Florestas Com mais discurso do que ação, Cúpula da Amazônia frustra observadores Medidas apresentadas na Declaração de Belém são vistas como um início de diálogo, mas sem compromissos e metas concretas de combate ao desmatamento da floresta amazônica Português Português Español English Compartilhar a matéria × Copy link to page Copy link to page × Republicar esta matéria Você pode republicar os textos do Dialogue Earth sob a licença Creative Commons. Por favor, confira nossa política de republicação. Líderes de oito países amazônicos se reuniram em Belém nesta semana para discutir a proteção da floresta. Enquanto isso, um encontro paralelo reuniu cerca de 30 mil representantes de povos indígenas, quilombolas e sociedade civil (Imagem: Palácio do Planalto, CC BY-ND) Catarina Barbosa Agosto 11, 2023Novembro 16, 2023 A semana começou com altas expectativas com o início da Cúpula da Amazônia, realizada em Belém do Pará, uma iniciativa inédita de reunião de líderes sul-americanos que abrigam a floresta amazônica. Mas foi encerrada com um ar de frustração com a ausência de líderes, a falta de metas concretas para reverter o desmatamento, que já chega a 17% do bioma, e sem veto à exploração de petróleo na região. Anfitrião da cúpula, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu início ao evento com entusiamo. “Há quatorze anos não nos reuníamos”, disse na terça-feira durante seu discurso de abertura. “Nunca foi tão urgente retomar e ampliar essa cooperação”. O evento foi promovido pelos países-membros da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), um bloco formado por oito nações amazônicas inaugurado com um tratado de cooperação assinado em 1978. Em 45 anos de existência, a cúpula marca o quarto encontro do bloco, e o primeiro de caráter socioambiental. Mas o otimismo do anfitrião foi dando lugar a uma série de desconfortos. Primeiro, três dos oito presidentes da OTCA faltaram à cúpula. Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, cancelou sua participação em cima da hora, justificando a ausência com um problema de saúde e enviando para representá-lo sua vice, Delcy Rodríguez. Além disso, enviaram seus ministros de Relações Exteriores os presidentes do Equador, Guillermo Lasso, e do Suriname, Chan Santokhi. Lasso justificou a ausência por “razões de política interna” e Santokhi, por coincidir com o Dia da Imigração Javanesa, “uma data muito relevante para o Suriname”. Países que compõem a OTCABolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela Depois, o presidente colombiano, Gustavo Petro, cobrou o fim da exploração de petróleo na Amazônia ao discursar diante dos chefes de Estado na terça-feira, sem encontrar adeptos. “Estamos à margem da extinção da vida. É nesta década que nós, políticos, devemos tomar decisões. O que estamos fazendo além de discursos como estes?”, questionou o mandatário. “Nós precisamos nos descarbonizar, mas o que estamos fazendo é explorar gás e petróleo na floresta. É um contrassenso total”. Embora oito países integrem a OTCA, o discurso de Petro reverberou diretamente no governo brasileiro, que tem em suas mãos a decisão de começar a explorar ou não petróleo na foz do rio Amazonas, que abriga 15% dos manguezais brasileiros, mas cujo impacto poderia chegar a toda a costa amazônica. Além disso, a região abriga ainda povos indígenas e comunidades tradicionais. O presidente colombiano Gustavo Petro chamou de ‘contrassenso total’ falar em descarbonização, mas insistir em projetos de extração de hidrocarbonetos na Amazônia (Imagem: Cristian Garavito / Presidência da Colômbia, CC0) A condução de estudos para explorar a região está bloqueada pelo Ibama, agência ambiental do governo brasileiro responsável por avaliar riscos ambientais de obras. Mas a retomada do projeto é encapado pela estatal de petróleo Petrobras e até pelo Congresso brasileiro. Lula comentou apenas que a decisão cabia ao Ibama. Além do caso brasileiro, o Equador deve votar se apoia ou não a exploração de petróleo no Parque Nacional de Yasuní, um mega-biodiverso trecho de floresta amazônica, em um referendo marcado para ocorrer junto com as eleições presidenciais do país em 20 de agosto. O Equador, no entanto, está agora submerso em uma crise, devido ao assassinato de um de seus candidatos à presidência nesta quarta-feira, 9, embora autoridades tenham indicado que a votação continuará conforme planejado. Declaração de Belém falha Na terça-feira, o presidente brasileiro também anunciou o documento mais aguardado: a Declaração de Belém, assinado pelos oito países e que lista 113 intenções para garantir a proteção da Amazônia, de sua biodiversidade e seus povos originários e tradicionais. O texto menciona, por exemplo, a necessidade de exortar países desenvolvidos a honrar seus compromissos de mobilizar recursos, incluindo a meta de investir US$ 100 bilhões por ano em financiamento climático. Outro ponto de destaque é o fortalecimento do combate aos crimes ambientais para conter o desmatamento e a poluição regional. Mas, em geral, as intenções são vagas e ficaram de fora uma meta comum entre os países amazônicos para zerar o desmatamento do bioma e o veto à exploração de petróleo na região, um dos itens mais esperados. Um dos poucos pontos específicos da declaração será a criação de um centro de cooperação policial em Manaus. Segundo o presidente Lula, a unidade terá 34 bases fluviais e terrestres, que contarão com o apoio das forças armadas para combater o crime organizado, e um sistema integrado de tráfego aéreo com a mesma finalidade. Presidente Lula e ministros nas negociações da Cúpula da Amazônia. Declaração de Belém espera que países desenvolvidos cumpram meta de investir US$ 100 bilhões por ano em financiamento climático, mas compromisso para zerar desmatamento na Amazônia ficou de fora (Imagem: Cristian Garavito / Presidência da Colômbia, CC0) “O documento está longe de dar qualquer resposta concreta aos problemas que temos”, disse Márcio Astrini, secretário-geral do Observatório do Clima, a maior coalizão de organizações brasileiras ligada à sustentabilidade. “O mundo está pegando fogo, não é possível que você tenha uma reunião com oito países, e eles não consigam colocar em um documento que o desmatamento tem que acabar.” Para Astrini, o documento “só é bom comparado ao fato de que antes ele não existia”. Apesar disso, ele elogiou a realização dos Diálogos Amazônicos, encontro realizado entre 4 e 6 de agosto em Belém, com a presença de 30 mil amazônidas, entre sociedade civil, povos indígenas e quilombolas. “O discurso foi único: é preciso acabar com o desmatamento e não há mais espaço para o petróleo na Amazônia”, disse. Na avaliação da colombiana Fany Kuiru Castro, do povo Uitoto, que está à frente da Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (Coica), a ausência de metas concretas é preocupante: “Os hidrocarbonetos e o petróleo afetam gravemente a saúde dos povos indígenas, sobretudo no Equador, em Putumayo na Colômbia, no Peru, no Brasil. Os compromissos não estão claros e os povos indígenas estão sendo vistos de maneira transversal e não direta”. Apesar da crítica, Fany Kuiru Castro também vê a abertura de diálogo como positiva: “Da nossa parte, vamos continuar pressionando. Na minha cultura, a melhor saída é o diálogo para se encontrar soluções para levar a ações reais”. Em entrevista ao canal estatal CanalGov, a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, justificou que as nações amazônicas não assumiram a meta contra o desmatamento por falta de consenso, ainda que Brasil e Colômbia já tenham assumido compromissos semelhantes. “O processo de negociação é sempre um processo mediado, ninguém pode impor sua vontade a ninguém. Então, são consensos progressivos: à medida que temos alguns consensos, a gente vai botando no documento”, afirmou a ministra. Desmatamento e o ponto de não-retorno A pesquisadora brasileira Luciana Gatti, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), lembra que o desmatamento na Pan-Amazônia já chegou a 17%; e no Brasil, 20%. “Nossos estudos apontam que o ponto de não-retorno poderá ocorrer a partir de sub-regiões da floresta. A região sudeste da Amazônia, por exemplo, está muito perto desse colapso”, explicou. “A Amazônia não é para soja, milho, gado, madeira. A Amazônia é a nossa fábrica de chuva, a nossa garantia de condição climática, de sobrevida”, acrescenta Gatti. Ministra dos Povos Indígenas do Brasil, Sonia Guajajara, participa dos Diálogos Amazônicos e da Cúpula da Amazônia. Em janeiro, sua etnia foi alvo de cinco ataques armados no Maranhão — três pessoas morreram (Imagem: Palácio do Planalto, CC BY-ND) Líderes de países além da OTCA também participaram da cúpula. Entre eles, estavam figuras de outras nações globais com florestas tropicais: os presidentes da República do Congo, da República Democrática do Congo, um emissário do presidente da Indonésia, o embaixador da França no Brasil — representando o território amazônico da Guiana Francesa — e um emissário da Noruega, o maior contribuinte do Fundo Amazônia, do Brasil, para o desenvolvimento sustentável do bioma. Eles assinaram um acordo semelhante, mas bem mais sucinto. De mesma forma, ele não contém objetivos concretos e reforça a necessidade das nações desenvolvidas de garantir recursos para o financiamento climático. Durante a cúpula, o ministro brasileiro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, também se reuniu com a comitiva dos Emirados Árabes Unidos e o presidente da próxima cúpula climática COP28 da ONU, Ahmed al-Jaber, para tratar de investimentos em gás natural e transição energética. “Agora os países amazônicos precisam colocar essas ideias em prática, criando um plano com ações específicas, políticas públicas e marcos temporais; e uma estratégia para a atração dos investimentos necessários para tornar isso realidade” disse Adriana Lobo, diretora-geral de presença global e ação nacional do World Resource Institute (WRI). A consolidação mais efetiva da Cúpula da Amazônia deverá vir na COP 28, que será realizada nos Emirados Árabes em novembro, quando metas de desmatamento e combate aos combustíveis fósseis voltam ao debate. Continue lendo Reportagem Desmatamento Cúpula das Américas: tensões se sobressaem a discussões climáticas Reportagem Povos Indígenas Líderes regionais debatem compromissos para proteção da Amazônia Fotorreportagem Ativismo Indígenas lutam por suas terras contra marco temporal Reportagem Desmatamento Pará: o maior desmatador da Amazônia pode ser um líder da bioeconomia? Reportagem Mercados de carbono Novas tecnologias podem tornar créditos de carbono mais confiáveis? Reportagem Petróleo Equador decide se continua ou não exploração de petróleo no Parque Yasuní Reportagem Comércio A China quer reduzir importação de soja. Como isso afeta a América do Sul? Reportagem Veículos elétricos Carros elétricos na República Dominicana: luxo ou meta realista?