O Canal do Panamá é uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo, encurtando em semanas o tempo de viagem de parte dos 14 mil navios que o atravessam por ano.
Em 2025, o canal atraiu a atenção do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump: sem apresentar provas, ele afirmou que o canal está sendo controlado por chineses. Os EUA construíram o canal em 1904 e transferiram seu controle para o Panamá em 1999. Agora, Trump ameaça “recuperá-lo” em nome dos interesses americanos.
Uma seca em 2023 fez com que os níveis de água no canal caíssem para mínimos históricos. À medida que as condições pioravam, o Panamá foi forçado a reduzir a cota de navios autorizados a cruzar a hidrovia diariamente.
Especialistas alertam que isso é um sinal dos novos tempos, já que a crise climática está tornando esses episódios mais frequentes e intensos.
Alice Hill, pesquisadora sênior do think tank americano Council on Foreign Relations e ex-assessora de resiliência energética da Casa Branca, afirmou que, com “menos navios” no canal, criou-se um “gargalo” no transporte marítimo. “Se você tiver que desviar para o Cabo da Boa Esperança, isso vai adicionar semanas de viagem e custos”, explicou. “É um ativo em declínio e todos querem uma fatia maior do bolo”.
Canal e clima
O transporte marítimo é uma das maiores indústrias do mundo, representando um comércio anual de até US$ 14 trilhões, de acordo com estimativas do setor. Quando o navio Ever Given encalhou no canal de Suez em 2021, a interrupção do transporte marítimo provocou um efeito cascata: o evento bloqueou transações na ordem dos US$ 10 bilhões diários.
O Canal do Panamá é um sistema alimentado por dois reservatórios artificiais, os lagos Gatún e Alajuela. Ambos fornecem água para a Cidade do Panamá e outras áreas próximas.
Samuel Muñoz, professor associado de ciências marinhas e ambientais na Universidade do Nordeste, nos Estados Unidos, simulou a variação dos níveis do Lago Gatún em diferentes cenários climáticos. Seu estudo, publicado em setembro, concluiu que os níveis d’água “diminuirão consideravelmente” nos próximos 75 anos em “cenários de altas emissões”. A pesquisa ainda destacou o “risco crescente de interrupções sem adaptação ou mitigação das emissões”. Já em cenários de baixas emissões, os níveis permanecem relativamente estáveis.
A seca no canal geralmente está associada ao fenômeno climático cíclico El Niño. “Embora a pesquisa não possa afirmar que esses eventos recentes estejam diretamente ligados às mudanças climáticas, ela indica que o problema tende a piorar com o aquecimento global”, explicou Muñoz no estudo.
A Autoridade do Canal do Panamá (PCA), que administra a hidrovia desde que o controle foi transferido dos EUA para o Panamá, adotou novas estratégias de adaptação climática. Em 2016, ela inaugurou uma série de eclusas projetadas para reutilizar a água. A PCA também planeja construir um terceiro reservatório perto do rio Indio, embora muitos moradores das áreas potencialmente afetadas sejam contrários ao projeto.
O Dialogue Earth questionou a PCA sobre os demais planos de adaptação climática para garantir a viabilidade do canal, mas não recebeu resposta.
Outros países também querem competir com o Canal do Panamá: enquanto o plano da Nicarágua para construir uma hidrovia rival segue parado, um projeto mexicano de ferrovia entre as costas do Pacífico e Atlântico é visto por especialistas como uma alternativa ambientalmente mais sustentável do que o canal.
América Latina em disputa
Em razão da importância do canal para a economia global, o governo panamenho tem sido alvo de ameaças de Trump. Nos últimos anos, a China se tornou o maior parceiro comercial do Panamá, acendendo alertas na Casa Branca.
A Casa Branca publicou sua nova Estratégia de Segurança Nacional em novembro passado. As diretrizes foram apelidadas de “Doutrina Donroe”, mistura de Donald e James Monroe, ex-presidente dos EUA que deu nome à política externa americana do século 19 para consolidar a supremacia dos EUA no hemisfério ocidental. A estratégia afirmou que “concorrentes não hemisféricos fizeram grandes incursões” na região para “nos prejudicar economicamente no presente e de maneiras que podem nos prejudicar estrategicamente no futuro”. O texto ainda acrescentou que “os Estados Unidos devem ser proeminentes no hemisfério ocidental como condição para nossa segurança e prosperidade”.
No mês seguinte, o governo chinês divulgou sua nova política externa para a América Latina, enfatizando seu papel como aliado da região. “Como país em desenvolvimento e membro do Sul Global, a China sempre se manteve solidária com o Sul Global, incluindo a América Latina e o Caribe, nos momentos bons e ruins”, destacou o documento. “A China está pronta para unir forças” com a região e “escrever um novo capítulo” com base em um “futuro compartilhado”, completou.
Trump já deixou nítida sua opinião sobre a importância econômica e estratégica do canal. A passagem também é estratégica militarmente, e navios de guerra dos EUA inclusive passaram pelo canal no ano passado em meio às tensões com a Venezuela. Trump também descreveu a decisão do ex-presidente Jimmy Carter de entregar a administração do canal aos panamenhos como um “mau negócio”.
Em termos geográficos, o canal é mais importante para a China do que para os EUA. “[A China] precisa transportar mercadorias pelo canal para chegar ao Brasil, por exemplo. É uma realidade geográfica”, afirmou Christopher Sabatini, pesquisador sênior do think tank britânico Chatham House e fundador da revista Americas Quarterly.
Para Alice Hill, do Council on Foreign Relations, as mudanças climáticas também intensificaram essa competição. “Estamos vendo globalmente que, à medida que as condições mudam, há uma disputa entre os EUA e a China pelo domínio econômico. O transporte marítimo está se tornando um ponto crítico e o Panamá tem sido parte disso historicamente”.
Os EUA têm uma longa história no Panamá e o presidente americano tem reforçado seu poder de formas exageradas e cumprido suas ameaçasAlice Hill, pesquisadora sênior do Council on Foreign Relations
Em fevereiro de 2025, o Panamá deixou a Iniciativa Cinturão e Rota, programa chinês de investimento em infraestrutura global. Em janeiro deste ano, a Suprema Corte do Panamá decidiu que um contrato mantido por uma empresa de Hong Kong desde 1999 para administrar os portos em ambas as extremidades do canal era inconstitucional.
Trump elogiou a decisão; já o governo chinês em Hong Kong considerou o veredito “absurdo” e sugeriu que o Panamá havia “sucumbido voluntariamente” às táticas de “intimidação” da Casa Branca. A decisão abre potencialmente as portas para que a BlackRock, empresa de investimentos dos EUA, avance na aquisição dos portos. Esses esforços haviam sido barrados anteriormente diante da exigência chinesa de que sua maior empresa de transporte marítimo, a Cosco, tivesse participação majoritária em qualquer aquisição do tipo.
“Os EUA têm uma longa história no Panamá, e o presidente americano tem reforçado seu poder de formas exageradas e, às vezes, cumprido suas ameaças”, disse Hill. “Não é surpreendente que o Panamá sinta a pressão vinda do presidente Trump”.
“Se houver uma pressão inapropriada dos EUA sobre o governo panamenho, isso será uma violação da independência judicial de um país democrático. Não precisamos disso”, disse Sabatini.
As disputas geopolíticas e econômicas revelam a vulnerabilidade do Canal do Panamá como um ponto-chave para o mundo. A crise climática, por sua vez, deve agravar isso ainda mais nas próximas décadas.

