Florestas Comunidade une esforços para proteger floresta esquecida no Chile Florestas esclerófilas do centro chileno formam um rico ecossistema ameaçado, enquanto moradores de um pequeno município costeiro tentam proteger o que resta dele Português Português Español English Compartilhar a matéria × Copy link to page Copy link to page × Republicar esta matéria Você pode republicar os textos do Dialogue Earth sob a licença Creative Commons. Por favor, confira nossa política de republicação. Marta Apablaza Riquelme Agosto 18, 2026Agosto 19, 2026 Ao adentrar a vegetação, o ar é frio e úmido. O silêncio é palpável e pesado, e a densa copa das árvores, de diferentes tamanhos e texturas, bloqueia a visão do céu. De vez em quando, ouve-se o zumbido de beija-flores, cujas penas são tão verdes quanto a própria floresta esclerófila, composta de folhas duras e grossas como no peumo (Cryptocarya alba), boldo-do-chile (Peumus boldus) e litre (Lithraea caustica). Esse ecossistema, tipicamente mediterrâneo, tem verões secos e períodos curtos de chuvas intensas. Ele é essencial para regular a temperatura local e abastecer a população com lenha, frutas e ervas medicinais, além de ajudar a prevenir deslizamentos de terras e a absorver a água de inundações. Peumo (Cryptocarya alba) no parque El Boldo, em Zapallar, região de Valparaíso. A árvore é uma das espécies características das florestas esclerófilas chilenas, atualmente ameaçadas pela crise climática e ação humana (Imagem: Carolina Pedreros) Porém, as florestas esclerófilas do Chile estão ameaçadas pela crise climática, por incêndios e pela expansão da agricultura e da ocupação urbana. Em 2025, pesquisadores chilenos afirmaram que esse ecossistema estava à beira do colapso, com 40% dele em risco. Floresta esquecida O Chile é conhecido por suas paisagens desérticas, florestas temperadas e estepes na Patagônia. Menos famosas são as paisagens, a flora e a fauna endêmicas de sua região central, que abriga um dos cinco ecossistemas mediterrâneos do mundo. Embora muitas vezes relegadas, as florestas esclerófilas estão profundamente enraizadas no imaginário coletivo e na cultura do Chile. As folhas de boldo-do-chile, de forma parecida ao Brasil, são muito usadas em chás contra a má digestão e problemas no fígado. As florestas esclerófilas englobam 10% da vegetação nativa do país, segundo levantamento de 2025 da Corporação Nacional Florestal do Chile (Conaf), e se estendem por quase 1,2 mil quilômetros em uma das regiões mais densamente povoadas do Chile. Elas têm ainda uma rica biodiversidade, englobando quase metade das espécies nativas do país, incluindo animais como a yaca (Thylamys elegans) e a cobra-de-cauda-longa (Philodryas chamissonis). Yaca (Thylamys elegans), espécie endêmica das florestas esclerófilas chilenas (Imagem: Luis Felipe Tapia Yanfka / Flickr, CC BY SA) Cogumelo Hericium clathroides no parque El Boldo, região de Valparaíso. Segundo um estudo de 2025, a quantidade de folhas, fungos e microrganismos diminuiu na floresta esclerófila (Imagem: Carolina Pedreros) “Esse ecossistema combina três características que tornam sua proteção urgente: é altamente biodiverso, está mal protegido e é um dos mais ameaçados do país”, explicou Patricio Pliscoff, professor de ecologia na Universidade Católica do Chile, ao Dialogue Earth. Um estudo publicado em 2025 por pesquisadores chilenos demonstra uma perda de vitalidade da floresta, que tem desenvolvido cada vez menos folhas, galhos, raízes, fungos e microrganismos. Para 40% desse ecossistema, há um alto risco de que isso seja permanente. Diego Cueto, engenheiro ambiental da Universidade do Chile, que colaborou com a pesquisa, disse ao Dialogue Earth que os sinais de danos são visíveis: “Quando você anda pela floresta, basta olhar para cima e ver se as folhas das árvores bloqueiam ou não o céu”. Especialistas notam sinais de perda de vitalidade na floresta, como vegetação mais escassa (Imagem: Carolina Pedreros) Palo negro (Leptocarpha rivularis) com folhas secas no parque El Boldo. Crise hídrica e incêndios florestais no Chile ameaçam futuro do ecossistema (Imagem: Carolina Pedreros) A expansão agrícola e urbana desde os anos de 1970, com a abertura de estradas e outras obras de infraestrutura, provocaram o desmatamento desse ecossistema. Na última década, a megasseca que atinge sobretudo a região central do Chile, provocando o aumento de incêndios florestais, também o pressionam. “A floresta esclerófila é particularmente sensível ao fogo”, explicou Francisca Ruiz, engenheira florestal da Universidade do Chile. Árvores centenárias Israel Ramón Torres, de 81 anos, mora no final de uma rua sem saída em Zapallar, uma cidade de menos de 10 mil habitantes na região de Valparaíso. Sua pequena casa próxima ao mar tem vista para uma colina coberta pela floresta esclerófila, que se estende no horizonte. Israel Ramón Torres, de 81 anos, nasceu e cresceu em Zapallar. Ele lembra como a relação harmoniosa entre a floresta e a comunidade começou a mudar por volta dos anos 2000, com a expansão do setor imobiliário (Imagem: Carolina Pedreros) Don Monche, como foi apelidado por vizinhos, é um “zapallarino de coração”. Nascido e criado na região, passou a infância cercado pela folhagem verde da floresta. “Subíamos a colina e recolhíamos lenha quando as árvores caíam. Os donos das fazendas não deixavam derrubá-las, só podíamos recolher a lenha depois que elas caíam e secavam sozinhas”, contou. “Meus amigos e eu também brincávamos por lá, balançando nos cipós”. Por volta dos anos 2000, a expansão imobiliária começou a invadir a floresta esclerófila e a mudar profundamente a paisagem do litoral de Zapallar. Uma análise da Universidade do Chile mostra que, entre 1960 e 2001, o avanço da urbanização foi substituindo um padrão urbanístico compacto e concentrado por outro, disperso e fragmentado. Em vez de pequenos bairros tradicionais, surgiam condomínios e casas de veraneio. Nos últimos anos, novas construções adentraram a floresta esclerófila na cidade de Zapallar (Imagem: Carolina Pedreros) El Boldo Em 2001, houve um ponto de virada. Um projeto para erguer 166 apartamentos, um centro de conferências e um grande hotel no ponto mais alto da colina de El Boldo provocou a reação de moradores de Zapallar, preocupados com a preservação da floresta esclerófila. Em 2003, o caso foi a referendo, e a maioria da população rejeitou o projeto. Depois disso, 22 moradores se uniram para comprar 65 hectares de floresta nativa, onde inauguraram o parque El Boldo. Hoje ele é protegido legalmente por um instrumento jurídico chileno que garante aos proprietários a possibilidade de preservar o patrimônio ambiental de suas terras. Isso foi vital para manter árvores antigas que estão ameaçadas de extinção. Guarda florestal de El Boldo, Javier Marín (boné cinza), recebe visitantes no viveiro do parque antes de uma caminhada educativa (Imagem: Carolina Pedreros) Javier Marín é um jovem guarda florestal do parque El Boldo que representa uma nova geração de zapallarinos trabalhando na conservação da floresta esclerófila. “Precisamos dessa floresta”, disse ele, referindo-se aos serviços ecológicos que ela proporciona. Marín está concluindo sua graduação em gestão da vida selvagem e lidera trilhas voltadas à educação ambiental. “A biodiversidade da floresta é extremamente valiosa, mas pouco conhecida e muito ameaçada por incêndios e empreendimentos imobiliários”, disse. Mas os esforços para proteger a floresta também contribuíram para a conscientização, Carmen Rosa Ringeling, diretora-executiva do parque. “Hoje, a comunidade e os visitantes reconhecem seu valor em termos de biodiversidade e serviços ecossistêmicos”, disse. Segundo o poeta Javier Pérez de Ovalle, a cidade de Zapallar é um lugar preso entre dois mundos: ‘O oceano quer levá-la embora, mas a floresta a segura com firmeza’ (Imagem: Carolina Pedreros) Em meados do século 20, o poeta local Javier Pérez de Ovalle descreveu Zapallar como uma cidade presa entre dois mundos: “O oceano quer levá-la embora, e a floresta a segura com firmeza.” É por isso, segundo ele, que Zapallar é “metade barco, metade cabana”, pertencendo tanto ao mar quanto às colinas verdes. O esforço comunitário que criou o parque El Boldo busca que esse delicado equilíbrio perdure frente a todas as ameaças. Continue lendo Reportagem Geopolítica Na mira dos EUA, América Latina recorre a mercado verde chinês Reportagem Sociedade ‘Precisamos de uma transição verde que faça parte do bem-viver’ Reportagem Aço Na cidade do aço, poluição e incerteza pairam no ar Reportagem Povos Indígenas Política indigenista avança, mas problemas críticos persistem Reportagem Povos Indígenas No Congresso ruralista, deputadas indígenas ‘constroem nas brechas’ Reportagem Povos Indígenas ‘A COP30 não terminou’: Indígenas pressionam por poder de decisão Reportagem Deslocamento forçado Comunidades peruanas cobram mediação contra mineradoras chinesas Reportagem Biodiversidade Proteção da biodiversidade ainda é insuficiente, diz relatório da ONU