Negócios Como a economia peruana para exportação resiste ao caos político? Anos de trocas intempestivas de governo e turbulência institucional não impediram avanço de exploração de minerais críticos, mas pobreza vem aumentando Português Português Español English Compartilhar a matéria × Copy link to page Copy link to page × Republicar esta matéria Você pode republicar os textos do Dialogue Earth sob a licença Creative Commons. Por favor, confira nossa política de republicação. Vilarejo de Morococha, perto da mina de cobre Toromocho, Peru. Atualmente, a mineração é a principal fonte de divisas do país (Imagem: Keith Dannemiller / Alamy) Alba Ñaupas Outubro 2, 2026Outubro 2, 2026 No início dos anos 2000, o peruano Herbert Vilcapoma viu uma oportunidade de negócios no setor de mineração. Com sua experiência em uma fábrica de equipamentos de perfuração, ele contraiu um empréstimo para fundar a Rock Drill. Hoje, sua empresa presta serviços de perfuração para algumas das maiores mineradoras do país. Desde que Vilcapoma começou nesse empreendimento, o Peru foi marcado pela instabilidade do governo e das demais instituições: nove presidentes na última década, a dissolução temporária do Congresso, uma tentativa de golpe, protestos com dezenas de mortos, ex-presidentes investigados por corrupção e confrontos constantes entre o Congresso e o Executivo. No fim de julho, Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori (1990-2000), tomou posse como a nova presidente peruana. Sua vitória apertada, decidida por menos de 50 mil votos, marcou o retorno ao poder de uma das famílias políticas mais contestadas do Peru. Presidente do Peru, Keiko Fujimori, na cerimônia da posse, 28 de julho (Imagem: Presidência do Peru / Flickr, CC BY-NC-SA) A economia peruana, no entanto, seguiu outro rumo. O produto interno bruto (PIB) manteve uma trajetória contínua, com aumento de 3,4% em 2025, enquanto o sol consolidou sua posição como uma das moedas mais estáveis da região. Vilcapoma agora preside o Grupo Vilbra, conglomerado formado pela Rock Drill e outras três empresas de mineração. Ele disse ao Dialogue Earth que os empresários peruanos “continuam apostando no país devido às condições econômicas favoráveis”. Com tanta turbulência política, como a economia peruana conseguiu resistir? Controle macroeconômico Um dos principais fatores por trás dessa resiliência é a estabilidade da política monetária, sustentada pelo controle da inflação e da moeda. O Banco Central do Peru é o responsável por essa missão: a Constituição de 1993 garante ao banco a autonomia necessária para conduzir a política monetária independentemente do governo, embora os membros do conselho sejam nomeados pelo Senado e pelo Executivo. Desde 2007, o banco tem como meta uma inflação anual de 1% a 3%. “Graças à autonomia do Banco Central, o Peru registrou uma das menores taxas de inflação da América Latina e do mundo nas últimas duas décadas”, destacou Waldo Mendoza, ex-ministro da Economia do Peru, ao Dialogue Earth. Em 2025, o Peru registrou uma inflação anual de 1,51%, enquanto as principais economias da região – Brasil, México, Chile e Uruguai – atingiram 3,5% ou mais. Enquanto a presidência da República passou por várias mudanças nos últimos anos, o comando do Banco Central permaneceu o mesmo: Julio Velarde dirige o órgão desde 2006. A nova presidente já anunciou que não planeja substituí-lo. O Ministério de Economia e Finanças também tem buscado manter os gastos públicos e a dívida sob controle. Em junho, o déficit fiscal caiu para 1,3% do PIB, abaixo da meta de 1,8% estabelecida para 2026. A dívida pública permanece em torno de 29% do PIB, uma das menores da região. Boom de exportações para a China Em 2000, as exportações do Peru somaram US$ 6,3 bilhões. Este ano, a expectativa é que ultrapassem os US$ 118 bilhões. Esse crescimento foi impulsionado por mais de 20 acordos de livre comércio, que agora conectam as empresas peruanas a alguns dos maiores mercados do mundo. “Passamos de um mercado de 34 milhões de pessoas para um de bilhões”, afirmou Julio Pérez, ex-presidente da Associação Peruana de Exportadores, ao Dialogue Earth. Hugo Perea, economista-chefe para o Peru no BBVA Research, explicou que a entrada de moeda estrangeira fortaleceu as reservas internacionais, ajudou a estabilizar a taxa de câmbio e reduziu a vulnerabilidade da economia a períodos de turbulência. A mineração tem um forte peso nessa conjuntura macroeconômica. Cobre e ouro — bem como zinco, prata e outros minerais — representam cerca de 70% das exportações peruanas. Conforme o Serviço Geológico dos Estados Unidos, apenas o Chile e a República Democrática do Congo produzem mais cobre do que o Peru — tendência que deve se manter. A demanda por cobre está sendo impulsionada pela transição energética, devido ao papel crucial desse elemento em muitas tecnologias de energia renovável. Nos últimos anos, a alta nos preços dos metais aqueceu o setor de mineração peruano e consolidou sua posição como a principal fonte de divisas do país, explicou Víctor Gobitz, CEO da mineradora de cobre Quilla Resources, sediada em Lima. “Estima-se que, para cada emprego formal, o setor de mineração gere oito empregos indiretos”, acrescentou. Além da mineração, houve uma forte expansão das exportações agrícolas. Apenas entre janeiro e julho, essas vendas já se aproximavam dos US$ 7 bilhões. LEIA MAIS A China tem sido fundamental para essas exportações. Desde 2014, ela substituiu os Estados Unidos como principal parceiro comercial do Peru, posição puxada por uma crescente demanda por cobre, ferro e outros minerais. No primeiro semestre de 2026, os EUA concentraram 9,3% das exportações peruanas, enquanto a China chegou a 38,6%. Mirtilos, uvas e abacates peruanos também ganharam espaço, figurando entre os cinco principais produtos agrícolas exportados para o mercado chinês. Essa relação vai muito além das transações comerciais. Conforme as estimativas do Centro de Estudos Asiáticos San Marcos, em Lima, a China responde sozinha por um quarto de todo o investimento estrangeiro no Peru. Na América Latina, apenas o Brasil recebe mais capital chinês. Produção de abacates na província de Chincha, importante centro peruano de exportação agrícola, onde também são cultivadas tangerinas e uvas (Imagem: Portal Frutícola / Flickr, CC BY-NC-ND) Essa presença se estende a setores estratégicos como mineração, energia, infraestrutura e logística. Empresas chinesas controlam ativos-chave como Las Bambas, uma das maiores minas de cobre do mundo. Até mesmo as redes de distribuição de eletricidade em Lima estão sob controle chinês, após a estatal China Southern Power Grid International ter adquirido uma subsidiária local da Enel. O megaporto de Chancay é um dos exemplos mais visíveis dessa parceria. O terminal recebeu mais de US$ 3,5 bilhões em investimentos chineses, um dos maiores na América Latina no âmbito da Iniciativa Cinturão e Rota, da China. Déficits fiscais persistentes Quase 25 anos após a fundação da Rock Drill, as empresas de Vilcapoma empregam, segundo ele, mais de 1,6 mil pessoas. O empresário também afirmou que há uma nova unidade industrial em construção para dobrar a capacidade de produção. A prosperidade da economia peruana, porém, não chegou da mesma forma a todas as camadas da sociedade. “O crescimento econômico não tem sido inclusivo, nem gerou mais bem-estar para toda a população”, avaliou o economista José de Echave, pesquisador de questões minerárias e ambientais da organização peruana CooperAcción. A riqueza continua distribuída de forma desigual. A pobreza caiu de 27,6% para 25,7% entre 2024 e 2025, mas permanece acima dos níveis anteriores a 2019: em 2025, havia 2,3 milhões a mais de peruanos vivendo na pobreza em comparação com o período pré-pandemia da Covid-19, apesar do aumento do investimento privado. Ao menos sete de cada dez peruanos trabalham na economia informal, muitas vezes sem acesso a benefícios como plano de saúde e contribuição para a previdência. Também há grandes lacunas nos serviços básicos: em 2024, apenas 37,5% dos peruanos tinham acesso a serviços seguros de água potável, conforme um relatório do governo; também há uma profunda desigualdade no acesso à saúde e à educação. Os desafios sociais dão as caras em um momento no qual a estabilidade econômica do país é posta à prova. Embora o Peru mantenha um controle fiscal, as finanças públicas estiveram no limbo ao longo dos últimos cinco anos devido à crise política. O crescimento econômico não tem sido inclusivo, nem gerou mais bem-estar para toda a populaçãoJosé de Echave, pesquisador da CooperAcción Para Carolina Trivelli, membro do Conselho Fiscal do Ministério de Economia e Finanças, várias medidas aprovadas pelo Congresso entre 2021 e junho de 2026 contribuíram para isso: nesse período, foram aprovados 258 projetos de lei para aumentar os gastos públicos, conforme uma análise do conselho. Desses, 48 projetos de lei aprovados desde setembro de 2025 somam um custo fiscal anual permanente de US$ 6,9 bilhões — ou cerca de 1,9% do PIB. Entre as novas leis, está o aumento nas aposentadorias dos professores, representando um gasto anual de US$ 2,4 bilhões. Ao mesmo tempo, o Congresso vem aprovando uma série de benefícios tributários. Após a divulgação do marco macroeconômico do governo para 2026-2029, que define as bases do orçamento público, o Conselho Fiscal criticou os “novos benefícios que corroem a base tributária” e destacou a necessidade de “medidas voltadas para o aumento das receitas tributárias permanentes”. O órgão também recomendou que o Ministério de Economia e Finanças “faça uma avaliação abrangente, transparente e atualizada da situação tributária atual”. Para os críticos das medidas aprovadas pelo Congresso, faltam estudos técnicos e fontes de financiamento que justifiquem o aumento dos gastos públicos. “Adoraríamos resolver todos os problemas do país. Porém, se comprometermos os recursos do Estado pelos próximos 30, 40 ou 50 anos sem respaldá-los com políticas públicas sólidas, em algum momento o Estado entrará em colapso”, destacou Echave. “Enquanto o Estado tiver recursos suficientes, o problema provavelmente não será evidente”, disse Trivelli. “Mas, quando as receitas diminuírem e o atual ciclo favorável para os minerais estagnar, aí virá o verdadeiro problema”. Para Trivelli, uma decisão recente do Tribunal Constitucional do Peru representa um primeiro passo para restaurar a disciplina fiscal. A sentença limita mais uma vez a capacidade do Congresso de aprovar leis que tragam novos gastos ao governo. Além disso, o tribunal exige que qualquer iniciativa parlamentar que aumente as despesas públicas identifique uma fonte de financiamento. A presidente Keiko Fujimori reconheceu esse desafio em seu primeiro discurso oficial, citando a sustentabilidade fiscal como uma de suas prioridades: “Vamos colocar as finanças públicas em dia, eliminar gastos desnecessários e usar cada sol de dinheiro público de forma responsável”. Continue lendo Reportagem Transição energética Plano para acabar com combustíveis fósseis trava antes da COP31 Reportagem Desastres naturais Em meio à seca, Peru vive crise em sistema antienchentes glaciais Reportagem Impactos climáticos Sem eletricidade, haitianos convertem árvores frutíferas em carvão Reportagem Mercados de carbono Após sucesso na Índia, modelo de mercado de carbono chega ao Rio Reportagem Mercados de carbono Sul Global trará uma solução para os mercados de carbono? 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