Negócios Investimentos responsáveis requerem participação da sociedade civil É preciso análise conjunta de impactos chineses indesejados Português Português Español English Compartilhar a matéria × Copy link to page Copy link to page × Republicar esta matéria Você pode republicar os textos do Dialogue Earth sob a licença Creative Commons. Por favor, confira nossa política de republicação. Paulina Garzón Abril 25, 2016Junho 5, 2023 O líder chinês Deng Xiaoping disse, em 1988, que “o século XXI vai ser a era da América Latina” para a China. Depois, os líderes que o substituíram se encarregaram de estabelecer os instrumentos para conseguir que a China se convertesse em uma referência econômica e geopolítica fundamental para a região. Como nenhum outro país, a China anunciou em 2008 sua política de relacionamento com a América Latina; em 2015 pactuou o Plano de Cooperação (2015-2019), durante a Cúpula da CELAC, em Pequim e 2016 foi declarado por Xi Jinping como o Ano de Intercâmbio Cultural com América Latina e Caribe, o momento mais importante dessa relação entre povos desde que foi fundada a República Popular da China, em 1949. Apesar de a China ter declarado, na sua política de 2008, que “o governo chinês almeja o intercâmbio entre organizações não governamentais…” e menciona que “o lado chinês está disposto a fortalecer essa troca com os países latino-americanos e caribenhos no aspecto das leis, disposições legais e políticas de proteção ambiental…”, é claro que não houve, nem de parte da China nem dos governos receptores do investimento chinês, uma vontade de tratar os problemas e desafios ambientais e sociais dos projetos com presença chinesa, e principalmente, fazê-lo de maneira participativa. Em alguns casos, os contratantes chineses, inclusive, falharam ao cumprir as regulações dos países anfitriões. Como exemplo, no projeto de mineração Mirador, no Equador, a empresa chinesa Ecuacorrientes (uma associação da Tongling Nonferrous Metals com a China Railway Construction Company) começou suas atividades, em 2012, sem ter o correspondente EIA aprovado. No fim de 2015, comunidades locais propuseram uma ação de amparo constitucional alegando uma desocupação forçada e ilegal por parte da empresa chinesa e das agências governamentais equatorianas. Com estes desafios em mente, em março passado, em Bogotá, reuniram-se mais de 35 representantes de organizações não governamentais da América Latina e internacionais para analisar os compromissos e diretrizes ambientais e sociais chinesas que são aplicados nas operações fora da China. Foi uma surpresa saber que existem mais de 300 regulações e diretrizes para os bancos e empresas chinesas no exterior, e que mais de 30 delas têm princípios e requisitos de proteção ambiental e social. No encontro também foram analisados os acordos bilaterais firmados pela China com a Colômbia, Argentina, Brasil e Bolívia, estudos de caso de investimentos chineses nos setores de mineração, hídrico e de extração de carbono, assim como também o Canal da Nicarágua e o projeto de construção do Trem Brasil-Peru. Foi o primeiro evento deste tipo na região, co-organizado pela Iniciativa para os Investimentos Sustentáveis China-América Latina (projeto patrocinado pela American University, Washington DC), a Associação Ambiente e Sociedade (Colômbia), e o Instituto Brasileiro para a Análise Econômica e Social (Brasil). Entre as regulações chinesas mais destacadas pode-se mencionar a Diretriz de Crédito Verde (aplica-se a todas as instituições bancárias chinesas), que requer que os devedores dos bancos chineses implantem as melhores práticas internacionais ambientais e sociais nos projetos financiados por esses bancos. Esta Diretriz foi estabelecida pela Comissão de Regulação da Banca Chinesa (CRBC). Outro assunto que chamou a atenção foram os Alinhamentos sobre Responsabilidade Social para o Investimento Minerador Chinês que, ainda que sejam voluntários, se aplicam às companhias membros da Câmara Chinesa de Comércio de Importações e Exportações de Metais, Minerais e Químicos (CCCMC, suas siglas em Inglês), onde se agrupam as maiores empresas mineradoras chinesas, tanto estatais como privadas. Estes alinhamentos reconhecem o direito ao consentimento livre, informado e prévio das comunidades locais, abrem a possibilidade de estabelecer áreas de exclusão dentro da própria área do projeto por razões ambientais, e requerem que as companhias mineradoras chinesas (públicas e privadas) publiquem todos os pagamentos que fazem às instituições e empregados públicos do país receptor. Além disso, as companhias mineradoras chinesas devem informar à CCCMC sobre a implementação dos alinhamentos e as instituições financeiras chinesas devem, também, informar à CRBC sobre a implantação da Diretriz de Crédito Verde. É importante ressaltar que nenhuma associação mineradora ou agência de controle bancário de caráter nacional estabeleceu diretrizes ambientais e sociais como fizeram as instituições chinesas, mesmo que a existência destes princípios ainda não se reflita na prática. Mas, se para alguma coisa serve a experiência com os bancos multilaterais tradicionais, como o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento, as diretrizes ambientais e sociais chinesas não terão utilidade se não caminharem lado a lado com mecanismos institucionais que assegurem a transparência, facilitem o diálogo entre múltiplos atores e promovam uma cultura de prestação de contas ao público. Tomara que 2016, declarado como o Ano do Intercâmbio Cultural da China com a América Latina e o Caribe, abra a oportunidade de um verdadeiro intercâmbio que vá mais além dos aspectos folclóricos da relação. Que crie oportunidades – de povo a povo – para abrir espaços para a análise informada sobre os impactos não desejados dos investimentos chineses, assim como também de uma busca conjunta de soluções e alternativas. Continue lendo Reportagem Ativismo Oposição ao canal da Nicarágua se intensifica Reportagem Transporte Bolívia quer estar na rota do trem bioceânico Reportagem Finanças Novas tendências na relação da China com América Latina Reportagem BRICS Primeiro empréstimo do banco dos BRICS gera debate Reportagem Mitigação climática Assinado Acordo de Paris sobre o Clima Reportagem Geopolítica América Latina terá que redefinir suas relações com China Reportagem China no mundo China deveria usar financiamento verde Reportagem Barragens Argentina confirma projeto de barragens na Patagônia