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Novas tecnologias podem tornar créditos de carbono mais confiáveis?

Plataformas lançam sistemas equipados até com inteligência artificial para aumentar a transparência nos mercados de carbono, mas fator humano ainda é crucial
<p>Nova tecnologia pode usar satélite e inteligência artificial para medir a captura de emissões por atividades como o reflorestamento (Imagem: Michel Arnault / Alamy)</p>

Nova tecnologia pode usar satélite e inteligência artificial para medir a captura de emissões por atividades como o reflorestamento (Imagem: Michel Arnault / Alamy)

Os créditos de carbono têm um problema de reputação. A ideia de ser pago para compensar as emissões daqueles que emitem mais CO₂ pode soar plausível, mas o mercado tem sido alvo frequente de escândalos. Denúncias envolvem o pagamento a projetos que não reduziram ou até aumentaram as emissões e que prejudicaram comunidades locais ou a biodiversidade.

Muita gente trabalha para corrigir isso. Deve ser lançado ainda este ano novos padrões e orientações para aumentar a credibilidade do setor. Por exemplo, no fim de junho, a Iniciativa Voluntária de Integridade dos Mercados de Carbono (VCMI, na sigla em inglês) publicou um código de conduta a ser seguido pelas empresas.

Tecnologias de monitoramento

A adoção de sistemas de Monitoramento, Relato e Verificação (MRV) aumenta o controle do mercado de créditos de carbono, medindo o volume de captura ou redução de emissões em uma determinada atividade, como o reflorestamento, em um período específico. Depois, os resultados são verificados por terceiros, e só então os créditos são negociados nos mercados internacionais ou usados por empresas para atingir suas metas de redução de emissões.

O MRV envolve processos demorados, como a coleta presencial de dados. Por isso, as tecnologias digitais têm sido cada vez mais importantes — por exemplo, softwares podem realizar inventários de emissões, monitoramento remoto e geolocalização por satélite. Mas isso corresponde a apenas 10% do processo, segundo um relatório do Gold Standard, programa de certificação do setor.

O MRV poderia usar outras tecnologias — como satélites, drones, inteligência artificial, criptografia de blockchain e “sensores inteligentes” — para automatizar a coleta, análise e validação de dados, além de fornecer informações mais confiáveis em menos tempo. Isso reduziria os custos e a demora associados à emissão de créditos de carbono.

Um exemplo disso é a plataforma CTrees, lançada no ano passado na conferência climática COP27. Segundo seus criadores, o sistema é o primeiro do mundo a calcular com precisão a quantidade de carbono em cada árvore do planeta.

Nosso conjunto de dados observa tudo
Sassan Saatchi, cientista sênior do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa

A plataforma usa inteligência artificial para analisar dados de satélite. As informações chegam quase em tempo real aos compradores, gestores de projetos e reguladores dos mercados de carbono — além de governos, empresas e organizações civis.

A CTrees é liderada pelo pesquisador Sassan Saatchi, cientista do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, além de contar com cientistas de dados de Estados Unidos, Brasil, Dinamarca e França. Financiada por filantropia e pela própria receita da prestação de seus serviços, a plataforma foi possível graças ao trabalho de mais de 20 anos de pesquisa e desenvolvimento de universidades e agências espaciais do mundo todo.  

No início do ano, a CTrees começou a fornecer dados globais para avaliações de carbono nas florestas, conseguindo rastrear a migração do desmatamento, diz Saatchi. Essa é uma das principais preocupações do mercado de carbono.

Sistema de voo do satélite Nisar
Sistema de voo do satélite Nisar. A tecnologia de radar usada na missão vai captar imagens de quase toda a Terra, dados que podem ser integrados à plataforma CTrees (Image: Nasa)

“Nosso conjunto de dados observa tudo”, explica Saatchi. “Cientistas sociais e economistas podem usar os dados para entender a migração do desmatamento”.

Este ano, a CTrees deve lançar um sistema gratuito de alerta global sobre mudanças no uso do solo. Inicialmente, a ferramenta enviará notificações quinzenais de desmatamento ou degradação florestal, mas elas devem ser semanais a partir de 2024. Isso permite ações mais rápidas por governos, diz o cientista.

A plataforma CTrees também pode integrar novas tecnologias no futuro — como a missão Nisar, projeto da Nasa e da Organização de Pesquisa Espacial da Índia, com lançamento previsto para 2024. A tecnologia de radar usada nessa missão vai captar imagens de quase todo o território terrestre, incluindo as calotas de gelo da Terra, em um intervalo de quatro a seis vezes por mês. As informações sobre o volume e a biomassa das florestas vão revelar detalhes sobre as mudanças provocadas pelo homem.

Agregação dos registros de carbono

Uma plataforma do Climate Action Data Trust (CAD Trust) agrega dados dos principais registros de carbono no mundo, usados por governos e empresas privadas. Esses registros rastreiam projetos de carbono, emitem créditos e identificam as compensações ambientais por números de série para reduzir o risco de contagem duplicada — evitando que duas organizações reivindiquem a mesma tonelada de carbono removida da atmosfera, por exemplo.

Por enquanto, qualquer pessoa que deseje verificar os registros para um crédito de carbono deve fazê-lo manualmente, explica Yuvaraj Dinesh Babu, diretor-executivo da CAD Trust. Com a ajuda da tecnologia blockchain, todas as alterações que os registros fizerem na plataforma serão auditáveis, diz Babu. A expectativa é que todos os registros sejam agregados à plataforma, contribuindo com a avaliação das metas do Acordo de Paris.

Mapa com densidade de carbono no estado do Amazonas
Densidade de carbono no estado do Amazonas. Quanto mais escura a cor, mais CO₂ é armazenado por hectare (Imagem: CTrees)

Outra plataforma, a AlliedOffsets, facilita o acesso a dados de projetos de compensação de carbono para informar as empresas que compraram seus créditos. “Percebemos pouca transparência no setor”, diz Lars Kroijer, fundador e diretor da empresa. “Começamos a nos perguntar por que um crédito custava US$ 2 e outro US$ 50, quando deveriam valer o mesmo — uma tonelada de carbono. Isso parecia insano”.

“Reunimos empresas de classificação, corretoras e fontes de informações para que você possa encontrar tudo em um só lugar, seja você um comprador, um corretor, um desenvolvedor de projetos ou um cientista”, diz Kroijer. “Se alguém quiser conhecer todos os projetos de soluções baseadas na natureza da Índia, te respondo em três minutos. No passado, não saberia nem por onde começar, poderia levar meses”.

Padronização de certificações

Agências de certificação e outras organizações interessadas nos mercados de carbono têm trabalhado para avaliar, testar e produzir orientações, tecnologias e padrões que tornem o setor mais confiável e transparente.

A Verra, que diz ser o maior programa de crédito de carbono do mundo, testa uma plataforma de MRV com sensoriamento remoto para medir o carbono das florestas. O projeto é desenvolvido junto à empresa de tecnologia climática Pachama.

A agência afirma que não emitirá créditos usando os dados do projeto-piloto, apenas testará a precisão do sistema digital. A partir daí, avaliará se — e como — poderá usar os dados. A organização publicará um relatório com suas conclusões ainda este ano.

Benktesh Sharma, diretor de soluções tecnológicas da Verra, explica que o MRV produz inconsistências nos relatórios enviados pelos solicitantes do registro. “Eles têm sua própria interpretação sobre as metodologias para estimar as reduções de gases de efeito estufa”, diz. “Mas o MRV digital nos dará uma ferramenta padronizada para lidar com esses dados, e poderemos verificar sua qualidade facilmente”.

“Será uma mudança de mentalidade: em vez de lidar manualmente com vários documentos, trabalharemos com uma interface digital. Os usuários não terão que criar um PDF ou imprimir um documento para incluí-lo no sistema”, acrescenta. 

Em teoria, os sistemas digitais permitirão verificar a qualidade dos dados de um projeto, como sua localização e como ele foi criado. Informações incompletas ou incorretas seriam sinalizadas, diz Rishi Dias, diretor de tecnologias para soluções climáticas da Verra. Se houver suspeita de má conduta, diz ele, será muito mais fácil auditar o projeto. 

A demanda por projetos de qualidade no mercado de carbono supera a oferta, acrescenta Sharma, ressaltando que o processo de emissão de créditos de carbono ainda é demorado. Um sistema digital mais eficiente reduziria drasticamente o tempo, o que significa impulsionar os projetos de redução de emissões mais rapidamente.

Quais são as desvantagens?

O MRV digital pode economizar tempo, evitar erros humanos e melhorar a transparência, aumentando a confiança nos mercados de carbono, segundo Ana Carolina Szklo, diretora técnica de mercados e padronização da VCMI. Mas há desvantagens: “O MRV digital, como o monitoramento de florestas por satélite, é muito caro. Por isso, devemos estar atentos para não excluir empresas e países em desenvolvimento que não têm recursos para promover e implementar sistemas de ponta”.

Além disso, a tecnologia não resolve todos os problemas, ressalta Szklo, e em algums casos a verificação presencial ainda é necessária. No Brasil, por exemplo, imagens de projetos florestais flagraram mudanças no uso do solo por desmatamento, mas a imagem de satélite por si só não pode provar se o proprietário do projeto fez isso deliberadamente ou se as chamas se alastraram acidentalmente de uma área vizinha, explica.

É fácil falar em um palanque, mas as soluções para as mudanças climáticas às vezes são técnicas
Lars Kroijer, fundador da AlliedOffsets

Szklo defende que auditores humanos continuam a ter um papel importante: “Não sei se estamos prontos para simplesmente entregar tudo às máquinas, sem ter nenhuma capacidade humana por trás da análise de dados”.

O cumprimento das metas de redução de emissões não se resume à matemática, diz Szklo, destacando que a certificação demanda uma boa governança empresarial para decidir em quais projetos de carbono investir.

“Leva tempo processar e distribuir uma tecnologia confiável, algo que convença investidores e o setor privado”, diz Szklo, acrescentando que muitas dessas tecnologias precisam passar por fases-piloto.

Já Kroijer acredita que o MRV digital é parte da solução para superar o ceticismo em relação aos mercados de carbono. “É fácil subir em um palanque e falar, mas as soluções para as mudanças climáticas às vezes são técnicas”.

Esta reportagem foi publicada originalmente por China Dialogue.