“O mundo está falando sobre o hidrogênio verde”, disse Gustavo Petro, presidente da Colômbia, em uma reunião com executivos da estatal petrolífera Ecopetrol em 2024. “E ele não contém petróleo, carvão nem gás”.
“Temos um novo papel geopolítico no mundo. Aqui podemos produzir a energia limpa que o Norte Global precisa para sua descarbonização”, concluiu Petro.
Enquanto o governo colombiano promove a exportação de energia limpa, o país avança no setor de hidrogênio. A produção desse combustível na Colômbia aumentou 12 vezes entre 2023 e 2024, impulsionada em grande medida pela própria Ecopetrol: a empresa produz 130 mil toneladas de hidrogênio ao ano, segundo dados fornecidos ao Dialogue Earth.
Porém, embora o hidrogênio seja visto como uma alternativa mais limpa aos combustíveis fósseis, não fica claro até que ponto essa experiência é realmente sustentável.
A promessa
O hidrogênio não emite dióxido de carbono quando queimado e pode ser obtido por vários métodos. Um deles é a eletrólise do vapor d’água, que quebra as moléculas de H2O para separar o oxigênio e o hidrogênio — essa técnica pode usar energia 100% renovável.
Também há diferentes classificações para o gás conforme sua origem e os métodos usados para produzi-lo. O Ministério da Energia da Colômbia contempla as seguintes categorias: o hidrogênio preto ou marrom, derivado do carvão; branco, produzido por processos geológicos naturais; cinza, do gás natural; azul, do gás natural, mas com sequestro de carbono; turquesa, do gás natural, mas com carbono sólido como subproduto; amarelo, da eletrólise da rede elétrica convencional; rosa, da eletrólise alimentada por energia nuclear.
E finalmente o verde, que surge da eletrólise alimentada apenas por fontes renováveis. De todas as versões, essa é a que promete mais soluções de descarbonização. Porém, seu mercado ainda é incipiente: das quase cem milhões de toneladas de hidrogênio produzidas no mundo em 2024, menos de 1% veio de tecnologias de baixo carbono.
Mesmo assim, a Colômbia aposta em expandir sua produção. De acordo com seu Plano de Hidrogênio, o governo pretende instalar de um a três gigawatts de capacidade de eletrólise para a produção de hidrogênio verde até 2030. O plano também calcula que a Colômbia terá produzido 50 mil toneladas de hidrogênio azul até o fim da década.
Há mais de 30 projetos de hidrogênio em diferentes estágios e US$ 40 bilhões investidos, segundo o Ministério de Energia da Colômbia. O país ainda planeja incentivar uma transição no transporte público para aproveitar o hidrogênio.
Onde é produzido?
O governo aposta fortemente no projeto Coral, em Cartagena, no norte da Colômbia. Essa usina de hidrogênio verde usará a chamada eletrólise por membrana de troca de prótons (PEM), mais eficiente do que a eletrólise convencional. Ela começará a operar este ano e será, de acordo com a Ecopetrol, a maior usina de hidrogênio verde PEM da América Latina.
A previsão é que o projeto Coral gere 800 toneladas de hidrogênio ao ano e tenha baixo custo de produção, atingindo US$ 1,7 por quilograma de hidrogênio até 2030. Isso ainda não inclui os custos de transporte, mas o preço parece competitivo: em 2024, a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) estimou que o custo da produção de hidrogênio gerado com eletricidade renovável cairia para US$ 2 a US$ 9 por quilo até 2030.
No departamento de Antioquia, no noroeste colombiano, o projeto Protium produz mil quilos de hidrogênio verde por dia, segundo dados da empresa Hevolución, responsável pelo projeto. A partir daí, o combustível é convertido em amônia e vendido para uso na produção de fertilizantes, refrigerantes e produtos químicos, além de material para células de combustível que alimentam empilhadeiras e caminhões.
Porém, o potencial para a geração de energia eólica e solar é menor em ambos os locais se comparado a outras partes do país. O CEO da Hevolución, Diego Arboleda, afirmou que o fornecimento de energia renovável em Antioquia impede a Protium de atingir preços competitivos: “Atualmente, temos um preço acima do custo da amônia cinza, o que nos obriga a continuar buscando alternativas para reduzir o valor”.
Promessa de La Guajira
Christoph Hank, pesquisador do Instituto Fraunhofer para Sistemas de Energia Solar, na Alemanha, estudou o potencial de várias regiões ao redor do mundo para produzir hidrogênio de forma sustentável.
Em 2024, Hank identificou três regiões na Colômbia com alto potencial para a produção de hidrogênio verde com base em suas características climáticas: o departamento de La Guajira, área desértica no extremo norte do país; o trecho entre as cidades de Cartagena e Barranquilla, principais portos da costa caribenha da Colômbia; e o departamento de Valle del Cauca, na costa do Pacífico, onde existem grandes hidrelétricas e o maior porto do país.
Pelo estudo, La Guajira poderia ser a região mais barata para produzir hidrogênio verde para o mercado global. A região abriga os maiores projetos de energia eólica e solar da Colômbia.
“La Guajira tem preços excepcionalmente baixos, mesmo em comparação com outros países da região, como Chile ou Brasil”, disse Hank. “Seria difícil para outras regiões da Colômbia alcançarem preços tão baixos com sua infraestrutura energética atual”.
O potencial de La Guajira contrasta fortemente com sua situação socioeconômica, já que é um dos departamentos mais pobres da Colômbia. Além disso, o acesso à água, fundamental para a produção de hidrogênio verde, foi severamente afetado no passado por projetos de mineração. Menos de 50% da população rural de La Guajira tinha fornecimento de água potável em 2023, segundo um relatório do Departamento Administrativo Nacional de Estatística.
“Apesar de seu potencial técnico devido aos seus projetos solares e eólicos, La Guajira apresenta grandes desafios sociais, como a disponibilidade de água e a integração das populações locais e comunidades indígenas”, resumiu Frank.
Enquanto isso, o Plano de Hidrogênio da Colômbia prevê que a chegada de projetos de hidrogênio impulsionará o desenvolvimento de tecnologias de dessalinização, beneficiando tanto as comunidades locais quanto a indústria. Os objetivos do plano incluem o aumento da demanda nacional por hidrogênio, o aumento da capacidade de eletrólise e a meta de chegar a um preço competitivo de US$ 1,7 por quilo. Uma revisão desses objetivos feita em maio pela Associação Colombiana de Hidrogênio concluiu que, embora tenha havido um “progresso significativo” no setor, também há “espaço para melhorias”.
O Fundo de Energias Não Convencionais e Gestão Eficiente da Energia lista dois projetos de hidrogênio em La Guajira em andamento, os quais foram procurados pelo Dialogue Earth. A Companhia Internacional de Transporte de Gás da Colômbia informou que seu projeto piloto na região havia sido suspenso sem explicação. A outra, a AES Colombia, não respondeu.
O desafio da exportação
Em junho de 2025, o Ministério da Energia reconheceu outro gargalo da produção de hidrogênio verde: o transporte. O hidrogênio deve ser convertido em estado líquido para o transporte de longa distância. Isso envolve um processo de produção adicional e a adaptação de contêineres em trens, navios ou caminhões.
Convertê-lo em amônia – como faz a Hevolución – também é outra opção. Porém, Arboleda disse que esse método não atrai os mercados internacionais: “Os consumidores na Europa não importam amônia”. Ele acrescentou que isso ainda exigiria certificações de qualidade e investimentos em veículos especializados para o transporte.
De acordo com a IEA, os principais mercados globais de hidrogênio são a China e os Estados Unidos. A Ecopetrol também está monitorando os mercados emergentes da Europa e da Ásia. Em resposta ao Dialogue Earth, a Ecopetrol afirmou que vê a China como um potencial aliado ou investidor, “devido à sua capacidade de produzir eletrolisadores e componentes em grande escala e a custos competitivos”.
Atualmente, a China é o maior produtor mundial de hidrogênio, embora apenas 1% de sua produção em 2024 tenha usado a eletrólise da água. O setor agora espera que outros países tomem a dianteira na produção de hidrogênio de baixo carbono.
Por enquanto, a Ecopetrol quer incentivar o consumo de produtos à base de hidrogênio na Colômbia, em áreas como transporte de passageiros e carga e combustíveis sustentáveis para aviação.
Conforme um estudo do Instituto Fraunhofer, a produção colombiana de hidrogênio verde também requer um investimento significativo de capital e uma melhor capacitação da força de trabalho. Mesmo assim, a Colômbia parece comprometida com o hidrogênio verde e seu objetivo de se tornar um dos principais produtores da América Latina até 2030.

