Clima

Sol forte e sem sombra: Calor extremo põe futebol à prova

Copa do Mundo de 2026 mantém jogos em estádios com elevados riscos climáticos, apesar de impactos à saúde de atletas e espectadores
<p>Espectadores usam guarda-chuvas para se proteger do sol em partida do Brasil contra a Coreia do Norte, na Copa do Mundo Feminina Sub-20 em Medellín, Colômbia. O calor extremo é um problema crescente no esporte (Imagem: <a href="https://flic.kr/p/2qgF5hs">CBF Oficial</a> / <a href="https://www.flickr.com/people/cbf_futebol/">Flickr</a>, <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc/2.0/deed.pt-br">CC BY NC</a>)</p>

Espectadores usam guarda-chuvas para se proteger do sol em partida do Brasil contra a Coreia do Norte, na Copa do Mundo Feminina Sub-20 em Medellín, Colômbia. O calor extremo é um problema crescente no esporte (Imagem: CBF Oficial / Flickr, CC BY NC)

Fazia 33 °C quando um jogador de 16 anos desmaiou durante um teste no clube Cerro Porteño, do Paraguai. Ele era um dentre centenas de jovens que haviam chegado ao centro de treinamento em 21 de novembro de 2025, sonhando em vestir a camisa de um dos times de futebol mais populares do país. O adolescente sofreu uma parada cardíaca e foi prontamente socorrido pela equipe médica do clube.

Para o escritor uruguaio Eduardo Galeano, autor do clássico Futebol ao sol e à sombra, o esporte é “música no corpo, festa nos olhos”. Em seu livro, Galeano também conta como Diego Armando Maradona, lendário astro do futebol argentino, “denunciou a ditadura onipotente da televisão, que obrigava os jogadores a se matarem ao meio-dia, torrando ao sol” nas Copas do Mundo de 1986 e 1994, respectivamente no México e nos Estados Unidos. Agora, com a Copa do Mundo deste ano, disputada justamente nesses dois países e no Canadá, essa história tem tudo para se repetir.

A diferença agora é que o calor extremo ficou ainda mais intenso, representando um risco para o esporte. Pesquisadores, treinadores e cientistas buscam soluções, que vão desde alertas climáticos a campanhas para mudar o horário dos jogos e a proibição de gramados sintéticos, que retêm mais calor.

Calor extremo nas Américas

Mesmo nas categorias profissionais, o calor é um problema recorrente. As altas temperaturas nos Estados Unidos para a Copa América de 2024 forçaram a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) a reformular seu protocolo médico. Já um relatório publicado no ano passado pela Football for Future alertou que 14 dos 16 estádios que sediarão jogos da Copa do Mundo masculina deste ano excedem os “limites de segurança” para riscos climáticos, incluindo o calor extremo.

Os mais vulneráveis às altas temperaturas, porém, não são os atletas adultos; e sim as crianças e adolescentes das categorias de base. No verão de 2023, todas as partidas juvenis no Paraguai foram suspensas entre 10h e 17h devido às altas temperaturas. Na Argentina, várias ligas locais tomaram decisões semelhantes devido às ondas de calor.

Cientistas sugerem que os episódios mais frequentes de calor extremo estejam ligados às mudanças climáticas. Um dos locais afetados foi a cidade de Rosário, na Argentina, que tem como um de seus principais clubes o Newell’s Old Boys, onde jogaram os campeões mundiais Diego Maradona e Lionel Messi.

Para o coordenador das divisões juvenis do Newell’s, Gustavo Tognarelli, o impacto do calor “ainda não está na agenda das instituições” e mais clubes deveriam levar isso a sério. Tognarelli supervisiona mais de 400 crianças e adolescentes que jogam pelo clube.

De acordo com o último relatório da Lancet Countdown, caminhar ou correr em certas horas do dia representa um perigo para a saúde na América Latina. A pesquisa concluiu que, em comparação com a década de 1990, o período de exposição ao risco de estresse térmico aumentou em quase 300 horas anuais nos últimos dez anos.

“O impacto é perceptível nos treinos. Não é a mesma coisa para uma criança que treina às oito da manhã e outra que treina às dez”, disse Tognarelli ao Dialogue Earth.

Ele também acredita que a escolha pelo uso de gramados sintéticos complicou ainda mais a situação. Esses campos resistem bem em dias chuvosos, mas “retêm muito mais calor”.

Estádios da Copa de 2026 excedem “limites de segurança” para riscos climáticos
Estádios da Copa de 2026 excedem “limites de segurança” para riscos climáticos, segundo pesquisa. Mesmo pausas para hidratação, como esta do Chelsea no Mundial de Clubes de 2025, podem ser insuficientes para a segurança dos atletas (Imagem: Sportimage / Alamy)

Iván Vázquez, diretor das divisões juvenis do Club Olimpia, no Paraguai, é ainda mais enfático: “Os campos de grama sintética deveriam ser proibidos aqui. As temperaturas podem machucar os pés das crianças, causando queimaduras quando elas caem”.

Em competições juvenis, um desafio recorrente é a diferença de horários das partidas entre categorias ao longo do dia. Isso pode fazer com que algumas crianças joguem nas horas mais quentes, sofrendo mais com o calor.

A Conmebol, autoridade do futebol profissional na América do Sul, diz que “controla as altas temperaturas em seus torneios por meio de protocolos médicos rigorosos, que incluem o monitoramento da umidade e da temperatura do ambiente com equipamentos especializados”.

Intervalos para hidratação são obrigatórios acima de determinadas temperaturas, juntamente com exames médicos pré-jogo, aclimatação e educação sobre insolação.

Isso não significa que os protocolos sejam sempre seguidos. Essas medidas também valem para torneios juvenis e estavam em vigor quando o jogador de 16 anos desmaiou no treino no Paraguai em novembro passado. Além disso, um estudo de 2018 destacou a falta de ambulâncias nos treinos e jogos juvenis nas ligas do Paraguai, país-sede da Conmebol.

Crianças em risco

O protocolo da Conmebol foi criado originalmente para a Copa América de 2016 nos Estados Unidos. Porém, desde então, muitas competições na região têm sido criticadas por sua negligência em relação ao calor extremo. A entidade precisou atualizar e ampliar seu protocolo para a Copa América de 2024, também nos EUA, em resposta às evidências crescentes sobre o impacto nocivo de jogar no verão. Apesar das medidas, um árbitro desmaiou no torneio, em uma das nove partidas disputadas sob calor intenso. 

Gregory Wellenius, pesquisador de mudanças climáticas e saúde ambiental da Escola de Saúde Pública da Universidade de Boston, disse que, no futebol juvenil, o desafio vai além dos protocolos e do controle de horários e superfícies de jogo.

Não sabemos realmente qual é o impacto a longo prazo da exposição ao calor extremo nas crianças
Gregory Wellenius, pesquisador sobre mudanças climáticas e saúde ambiental na Universidade de Boston

Algumas cidades dos EUA, por exemplo, têm sistemas de prevenção e alerta para casos de calor extremo, mas eles são “projetados para a população em geral” e “certamente não para crianças e jovens jogadores de futebol”, destacou. 

“Crianças não são adultos pequenos; elas são termodinamicamente diferentes. Elas suam de maneira diferente, e a transpiração é o mecanismo que os seres humanos têm para resfriar o corpo”, explicou Wellenius.

O pesquisador acrescentou que locais historicamente não afetados por altas temperaturas agora têm mais problemas para adaptar sua infraestrutura. “O que pode ser comum em Houston ou na América Central não é tão comum em cidades como Boston, que costumava ser mais fria e agora passa por ondas de calor”.

Além da fisiologia e da infraestrutura, Wellenius lembra que as crianças são “menos propensas a saber quando parar” diante do calor intenso em ambientes competitivos. 

“Nós não sabemos realmente o impacto a longo prazo da exposição ao calor extremo em crianças”, reforçou o pesquisador. “O que acontece com seus corpos se elas estão constantemente sob pressão de altas temperaturas?”.

Adaptação nos estádios

Philip Jenkins, um dos principais autores do relatório da Football for Future, sobre os perigos climáticos da próxima Copa do Mundo, afirmou que essa é uma realidade que veio para ficar: “Nossa análise mostra que, até 2050, o calor extremo nos estádios se tornará o novo normal, e quase 90% precisará se adaptar para lidar com isso”. 

O relatório focou nos estádios que sediarão as próximas três Copas do Mundo, O relatório analisou os estádios que sediarão as próximas três Copas do Mundo, além de arenas marcantes no início da trajetória de lendas do futebol, como Lionel Messi e Pelé. Em alguns desses estádios, partidas de futebol e treinos serão seriamente prejudicados por temperaturas extremas até 2050, segundo o relatório.

Crianças disputam bola em partida entre La Coruña e Real Sociedad
Crianças disputam bola em partida entre La Coruña e Real Sociedad, na Espanha. Em alguns torneios infantis, crianças jogam no horário mais quente do dia, sofrendo mais com o calor (Imagem: Miguel Lopes / Flickr, CC BY ND)

Diante desse “novo normal”, treinadores e pesquisadores destacam a necessidade de medidas de mitigação. 

Pausas para resfriamento e a substituição da grama sintética pela natural podem ajudar. Porém, de forma mais ampla, “a região precisa desenvolver sistemas de alerta precoce para o calor extremo”, disse Francisco Chesini, pesquisador de saúde pública da Universidade de Buenos Aires e membro da Rede Global de Informações sobre Saúde e Calor.

Esses sistemas já estão sendo implementados em países como a Espanha, onde previsões locais e limites de temperatura acionam uma resposta conjunta de autoridades e profissionais de saúde. O Paraguai pretende desenvolver um sistema desse tipo como parte de sua política climática, mas a iniciativa ainda depende de financiamento.

“Ainda há um longo caminho a percorrer para aumentar a conscientização sobre a necessidade de investir em infraestrutura”, disse Tognarelli, do Newell’s Old Boys. 

Mas, acrescenta ele, “trata-se de um investimento, não de um gasto. Nosso papel deve ser proteger e oferecer uma formação integral a essas crianças”.

Wellenius, da Universidade de Boston, disse que a adaptação não elimina os riscos, mas capacita pessoas para tomar decisões informadas. Segundo ele, há uma oportunidade ainda inexplorada de engajar as comunidades do futebol não apenas em proteger crianças e adolescentes no esporte, mas também em ampliar a conscientização e pressionar por políticas públicas relacionadas ao calor extremo.

“As pessoas sabem que o calor é um problema, mas não acham que seja problema delas”, disse ele. “Não basta emitir alertas na imprensa ou nas redes sociais para temperaturas extremas; essas informações devem ser comunicadas estrategicamente àqueles que têm a confiança de outras pessoas nessas comunidades, como mães e treinadores”.

Esta reportagem do Dialogue Earth faz parte do projeto Community Adaptations to City Heat, em parceria com a Universidade de Boston. O projeto é financiado pela organização Wellcome.

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