Poluição

Cresce a frota elétrica, mas reciclagem de baterias patina no Brasil

Vendas de carros elétricos disparam no país, puxadas por marcas chinesas. Mas, ao fim do ciclo de vida, quem será responsável pelo destino das baterias esgotadas?
<p>Trabalhadores testam baterias na fábrica da BYD em Manaus, Amazonas. Com uma garantia estimada de oito anos, muitas baterias da fabricante chinesa podem estar chegando ao fim de sua vida útil, aumentando a demanda por reciclagem (Imagem: Wang Tiancong / Xinhua / Alamy)</p>

Trabalhadores testam baterias na fábrica da BYD em Manaus, Amazonas. Com uma garantia estimada de oito anos, muitas baterias da fabricante chinesa podem estar chegando ao fim de sua vida útil, aumentando a demanda por reciclagem (Imagem: Wang Tiancong / Xinhua / Alamy)

Enquanto os carros elétricos se multiplicam pelas ruas brasileiras, o destino de suas baterias esgotadas segue incerto, levantando preocupações com a possível contaminação do solo e da água e com o risco de acidentes, como incêndios, em caso de descarte inadequado.

A regulamentação para o fim de vida dessas baterias ainda é incipiente no Brasil, embora a frota de eletrificados já tenha superado 500 mil unidades este ano. Ao mesmo tempo, montadoras chinesas — protagonistas dessa expansão no país — não detalharam ao Dialogue Earth seus planos para o setor, apesar de já operarem processos estruturados em seu mercado de origem, a China.

Desde 2016, a China vem consolidando um marco regulatório para a reciclagem de baterias de veículos elétricos. Apesar de falhas na aplicação das regras, a taxa de reciclagem no país subiu de 25% em 2020 para 40% em 2023, segundo o Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação (MIIT). Uma análise de 2024 atribui o avanço às normas que tornam as montadoras responsáveis por sua coleta e reaproveitamento, apoiadas por incentivos fiscais e um sistema de rastreamento digital.

“A sistematização do ciclo fechado e a rastreabilidade digital fortalecem a responsabilidade dos fabricantes, ajudando a evitar que as baterias virem passivos ambientais na China”, disse Hudson Zanin, pesquisador na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que faz testes com baterias.

Riscos do descarte inadequado de baterias de lítio

Baterias de lítio usadas em carros elétricos contêm PFAS, substâncias que se degradam muito lentamente e podem se acumular no ambiente quando o descarte ou a reciclagem são inadequados.

Poluição da água – PFAS associados a baterias já foram detectados em solos e rios, incluindo na água potável, especialmente perto de fábricas e aterros, onde podem infiltrar-se no chorume e alcançar lençóis freáticos.

Vida aquática – Esses poluentes podem causar alterações neurológicas e metabólicas em organismos aquáticos, afetando ecossistemas, mesmo em concentrações muito baixas.

Saúde humana – A exposição a PFAS está associada a maior risco de câncer, problemas no sistema imunológico e distúrbios hormonais e reprodutivos.

Incêndios – Baterias de lítio utilizam solventes orgânicos inflamáveis, aumentando o risco de incêndios, especialmente em casos de descarte inadequado ou danos físicos.

Fontes: Nature Communications (2024); U.S. Environmental Protection Agency (EPA).

No Brasil, o Senado apresentou em maio do ano passado, mais de uma década depois da chegada dos veículos eletrificados, um projeto de lei para criar a Política Nacional de Circularidade das Baterias. A proposta estabelece um “passaporte da bateria”, com dados sobre composição, origem e possibilidades de reaproveitamento, em linha com o sistema em implementação na União Europeia.

O texto brasileiro está sob análise da Comissão de Meio Ambiente do Senado, uma das primeiras etapas da tramitação, sem previsão para entrada em vigor. 

Marcelo Cairolli, diretor de infraestrutura da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), considera a política “uma boa iniciativa para evitar a poluição”, mas pondera que o projeto ainda precisa de ajustes para não conflitar com normas já aplicadas pelos órgãos ambientais ao descarte de equipamentos perigosos ou poluentes — mesmo que não sejam específicas para baterias.

Falta de transparência

A regulamentação embrionária contrasta com a adoção acelerada de carros elétricos no Brasil, com montadoras chinesas correndo para fazer do país o polo do setor na América Latina.

Em junho, a fabricante chinesa BYD anunciou o início da produção em sua fábrica na Bahia, com capacidade anual de lançar 150 mil veículos. A empresa lidera o mercado nacional, com um terço das vendas de eletrificados e mais de 180 mil unidades comercializadas desde 2022, segundo a ABVE.

A BYD, que vende carros de passeio desde 2021 no Brasil, oferece oito anos de garantia às baterias. Isso significa que muitas delas começarão a chegar ao fim da vida útil nos próximos anos, ampliando a urgência por soluções de reaproveitamento ou reciclagem.

O Dialogue Earth fez diversas tentativas de contato com a empresa para saber quais práticas adota ou pretende adotar com as baterias ao fim da vida útil, mas ela não se posicionou. 

A postura da BYD no Brasil difere de sua atuação na China, onde vem ampliando rapidamente sua presença na reciclagem de baterias. Em 2024, criou a Xixian New District BYD Industrial Co., voltada à fabricação e à reciclagem de baterias, e firmou parcerias com empresas do setor. Segundo o MIIT, da China, a BYD mantém mais de 50 pontos de coleta e reciclagem no país.

Outras montadoras chinesas que vendem no Brasil também demonstram falta de transparência ou adotam práticas limitadas de reciclagem. A Great Wall Motor (GWM) e a Geely Brasil não responderam à reportagem, enquanto a JAC Motors afirmou não ter uma política de logística reversa, embora mantenha um laboratório para substituir células defeituosas das baterias.

Já a Volvo Cars, subsidiária da chinesa Geely, afirmou em nota que “já realiza a coleta das baterias no fim de suas vidas úteis” no Brasil e que, quando há falha que inviabilize o funcionamento, “o fornecedor homologado coleta e recicla a peça”. Segundo a empresa, o processo reaproveita 95% do material, e os 5% restantes são descartados conforme a legislação brasileira. A empresa não deu detalhes sobre o rastreamento, volume de baterias recicladas ou a legislação que orienta o processo.

Na China, a GWM informou em seu relatório financeiro de 2024 que vem ampliando a recuperação de baterias e instalando oficinas de desmontagem. Em seu site, ela lista mais de 600 postos autorizados de coleta de baterias.

De acordo com a agência chinesa de notícias Xinhua, até o final de 2021, 173 empresas do setor haviam inaugurado mais de dez mil oficinas de reciclagem na China. 

“A necessidade regulatória no Brasil fica ainda mais evidente quando se observa esse padrão duplo”, disse Zanin. “A falta de regulação clara e de fiscalização faz com que a prática circular seja tratada como um custo opcional por aqui. Essa diferença de comportamento, embora economicamente racional para o setor no curto prazo, gera um risco ambiental imenso para o país no futuro”.

Estação de recarga de veículos elétricos em Brasília
Estação de recarga de veículos elétricos em Brasília. Embora o mercado brasileiro tenha crescido rapidamente nos últimos anos, a infraestrutura de carregamento ainda é muito limitada fora de grandes centros urbanos (Imagem: Joédson Alves / Agência Brasil)

Faltam dados, mas existe inovação

No Brasil, não há dados sobre quantas baterias já chegaram ao fim da vida útil. Projeções feitas a pedido da reportagem pela NeoCharge, empresa especializada em infraestrutura de recarga, estimam que entre 1.000 e 2.500 baterias de veículos 100% elétricos devem atingir esse estágio até 2030. As unidades que devem chegar ao fim da vida útil nesta década pertencem, em sua maioria, à primeira geração de eletrificados vendidos no Brasil, como o BMW i3, de 2014

Segundo o diretor-geral da empresa, Ayrton Barros, a garantia em média de oito anos oferecida pelas montadoras — influenciada por exigências legais na China e pela competição de mercado — não reflete sua durabilidade real, que costuma superar 15 anos, dependendo do uso. Ele exclui híbridos e plug-ins de suas estimativas porque, de acordo com as pesquisas que consulta, motoristas tendem a recorrer mais ao motor a combustão.

No cenário global, uma organização ambiental de Hong Kong projeta que cerca de dez milhões de baterias se esgotarão até 2035.

Barros afirma que a cadeia de reciclagem brasileira ainda é incipiente porque o mercado é recente e a demanda, baixa. “O produto é muito novo, então os processos ainda não estão estabelecidos”, disse o executivo.

Mais do que um custo, a reciclagem de baterias representa uma oportunidade. Por exemplo, o refino — que transforma o black mass, material triturado das baterias, em minerais como lítio, níquel e cobalto — é usado na fabricação de novas células. 

A China também lidera o segmento: sua capacidade de refino de black mass deve atingir quase 2,5 milhões de toneladas até o final de 2025, o que deverá corresponder a 89% da capacidade global, segundo análise da consultoria Benchmark Mineral Intelligence.

Fábrica da BYD em Manaus trabalha com montagem de baterias de fosfato de ferro e lítio
Fábrica da BYD em Manaus trabalha com montagem de baterias de fosfato de ferro e lítio. Após o descarte, essas baterias poderiam ser trituradas e transformadas em minerais como lítio, níquel e cobalto (Imagem: Wang Tiancong / Xinhua / Alamy)

O setor também vem se tornando um campo fértil para inovação no Brasil. A Energy Source, startup paulista, desenvolveu tecnologias próprias para reciclagem de baterias e comercializa subprodutos minerais obtidos no processo — como o cobre — para uso em outros setores, a exemplo do adubo agrícola. Apenas outras duas recicladoras de baterias, Re-Teck e Lorene, atuam no país.

David Noronha, CEO da Energy Source, acredita que o Brasil está fora de risco ambiental com o descarte das baterias porque já foram desenvolvidas soluções para a reciclagem, reuso, reparo, refino e rastreabilidade. “E mais tecnologias seguirão surgindo conforme o mercado cresce, estimulando novos negócios na cadeia reversa”, acrescenta. 

Para Zanin, da Unicamp, o Brasil tem vantagens importantes, como recursos estratégicos — entre eles lítio, níquel e grafite — e pesquisas avançadas. Ele ressalta, porém, que o país carece de mecanismos sólidos de rastreabilidade e alerta para o risco de surgimento de oficinas irregulares para a coleta de baterias, como já ocorre na China. 

No país asiático, uma vasta rede de oficinas informais de coleta e desmontagem faz com que grande parte da reciclagem de baterias opere à margem da regulação. Segundo estimativas do MIIT, menos de quatro em cada mil baterias chegam a recicladoras oficiais. 

Por isso, a equipe de Zanin na universidade está desenvolvendo uma plataforma baseada em blockchain e inteligência artificial para monitorar a cadeia e prevenir práticas irregulares. 

Motoristas desconhecem ciclo de baterias

Em Campinas, cidade onde os carros elétricos e híbridos começam a se popularizar e que abriga uma das fábricas da BYD no país, o empresário Leandro Rocini acabou absorvido pelo avanço da eletromobilidade. Há alguns meses, Rocini comprou um BYD Dolphin, hoje o elétrico mais vendido e um dos mais acessíveis do Brasil, segundo a ABVE. 

Na concessionária, ele foi informado que a bateria poderia durar cerca de dez anos, mas não recebeu orientação sobre o que fazer quando ela chegasse ao fim do ciclo. “Ouço falar que ela dura bastante, mas não me preocupo com essas coisas”, admitiu, rindo.

A servidora pública Ariadne Bonvino divide com o marido um Ora 03, da GWM, comprado em 2024 para circular por Brasília, onde moram. O casal já pensa em adquirir outro veículo — um híbrido —, buscando uma opção a combustão para as viagens pelo interior, onde ainda há poucos postos de recarga.

Bonvino diz também não se preocupar com o futuro da bateria, que oficialmente tem em média cinco anos de garantia, segundo a fabricante: “As coisas estão evoluindo muito rápido. Acho que quando ela se desgastar, haverá uma solução tecnológica para o nosso problema”.

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