Os países do Sul Global chegaram à 30ª conferência climática das Nações Unidas, a COP30, com a esperança de ter mais influência na agenda climática.
O Panamá é um dos países que tenta assumir um papel mais ativo nas negociações. Além de atualizar suas metas climáticas nacionais, o governo lançou o Pacto com a Natureza — um marco mais amplo, que integra metas de clima, biodiversidade, uso da terra, poluição de plástico e proteção dos oceanos. O país também assumiu este ano e segue até 2027 na presidência do Fórum de Ministros do Meio Ambiente da América Latina e do Caribe.
Juan Carlos Monterrey é o representante especial do Panamá para as mudanças climáticas. Ele foi nomeado pela revista Time como um dos ativistas climáticos mais influentes de 2025. Em entrevista ao Dialogue Earth na COP30 em Belém, Monterrey ressaltou a necessidade de uma posição latino-americana mais coesa e defendeu mudanças no processo de tomada de decisões das negociações climáticas da ONU.
Dialogue Earth: A América Latina sedia uma COP do clima pela primeira vez em mais de uma década. Isso pode marcar um ponto de virada para a visibilidade e a influência da região nas negociações internacionais?
Juan Carlos Monterrey: A COP30 é de grande importância para a região e para o mundo. Ela marca dez anos da assinatura do Acordo de Paris e foi chamada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva de “a COP da verdade”. Então, vamos falar algumas verdades.
Primeiro, falhamos na meta da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que tinha o objetivo de estabilizar as emissões de gases de efeito estufa para evitar impactos nocivos à vida na Terra. Após 30 anos de negociações, as emissões continuam aumentando. Urge uma mudança de rumo.
Segundo ponto: enquanto as comunidades costeiras são engolidas pelo aumento do nível do mar, os governos estão se afogando em burocracia, com relatórios, documentos e discursos que poucas pessoas leem.
Terceiro: falta dinheiro para todas as ações climáticas, e os fundos existentes são de difícil acesso. Há vários mecanismos, mas cada um tem seus próprios padrões e processos. Queremos enviar uma mensagem clara: os fundos de financiamento climático devem ter uma autoridade unificada.
Que tipo de alianças regionais ou posições conjuntas estão surgindo entre os países da América Latina e do Caribe na COP30?
Sempre há convergências em temas como adaptação, resiliência, perdas e danos, financiamento ou gestão de resíduos. Mas, nos espaços de negociação, a gente fica fragmentado. O Panamá assumiu este ano a presidência do Fórum de Ministros do Meio Ambiente da América Latina e do Caribe, e um dos nossos objetivos é garantir que a região leve ao menos uma proposta comum às negociações e a sustente até o fim — como faz a África com sua posição unificada. Talvez não consigamos isso na COP30, mas estamos avançando nessa direção.
A América Latina e o Caribe formam a “classe média” do mundo: são países altamente vulneráveis, mas muitos já não aparecem nas listas internacionais de cooperação [que garantem concessões destinadas às nações mais pobres, como ajuda financeira e assistência técnica].
Se existe um momento para nos unirmos, é agora, quando o contexto econômico global faz parecer que precisamos de menos apoio, justamente quando mais precisamos dele.
O multilateralismo está passando por um período tenso, com conflitos, antagonismos e governos mais céticos em relação às ações climáticas. Como negociar a agenda climática em um mundo cada vez mais fragmentado?
É um momento difícil. As decisões nas conferências climáticas dependem de consenso. Acreditamos que o consenso limita a ambição; não podemos esperar que um mecanismo projetado há décadas responda às necessidades atuais. Precisamos de reformas profundas nos relatórios que os países devem apresentar, no acesso ao financiamento e no próprio sistema de tomada de decisões.
A presidência brasileira convocou ex-presidentes da COP para discutir reformas nesse processo. Como você vê o futuro das negociações climáticas?
Precisamos reformar o processo de tomada de decisão. Caso contrário, não avançaremos. As reformas devem incluir todo o sistema da ONU: hoje não há dinheiro suficiente, há funções duplicadas e burocracia excessiva.
O clima político mostra que há consenso sobre a necessidade de maior eficiência e reforma do sistema multilateral, tanto entre aqueles que acreditam nele quanto entre aqueles que o questionam. É hora de repensar o sistema global.
O consenso limita a ambição; esse mecanismo projetado há décadas não responde às necessidades atuais
O novo plano climático do Panamá é mais ambicioso, abrange mais setores e visa a neutralidade de carbono até 2035. Como será a implementação?
O objetivo é reduzir nossas emissões em 11%. Hoje somos um país carbono negativo, que captura mais emissões do que gera. Mas precisamos de apoio internacional: até agora, temos feito isso com recursos nacionais, prestando um serviço ao mundo.
Na COP30, também apresentamos o Pacto com a Natureza, primeiro instrumento político global que integra clima, biodiversidade, desertificação, plásticos e oceanos. Ele resume em um único documento o que antes estava distribuído em cinco.
Além disso, vamos propor na Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente [UNEA-7, em dezembro] que a organização adote um modelo que permita aos países monitorar e divulgar seus avanços de forma comparável nas convenções de biodiversidade, desertificação e clima. Queremos unificá-las — isso levará tempo, mas começamos com uma abordagem de baixo para cima, com os países à frente. Não podemos tratar essas questões separadamente.
A COP30 deve finalizar o marco e os indicadores que vão orientar a Meta Global de Adaptação, um tema historicamente negligenciado nas negociações. Qual é a importância de chegar a esse resultado?
É fundamental que a Meta Global de Adaptação venha acompanhada de indicadores, e isso deve ser uma das conquistas da COP30. Durante décadas, argumentou-se que medir a adaptação era difícil, mas hoje a ciência, a tecnologia e a inteligência artificial oferecem ferramentas para isso.
Alguns desses indicadores ainda estão em debate e serão negociados nos próximos dias. O Panamá já possui indicadores nacionais, que têm sido úteis nesse processo. Mas medir avanços terá pouca utilidade sem financiamento adequado. Em Glasgow [na COP26], os países prometeram os fundos de adaptação; agora é preciso definir quanto mais será necessário. Essa discussão está em curso entre os países em desenvolvimento no âmbito do G77.
O papel dos combustíveis fósseis ainda é motivo de conflito, até mesmo para o Brasil. Como esse debate está sendo conduzido na COP30 e dentro da própria América Latina?
Recentemente estive na Arábia Saudita para negociações sobre desertificação, e isso me ajudou a compreender o ponto de vista deles. Se você vive em um país que precisa trazer água potável de milhares de quilômetros e cuja principal fonte de renda é o petróleo, é natural que proteja sua economia petrolífera. Precisamos de mais espaços de diálogo para entender essas realidades; não posso pedir ao Brasil que deixe de produzir petróleo enquanto ainda enfrenta altos níveis de pobreza.
Sem sinais claros de que estamos todos avançando juntos, nenhum país tomará decisões unilaterais, porque o sistema financeiro global não os incentiva. Os combustíveis fósseis causam essa crise e a aceleram. Precisamos eliminá-los gradualmente, mas com justiça e cooperação.
O que dá mais esperança e o que mais preocupa no rumo das ações climáticas globais?
O que me motiva são as inovações do setor privado e a determinação dos jovens. Eles são o coração desse movimento, e a delegação do Panamá é uma das mais jovens do mundo. Comecei há uma década, com 23 anos, e hoje temos negociadores com 17 anos na agenda de biodiversidade. Queremos seguir abrindo espaços.
Estou preocupado com a influência das empresas petrolíferas e das indústrias extrativas. Em alguns lugares, estamos vendo retrocessos, mas entendo que isso é como um pêndulo: ele vai e volta. O importante é dar o impulso para que ele suba novamente com força.
Esta entrevista foi levemente editada para fins de clareza e concisão.


