Justiça Os direitos das mulheres no direito ambiental, de 1972 até hoje Progressos importantes foram feitos, mas agora é o momento de colocar os direitos das mulheres no centro do direito ambiental transnacional Português Português Español 中文 English Compartilhar a matéria × Copy link to page Copy link to page × Republicar esta matéria Você pode republicar os textos do Dialogue Earth sob a licença Creative Commons. Por favor, confira nossa política de republicação. (Ilustração: Herlinde Demaerel / China Dialogue) Claudia Ituarte-Lima Janeiro 17, 2022Julho 25, 2023 A Conferência de Estocolmo de 1972 lançou as sementes para o desenvolvimento da legislação ambiental transnacional, com Estados nacionais negociando compromissos para um ambiente saudável e introduzindo novos conceitos como o “ecocídio“. A Declaração de Estocolmo é frequentemente referida como uma Carta Magna para a proteção ambiental, mas embora possa ter sido progressista e inovadora na época, não fez nenhuma menção explícita a mulheres, meninas ou gênero. Ao invés disso, mulheres e meninas foram incluídas na categoria de “homem”, como mostrado no Princípio 1 da Declaração de Estocolmo: O homem tem o direito fundamental à liberdade, à igualdade e ao desfrute de condições de vida adequadas, em um meio ambiente de qualidade tal que lhe permita uma vida digna, gozar de bem-estar, e é portador solene de obrigação de proteger e melhorar o ambiente, para as gerações presentes e futuras (ênfase da autora). As mulheres certamente tiveram um papel importante na elaboração da declaração: a única chefe de governo presente na Conferência de Estocolmo, além do primeiro-ministro sueco Olof Palme, foi Indira Gandhi. Ela proferiu um poderoso discurso em nome dos países em desenvolvimento. Além disso, a conferência preparou o caminho para a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, também conhecida como Rio-92, e para a Declaração do Rio, que foi o primeiro instrumento ambiental internacional a reconhecer explicitamente a dupla realidade das mulheres como especialmente vulneráveis à degradação ambiental e como agentes de mudança, como fica explícito no Princípio 20 da declaração: “As mulheres desempenham um papel fundamental na proteção do meio ambiente e no desenvolvimento. É imprescindível contar com sua plena participação para conseguir o desenvolvimento sustentável”. Das três convenções das Nações Unidas adotadas na Rio-92, duas delas — a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) e a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD) — fazem referência explícita à necessidade da plena participação das mulheres. (Ilustração: Herlinde Demaerel / China Dialogue) As mulheres do Sul Global desempenharam um papel importante nessa agenda. A Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher, adotada em 1979, foi encabeçada inicialmente pela senadora filipina Letitia Ramos-Shahani e foi o resultado de mais de 30 anos de trabalho da Comissão da ONU sobre a Situação das Mulheres. Esta convenção reconhece o papel significativo que as mulheres do meio rural desempenham na sobrevivência econômica de suas famílias (Artigo 14) e que estas atividades se baseiam, em grande parte, em ecossistemas. Seis anos depois, a Conferência Mundial sobre a Mulher realizada em em Nairóbi em 1985 foi um dos primeiros fóruns internacionais a enfatizar a importância da igualdade de gênero e da participação da mulher para o desenvolvimento sustentável. Alguns anos depois, em 1992, a China organizou um workshop inter-regional da ONU sobre o papel da mulher no desenvolvimento ambientalmente correto e sustentável. O relatório desse evento diz: A fim de tornar o planeta Terra verde, pacífico e próspero, as mulheres da China estão preparadas para trabalhar em conjunto com as mulheres do mundo, independentemente de qual sistema social elas sejam, de suas origens étnicas, religião e credo, para o interesse comum da humanidade e seu futuro. As integrantes do workshop foram encorajadas a participar da IV Conferência Mundial sobre a Mulher realizada em Beijing em 1995, que recebeu mais de 17.000 representantes de 189 governos e mais 30.000 participantes em um fórum de discussão paralelo. O resultado da conferência, conhecido como a Plataforma de Ação de Beijing, fez menção específica à necessidade de participação ativa das mulheres na tomada de decisões em assuntos relacionados ao meio ambiente em todos os níveis, e incorporação das questões de gênero nas políticas e programas para o desenvolvimento sustentável. (Ilustração: Herlinde Demaerel / China Dialogue) Semelhante aos efeitos da Conferência de Estocolmo no direito ambiental transnacional, o legado da Conferência Mundial sobre a Mulher de Beijing foi mantido com novas revisões e compromissos adicionais. A Declaração Beijing+25 de 2020 expressa o compromisso dos Estados de intensificar os esforços para integrar uma perspectiva de gênero nas políticas ambientais, de mudança climática e de redução de riscos de desastres, considerando não apenas a vulnerabilidade experimentada por mulheres e meninas, mas também a importância da liderança das mulheres na tomada de decisões ambientais. As negociações para o Marco Global para a Biodiversidade Pós-2020 da CDB e seu plano de ação de gênero, que começou na primeira fase da COP15 em Kunming, China, e deve continuar na segunda fase a ser realizada em abril de 2022, pode oferecer mais uma oportunidade para promover os direitos da mulheres. A CDB refere-se ao papel vital que as mulheres desempenham na conservação e no uso sustentável da diversidade biológica, e à necessidade de sua plena participação em todos os níveis da formulação e implementação de políticas de biodiversidade. O primeiro plano de ação de gênero sob uma convenção ambiental foi o Plano de Ação sobre Gênero 2015-2020 da CDB, que aconselhou que os compromissos de cada país — conhecidos como Estratégia e Plano de Ação Nacionais para a Biodiversidade (NBSAP, em inglês) — deveriam incluir atividades específicas para combater as desigualdades de gênero e a alocação de financiamento adequado para os esforços de integração das questões de gênero. O grau em que as mulheres podem exercer a participação pública e realizar seu direito a um ambiente saudável e outros direitos relacionados dependerá fortemente de como a participação pública é interpretada e aplicada. A Convenção de Aarhus e o Acordo de Escazú, por exemplo, geram obrigações legais para suas partes e fornecem orientação estratégica. Em outubro de 2021, o Conselho de Direitos Humanos da ONU reconheceu pela primeira vez o direito a um meio ambiente saudável. Muitas mulheres estavam entre as defensoras desta resolução, incluindo a embaixadora da Costa Rica, Catalina Devandas — parte do grupo central de países que a propõem. A resolução também reconhece que a participação pública é vital para a proteção de um ambiente limpo, saudável e sustentável. (Ilustração: Herlinde Demaerel / China Dialogue) Embora ainda haja um longo caminho a percorrer para alcançar a igualdade de gênero na prática, passos importantes foram dados para reconhecer o papel fundamental da participação das mulheres na legislação ambiental transnacional efetiva — uma questão ausente da Conferência de Estocolmo de 1972. Colher efetivamente as sementes plantadas em Estocolmo e colocar os direitos das mulheres no centro do direito ambiental transnacional será vital para enfrentar de frente a tripla crise de mudança climática, perda de biodiversidade e poluição. Isso associado à igualdade de gênero, ao reconhecimento universal do direito a um ambiente saudável e à inclusão do ecocídio como um crime contra a humanidade pode gerar ações transformadoras. Estocolmo+50 oferece uma oportunidade histórica para dizer que essas ideias chegaram para ficar. A autora gostaria de agradecer ao Dr. Sam Geall do China Dialogue e ao professor Tang Yingxia da Faculdade de Direito da Universidade Nankai pelos valiosos comentários feitos na versão inicial deste artigo. Continue lendo Reportagem Carvão As principais notícias ambientais da América Latina em 2021 Reportagem Negociações A lista de tarefas climáticas da América Latina após a COP26 Reportagem Finanças 'A conversa sobre financiamento verde mudou', diz diretora na WWF Reportagem Carne Carnes vegetais e artificiais ganham novos adeptos na Argentina Reportagem Biodiversidade Fundo de Kunming: o que esperar do investimento para biodiversidade Reportagem Clima extremo Ondas de calor e seca atingem agricultura e depreciam economia da América do Sul Reportagem Conflito O que esperar da China, da América Latina e do meio ambiente em 2022 Reportagem Combustíveis fósseis Gás natural: faca de dois gumes na transição energética da América Latina