Florestas Marina Silva: ‘O Brasil vai assumir o protagonismo ambiental internacional’ Ex-ministra e agora deputada federal, ambientalista volta a Brasília após hiato de uma década, disposta a 'resgatar a agenda socioambiental brasileira perdida' Português Português Español English Compartilhar a matéria × Copy link to page Copy link to page × Republicar esta matéria Você pode republicar os textos do Dialogue Earth sob a licença Creative Commons. Por favor, confira nossa política de republicação. Marina Silva em uma entrevista em setembro passado. Após mais de uma década fora de Brasília, ela foi eleita deputada federal. “O Brasil vai voltar a liderar pelo exemplo”, assegura. (Imagem: Reuters / Amanda Perobelli / Alamy) Flávia Milhorance Outubro 14, 2022Agosto 18, 2023 Após mais de uma década fora de Brasília, a ambientalista Marina Silva encontrará ano que vem uma capital diferente da que deixou. Eleita deputada federal em 2 de outubro, ela também é cotada para voltar a comandar o Ministério do Meio Ambiente se Luiz Inácio Lula da Silva vencer, no próximo dia 30, o segundo turno das eleições presidenciais contra o atual gestor, Jair Bolsonaro. 58% Foi a redução do desmatamento na Amazônia brasileira entre 2004 e 2007, sob a gestão de Marina Silva como ministra do Meio Ambiente Marina Silva ocupou o ministério de 2003 e 2008, durante parte da gestão do ex-presidente Lula, quando o Brasil se tornou protagonista mundial na criação de áreas protegidas e o desmatamento da Amazônia caiu 58% em três anos (de 2004 a 2007). Ela deixou o ministério por que os rumos da agenda do governo atritavam com sua política ambiental e depois ficou mais três anos em Brasília para concluir seu mandato como senadora, do qual tinha se licenciado para ocupar o ministério, até 2011. Desde então, ela buscava um caminho independente na política, com a criação de seu partido, a Rede Sustentabilidade, disputando três eleições presidenciais e seguia avessa ao Partido dos Trabalhadores e seus líderes. Mas, em 12 de setembro, a maré virou. Em uma coletiva de imprensa divulgada na noite anterior e realizada em uma sala apertada para os jornalistas presentes, Lula e Marina anunciaram sua reconciliação. “Politicamente, existiu — e existem — divergências,” disse ela ao Diálogo Chino, que, no entanto, argumentou que “o risco de uma segunda gestão” Bolsonaro exigia alianças amplas. “Chegamos a uma situação em que ou é democracia ou o fim da democracia”. Silva disse que, apesar da distância política, ela e Lula — que têm trajetórias parecidas de infâncias pobres e lutas em movimentos sociais — nunca deixaram de conversar. No reencontro, selado antes em uma conversa privada, ela lhe entregou uma lista com 26 compromissos para “resgatar a agenda socioambiental brasileira perdida”. Saiba mais: Imagens aéreas mostram ‘corrida’ de destruição pré-eleitoral na Amazônia No documento depois divulgado à imprensa, Silva cobra a recomposição dos quadros técnicos e dos orçamentos de órgão ambientais, inclusive do próprio Ministério do Meio Ambiente, esvaziado na gestão Bolsonaro; a retomada do plano de prevenção e controle do desmatamento da Amazônia e do Cerrado — criado em sua gestão como ministra; o incentivo à agricultura de baixo carbono, entre outras ações. Ela confia que suas propostas serão levadas adiante por Lula, caso vença a presidência: “Naquele dia 12, o ex-presidente assumiu um compromisso público dizendo que a agenda ambiental brasileira será transversal e que ela estará no mais alto nível de prioridade”. Ministra novamente? O nome de Silva parece o mais óbvio para assumir o ministério em uma eventual vitória petista. Mas, questionada se aceitaria o possível cargo, ela desconversa: “Nesse momento, nenhum candidato a presidente deve ficar falando em ministério. E ninguém que apoia uma candidatura deve fazer isso pensando em ministério”. Como deputada federal ou ministra, a ambientalista terá pela frente um Congresso, como definiu a Revista Piauí, “mais hostil ao meio ambiente”, a começar pela eleição do ex-ministro Ricardo Salles. Mesmo renunciando ao cargo após denúncias em sua administração da pasta, ele volta a Brasília com quase três vezes mais votos que Silva. Nesse momento, nenhum candidato a presidente deve ficar falando em ministério. E ninguém que apoia uma candidatura deve fazer isso pensando em ministério Além de Salles, chegam ao Senado nomes como o do ex-ministro bolsonarista Jorge Seif Junior, que, segundo o The Intercept, mudou normas do setor pesqueiro para beneficiar sua família. E no Congresso, volta o deputado Zé Silva, autor do projeto de lei que pode impulsionar a grilagem de terras. Joênia Wapichana, até então a única líder indígena no Congresso, não se reelegeu. Por outro lado, as indígenas Sônia Guajajara e Célia Xakriabá ganharam sua primeira eleição. Os ambientalistas que pisarem em Brasília em 2023 encontrarão uma paisagem brasileira transformada pelos recordes de incêndios e desmatamento, impulsionados pela fronteira agrícola, e de garimpo em terras indígenas; pelas ondas de calor e seca em áreas do agronegócio — situações difíceis de serem revertidas no curto prazo, apesar de as metas climáticas assumidas pelo país já baterem à porta. Dificuldades no próprio governo petista As dificuldades podem vir até de um potencial governo Lula. “O afastamento de Lula e Marina era representativo e muito profundo”, explicou Natalie Unterstell, fundadora do instituto Política por Inteiro, que acompanha a política ambiental no Brasil. “Ele tem uma agenda mais desenvolvimentista, enquanto que ela, uma agenda mais sustentabilista”. Além disso, o ressentimento de Silva ultrapassava as divergências políticas e acumulava batalhas perdidas. Uma de suas mágoas mais notórias com o PT ocorreu nas eleições presidenciais de 2014, quando Dilma Rousseff buscava a reeleição e sua equipe empreendeu uma campanha pesada contra a também candidata à presidência. Saiba mais: O que esperar das relações Brasil-China após a eleição presidencial No segundo turno daquelas eleições, Silva apoiou o candidato da direita, Aécio Neves, contra Rousseff, reeleita. E em 2016, ela também apoiou o impeachment da presidente. Até mesmo em 2018, na disputa de segundo turno entre o petista Fernando Haddad e o candidato da ultra-direita Jair Bolsonaro, Silva resistiu em se manifestar a favor do PT, mas acabou expressando um “voto crítico” em Haddad, sem muitas aparições. Hoje, analistas políticos enxergam a vitória da extrema direita e do discurso antissistema de Bolsonaro como um processo impulsionado pelo impeachment da ex-presidente. Questionada se teria se arrependido de suas decisões de apoio na época, ela é ambivalente: “O contexto que nós tínhamos era um contexto em que escolhas políticas tinham que ser feitas, e elas foram feitas à luz dos fatos que ali estavam expostos”. O Brasil vai voltar a liderar pelo exemplo, vai assumir o protagonismo na agenda ambiental internacional Mesmo que os ressentimentos do passado continuem presentes, os políticos resolveram olhar para frente. “Foi um reencontro realmente programático, e é muito bem-vindo”, disse Unterstell. “Ele toca as mentes e os corações das pessoas”. Desde então, Marina Silva tem colocado sua influência à disposição da campanha petista. No final de semana anterior ao primeiro turno das eleições, ela subiu nos palanques de Lula em São Paulo, e, agora, tem se voluntariado a conversar com políticos e eleitores em prol do ex-presidente. Na entrevista ao Diálogo Chino, concluiu confiante: “O Brasil vai voltar a liderar pelo exemplo, vai assumir o protagonismo na agenda ambiental internacional, naquilo que ele pode dar a sua melhor contribuição”. Continue lendo Reportagem Mineração Mineradoras buscam novas áreas de exploração em territórios indígenas Podcast Povos Indígenas Brasília, o palco de batalhas políticas pelo futuro da Amazônia Fotorreportagem Povos Indígenas A jornada de uma aldeia amazônica para escapar do avanço da soja Reportagem Povos Indígenas Como a agroindústria ilhou o Xingu, mais antiga reserva indígena do Brasil Reportagem China no mundo O impasse da estatal chinesa CCCC no Brasil Reportagem Comércio Senado do Chile aprova polêmico acordo comercial trans-Pacífico Reportagem Comércio Panamá joga EUA contra China em negociações de acordo de livre comércio Reportagem Desmatamento Ponto de virada: povos indígenas pedem medidas urgentes na Amazônia