Porcos ou peixes? Repensando o investimento chinês na Argentina O governo de Alberto Fernández tem a oportunidade de regularizar os negócios de pesca da China no mar argentino Português Português Español English Compartilhar a matéria × Copy link to page Copy link to page × Republicar esta matéria Você pode republicar os textos do Dialogue Earth sob a licença Creative Commons. Por favor, confira nossa política de republicação. MarcosGonzálezGava , Juan Manuel Harán Setembro 15, 2020Setembro 22, 2023 A Argentina enfrenta um dilema único. Avançar com o desenvolvimento de um projeto de produção de carne suína com investimentos chineses, ou regularizar o negócio da pesca que os navios chineses realizam sem pagar impostos, sem controle e ilegalmente na Zona Econômica Exclusiva (ZEE) no mar argentino. As duas atividades têm um peso diferente na balança, já que o negócio da pesca é maior em termos comerciais e já está em operação, enquanto o de carne suína foi apenas esboçado e está muito longe de se tornar operacional. Vejamos os números em perspectiva. O acordo que a Argentina poderá eventualmente fechar no setor de suínos prevê investimentos de quase 3,8 bilhões de dólares durante os próximos quatro anos. O objetivo é aumentar a produção em cerca de 900 mil toneladas e gerar exportações de 2,5 bilhões de dólares. 500 Navios estrangeiros operam no Atlântico Sul Ao mesmo tempo, estima-se que as frotas de bandeira chinesa extraem do mar argentino o equivalente a 950 mil toneladas por ano por um valor estimado em cerca de 2,47 bilhões de dóalres por ano, somente em termos comerciais, sem levar em conta a consequente evasão fiscal. Operar sem controle e regulamentação permite à China, com receita livre de tarifas e volumes superlativos de captura, despejar o produto nos mercados internacionais, inclusive nos principais destinos das próprias exportações argentinas, com preços fortemente distorcidos pela incidência de seus baixos custos operacionais e comerciais. Dos 500 navios estrangeiros que operam no Atlântico Sul, os que arvoram a bandeira da China continental representam 45% do total. Sua captura está concentrada em espécies como pescada e lula gigante ou lula. E embora esta seja uma questão problemática para a América Latina, ela não é exclusiva, já que há outros países também afetados. A Argentina, num momento histórico de seu relacionamento com a China, que este ano se posicionou como seu parceiro comercial mais importante, tem a oportunidade de intervir nesta questão, especialmente tendo em vista a visita potencial do Presidente Alberto Fernández a Beijing no âmbito da China International Import Expo. Para lançar luz sobre este buraco negro comercial, ambiental, produtivo e de soberania, será necessário oficializar a pesca ilegal da China na Argentina e transformá-la em um projeto que envolve o desenvolvimento gradual e conjunto da indústria pesqueira com destino final ao mercado interno chinês, como queremos fazer com os suínos. Somente um projeto chinês-argentino para o uso correto dos recursos do mar argentino pode garantir à China um abastecimento a longo prazo, cuidando do ecossistema para que este possa se desenvolver e se recuperar. Se os chineses finalmente aspiram a construir uma rede de segurança alimentar, estes são passos que devem considerar. Os navios chineses carecem de condições de trabalho e humanas, assim como de parâmetros fitossanitários. É justamente por causa da falta destes parâmetros em nível doméstico que a China procura agora diversificar sua produção de carne suína na Argentina, uma vez que o último surto de peste suína africana em seu território levou ao abate de milhões de animais. O embaixador da China na Argentina, Zou Xiaoli, destacou recentemente a posição de tolerância zero de seu país em relação à pesca ilegal e sublinhou a colaboração com as autoridades argentinas. Entretanto, só no sudeste e sudoeste do Atlântico, a China aumentou as capturas em 800% em cinco anos, investindo mais em subsídios à pesca do que qualquer outro país, com 90% desses fundos destinados a alimentar suas embarcações. Será muito difícil ver progressos nesta área sem um esforço exemplar para manter o assunto na agenda Medidas como estas refletem o fato de que a pesca é um setor no qual a China tem menos interesse em coordenar políticas e investimentos, portanto, além das declarações diplomáticas, será muito difícil ver progressos nesta área sem um esforço exemplar para manter o assunto na agenda das questões primárias a serem normalizadas. A violação da soberania argentina que isto representa, uma falha que a China não endossaria em seu próprio território, também é razão suficiente para que este assunto ganhe peso na agenda. Isto daria conteúdo prático a conceitos como “Uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade”, proposto por Xi Jinping como uma palavra de ordem espiritual para a Iniciativa Cinturão e Rota. Continue lendo Reportagem Crime Argentina, o próximo campo de batalha contra a pesca ilegal Reportagem Pesca China anuncia proibição temporária de pesca em áreas de desova de lulas Reportagem Pesca predatória China enfrenta crise de imagem com críticas sobre pesca em Galápagos Reportagem Comércio Mineradoras saem ganhando na Peru sem um capítulo verde no acordo com a China Reportagem China no mundo América Cresce: a resposta dos EUA ao Belt and Road na América Latina Reportagem Mineração A Corrida do Ouro Ameaça o País mais Verde do Mundo Reportagem Carne Investimento chinês em carne suína é alvo de críticas na Argentina Reportagem Energias renováveis México bloqueia expansão privada de energia renovável