Clima

Sem eletricidade, haitianos convertem árvores frutíferas em carvão

Destruição ambiental em nação caribenha vem na esteira de falta de fiscalização, controle massivo de gangues e abalos à democracia
<p>Homem carrega troncos de árvores derrubadas em Porto Príncipe, novembro de 2024. Conforme o Departamento de Minas e Energia do Haiti, a madeira e o carvão vegetal supriram mais de 75% da demanda energética do país em 2023 (Imagem: Patrice Noel / ZUMA Press / Alamy)</p>

Homem carrega troncos de árvores derrubadas em Porto Príncipe, novembro de 2024. Conforme o Departamento de Minas e Energia do Haiti, a madeira e o carvão vegetal supriram mais de 75% da demanda energética do país em 2023 (Imagem: Patrice Noel / ZUMA Press / Alamy)

Há mais de 30 anos, o produtor Jean Noel, 53 anos, cultiva bananas, milho, inhame e mandioca em sua fazenda em Fond-Cochon, no oeste do Haiti. Após a passagem do furacão Melissa pelo Caribe em outubro de 2025, essa foi uma das regiões mais atingidas do país. Noel contou que o furacão destruiu vários hectares de plantações, incluindo dezenas de árvores frutíferas. 

O evento devastador forçou Noel a encontrar uma nova fonte de renda: “Comecei a transformar árvores em carvão vegetal”.

Noel não está sozinho. Patrick Innocent, prefeito do município de Roseaux, do qual Fond-Cochon faz parte, afirmou que houve um aumento significativo no corte de árvores nos meses seguintes ao furacão Melissa. Isso está relacionado principalmente à produção de carvão vegetal, uma das principais fontes de energia doméstica do país.

Innocent explicou que as autoridades locais carecem de recursos para apoiar as populações afetadas: “Quase mil moradores perderam suas plantações de hortaliças, mas o município não consegue ajudá-los por falta de recursos”.

Desde 2018, o Haiti vem enfrentando uma prolongada crise humanitária, política e de segurança. Na época, os protestos contra o aumento dos preços dos combustíveis logo se transformaram em sucessivas tentativas de derrubar o governo. Os conflitos sociais têm se intensificado com o aumento da violência e o fortalecimento das gangues que controlam diversas partes do território haitiano, fenômeno que se acelerou após o assassinato do presidente Jovenel Moïse, em 2021. 

Cerca de 1,4 milhão de pessoas foram deslocadas para outras áreas do país, segundo a Organização das Nações Unidas. O Programa Mundial de Alimentos estima que mais de 5 milhões estejam em situação de insegurança alimentar.

Somado a isso, o país não tem mais autoridades eleitas por voto popular, já que as últimas eleições ocorreram em 2016 e todos os mandatos chegaram ao fim. O governo atual é comandado pelo primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé, nomeado por um conselho de transição que também já deixou de existir.

Em grande parte do país, as instituições públicas não conseguem mais prestar serviços básicos, o que limita o acesso da população à saúde, educação e segurança. A ausência do Estado agravou o impacto de desastres como o próprio furacão Melissa.

O país enfrenta uma verdadeira emergência ambiental, segundo especialistas. “Estamos em uma situação crítica, na qual várias crises ecológicas se sobrepõem”, explicou David Noncent, especialista haitiano em mudanças climáticas e ciências ambientais.

Estragos do furacão

O setor agrícola é um dos mais impactados pela crise haitiana, conforme a Classificação Integrada de Fases da Segurança Alimentar. Os agricultores enfrentam dificuldades para vender seus produtos devido a bloqueios em estradas, com cobrança de pedágios, por grupos armados. 

O Haiti não foi atingido em cheio pelo furacão Melissa, mas ainda assim sofreu grandes danos. A região de Grand Sud, no sudoeste do país, foi particularmente afetada por inundações, deslizamentos de terra e mudanças nas margens dos rios.

Conforme a Secretaria Permanente de Gestão de Riscos de Desastres do Haiti, 43 pessoas morreram, 21 ficaram feridas e 13 estão desaparecidas. Quase 16 mil pessoas afetadas foram acolhidas em centros de evacuação, principalmente nos departamentos de Sud, Nippes e Grand’Anse, na região do Grand Sud. Também houve perdas agrícolas relevantes.

Desde a devastação inicial e ao longo de todo o período pós-desastre, a ausência do Estado teve um impacto negativo. Vários moradores afetados relataram ao Dialogue Earth que nenhum apoio de longo prazo foi fornecido.

Isso levou muitos haitianos, como Noel, a adotar práticas prejudiciais ao meio ambiente. O corte ilegal de árvores para a produção de carvão vegetal e a agricultura voltada para o corte e a queima agravaram o desmatamento que já ocorria em muitas regiões do país.

Perda de vegetação tem sido mais acentuada no sudoeste do Haiti
Perda de vegetação tem sido mais acentuada no sudoeste do Haiti (Fonte de dados: Hansen / UMD / Google / USGS / NASA; Mapa: Dialogue Earth)

Assim como Roseaux, a comuna de Saint-Michel de L’Attalaye, no departamento de Artibonite, também enfrenta o aumento do desmatamento. Moradores alertam sobre o corte em massa de árvores frutíferas — sobretudo mangueiras — para a produção de carvão vegetal.

Marc-Wisly Hilaire, líder comunitário da região e membro da Sociedade de Liderança por Outro Haiti, explicou que a ausência estatal deixa as pessoas sem muitas opções: “A falta de fiscalização permite que a população corte árvores à vontade. Em um contexto de dificuldades econômicas, os moradores muitas vezes não têm outra escolha. O governo não intervém”.

Segundo Hilaire, essa dinâmica faz parte de um círculo vicioso, no qual o desmatamento agrava as condições de seca, o que, por sua vez, afeta ainda mais os meios de subsistência: “Às vezes, não chove por mais de quatro meses. Geralmente, as colheitas são perdidas”. 

Embora os dados recentes sejam escassos, as estimativas disponíveis sugerem que o Haiti perde milhares de hectares de floresta a cada ano. Conforme o serviço de monitoramento Global Nature Watch, 3,2 mil hectares de floresta tropical primária do Haiti foram destruídos entre 2002 e 2025. Isso representa uma perda de 4% da cobertura vegetal do país.

Fumaça branca entre as montanhas próximas de Gavanneau, Haiti
Fumaça branca entre as montanhas próximas de Gavanneau, no departamento de Sud, no Haiti. Esta é uma das áreas do país mais afetadas pelo desmatamento nas últimas décadas (Imagem: Iolanda Fresnillo / Flickr, CC BY NC SA)

Um relatório do Fundo Verde para o Clima com dados do início da década passada indicou que apenas um terço dos domicílios haitianos tinha acesso à eletricidade naquela época. Em 2023, a lenha e o carvão vegetal supriam mais de 75% da demanda energética do país, segundo o Departamento de Minas e Energia do Haiti.

Não há uma estimativa oficial de quantos agricultores passaram a produzir carvão vegetal nos últimos anos, mas pesquisas indicam que essa é a segunda atividade agrícola mais lucrativa no Haiti, depois da produção de manga.

“Tudo isso se insere no mesmo contexto, decorrente da crise política e de segurança, que está agravando ainda mais a degradação ambiental”, afirmou Noncent.

Ausência de Estado

Desde o assassinato de Moïse em 2021, a situação política do país é delicada. Pelo menos três nomes comandaram o Executivo sem terem sido eleitos para o cargo. Em 2024, foi criado um Conselho Presidencial de Transição composto por nove membros, com o apoio da Comunidade do Caribe e de outros parceiros internacionais. Em fevereiro, o primeiro-ministro indicado pelo   conselho, Alix Didier Fils-Aimé, assumiu o cargo. Novas eleições estão marcadas para dezembro

Um relatório de 2022 do Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários indicou que havia 200 gangues atuantes no país. Esses grupos armados têm explorado o vácuo de poder para ampliar seu controle por meio da violência. 

A expansão das gangues para além da capital, Porto Príncipe, mina a já escassa autoridade estatal e interrompe as rotas humanitárias e comerciais. As gangues atacam comunidades em diversas regiões, destruindo propriedades agrícolas e dilapidando economias locais. 

A violência das gangues deixa milhares de pessoas mortas todo ano, segundo a ONU — só entre março e maio, foram quase 400 em algumas partes da capital.

A crise torna a conservação de áreas protegidas do país cada vez mais difícil, agravando o desmatamento. O envolvimento das gangues nessas atividades prejudiciais ao meio ambiente não está claro, mas analistas e moradores afirmam que a exploração de recursos naturais – incluindo a produção de carvão vegetal, o desmatamento ilegal e a ocupação de áreas protegidas – se expandiu paralelamente ao agravamento da situação de segurança. 

Alguns agricultores foram forçados a se retirar. “Praticamente não temos mais acesso às nossas terras”, disse Maryse Lorima, moradora de Kenscoff, cidade próxima a Porto Príncipe. “Desde que as gangues invadiram a região, ficou extremamente difícil trabalhar nos cultivos”.

Ela disse que grupos armados exploram plantações, gado e recursos naturais. “Eles derrubam árvores para fazer carvão vegetal e levam as colheitas dos moradores para vendê-las”, afirmou.

Agente de segurança haitiano patrulha rua em Porto Príncipe enquanto homem movimenta carrinho de supermercado cheio de caixas de papelão
Agente de segurança haitiano patrulha rua em Porto Príncipe enquanto homem movimenta carrinho de supermercado cheio de caixas de papelão. Desde 2018, o Haiti está mergulhado em uma prolongada crise política e humanitária (Imagem: Francisco Proner / CIDH, CC BY)

Falhas na proteção ambiental

Kenscoff é um dos principais pontos de entrada do Parque Nacional La Visite. A presença de gangues nessas zonas torna o acesso perigoso e impede que as instituições governamentais cumpram suas funções. Prénord Courdo, diretor técnico da Agência Nacional de Áreas Protegidas do Haiti, descreveu essas dificuldades ao site Ayibopost em 2025: “Nos últimos cinco anos, não conseguimos realizar um trabalho de campo adequado nas áreas protegidas”. 

Oficialmente responsável pela gestão de cerca de 20 unidades, a agência opera sob a supervisão do Ministério do Meio Ambiente, mas não consegue dar conta do recado.

Alguns grupos armados estão incorporando áreas protegidas do Haiti à sua estratégia de controle territorial. Coalizões de gangues, como Viv Ansanm e 400 Mawozo, ocupam posições-chave em torno de recursos naturais estratégicos, particularmente em áreas verdes do oeste haitiano. Muitas dessas áreas servem como corredores de transporte, refúgios após confrontos com as forças de segurança e centros de atividades econômicas ilegais.  

Diante disso, uma grande parte da floresta haitiana, incluindo os parques nacionais Forêt des Pins e La Visite, foi convertida em zonas de produção de carvão vegetal, terras agrícolas ou assentamentos informais. 

Em janeiro de 2006, o governo criou a Brigada de Vigilância das Áreas Protegidas (Bsap) para apoiar a proteção ambiental. Desde então, o efetivo da brigada cresceu para vários milhares de oficiais. Porém, a entidade já foi acusada de corrupção e abuso de poder — à medida que houve um desvio de função para reforçar a segurança pública — e até formação de paramilitares. O Ministério do Meio Ambiente já alertou sobre graves disfunções internas, incluindo a falta de controle institucional, estruturas de comando pouco claras e mecanismos de prestação de contas insuficientes.

Uma investigação de 2024 sobre a Bsap realizada pelo AyiboPost revelou denúncias de contrabando, sequestro e atos de repressão contra civis. Segundo a reportagem, muitos oficiais não estão oficialmente registrados junto ao governo como funcionários públicos e alguns portam armas ilegais. 

“Na ausência de fiscalização e transparência, as estruturas de proteção ambiental podem desviar sua função, deixando as áreas protegidas expostas à exploração e à degradação”, afirmou Noncent.

Nem a Bsap nem o Ministério do Meio Ambiente responderam aos pedidos de comentário do Dialogue Earth. Em abril de 2025, o conselho de transição presidencial anunciou uma colaboração oficial entre a Bsap e as forças de segurança, afirmando que membros selecionados da Bsap seriam convocados para ajudar a “reforçar a segurança pública”. 

Para os moradores que vivem perto do Parque Nacional La Visite, o que chama a atenção é a ausência quase total dos agentes que supostamente realizariam a vigilância do local. Um desses moradores, Ronald Aristil, lamentou a situação: “Quase nunca vemos nenhum agente na área, embora sejam eles que deveriam garantir a segurança”.

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