Negócios Opinião: Brasil não pode ignorar crise da dívida do Sul Global Como potencial líder ambiental, o Brasil pode ajudar a mediar a crise da dívida de vários países Português Português Español English Compartilhar a matéria × Copy link to page Copy link to page × Republicar esta matéria Você pode republicar os textos do Dialogue Earth sob a licença Creative Commons. Por favor, confira nossa política de republicação. Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ex-presidente Dilma Rousseff em evento em Brasília. No início do ano, Rousseff foi nomeada para a presidência do Novo Banco de Desenvolvimento, também conhecido como Banco dos Brics (Imagem: Marcelo Camargo / Agência Brasil) Marina Zucker-Marques, Kevin Gallagher Abril 12, 2023Maio 18, 2023 O Sul Global está à beira de uma crise da dívida pública. De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), cerca de 36 países pobres estão endividados ou com alto risco de endividamento. Chade, Etiópia e Gana estão conduzindo negociações para a reestruturação de suas dívidas, que são tão altas que dominam o orçamento público. Pelo menos 62 países gastaram mais com suas dívidas do que investindo em saúde no auge da pandemia de Covid-19. US$ 1 trilhãoÉ o acréscimo anual no orçamento que os países em desenvolvimento precisam para impulsionar o desenvolvimento sustentável e alcançar as metas climáticas até 2030. Da mesma forma, os países em desenvolvimento (excluindo a China) precisam de pelo menos US$ 1 trilhão a mais por ano até 2030 — mais ou menos 4% de seu Produto Interno Bruto (PIB) — para impulsionar o desenvolvimento sustentável e alcançar as metas climáticas. Essas mesmas nações carregam o peso de uma crise climática que não foi causada por elas, e sim pelos países ricos. A frequência crescente de eventos extremos como enchentes, secas e furacões ameaça o bem-estar da humanidade — e agrava os déficits fiscais. Como países à beira de um colapso financeiro conseguiriam mobilizar recursos para atingir as metas globais do clima e do desenvolvimento sustentável? Agora que o Brasil começa a recuperar suas credenciais ambientais e diplomáticas no cenário internacional, ele tem uma oportunidade crucial de contribuir com as negociações da dívida pública do Sul Global e abrir caminho para um crescimento verde. O Brasil tem fortes relações diplomáticas com os principais credores, da China aos membros permanentes do Clube de Paris — grupo de 22 nações credoras, quase todas da Europa, além de EUA, Japão, Rússia e o próprio Brasil. Embora a questão da dívida não apareça na agenda do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na China — que começa hoje, dia 12, e inclui uma reunião com o presidente chinês Xi Jinping —, a viagem pode ser um primeiro passo rumo a um consenso. O Brasil pode contribuir com as negociações da dívida pública do Sul Global e abrir caminho para um crescimento verde O Brasil também vai sediar a cúpula do G20 em 2024, proporcionando amplo espaço para moldar o diálogo multilateral — e até pressionar pela revisão do Quadro Comum do G20, uma tentativa de trazer os grandes credores à mesa para buscar aliviar as dívidas de nações mais vulneráveis. Esse alívio exige uma reforma da arquitetura financeira global. Em 2020, o G20 reconheceu a necessidade de reestruturação das dívidas públicas e endossou a criação do Quadro Comum. Até os anos 1990, os principais credores do mundo eram membros do Clube de Paris; hoje, China, Índia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos também são credores relevantes. Detentores privados de títulos da dívida pública também ganharam importância e acumulam hoje quase metade da dívida de países em desenvolvimento. Recommended O Quadro Comum, tal como está configurado hoje, não consegue resolver a situação, por três razões: exclui os países em desenvolvimento; seu processo é excessivamente lento — os países que se candidataram ainda não viram uma redução da dívida; e não há incentivos para convencer credores privados a participar. O tímido envolvimento de credores multilaterais, como o Banco Mundial e o FMI, também foi alvo de críticas da China e atrasou ainda mais uma reestruturação abrangente dessas dívidas. Paralelamente a essa reforma, o Quadro Comum deveria associar o alívio da dívida aos compromissos de investimento em sustentabilidade. Isso alinharia as negociações das dívidas públicas com a agenda verde do novo governo brasileiro. Uma versão atualizada dos títulos Brady, ou Bradies, dos anos 1990 — que converteram dívidas em títulos com valores mais acessíveis e ajudaram a aliviar a crise da dívida latino-americana da época — poderia incentivar a participação de uma ampla variedade de credores. Dívidas e vulnerabilidades climáticas estão interligadas, mas o ciclo pode ser quebrado. O caminho é resolver a iminente crise da dívida e criar oportunidades de investimento em metas climáticas. O Brasil está em uma posição privilegiada para intermediar essas negociações e moldar uma nova arquitetura financeira global. Continue lendo Reportagem Geopolítica Visita de Lula à China: quatro resultados para o meio ambiente Reportagem Energias renováveis ‘O Peru está anos atrasado na transição energética’ Reportagem Direitos humanos ‘Escazú é um começo para a proteção dos direitos humanos’ Reportagem Dívida Premiê de Barbados lidera movimento para transformar finanças globais Reportagem Desmatamento Povo indígena pode sumir no Paraguai com aval de grandes bancos Reportagem Direitos humanos Escazú, parte 2: desafios para ratificar o histórico acordo ambiental Reportagem Proteção marinha Uruguai quer expandir proteção marinha — e petróleo offshore Reportagem Saúde Quatro impactos à saúde causados pela crise climática na América do Sul