Às 9h da manhã de 31 de maio de 2025, o alpinista Hilario Álvarez, de 70 anos, chegou à beira da última geleira remanescente do México. Lá, a uma altitude de 5,3 mil metros, ele ouviu o suave estalo do gelo derretendo. Ele observou com cuidado as gotas de água escorrendo pelas estalactites antes de desaparecerem no solo poroso do Citlaltépetl, a montanha mais alta do México.
Desse gelo em Citlaltépetl — vulcão ativo também conhecido como Pico de Orizaba — nasce o rio Jamapa. Ao longo de centenas de quilômetros, ele interfere na vida de milhões de pessoas antes de desaguar no Golfo do México. Em maio, Álvarez verificou uma cavidade entre o gelo e o solo, grande o suficiente para um adulto rastejar por dentro. “No ano passado, havia um pouco mais de área [de gelo]”, contou ele. “Hoje, há menos e é mais fina”.
A geleira Jamapa chegou a um ponto sem volta. Um estudo da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam), publicado em 2024 e intitulado Anúncio de uma morte iminente, concluiu que, até o fim da década, as condições climáticas capazes de mantê-la como geleira existirão apenas em altitudes próximas ao cume do Citlaltépetl.
O ponto médio dessas condições é chamado de linha de equilíbrio: acima dela a geleira ganha gelo; abaixo, perde. Com essa linha se deslocando em Jamapa, especialistas já discutem se ela ainda pode ser considerada uma geleira. “Quando dizemos que uma geleira deixa de existir? Ainda não há consenso”, disse Guillermo Ontiveros, pesquisador-chefe do estudo, em conversa com o Dialogue Earth.
O que parece inevitável, segundo Ontiveros, é que Jamapa seja fragmentada em dois corpos de gelo, um mais alto e outro mais baixo. Essa divisão pode ocorrer a qualquer momento e “já pode ser interpretada como a morte da geleira”.
Ao longo de sua vida, Álvarez viu quase todos os 14 glaciares dessa montanha desaparecerem. Naquela manhã, o barulho do gelo soava como uma despedida. “Talvez nos extingamos juntos”.
Sinais das mudanças climáticas
Na mesma escalada, em meados de 2025, Álvarez presenciou algo inédito desde que começou a subir o Pico de Orizaba, aos 13 anos: uma “chuva quente” sobre a geleira, que deixou o gelo lavado e brilhante, exposto diretamente ao sol.
Um estudo da Universidade de Veracruz mostra que a área da geleira caiu de 0,46 km² em 2019 para 0,37 km² em 2024, enquanto a cavidade sob o gelo aumentou e a temperatura do ar nas partes inferior e superior subiu de forma constante.
À medida que descia, Álvarez seguiu o caminho da água do degelo. O clima, disse, se comportou “como nunca antes”: nevascas e mudanças bruscas, até que, a cinco mil metros de altitude, começou uma tempestade com raios em um lugar onde antes só nevava.
Especialistas explicam que isso é um sinal de aumento do isoterma do zero grau — o limiar de altitude acima do qual a precipitação geralmente cai como neve. “Cinquenta anos atrás, não chovia a quatro mil metros. Agora chove a 5,6 mil metros”, disse Álvarez.
Chuvas torrenciais como a que ele presenciou geram alterações na paisagem com deslizamentos e erosões de terra, além de alteração da morfologia da montanha. As chuvas também deixam marcas nas rochas revelando geleiras que já desapareceram.
A chuva, antes rara nessas altitudes, faz parte da nova realidade climática da geleira. Enquanto isso, sua água derretida flui em direção ao Golfo do México.
Impacto humano
Após deixar a montanha, o rio Jamapa entra nos bosques de pinheiro-mexicano (Pinus hartwegii). Conforme duas fontes locais que pediram anonimato por questões de segurança, alguns grupos de extração ilegal e tráfico de madeira operam nessa zona — e inclusive cobram pedágio de escaladores que tentam subir a montanha.
Os alpinistas e membros da expedição que passaram a noite no Refúgio Piedra Grande, no lado norte do vulcão, a 4,2 mil metros, ouviram veículos passando por vias clandestinas a noite toda. Um especialista com décadas de experiência na área, que também não quis se identificar, disse que há pelo menos 30 rotas desse tipo nos 20 mil hectares que compõem a área protegida do Parque Nacional Pico de Orizaba. As toras são transportadas para cidades nos dois estados que dividem a montanha, Puebla e Veracruz.
Mais para baixo, o rio chega a comunidades da cidade de La Perla, como Vaquería e Nuevo Jacal. Conforme dados oficiais de 2020, mais de 55% da população do município vive em extrema pobreza e quase 40% em pobreza moderada.
O diretor do Parque Nacional Pico de Orizaba, Armando Fuentes, disse ao Dialogue Earth que há 24 comitês de água na área, formados por moradores que participam do trabalho de reflorestamento e do cuidado da terra. Ele reconheceu que o desmatamento ilegal continua sendo um problema grave na área. O ex-diretor do parque, Luis Álvarez, contou que muitas famílias de agricultores vivem de facilitar a passagem dessa madeira por suas propriedades.
A Comissão Nacional Florestal do México entende a perda florestal como um fator que contribui diretamente para o aquecimento do microclima: o carbono que teria sido absorvido pelas árvores derrubadas passa a ser liberado na atmosfera. Esse aquecimento derrete as geleiras.
O governo mexicano afirma que esse desmatamento é o principal problema do parque nacional, causando graves impactos na flora, na fauna e no solo. Os deslizamentos de terra, segundo a Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Naturais, são a expressão da relação direta entre o derretimento das geleiras e os danos à floresta.
Um desses deslizamentos se formou durante a descida de Hilario Álvarez, com a queda de rochas, pedras, lama e água.
Sinais do mar
Após percorrer mais de 300 km, a água do degelo do Jamapa se une ao Cotaxtla, um dos quatro grandes rios que nascem no Parque Nacional Pico de Orizaba. Em seguida, ele atravessa regiões de cultivo de frutas, cana-de-açúcar e pecuária extensiva. “Há mais de 500 anos, existe uma ligação muito forte entre as comunidades humanas e este rio”, contou Jordi Vera, pesquisador especializado em consumo de água na região.
Em seu caminho até o mar, o rio abastece mais de meio milhão de pessoas em pelo menos 34 municípios. Ele também passa por grandes instalações industriais que extraem água subterrânea, explicou Vera.
O pesquisador prevê que algumas áreas da bacia “terão que se adaptar” ao novo estado do rio, que é um fluxo sazonal dependente da chuva. “As pessoas já estão muito preocupadas, porque é sua fonte mais imediata e não terão mais água com tanta facilidade”, seguiu Vera. “Elas terão que bombeá-la de riachos próximos. Outras estratégias estão sendo discutidas, como ajustar o consumo e reutilizar a água”.
Há mais de 500 anos, existe uma ligação muito forte entre as comunidades humanas e o rio JamapaJordi Vera, pesquisador especializado em consumo de água
Isso é reforçado na pesquisa da Unam de 2024, segundo a qual a extinção da geleira “afetará a disponibilidade do abastecimento de água” na bacia do rio Jamapa.
Em linha reta, a distância entre Citlaltépetl e o Golfo do México é de apenas 110 km. Porém, o Jamapa deságua no mar após uma jornada sinuosa de 368 km, carregando uma torrente de sedimentos, nutrientes e energia.
“A geleira e os recifes estão conectados há cerca de dez mil anos”, explicou Leonardo Ortiz, biólogo da Universidade de Veracruz. Em 2019, Ortiz liderou uma equipe que descobriu 23 novos recifes na costa de Veracruz.
O grupo de cientistas também participou de uma ação civil pública que chegou à Suprema Corte do México. A decisão histórica em fevereiro de 2022 determinou a suspensão da expansão do porto de Veracruz, devido ao seu impacto ambiental. O caso estabeleceu precedentes importantes e é considerado “um ponto de inflexão” para o direito ambiental no México, conforme o advogado que liderou o litígio por dez anos, Xavier Martínez.
Segundo ele, o tribunal “revogou todas as licenças e ordenou uma avaliação ampla e abrangente”. O megaprojeto foi considerado prejudicial ao meio ambiente, infringindo, portanto, o direito a um ambiente saudável.
Hoje, os recifes de corais da costa já sentem o desaparecimento do Jamapa, o que reduz o suprimento de nutrientes do rio. “É como se estivéssemos usando o recife e a geleira como indicadores de como o sistema está funcionando”, disse Ortiz.
É difícil prever o que será da geografia próxima após o fim da geleira. Mas, segundo Ortiz, o desaparecimento da geleira afetará o nicho ecológico dos recifes – suas condições de existência e reprodução.
Em meio ao vento, chuva e trovões, Hilario Álvarez teve a sorte de completar sua descida em segurança, apesar dos riscos: “Havia raios muito fortes nas proximidades”.
Ele sabia então que seu corpo não teria a mesma facilidade para subir a montanha de outrora, mas o trajeto havia cobrado um preço bem mais alto do que quando ele a escalou pela primeira vez, ainda menino. Mas, com três décadas de experiência na atividade, Álvarez contou que a “imprevisível e bela” montanha Citlaltépetl provavelmente o chamará novamente — embora talvez sem a presença da geleira.


