Clima

COP31: Alianças climáticas da América Latina se fragmentam rumo a Antália

Cenário político mudou desde que a região sediou a cúpula climática da ONU em 2025, mas países latinos precisam encontrar forma de avançar nas áreas de financiamento, energia e desmatamento
<p>Incêndio florestal na Amazônia brasileira. Vários líderes latino-americanos fundamentais para o avanço da agenda ambiental que estiveram presentes na COP30 no ano passado deixaram o cargo, levando consigo a perspectiva de uma voz regional unida na COP31 (Imagem: Amazing Aerial / Alamy)</p>

Incêndio florestal na Amazônia brasileira. Vários líderes latino-americanos fundamentais para o avanço da agenda ambiental que estiveram presentes na COP30 no ano passado deixaram o cargo, levando consigo a perspectiva de uma voz regional unida na COP31 (Imagem: Amazing Aerial / Alamy)

A América Latina chega à cúpula climática da ONU deste ano com menos apoio político para a agenda que promoveu há um ano no Brasil.

Muitos países latino-americanos demonstraram mais unidade na COP30, realizada em novembro de 2025 em Belém, do que em anos anteriores. Essas alianças pressionaram por metas mais ambiciosas em áreas como transição energética, desmatamento e financiamento climático.

Desde então, alguns dos líderes que tiveram papel fundamental no avanço dessa agenda deixaram o cargo, levando consigo qualquer perspectiva de uma voz regional unida.

A Colômbia elegeu um presidente que prometeu aumentar a produção de petróleo e adotar o fracking (fraturamento hidráulico), uma mudança radical em relação à iniciativa do governo anterior de abandonar os combustíveis fósseis. O novo governo do Chile revogou mais de 40 decretos ambientais nos primeiros meses de mandato e cortou o financiamento para o Ministério do Meio Ambiente e para tratados internacionais, incluindo o de Escazú. O governo do presidente Rodrigo Paz eliminou o Ministério do Meio Ambiente da Bolívia em agosto.

O Acordo de Escazú

O Acordo de Escazú entrou em vigor em abril de 2021, tornando-se o primeiro tratado regional na América Latina e no Caribe sobre direitos ambientais

O Brasil é uma exceção notável. O quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em detrimento de mais um governo dos Bolsonaro, reafirmou o governo que liderou a COP30 – embora com menos aliados regionais do que há um ano. Mesmo Lula, no entanto, tem enfrentado críticas por apoiar a exploração de combustíveis fósseis na bacia do rio Amazonas.

“Temos uma situação política totalmente diferente da de um ano atrás”, disse Andrés Gómez, diretor para a América Latina da Iniciativa do Tratado sobre Combustíveis Fósseis, ao Dialogue Earth. “Os governos de extrema direita estão interessados em explorar tudo em seus territórios.”

Mantendo o ímpeto de Belém

A COP31 começa em Antália nesta segunda-feira, 9, com a Turquia como anfitriã e a Austrália presidindo as negociações. A conferência retomará os assuntos pendentes de Belém: dois planos de ação, um sobre o abandono dos combustíveis fósseis e outro sobre o fim do desmatamento; e um apelo para aumentar o financiamento climático.

Ana Toni, diretora-executiva da COP30, está otimista. “Estou bastante confiante de que o impulso criado na COP30 terá continuidade na COP31”, disse ela ao Dialogue Earth.

A Turquia anunciou a cúpula como uma “COP da implementação”, com foco no apoio aos países na concretização de seus planos climáticos. Na América Latina, a grande maioria dos países apresentou Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) atualizadas no âmbito do Acordo de Paris nos últimos dois anos  — as NDCs 3.0 deveriam ser apresentadas até 2025. Argentina, Guatemala e Haiti ainda não o fizeram.

Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs)

De acordo com o Acordo de Paris de 2015, os países são obrigados a elaborar um plano de ação para seus esforços de redução das emissões nacionais e adaptação aos impactos das mudanças climáticas. Esses compromissos são conhecidos como Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs). As NDCs são apresentadas a cada cinco anos, e devem ser mais ambiciosas do que as anteriores (o chamado “mecanismo de catraca”). Combinadas, essas metas nacionais devem resultar em um esforço global coordenado para reduzir a gravidade e o impacto das mudanças climáticas.

Extraído do Glossário sobre mudanças climáticas do Dialogue Earth

Como anfitriã da COP, a Turquia pode escolher um tema central de agenda que deseja abordar, e optou pela eletrificação. O presidente da COP31, Murat Kurum, propôs uma meta global voluntária para aumentar a parcela da demanda final de energia atendida pela eletricidade, de pouco mais de 20% (em junho de 2026) para 35% até 2035.

No que diz respeito à energia, a América Latina se aproxima da média global de eletrificação: a eletricidade atende a cerca de 20% de sua demanda final de energia. Mas sua rede elétrica é muito mais limpa do que a maioria, com 65% da eletricidade proveniente de fontes limpas em 2025.

A extração de petróleo se tornou um tema político em vários países. As discussões sobre o fracking (fraturamento hidráulico) se tornaram um dos principais pontos de debate nas eleições colombianas, onde o candidato vencedor, Abelardo de la Espriella, apresentou os combustíveis fósseis como um caminho para a prosperidade.

Alejandra López, diretora de diplomacia climática do think tank regional Transforma, afirma que a eletrificação poderia ajudar a separar a política das ações climáticas na região. “Eletrificação, mobilidade, segurança energética, geração de empregos, transporte público: todas essas são agendas que não são politizadas da esquerda à direita, e não soam como questões ambientais”, disse ela ao Dialogue Earth.

Dois mapas do caminho à vista

À frente da presidência da COP30, o Brasil buscou incluir compromissos concretos sobre o desmatamento e a eliminação gradual dos combustíveis fósseis no acordo final da cúpula do ano passado. No entanto, divergências entre os governos fizeram com que esses pontos não fossem aprovados nas negociações.

O país anunciou então que elaboraria dois mapas do caminho voluntários e os apresentaria na Turquia. Um abordaria a eliminação gradual dos combustíveis fósseis, e o outro, o desmatamento e o manejo florestal sustentável. Os documentos não têm caráter vinculativo, mas podem servir como uma referência a ser seguida pelos governos nacionais.

A América do Sul perdeu mais floresta do que qualquer outra região do mundo entre 2015 e 2025, com uma média de 4,1 milhões de hectares por ano. Isso foi causado por atividades como agricultura, pecuária e construção de infraestrutura. No entanto, há alguns casos de sucesso, incluindo o menor nível de desmatamento desde 1988 alcançado pelo Brasil neste ano.

árvore verde em um campo marrom
Embora a América do Sul tenha perdido mais floresta do que qualquer outra região entre 2015 e 2025, no Brasil o desmatamento está atualmente em seu nível mais baixo desde 1988 (Imagem: Fernando Frazão / Agência Brasil)

A região também está extraindo mais combustíveis fósseis: sua produção de petróleo aumentou 20% no ano passado, impulsionada principalmente pela Guiana e pelo Brasil. Países de toda a região, incluindo a Argentina e o Brasil, também buscam ativamente expandir a extração de petróleo e gás.

Citando a atual crise no estreito de Ormuz, Ana Toni argumentou que abandonar os combustíveis fósseis não é apenas um problema climático: “É um problema econômico, político e de soberania.”

O ônus financeiro

O pacote final da COP30 revelou um plano para mobilizar cerca de US$ 1,3 trilhão em financiamento climático para os países em desenvolvimento por ano até 2035. Os países concordaram em triplicar o financiamento para adaptação até esse ano, em relação aos níveis de 2025. Com base na meta de Glasgow de cerca de US$ 40 bilhões por ano, isso significaria aproximadamente US$ 120 bilhões. Críticos observaram, no entanto, que o compromisso da COP30 carece de uma base de referência definida e não especifica quem é responsável pelo aumento.

“O mundo precisa urgentemente de financiamento para adaptação para prevenir e preparar as comunidades vulneráveis a desastres e para o surgimento crescente dos impactos climáticos”, disse Tariye Gbadegesin, CEO dos Fundos de Investimento Climático, ao Dialogue Earth. “Atualmente, os países em desenvolvimento recebem um financiamento para adaptação de 12 a 14 vezes menor do que precisam.”

No ano passado, o Brasil também lançou o Fundo Florestas Tropicais Para Sempre, criado para remunerar os países pela preservação das florestas com uma meta de captação de US$ 10 bilhões até 2026. Os compromissos assumidos já alcançaram quase US$ 8 bilhões até o momento. Omontante ainda está bem distante dos US$ 125 bilhões vislumbrados por seus idealizadores, mas novos compromissos podem ser anunciados ainda este ano.

A questão para a região também é quem paga e em que condições. A América Latina e o Caribe receberam 17% do financiamento internacional para o clima entre 2016 e 2020. Esse montante veio principalmente na forma de empréstimos, e não de doações, aumentando dívidas que já são pesadas. Em vários países, o serviço da dívida já excede os gastos em áreas como saúde e educação.

Um bloco fragmentado

Nas COPs, os países latino-americanos negociam individualmente e em vários blocos, diferente de outros continentes, como a África, que votam e fazem lobby em conjunto. A maioria das nações faz parte de múltiplos agrupamentos, formados com base em interesses e posições comuns.

Todos os países da região integram há muito tempoo Grupo dos 77 e China, uma coalizão de nações em desenvolvimento que atua no âmbito do sistema da ONU. Enquanto isso, um bloco que inclui Chile, Colômbia e Panamá compõe a Associação Independente da América Latina e do Caribe (Ailac). Há também o Grupo Sul, um bloco formado principalmente por países do Cone Sul, bem como a Alternativa Bolivariana para as Américas, que ganhou destaque no final da década de 2000.

A possibilidade que a América Latina e o Caribe têm ao negociar em conjunto tem um poder superior a qualquer possibilidade que possamos ter ao negociar separadamente
María Fernanda Souza, diretora de mudanças climáticas do Uruguai

O resultado desses agrupamentos diversos  é que a América Latina se mostra dividida nas negociações. A unidade regional como a demonstrada pela África, permitiu que o continente alcançasse resultados mais eficazes, segundo alguns especialistas.

María Fernanda Souza, diretora de mudanças climáticas do Uruguai e presidente suplente do Grupo dos 77, disse ao Dialogue Earth que a incapacidade de negociar como um bloco “teve e continua a ter custos” para a América Latina. “Não consigo identificar exatamente por que não conseguimos estar mais unidos”, continuou ela. “A possibilidade que a América Latina e o Caribe têm de negociar em conjunto tem um poder superior a qualquer possibilidade que possamos ter ao negociar separadamente.”

Souza destaca que os interesses dos países do sul, que dependem fortemente das indústrias pecuária e agrícola, são diferentes dos das ilhas do Caribe, que têm sido duramente atingidas pelas mudanças climáticas e precisam desesperadamente de recursos para se adaptar.

No entanto, há questões específicas em que os países latino-americanos deveriam ser capazes de deixar de lado as diferenças políticas e se unir, disse López. Ela identificou o financiamento climático como um desses temas para a COP31: “Como não há grandes conflitos, os países conseguirão se alinhar mais facilmente.”

Toni acredita que essa divisão precede mudanças políticas recentes na região: “Mesmo quando havia outros governos no poder, nunca falamos realmente a uma só voz.” Ela rejeitou a ideia de que a região seja diversa demais para se alinhar, ressaltando que a África, que vota em bloco, também possui uma pluralidade de países, incluindo pequenos estados insulares. “Acho que sempre é possível, e acho que é desejável”, disse ela.

López teme que uma América Latina com perfil discreto na COP31 leve essa fraqueza para a COP32, a ser sediada na Etiópia: “No momento em que se destaca a África como uma região especial – uma região particularmente vulnerável –, [haverá] aqueles que ficarão de fora do universo do ‘somos importantes, somos vulneráveis’. E essa será a América Latina.”

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