O Chile planeja recuperar valiosos minerais escondidos em suas pilhas de resíduos de mineração, levantando dúvidas sobre os impactos socioambientais de uma nova fase exploratória em áreas ultrassensíveis.
Os rejeitos são misturas de rocha triturada e água resultantes da extração de minérios, formando enormes pilhas de cascalho. Atualmente, há 836 depósitos do tipo no Chile, concentrados principalmente em desertos como o Atacama, onde vastas reservas de cobre levaram o país a se tornar o maior exportador global do metal.
Muitas comunidades vivem próximas a esses depósitos, que, nos últimos anos, ganharam valor comercial. Isso porque eles podem estar repletos de cobalto, terras raras e outros minerais críticos para a transição energética, a produção de veículos elétricos e as tecnologias de energias renováveis. Uma análise de um depósito de 1,7 milhão de toneladas na Espanha no ano passado, por exemplo, estimou que o local poderia render 168 toneladas de terras raras.
Isso trouxe esperanças de reincorporar resíduos ao ciclo de produção. Por outro lado, ambientalistas argumentam que essa reciclagem poderia aumentar a poluição na região e afetar o abastecimento de água.
Luis Cisternas, professor da Universidade de Antofagasta, afirmou que o reprocessamento de resíduos requer grandes volumes de energia e água, sendo esta última particularmente escassa no árido deserto chileno. “O principal desafio será, de fato, o grande consumo de água”, disse Cisternas, que também é pesquisador do Centro de Tecnologia Mineira Avançada (AMTC, na sigla em inglês). Se não administrada adequadamente, acrescentou, essa demanda poderia competir com as necessidades hídricas de comunidades e ecossistemas frágeis.
‘Ouro oculto’ nos resíduos de mineração
No ano passado, o Centro de Pesquisa Técnica da Finlândia publicou um estudo sobre diversas fontes secundárias de elementos de terras raras, como resíduos de bauxita e de eletrônicos reciclados. A análise considerou que os rejeitos de mineração apresentam o maior potencial para o reaproveitamento desses materiais.
Atualmente, a China domina tanto a mineração quanto o processamento de terras raras no mundo, respondendo por cerca de 60% da produção e quase 90% da capacidade de processamento. Além das tecnologias de transição energética e dos veículos elétricos, os minerais críticos são cruciais para o desenvolvimento de equipamentos militares. Uma coalizão de governos liderada pelos Estados Unidos e pela Europa tomou medidas para diversificar as cadeias de abastecimento de minerais críticos, reconhecendo a importância estratégica de países como o Chile.
As terras raras reúnem 17 metais com propriedades químicas e físicas semelhantes e incomuns, essenciais para várias tecnologias modernas. Suas reservas globais estão estimadas em 110 milhões de toneladas, segundo o Serviço Geológico dos EUA.
Elementos como gadolínio são usados em reatores nucleares, enquanto o escândio, em células de combustível de veículos. Parte das terras raras integra os chamados minerais críticos para a transição energética, com insumos como o lítio, essencial para baterias de veículos elétricos, e o níquel, usado na produção de aço inoxidável.
Humberto Estay Cuenca, diretor do AMTC, afirmou que existe uma oportunidade única para o Chile de consolidar sua posição como fornecedor de minerais, “desde que isso seja combinado com uma estratégia de valorização e soluções socioambientais”. Ao mesmo tempo, ele observou que as “baixas concentrações” de minerais críticos nos depósitos podem representar um desafio de viabilidade econômica.
Mesmo assim, o Serviço Nacional de Geologia e Mineração do Chile (Sernageomin) está investindo recursos nos depósitos: em outubro, lançou o Observatório Nacional de Riscos Geológicos, Mineração e Meio Ambiente. “Queremos estabelecer um sistema de monitoramento que nos permita, como Estado, ter controle operacional ou uma visão do que está acontecendo em cada mina”, explicou a geógrafa Silvia Arce, diretora técnica do projeto.
Em Tierra Amarilla, comunidade mineradora na região de Atacama, foram realizados testes para fabricar tijolos a partir de rejeitos. Já na Minera Valle Central, na região central do Chile, mangueiras de alta pressão estão sendo usadas para converter os depósitos novamente em lama, permitindo a recuperação de minerais. Entre eles, estão o cobre e o molibdênio (utilizado em ligas de aço).
“Isso é então reprocessado e vendido ao mercado”, explicou Cristóbal Carrasco, engenheiro do Sernageomin. De acordo com ele, esse método hidráulico reduz os riscos aos trabalhadores, evitando o contato direto com pilhas instáveis de resíduos.
Cada depósito de rejeitos tem uma mineralogia específica. Isso significa que não existe uma solução única para todos os casosLuis Cisternas, professor da Universidade de Antofagasta
Implementar essa técnica, porém, é um “grande desafio”, segundo Cisternas. “Cada depósito de rejeitos tem uma mineralogia específica. Isso significa que não existe uma solução única para todos os casos”.
O pesquisador alertou que o processo deve ser extremamente rigoroso para controlar e conter possíveis problemas de poluição química. “Às vezes, os elementos de terras raras são acompanhados por isótopos radioativos que poderiam ser liberados no meio ambiente, caso a retomada de operações não seja respaldada por estudos específicos”.
Barreiras regulatórias
A legislação chilena está sendo adaptada para esse novo mercado. Atualmente, o Congresso do país discute alterações legais para as etapas de planejamento, construção e operação de projetos de reaproveitamento de rejeitos. As novas normas buscam promover o reprocessamento, a reutilização e a realocação de rejeitos, além de dar ao Sernageomin mais ferramentas de fiscalização e gestão.
“A ideia é dar a qualquer pessoa física ou jurídica a oportunidade de intervir em um depósito de rejeitos, salvaguardando sua estabilidade física e química”, explicou Carrasco.
Atualmente, a exploração de uma pilha de rejeitos exige praticamente as mesmas licenças exigidas para abrir uma nova mina. Por isso, o projeto de reforma legal busca introduzir o conceito de “depósitos de extração”, diferenciando a recuperação de minerais e o simples acúmulo de resíduos da atividade. Isso permitiria agilizar os processos de licenciamento, reduzindo custos burocráticos e facilitando o investimento por parte de empresários locais.
Até agora, segundo Carrasco, muitas iniciativas seguem travadas por um demorado processo administrativo.
Ameaça dos rejeitos da mineração
A preocupação com essas montanhas de resíduos minerais no país não é à toa: em 2024, o rompimento de uma barragem de rejeitos da mina Las Cenizas, na região de Valparaíso, provocou um vazamento que contaminou cursos d’água próximos. O material sólido fluiu pelas ruas das cidades vizinhas, danificando casas e outras construções. Las Cenizas foi multada pela autoridade ambiental chilena em 2025.
Dos 836 depósitos de rejeitos do Chile, cerca de 80% estão inativos ou abandonados. Com sua nova política de rejeitos, o Ministério de Mineração está tentando identificar os proprietários de cada um.
Muitos desses locais pertencem a empresas inativas ou que deixaram de existir – e, em alguns casos, seus proprietários desapareceram ou faleceram, deixando o Estado responsável pela gestão dos riscos. Essa situação também limita a capacidade do governo de agir para proteger os depósitos e minimizar esses riscos, como danos físicos causados por terremotos ou a contaminação química das águas subterrâneas.
O setor privado também deve ajudar a garantir a segurança das operações nas barragens de rejeitos. Mario Escobar, especialista em ferramentas digitais na empresa Blue Mining do Chile, argumentou que, com os sucessivos recordes no preço do cobre, o investimento em segurança é imprescindível. Porém, ele também afirmou que o principal desafio da região é seu “problema de acesso” – a combinação de altos custos de implementação e infraestrutura tecnológica insuficiente, impedindo a abertura de empresas de rejeitos de pequeno e médio porte.
Por enquanto, algumas empresas de tecnologia desenvolveram ferramentas que utilizam algoritmos de inteligência artificial para monitorar a estabilidade dos rejeitos. Isso permite, por exemplo, prever possíveis falhas em caso de terremotos ou chuvas torrenciais.
O monitoramento digital é complementado por imagens de satélite, que podem detectar mudanças mínimas nos níveis de umidade ou deformações em rejeitos abandonados. Isso é útil para áreas remotas que os inspetores humanos muitas vezes não conseguem alcançar.
Preocupações ambientais
Para as comunidades próximas a rejeitos, a possibilidade de uma falha – combinada com a possibilidade de exploração – pode alimentar um sentimento constante de vulnerabilidade.
Michael Lieberherr, pesquisador da organização chilena Ecosistemas, alertou que depósitos de rejeitos saturados transformaram algumas áreas em “zonas de sacrifício” ambientais: “O medo não é apenas do colapso, mas da presença contínua de metais pesados no ecossistema”.
O Dialogue Earth também conversou com Manuel Cortés, presidente da Chadenatur. O grupo ambientalista busca proteger a cidade costeira de Chañaral, no norte do país, que vem sofrendo com décadas de poluição causada pela mineração. Para Cortés, o crescente interesse no mercado de rejeitos deve ser visto com cautela: “Geralmente, o principal objetivo é explorar os minerais nos quais as empresas estão interessadas”.
Para muitos moradores, há o receio de que quaisquer promessas de recuperação ambiental sejam usadas como uma mera desculpa para reabrir antigos depósitos, sem que os possíveis impactos à saúde sejam realmente mitigados. Além de liberarem substâncias nocivas para o meio ambiente, os rejeitos de mineração têm sido associados a uma maior incidência de doenças respiratórias.
Um estudo publicado pela revista Minerals em 2024 alertou que o reprocessamento de rejeitos poderia levar a um aumento na demanda de água. A pesquisa também destacou a possível liberação de substâncias tóxicas, o que poderia gerar “consequências ambientais negativas”. Os pesquisadores recomendaram o aprimoramento dessas tecnologias, com foco em métodos ambientalmente corretos.
Além disso, há preocupações com a viabilidade financeira dessas iniciativas: uma análise publicada no ano passado sobre um estudo de caso de um depósito de rejeitos na Espanha sugere que o valor das terras raras não compensa os custos de extração.
A mineração circular promete transformar montanhas de resíduos em uma nova fonte de recursos estratégicos. Porém, cientistas e ambientalistas temem que esse mercado repita as velhas práticas e os danos que marcam a história da mineração no Chile.
