Opinião: As crises convergentes das mudanças climáticas e a pandemia da COVID-19 Esta crise de saúde pública deve ser vista como uma oportunidade de aprender a enfrentar as mudanças climáticas Português Português Español English Compartilhar a matéria × Copy link to page Copy link to page × Copyright Leia nossa política de republicação para saber mais sobre esse tipo de licença. A conservação de áreas úmidas costeiras e pântanos, incluindo manguezais, é fundamental para mitigar as mudanças climáticas, pois eles capturam e armazenam carbono – o que os cientistas chamam de “carbono azul”. Foto: GEF Blue Forests / Climate Visuals. Lina Muñoz Ávila Abril 20, 2020Julho 1, 2022 A situação gerada pela pandemia do COVID-19 é um ensaio global do que viveremos em 2030 com os efeitos dramáticos das mudanças climáticas, para os quais cientistas têm alertado insistentemente há décadas. Em meio à incerteza gerada pela recessão econômica e social, desde já se pode vislumbrar que, se continuarmos no caminho de desenvolvimento que nos trouxe até agora, a inesperada quarentena obrigatória que estamos vivendo não será a última do século XXI. Neste momento de convergência de crises — nas palavras de Christiana Figueres, ex-secretária executiva da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática —, é preciso organizar soluções e otimizar os recursos, as políticas e os esforços de forma simultânea. Esta crise de saúde pública deve ser vista como uma oportunidade de aprender a enfrentar rapidamente o maior desafio ambiental que temos enquanto humanidade: as mudanças climáticas. O momento atual está demonstrando que é possível alcançar ações complexas em pouco tempo A pandemia do Covid-19 e a luta contra os efeitos colaterais das mudanças climáticas antropogênicas têm vários elementos em comum: i) Expressam-se por meio de crises que afetam todos os setores, níveis e aspectos sociais e econômicos; ii) São inimigos comuns para todos os países pois representam um problema a ser enfrentado por todo o mundo; iii) Atacam todas as pessoas sem distinção de sexo, raça, idade, e de maneira mais forte pessoas e grupos vulneráveis; iv) Implicam um debate profundamente científico; v) As soluções estão nas mãos de todos os atores sociais, e; vi) Têm a orientação de uma organização internacional como a OMS ou a Secretaria da CMNUCC no marco da ONU, que apoiam o desenvolvimento de decisões nacionais. No entanto, há também algumas diferenças. O vírus levou os países a tomarem medidas radicais e urgentes para as economias que os governos nacionais haviam evitado implementar durante anos, e que paradoxalmente os tratados internacionais sobre mudanças climáticas haviam orientado desde 1992. Um exemplo é a redução das emissões causadas pela industrialização, ou uma produção e consumo mais sustentáveis. Esta crise de saúde pública deve ser vista como uma oportunidade de aprender a enfrentar rapidamente o maior desafio ambiental que temos enquanto humanidade: as mudanças climáticas. Desde já a pandemia do Covid-19 está afetando a ação climática: a quatro meses do diagnóstico do primeiro contagiado, a conferência das partes (COP26) foi cancelada para 2020, ano em que o Acordo de Paris tem previsto o início da atualização das primeiras Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC, na sigla em inglês) — os esforços de cada país para mitigar as emissões nacionais e que contêm suas metas concretas de redução de gases de efeito estufa. Também estabelecem as ações para adaptação aos efeitos das mudanças climáticas. A grave recessão econômica que a América Latina e o resto do mundo enfrentarão após a pandemia pode ser uma desculpa para que os países reduzam sua ambição frente à redução de emissões de gases de efeito estufa, concentrando suas estratégias financeiras de recuperação na extração de hidrocarbonetos e minerais. Isso pode gerar a tentação de que as metas das segundas NDC sejam menos ambiciosas. Da mesma maneira, há outros impactos adversos do vírus sobre a Agenda 2030 de desenvolvimento sustentáveis relacionados às mudanças climáticas. A pandemia do Covid-19 pode tornar-se um obstáculo para o cumprimento da NDC porque muitos países podem decidir concentrar seus esforços e recursos frente o desafio de saúde pública desconhecendo a natureza de avançar simultaneamente em todas as frentes sem descuidar do meio ambiente. Esse posicionamento dificultaria a implementação do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável número 13, sobre ação para o clima. O mesmo aconteceria com outros ODS relacionados ao 13, como o ODS 7, sobre energia acessível e não contaminante; o ODS 11, sobre cidades e comunidades sustentáveis, e o ODS 12, sobre produção e consumo responsáveis. O momento atual está demonstrando que é possível alcançar ações complexas em pouco tempo: mobilização de recursos, coordenação de esforços, arranjos institucionais e construção de infraestrutura. O que pode acontecer é que a recuperação econômica leve ao desenvolvimento de políticas climáticas menos ambiciosas ou à flexibilização da proteção ambiental. Continue lendo Reportagem Covid-19 Coronavírus altera agenda de reuniões ambientais Reportagem Negociações "Crises social e ambiental são duas caras da mesma moeda" Reportagem Biodiversidade Cinco tecnologias para defender o meio ambiente na América Latina Reportagem Água potável Cidade mexicana coloca água no chope de empresa norte-americana Reportagem Café Como o aumento de consumo de café na China impacta o Brasil Reportagem Desmatamento Vídeo da WWF ligando consumo ao desmatamento revolta chineses Reportagem Crime Ataques a defensores ambientais persistem durante pandemia da Covid-19 Reportagem Negociações Brasil chega enfraquecido em COP da biodiversidade