Florestas

Como a agroindústria ilhou o Xingu, mais antiga reserva indígena do Brasil

Fronteira agrícola avança na bacia do Xingu, que acumula maiores taxas de desmatamento da Amazônia, enquanto abriga 16 etnias indígenas
<p>Povos do Xingu relatam que as atividades agrícolas perto do território indígena têm impactado os peixes do rio (imagem: Alamy)</p>

Povos do Xingu relatam que as atividades agrícolas perto do território indígena têm impactado os peixes do rio (imagem: Alamy)

Watatakalu Yawalapiti tem 40 anos. Nasceu na aldeia Amakapuku, que é abraçada por uma extensa floresta preservada no coração do Brasil. Passou boa parte da infância nas areias brancas e águas límpidas do rio Tuatuari. Na outra parte, ficava sentada em roda ouvindo o bisavô contar histórias, como a de que o homem branco chegaria com uma lâmina enorme e cortaria os troncos das árvores como se raspam os pelos do corpo.

“Todo mundo ria porque ninguém pensava que isso fosse verdade”, diz ao telefone para logo em seguida resgatar na memória uma cantiga na língua yawalapiti que o bisavô cantava para narrar a lenda.

Yawalapiti, hoje uma liderança indígena local, cresceu protegida pelas fronteiras do território indígena do Xingu (TIX), entre os estados de Mato Grosso e Pará. O Xingu foi a primeira reserva indígena demarcada pelo governo brasileiro, instituída há 60 anos para preservar a biodiversidade e as 16 etnias que ali habitam.

mapa mostrando o território do Xingu

Dentro de uma área maior que Israel, Yawalapiti viveu a calmaria da passagem do tempo marcada pelas estações chuvosa e seca. Já do lado de fora, o tempo corria mais depressa. Cada vez que cruzava os 290 quilômetros da aldeia à cidade mais próxima, de Canarana, a floresta encurtava e a lavoura crescia. A fábula do bisavô ia ganhando contornos reais.

Nos últimos 20 anos, a região ao redor da terra de Yawalapiti se transformou em um polo produtor de soja, milho, algodão e carne, conectado por rodovias e ferrovias. O entorno do Xingu concentra, hoje, 10% das exportações de soja no Brasil.

Enquanto a fronteira agrícola avança pela bacia do Xingu, as exportações seguem batendo recordes. Ao mesmo tempo, ali é onde se acumula o maior desmatamento da Amazônia.

O presidente brasileiro Jair Bolsonaro apóia a abertura da floresta à mineração e à agricultura, provocando protestos de aldeias do Xingu, que se sentem ameaçadas.

Xingu, um caminhão de soja

Ao todo, 13 municípios no entorno do Xingu, incluindo Canarana, exportaram 8,7 milhões de toneladas de grãos em 2020, mais da metade para a China, segundo dados do comércio exterior (Comex).

Os mesmos municípios também exportaram 8,5 milhões de toneladas de milho – que tem sua cultura intercalada com a soja – o que representa um quarto dos embarques do ano passado.

“No lado leste, onde está Querência, e sul, com Canarana, existe uma consolidação avançada do agronegócio, com grupos multinacionais e seus imensos silos investindo pesadíssimo”, explica Ivã Bocchini, do Programa Xingu, do Instituto Socioambiental.

Multinacionais como as americanas Bunge e Cargill, a chinesa Cofco e a brasileira Amaggi têm forte atuação na região, segundo dados da plataforma Trase, que rastreia o risco de desmatamento em cadeias de suprimento.

Como restam poucas áreas desocupadas, as fazendas e reservas se dispõem lado a lado. São como bordas de dois mundos que se tocam sem se cruzarem. Mas as consequências do acúmulo de desmatamento e da monocultura ultrapassam fronteiras.

Watatakalu Yawalapiti diz que seu povo, que divide a reserva com outras 15 etnias, percebeu o clima mudar. O sol ficou mais quente, o período seco mais longo, o rio mais raso e turvo, o peixe mais escasso. Viveram anos de fome e viram poços artesianos surgirem: “A gente não bebe mais água de rio, não é mais limpa”.

Outros distúrbios vêm do aumento da população de porcos do mato, que se alimentam de milho e soja das plantações e invadem as roças de pequenos agricultores e indígenas.

Expansão da soja chega cada vez mais perto do território indígena do Xingu
Expansão da soja chega cada vez mais perto do território indígena do Xingu

Estudos confirmam o que os Yawalapiti experienciam. Eles mostram que as chuvas são mais fracas nos municípios que rodeiam o território do Xingu por onde o desmatamento avança. Com menos chuvas, a seca é mais intensa, e as queimadas, mais frequentes.

A construção de milhares de barragens e reservatórios para a pecuária, agricultura e geração elétrica também altera o fluxo dos cursos d’água da bacia do Xingu. A barragem da hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira, ameaça a própria sobrevivência do rio Xingu.

Essa bacia nasce do Cerrado, no Mato Grosso, e se expande por 531 mil km2 em direção à Amazônia, no Pará. Mais da metade dela está abrigada pelas áreas de preservação, mas as cabeceiras dos rios ficam sujeitas ao desmatamento e aos agrotóxicos.

“O agrotóxico é a pior ameaça, porque ela é silenciosa, e o TIX é como um ralo para onde escorrem os rios”, exemplifica Bocchini, que assessora organizações indígenas do Xingu.

Em uma década, a área plantada de grãos ao redor do território do Xingu cresceu 135%, e o uso de agrotóxicos, 130%. Mais recentemente, o algodão, grande consumidor de agrotóxicos, começou a despontar. Municípios do Xingu mais do que dobraram a exportação de algodão na última década, fechando 2020 com 31 mil toneladas exportadas, mostra o Comex. O principal importador é a China.

Três irmãos e sua campanha para proteger o Xingu

As transformações da paisagem na bacia do Xingu seguem o rastro da interiorização patrocinada pelo governo Getúlio Vargas. A partir de 1943, a expedição Roncador-Xingu deixou Leopoldina, em Minas Gerais, e seguiu a noroeste, cortando o Brasil Central.

A expedição, composta em sua maioria por garimpeiros “sem lei”, abriu 1.500 quilômetros de rotas e ergueu campos de pouso e bases militares. Cidades foram surgindo nesse trajeto.

Mas, por um acaso, a expedição não serviu apenas para preencher os brancos da cartografia brasileira. Por falta de financiamento, ela estagnou no Alto Xingu, no Mato Grosso, onde os líderes, os irmãos Villas Bôas, estabeleceram contato com povos indígenas.

“O objetivo da nossa expedição não tinha nada a ver com índio, ele foi um acidente na marca da expedição”, contou Orlando, o irmão mais velho, numa entrevista em 2000.

Orlando, Cláudio e Leonardo eram jovens “pequenos-burgueses paulistas”, como escreveu o antropólogo Darcy Ribeiro, que deixaram suas “vidinhas burocráticas medíocres” em busca de aventura após a morte dos pais, segundo descreve o livro “A Marcha Para o Oeste”. Encontraram uma causa.

A soja está entrando muito rápido, e esse pessoal, se puder, não deixa nem uma árvore de pé

O risco de o modelo agroindustrial se sobrepor ao modo de vida indígena já existia na época, e os irmãos Villas Bôas se aliaram a lideranças locais, como Paru Yawalapiti, avô de Watatakalu, numa campanha de quase uma década pela demarcação da reserva.

“Meu avô fez parte da expedição junto com os Villas Bôas, meu pai aprendeu a ler com a irmã deles, Maria de Lourdes”, lembra Watatakalu.

Uma oferta para colonizar a floresta

Com um novo impulso do governo para colonizar o Brasil Central nos anos 1970, o desmatamento em larga escala começou a contornar os territórios do Xingu. A partir dos anos 2000, a demanda internacional por commodities injetou mais ânimo à atividade.

Após pressões pela conservação da Amazônia, medidas incluindo multas ambientais, suspensão do crédito agrícola e pactos com empresas do setor contiveram o desmatamento na última década. Mas uma recente onda de destruição voltou a preocupar.

Extração madeireira, pecuária e sojicultura influenciam direta ou indiretamente na expansão da fronteira agrícola da Amazônia. Na região da bacia do Xingu, isso fica claro: se a soja já está consolidada ao sul, a madeira e a pecuária estão ativas do meio para o norte da bacia.

40%


da carne bovina vinda da região do Xingu foi exportada para a China em 2020

Dados do Comex mostram que 18 municípios da região do Xingu exportaram 18,3 mil toneladas de madeira em 2020, principalmente os paraenses. Também foram exportadas 14,8 mil toneladas de carne bovina – 40% para a China.

Encorajado pela Moratória da Soja, um pacto que impediu a exportação de soja plantadas em áreas desmatadas depois de 2006, o setor ocupa áreas já abertas por outras atividades. Com isso, comemora que o desmatamento da Amazônia destinado a plantações hoje é residual. Mas o impacto da monocultura vai além das fazendas. Obras de infraestrutura que promovem seu desenvolvimento são grandes vetores de abertura de áreas de florestas.

Edeon Vaz foi produtor de soja em Mato Grosso, mas na última década decidiu impulsionar o setor de outra forma: mudou-se para Brasília com a missão de viabilizar a infraestrutura logística com o objetivo de reduzir o custo da produção agrícola.

“Participamos desde a criação dos marcos regulatórios até a negociação de emendas parlamentares, e fazemos a cobrança quanto ao andamento das obras, tudo isso leva muito tempo e temos que ficar em cima do governo”, diz Vaz, diretor-executivo do Movimento Pró-Logística de Mato Grosso e consultor do setor de grãos.

A BR-163, no trecho entre Cuiabá e Santarém, está na lista de suas missões cumpridas. A ferrovia Ferrogrão e as dezenas de portos industriais nos rios da Amazônia fazem parte do mesmo corredor.

Mas povos das terras indígenas Baú, Menkragnoti e Panará dizem sofrer os impactos da pavimentação da rodovia, que impulsionou a grilagem, o desmatamento e as queimadas na região norte da bacia do Xingu, como denunciam organizações indígenas.

A rodovia começou a ser construída pelo governo militar na década de 1970 e deixou marcas na história dos Panará. “Foi um desastre”, afirma Paulo Junqueira, que assessora os povos da região pelo Instituto Socioambiental. “A BR-163 passou por cima do território e trouxe doenças infecciosas que mataram centenas de pessoas”.

Os povos foram transferidos para o Xingu e só conseguiram voltar a seu território original duas décadas depois, em 1996.

Encurralados

Winti Kisêdjê, de 47 anos, nasceu e cresceu na terra indígena Wawi, parte do município de Querência, no Mato Grosso, e há menos de cinco anos sentiu a chegada do agronegócio.

“A soja já está bem no nosso limite”, conta o líder indígena. “E a população já vinha sofrendo a piora da água, que estava dando problemas de pele e diarreia”.

Preocupada com a produção orgânica de mel e pequi, sua comunidade finalizou este ano a mudança da aldeia que entrou 20 quilômetros floresta adentro. “Ficamos com medo de o agrotóxico, que é pulverizado dos aviões, atingir nossa produção”, explica.

“Largamos tudo para fazer tudo novo: moradia, escola, posto de saúde”, diz Khĩsêtjê. “Mas temos receio de como vai ser no futuro, se a situação vai se estabilizar ou piorar ainda mais”.

Já o agricultor Acrísio Luiz dos Reis vive em Canabrava do Norte, um município ao sul da região do Xingu, que enfrenta uma onda recente de desmatamento.

“A soja está entrando muito rápido, e esse pessoal, se puder, não deixa nem uma árvore de pé”, comenta o agricultor. “Eu acho isso ruim demais, porque, com o conhecimento que a gente tem, quanto mais se desmata, pior fica; menos água, mais calor”.

O empecilho não é financeiro, porque há várias organizações querendo apoiar iniciativas de restauração

Ele se preocupa também com a especulação imobiliária que costuma acompanhar a entrada dos novos vizinhos e já é realidade em Canabrava. “Até quatro anos atrás, tinha terra por dez mil reais, até menos, o alqueire; agora está em 150 mil reais”, exemplifica.

O mineiro chegou a Canabrava em 1985 e hoje vive num lote de 50 hectares no assentamento Manah, concedido pelo programa de reforma agrária. “Só saio daqui num caixote de madeira agora. Gosto demais daqui, realizei meu sonho”, contou o agricultor de 70 anos. “Tenho um gadinho, mexo com leite, planto uma hortinha e um pouco de fruticultura”.

Rede de cultivo de sementes

Em áreas da bacia do Xingu onde o desmatamento está avançando, grupos indígenas e ambientalistas locais lutam para reduzir o estrago. Mas onde o dano já foi feito anos atrás, a restauração de terras está em andamento.

Desde 2008, Reis complementa a renda com a coleta de sementes nativas, incluindo angico, cajazinha, jatobá e guaritá, encontradas na área de transição entre Cerrado e Amazônia. Ele é um dos pioneiros da Rede de Sementes do Xingu, um projeto que promove o plantio de mudas para restaurar áreas degradadas pela agroindústria.

A iniciativa, que surgiu depois de grupos locais notarem a piora da qualidade da água e a escassez de peixes e tartarugas, acabou promovendo um raro diálogo. De um lado, fazendeiros com passivos ambientais estimulam a rede, e, de outro, pequenos agricultores e indígenas coletam sementes. Hoje, são 600 coletores de 16 municípios da bacia do Xingu.

“Nas áreas plantadas, notamos a fauna retornando e a água mais abundante”, comemora Bruna Ferreira, diretora da Associação Rede de Sementes do Xingu.

Mas o trabalho é de formiga: em 13 anos de iniciativa, a rede restaurou 6 mil dos mais de 200 mil hectares degradados na região.  “O empecilho não é financeiro, porque há várias organizações querendo apoiar iniciativas de restauração”, diz Ferreira.

Hoje o maior problema é a falta de fiscalização e de interesse de grandes desmatadores de participar. “Nós somos procurados por fazendeiros que precisam restaurar e querem ser parceiros, mas é muito aquém do tamanho do estrago”, completa.