Negócios Venezuela e China, uma valsa sem ritmo Projeto de jornalismo colaborativo desvenda relações econômicas e políticas entre a Venezuela e a China, reconstruídas a partir de documentos oficiais. Português Português Español English Compartilhar a matéria × Copy link to page Copy link to page × Republicar esta matéria Você pode republicar os textos do Dialogue Earth sob a licença Creative Commons. Por favor, confira nossa política de republicação. (Ilustração: Vanessa Pan & Yeilys Márquez / Armando.info) Diálogo Chino, Armando.info Armando.info Fevereiro 15, 2021Outubro 21, 2022 Se há um lugar na América Latina onde a República Popular da China concentrou esforços, projetos e recursos na implacável corrida para expandir sua influência global, este lugar é a Venezuela. Na última década, o país rico em petróleo foi o destino de mais de um quarto dos 200 bilhões de dólares que a China investiu no continente latino-americano. O caminho foi pavimentado por Hugo Chávez. O então presidente estava tão determinado a romper com as tradicionais alianças estratégicas do país quanto a garantir a entrada de mais dinheiro para impulsionar sua visão de “socialismo do século XXI”. Em 2007, foi formalmente criado o Fundo Conjunto China-Venezuela, o epítome de uma nova etapa da aliança entre Beijing e Caracas. A nova fase deu seus primeiros passos em 2001, com um aperto de mão entre Chávez e o então presidente chinês Jiang Zemin. Beijing injetou cerca de 30 bilhões de dólares no Fundo Conjunto China-Venezuela. O montante começou a ser pago em 2007 e foi dividido em três parcelas, chamadas simplesmente de “A”, “B” e “C”, cujo prazo de pagamento foi estendido duas vezes até 2015. Outros 20 bilhões foram depositados em 2010 e administrados por um órgão conjunto chamado Fundo de Grande Volume e Longo Prazo. Estes 50 bilhões de dólares, no total, foram colocados na mesa pela China para o desenvolvimento de projetos em solo venezuelano (em sua maioria realizados por empresas chinesas) em troca de recursos minerais, petróleo, compras de produtos finais manufaturados chineses e uma dose implícita de lealdade política. Armando.info obteve e analisou, junto com o Centro Latino-Americano de Jornalismo Investigativo (CLIP), centenas de documentos sobre o desenvolvimento desta cooperação ocorrida entre 2007 e 2012, que, até hoje, segundo o regime de Nicolás Maduro, promoveu 790 projetos no marco da “revolução bolivariana”. O Diálogo Chino forneceu informações adicionais. Porta-vozes oficiais do governo sempre apresentaram esta relação como vantajosa para a Venezuela, mas estes documentos — que incluem relatórios de projetos, memorandos entre ministérios, correspondência e ordens de pagamento — retratam um governo que, apesar de entusiasmado com a parceria, era ineficiente e desorganizado. Era como se faltasse capacidade para instrumentalizar o pragmático apoio chinês em seu favor. O progresso destes projetos foi tímido em praticamente todos os aspectos. Com exceção, talvez, do lançamento dos satélites Simón Bolívar, Francisco de Miranda e Antonio José de Sucre (o primeiro dos quais perdeu comunicação no ano passado), a cooperação entre a China e a Venezuela deixou decepções equivalentes a milhões de dólares, como um sistema ferroviário nunca concluído, tumultuadas compras de aviões militares e eletrodomésticos, e até mesmo um escritório que custou mais do que muitos outros projetos juntos. A Venezuela e a China queriam dançar joropo, a valsa da região, juntas, mas, ao que parece, os resultados da dupla foram tudo menos espetaculares. Leia a série completa de histórias: 1. Um negócio dos sonhos com a China que terminou em pesadelo para a Venezuela A China transferiu 1 bilhão de dólares para o governo de Hugo Chávez, um crédito atrelado à venda de uma quantidade astronômica de minério de ferro. Mas a única coisa que decolou foi a dívida 2. Venezuela comprou aviões chineses a um preço que ninguém entendeu A China vendeu ao governo Chávez 8 aviões militares em 2011. Mas a manipulação de taxas de câmbio e uma larga margem para pagamentos extras significam que ninguém sabe quanto custou cada avião 3. Em vez de produzir, fábrica na Venezuela importa da China A Venezuela queria construir uma fábrica para abastecer todo o país com eletrodomésticos manufaturados localmente até 2025. Acabou importando tudo da própria financiadora da fábrica: a Haier, da China. 4. O escritório público mais caro do mundo é uma zona Em 2010, Beijing pediu um escritório a Caracas para supervisionar projetos binacionais. Foram reservados US $164 milhões para o projeto, mas hoje o espaço é um retrato do abandono. 5. A ferrovia chinesa que tirou a Venezuela dos trilhos Foi construído apenas um terço dos 468 km planejados da ferrovia entre Tinaco e Anaco, que recebeu US$ 2,74 bi do Fundo Conjunto China-Venezuela. Mas conflitos trabalhistas e ambientais seguem a todo vapor.< 6. As “damas chinesas” que desapareceram do cenário venezuelano Sob Chávez, duas mulheres representaram a Venezuela nas negociações com a China para obter financiamento de projetos: a banqueira Edmée Betancourt e a diplomata Rocío Maneiro. *Esta investigação é baseada em um conjunto de documentos obtidos por Armando.info (Venezuela), que foram processados e analisados em parceria com o Centro Latino-americano de Jornalismo Investigativo (CLIP) com colaboração do Diálogo Chino. Continue lendo Reportagem Aço Um negócio dos sonhos com a China que terminou em pesadelo para a Venezuela Reportagem Infraestrutura A ferrovia chinesa que tirou a Venezuela dos trilhos Reportagem Cadeias produtivas Em vez de produzir, fábrica na Venezuela importa da China Reportagem Finanças O escritório público mais caro do mundo é uma zona Reportagem Comércio Boom do agronegócio brasileiro aplaca atritos políticos do governo Bolsonaro Reportagem Dívida Swaps de dívida por natureza em prol da América Latina Reportagem Finanças Fundo Brasil-China não financiou nenhum projeto em seis anos Reportagem Comércio Venezuela comprou aviões chineses a um preço que ninguém entendeu