Energia

O Chile quer construir um cabo submarino para levar energia à Ásia. Será possível?

Projeto Antípodas planeja transmitir entre 200 GW e 600 GW, mas ainda não possui estudos de viabilidade ou financiamento
<p>Cidade de Iquique, localizada entre o deserto do Atacama e o Oceano Pacífico. O Chile pretende explorar a alta incidência solar do Atacama para exportar energia limpa para a Ásia. Mas o projeto de cabo submarino Antípodas de 20.000 km de comprimento é visto por muitos como inviável (Imagem: Holger Leue / Alamy)</p>

Cidade de Iquique, localizada entre o deserto do Atacama e o Oceano Pacífico. O Chile pretende explorar a alta incidência solar do Atacama para exportar energia limpa para a Ásia. Mas o projeto de cabo submarino Antípodas de 20.000 km de comprimento é visto por muitos como inviável (Imagem: Holger Leue / Alamy)

Fontes renováveis de energia desempenham um papel central para os países em desenvolvimento em suas transições energéticas, e o Chile não é exceção. Tendo conseguido grandes avanços nos últimos anos, incluindo um crescimento exponencial em sua capacidade de energia solar, o país agora quer exportar esse excedente para a Ásia — através de um cabo de 20 mil quilômetros sob o Oceano Pacífico.

É um projeto ambicioso: Antípodas, como foi apelidado, é algo que nunca foi feito em tal escala. “Ele nos permitirá compartilhar, com os países do Pacífico Asiático, uma energia solar limpa, confiável e renovável. Podemos produzi-la no Chile durante o dia e atender à demanda por eletricidade de países asiáticos à noite, substituindo a energia poluente por energia limpa e renovável”, disse o presidente do Chile, Sebastián Piñera, durante a reunião de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico em novembro passado. Ainda é incerto se o novo presidente eleito, Gabriel Boric, a ser empossado no 11 dia de março, irá seguir com a ideia.

“Com este projeto, aproveitaremos a distância entre nossos países, que muitas vezes é vista como um obstáculo à nossa integração, como uma vantagem que nos permitirá produzir e consumir energia solar 24 horas por dia”, acrescentou ele.

A ideia é produzir entre 200 e 600 gigawatts (GW) de energia no Deserto do Atacama — conhecido como o deserto mais seco do mundo e um dos melhores lugares para gerar energia solar no planeta devido a seus altos níveis de radiação solar. A energia seria então exportada para países asiáticos através do novo cabo submarino.

O governo chileno acredita no potencial do projeto de reduzir as emissões globais de CO2 em até 4,5%, ou em mais de 1,6 bilhão de toneladas por ano.

Antes da cúpula virtual, Piñera falou sobre o projeto no Encontro Nacional de Negócios (Enade) de 2021, realizado na capital chilena, Santiago. Na ocasião, ele disse que ainda são necessários estudos de viabilidade e a criação de alianças com nações asiáticas.

Viabilidade do cabo submarino

Fontes do Ministério de Energia afirmaram ao Dialogue Earth que ainda não há informações sobre o projeto Antípodas e que ele ainda está em estudo. Já especialistas dizem que, atualmente, ele é inviável por uma série de razões.

“Ninguém pode responder se é possível porque não há estudo”, disse Claudia Rahmann, diretora do Centro de Pesquisa de Energia Solar e pesquisadora do departamento de engenharia elétrica da Universidade do Chile. Também há incertezas quanto ao tamanho do projeto, acrescenta ela, “com poucos estudos que possam certificar a estabilidade e o controle necessários para operá-lo com segurança”.

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Infográfico: Dialogue Earth

O cabo de energia submarino mais longo do mundo entrou em operação em outubro de 2021. O North Sea Link percorre 720km através do Mar do Norte, entre a Noruega e o Reino Unido. Sua capacidade máxima de transmissão é de 700 megawatts (MW), mas com a possibilidade de ser aumentada para 1.400 MW. Apesar de ser a melhor comparação disponível, estaria longe do que o projeto Antípodas pretende alcançar, com um cabo mais de 20 vezes mais longo e uma capacidade de transmissão de gigawatts em vez de megawatts.

Enquanto isso, no hemisfério sul, planeja-se um cabo de 4.200 km entre Austrália e Cingapura para operar a partir de 2027. Porém, mais uma vez, o Australia-Asia Power Link seria menos de um quarto do comprimento das Antípodas. Ambos os países já compartilham um cabo de comunicação submarino de 4.600 km, mas a transmissão de energia representa um desafio diferente.

“Esta pode ser uma ideia interessante a longo prazo, mas estamos muito longe da tecnologia necessária para realizá-la”, diz Claudio Huepe, diretor do Centro de Energia e Desenvolvimento Sustentável da Universidade Diego Portales.

Desafios do cabo chileno

O primeiro grande desafio é, talvez sem surpresas, o comprimento do cabo que seria necessário e seu custo de aquisição. Hoje, um quilômetro de linha de transmissão de corrente contínua de alta tensão (HVDC) custa entre US$ 1 milhão e US$ 3 milhões. Isso tem que ser multiplicado por em torno de 15 mil e 20 mil, diz Huepe.

Como exemplo, a empresa britânica Xlinks planeja construir 10,5 GW de capacidade de geração de energia eólica e solar no Marrocos, para exportar energia para o Reino Unido através de um cabo submarino de 3.800 km. O projeto inteiro custaria mais de US$ 24 bilhões.

Do Atacama para a Ásia


O projeto Antípodas pretende produzir entre 200 e 600 gigawatts (GW) de energia no Deserto do Atacama e transportá-la pelo novo cabo submarino para países asiáticos.

Outro fator crucial é a segurança. Não apenas porque o cabo terá dezenas de milhares de quilômetros de comprimento, mas também porque estará nas profundezas do Oceano Pacífico. Como seria mantido?

“A questão aqui é: mesmo que o cabo fosse mais barato, seria realmente justificado instalá-lo?”, comenta Álvaro Lorca, professor de engenharia da Universidade Católica do Chile. Ele assinala que, como seria muito longo, o cabo teria perdas consideráveis de energia. Um cabo em terra perde até 5% do que é transmitido, mas Antípodas, diz Lorca, poderia perder mais de 10% durante a transmissão.

Mas, além disso, ainda existe o problema da geração de energia em si. Antípodas supostamente transmitiria entre 200 GW e 600 GW — em outras palavras, até 20 vezes a energia que o Chile gera hoje.

Dados da Generadoras de Chile, associação de geradores de energia, mostram que, entre junho de 2020 e junho de 2021, a nação adicionou 1.900 MW de energia solar fotovoltaica à capacidade solar instalada do país, aumentando-a para 4.936 MW. Com isto, a participação da energia solar no sistema nacional aumentou de 11,9% para 17,6%.

Enquanto isso, a geração de energia eólica no último ano cresceu em 538 MW de capacidade instalada, atingindo um total de 2.602 MW, de acordo com dados do Coordenador Nacional de Eletricidade do Chile. Ambas as fontes de energia são parte da estratégia chilena para alcançar a neutralidade de carbono até 2050.

Os números ainda estão longe de atingir a produção proposta para o projeto Antípodas, mas novos projetos continuam a surgir no Chile. “Houve uma grande revolução com os painéis solares, e estamos começando a incorporar o tipo solar concentrado [que usa espelhos para intensificar a radiação] em nossa geração, enquanto também temos planos com o hidrogênio verde”, diz Lorca. “Antípodas vai depender de como tudo isso evoluir”.

Não faz sentido falar sobre interconexão com um cabo de 20 mil quilômetros quando nem mesmo estamos interconectados com nossos vizinhos

Ainda assim, para planejar um projeto desta escala, é preciso ter certeza da tecnologia — e da demanda. “Tanto do lado da produção quanto do lado da demanda [na Ásia], devem ser feitos grandes investimentos”, diz Claudio Huepe.

Mas também, acrescenta Álvaro Lorca, o cabo tem que funcionar em ambas as direções. O objetivo por trás do projeto — que alimenta expectativas de fazer contribuições importantes para a redução das emissões de CO2 — é que ele seria complementar às fontes de energia limpa da Ásia, no caso da energia à noite. Mas a ideia seria também que os países asiáticos transmitissem energia limpa de volta quando escurecesse no Chile.

“O problema é que a demanda em nosso país é muito pequena”, diz o especialista, acrescentando que faria mais sentido planejar uma interconexão prévia entre os países sul-americanos. Isto poderia até se tornar uma etapa anterior para testar a tecnologia.

Claudia Rahmann argumenta que falar sobre interconexão é muito importante, especialmente no contexto do futuro energético mundial, mas “não faz sentido falar sobre interconexão com um cabo de 20 mil quilômetros quando nem mesmo estamos interconectados com nossos vizinhos”. Argentina, Bolívia, Brasil e outros poderiam formar, juntamente com o Chile, uma grande rede para aproveitar o máximo potencial solar do país.

“A exportação de energia para outro continente não está entre as prioridades”, acrescenta Rahmann.

Álvaro Lorca diz ainda que, embora Antípodas não seja viável hoje, isto não significa, necessariamente, que não o será no futuro — um futuro distante. Claudio Huepe concorda e lembra que, no sul do Chile, já foi estudada a viabilidade de um cabo submarino paralelo à costa, mas que foi descartado devido à sua complexidade e custo.