Natureza

‘País dos anfíbios’, Equador corre para estudar sua diversidade

Cientistas aceleram esforços para mapear o patrimônio do país, que abriga mais de 700 espécies de anfíbios, em meio a pressões ambientais
<p><span style="font-weight: 400;">(Ilustração: </span><a href="https://www.behance.net/pablopax"><span style="font-weight: 400;">Pablo Ruiz Teneb</span></a><span style="font-weight: 400;"> / Dialogue Earth)</span></p>

(Ilustração: Pablo Ruiz Teneb / Dialogue Earth)

Cientistas no Equador correm contra o tempo para mapear a riqueza de anfíbios do país, ameaçada pela perda acelerada de habitats.

O país é o quarto menor em área da América do Sul, mas tem uma diversidade biológica abundante: são 281,3 espécies de anfíbios a cada cem mil quilômetros quadrados, conforme um banco de dados da Pontifícia Universidade Católica do Equador (PUCE). É a maior concentração por área do mundo, coroando o Equador como o “país dos anfíbios”.

Até agora, as iniciativas de taxonomia contabilizaram mais de 700 espécies de anfíbios no Equador, incluindo sapos, rãs, salamandras e cecílias. Fundamentais para o ecossistema, eles funcionam tanto como consumidores de insetos quanto como presas de animais maiores, constituindo um elo intermediário nas cadeias de energia e nutrientes.

Sapos e rãs têm ainda um valor cultural para povos indígenas da Amazônia equatoriana, como os Shuar e os Achuar. E também têm venenos com propriedades medicinais. “É por isso que o Equador é privilegiado”, explicou a bióloga Andrea Terán ao Dialogue Earth, que coordena a “Arca dos Sapos”, um grupo de pesquisa do Centro Jambatu de Pesquisa e Conservação de Anfíbios, sediado em Quito.

Porém, enquanto o país segue revelando novas espécies, o tempo urge: a perda de habitat e as mudanças climáticas ameaçam essa riqueza biológica antes que ela seja estudada.

“Quando você pesquisa todos os grupos – fauna, flora e, no nosso caso particular, anfíbios –, começa a entender por que esses lugares precisam ser protegidos”, afirmou Terán.

Sapo-de-chifre-da-Amazônia (Ceratophrys cornuta)
Sapo-de-chifre-da-Amazônia (Ceratophrys cornuta) no Parque Nacional Yasuní, Equador. Essa espécie rara é afetada pela perda de habitat associada ao desmatamento (Imagem: Lucas Bustamante / Nature Picture Library / Alamy)

Polo de biodiversidade

O Equador é um dos 17 países considerados megadiversos da Terra. Entre sua fauna de anfíbios, 49% das espécies identificadas pela BioWeb são exclusivas do país. Em janeiro passado, cientistas descreveram sete espécies endêmicas do Equador cujas linhagens se separaram há 21 milhões de anos. A descoberta ajudou a revelar mais uma peça do quebra-cabeça da história evolutiva do Equador.

Santiago Ron, biólogo evolucionista, professor da PUCE e curador de anfíbios do museu de zoologia da universidade, afirma que a geografia do país ajudou diversas espécies a prosperar: a elevação do norte dos Andes tropicais há 25 milhões de anos, além da coexistência com a floresta amazônica e o Oceano Pacífico, criaram uma variedade de paisagens, padrões climáticos e nichos ecológicos. Todos esses fatores impulsionaram a evolução das espécies.

Além disso, o Equador geralmente mantém um clima tropical relativamente estável, com disponibilidade de água durante quase todo o ano. Essas são condições ideais para um grupo altamente dependente da umidade, como os anfíbios.

neblina em meio à vegetação tropical de montanha
A grande disponibilidade de água e a localização do Equador entre a Cordilheira dos Andes, a Amazônia e o Oceano Pacífico criaram condições ideais para a reprodução dos anfíbios (Imagem: Michael Marquand / Alamy)

Graças a esses fatores, o Equador hoje é o terceiro país com mais espécies de anfíbios no mundo, depois do Brasil e da Colômbia. No Parque Nacional Yasuní, na Amazônia equatoriana, há 140 espécies apenas nos 6,5 km² da reserva Tiputini. 

Porém, a maioria dos anfíbios do Equador está concentrada na região andina, segundo dados da PUCE. Muitos sapos vivem em altitudes de 4,1 mil metros acima do nível do mar ou superiores, explicou Diego Cisneros, diretor do museu de zoologia da Universidade de San Francisco de Quito. 

Outras espécies vivem em montanhas mais antigas que os Andes, como as cordilheiras Kutukú e Cóndor. Elas têm cerca de 150 milhões de anos e, por muito tempo, foram esquecidas pela ciência. “São como mundos perdidos de anfíbios”, contou Ron.

Corrida contra o tempo

Luis Coloma, diretor do Centro Jambatu, calculou que o Equador pode abrigar mais de 900 espécies de anfíbios. Porém, com a taxa atual de 13 novas espécies descobertas ao ano, a catalogação de todas elas levaria outros 15 a 20 anos — e ele teme que não haja tempo suficiente para isso. Cerca de 60% das espécies de anfíbios do Equador estão em risco de extinção; em todo o mundo, esse número gira em torno dos 40%. 

A mineração e a agricultura são importantes vetores de desmatamento e fragmentação do habitat, explicou Cisneros. Segundo ele, o uso de pesticidas e fertilizantes sintéticos também altera a química dos solos com impactos para os anfíbios.

Esses animais ainda sofrem com a disseminação global da quitridiomicose, doença infecciosa fatal provocada por um fungo aquático. Cientistas estimam que a infecção já tenha causado cerca de 90 extinções de espécies de anfíbios no mundo todo.

Anfíbio Hyloscirtus maycu, espécie com menos de cinco centímetros de extensão recém-descoberta na Reserva Maycú, Amazônia equatoriana (Ilustração: Pablo Ruiz Teneb / Dialogue Earth; Áudio: PUCE / BioWeb)

Em fevereiro de 2025, o Instituto Nacional de Biodiversidade do Equador anunciou a descoberta de quatro novas espécies na província de Carchi, no extremo norte do país. Uma delas recebeu o nome de Pristimantis praemortuus — em latim, raemortuus significa literalmente “pré-morte”.

“Muitas espécies estão sendo classificadas à beira da extinção”, explicou Mario Yáñez, pesquisador do instituto, em entrevista ao Dialogue Earth.

Na Cordilheira do Condor, pequena cadeia montanhosa na província de Zamora-Chinchipe, no sul do Equador, pesquisadores da Universidade de San Francisco de Quito trabalham para identificar 24 novas espécies. Mas, a esta altura, algumas podem já ter perdido seu habitat antes de serem formalmente reconhecidas, segundo Cisneros. O anfíbio número 700 do banco da PUCE, Hyloscirtus maycu, recebeu o nome da Reserva Maycú, na província onde foi descoberto. A reserva está sob ameaça da mineração ilegal.

Andrea Terán, do Centro Jambatu, enfatizou que “qualquer tipo de mineração envolve riscos” em um país tão diverso. Ela participou de uma ação judicial em 2020 que suspendeu temporariamente o projeto de mineração de cobre Llurimagua, na província de Imbabura, no norte do Equador. Os estudos de impacto ambiental do projeto omitiram a presença de espécies ameaçadas, como o sapo-arlequim-do-nariz-comprido (Atelopus longirostris). Porém, em 11 de dezembro, o governo anunciou que Llurimagua entraria em processo de licitação este ano.

Sapo-arlequim-do-nariz-comprido (Atelopus longirostris), espécie ameaçada na província de Imbabura, Equador. Ele foi considerado extinto após vinte anos sem avistamentos (Ilustração: Pablo Ruiz Teneb / Dialogue Earth; Áudio: Amadeus Plewnia / Jambatu Centre)

Símbolo de esperança

Apesar das ameaças, os últimos anos também trouxeram boas notícias para os esforços de conservação. Na última década, cinco espécies consideradas extintas foram redescobertas. No ano passado, cientistas encontraram dois espécimes da Pristimantis ruidus – espécie que estava oficialmente extinta há um século. 

Mas nenhuma história foi tão emblemática quanto a do jambato-negro (Atelopus ignescens). Espécie comum nos Andes até os anos 1980, ela estava desaparecida desde 1988. Após décadas de buscas infrutíferas, foi declarada extinta. Mas, em maio de 2016, o Centro Jambatu anunciou sua reaparição em Angamarca, na província de Cotopaxi.

Desde então, o jambato-negro foi adotado como espécie emblemática pela comunidade local, que celebra um festival anual em sua homenagem na data em que foi encontrado, em 21 de abril. Também foi criado o programa de conservação Aliança Jambato, liderado pela bióloga María del Carmen Vizcaíno.

Especialistas acreditam que as secreções de peptídeos do jambato-negro (Atelopus ignescens) podem ter potencial para o tratamento do câncer (Ilustração: Pablo Ruiz Teneb / Dialogue Earth; Audio: Morley Read / Jambatu Centre)

A redescoberta dessa espécie abriu novos horizontes para a pesquisa biomédica. Em um laboratório da PUCE, a microbiologista Miryan Rivera estuda as secreções da pele do jambato-negro em busca de peptídeos com potencial para o tratamento do câncer. “Estamos encontrando sapos muito eficientes em matar células malignas sem danificar as células saudáveis”, contou ao Dialogue Earth. O objetivo de Rivera é que as descobertas gerem benefícios diretos para a saúde humana.

Para Santiago Ron, da PUCE, o Equador precisa valorizar sua riqueza biológica e olhar para os sapos e rãs com mais carinho. “Às vezes, as pessoas têm uma visão negativa dos anfíbios. Mas são animais maravilhosos”.

“Os anfíbios mostram como o Equador é megadiverso. Se a base da taxonomia é saber quanta riqueza temos e como conservá-la, então vamos ouvir os sapos”, concluiu Terán.

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