrentes chinesas não identificadas.
Apesar do forte apoio do governo, o GNL argentino ainda não cumpriu as expectativas comerciais do setor.
Em abril de 2025, a YPF assinou um memorando de entendimento com a Eni, grande petrolífera italiana. Em novembro seguinte, a YPF assinou outro acordo semelhante com a petrolífera estatal de Abu Dhabi, a ADNOC. Porém, no início de dezembro, a gigante petrolífera Shell, saiu do projeto de exportação de GNL argentino; a própria Shell havia substituído a Petronas, da Malásia. Enquanto isso, a China — país que mais importa GNL do mundo — vem reduzindo suas importações de gás devido ao “excesso de demanda” e aos preços mais altos do que o esperado.
Apesar desses problemas, o governo da província de Río Negro segue apoiando o andamento dos projetos.
Reforma legal no Golfo de San Matías
A reforma da lei 3.308 da província de Río Negro, aprovada em setembro de 2022, tem sido alvo de críticas, apesar do amplo apoio do Legislativo local.
Pablo Barreno, legislador da província, disse ao Dialogue Earth que o projeto de lei chegou sem aviso prévio – e com forte apoio da então governadora, Arabela Carreras. “Ficamos sabendo por meio de um grupo do WhatsApp”, contou Barreno. Ele acrescentou que a votação ocorreu apenas um dia depois do aviso. Ele foi o único parlamentar da província a votar contra o projeto, alegando falta de informações.
A votação foi alvo de protestos de organizações locais, como a rede Multissetorial Golfo de San Matías, coletivo que reúne moradores, comunidades costeiras e outras organizações. Fabrizio di Giacomo, membro da organização, afirmou que a bancada do governo impediu qualquer forma de participação social, realizando a sessão a portas fechadas e reforçando o controle policial.
Ativistas locais e instituições científicas argumentam que a reforma é inconstitucional e viola o Acordo de Escazú. O tratado, que entrou em vigor em 2021, garante a participação civil na tomada de decisões sobre o meio ambiente. Uma ação contra a reforma foi rejeitada pelo Tribunal Superior de Justiça de Río Negro em 2023. No mesmo ano, foi interposto um recurso no mesmo tribunal.
O Dialogue Earth entrou em contato com a atual secretária do Meio Ambiente de Río Negro, Judith Jiménez. Não recebemos resposta até o momento da publicação.


