Clima Em meio à seca, Peru vive crise em sistema antienchentes glaciais Peru construiu mecanismos de defesa pioneiros contra inundações glaciais — até que eles foram sucateados por falta de verba e problemas de gestão Português Português Español English Compartilhar a matéria × Copy link to page Copy link to page × Republicar esta matéria Você pode republicar os textos do Dialogue Earth sob a licença Creative Commons. Por favor, confira nossa política de republicação. Palcacocha, lago glacial nos Andes peruanos alimentado pelas geleiras Palcaraju e Pucaranra. Após avanços nos esforços de prevenção contra enchentes no século passado, centenas de lagos glaciais do Peru correm risco de transbordar (Imagem: Walter Hupiu / Germanwatch) Jack Lo Lau Setembro 24, 2026Setembro 24, 2026 Benjamín Morales tinha sete anos quando uma mistura de água, pedras e lama arrasou as casas de seus vizinhos nos Andes peruanos. Ele correu descalço com centenas de outras pessoas em direção às terras mais altas, enquanto a enchente matava milhares de pessoas em Huaraz, capital da região de Ancash: o lago glacial Palcacocha havia transbordado. Era 13 de dezembro de 1941. “Ainda me lembro disso como se fosse um filme que passa diante dos meus olhos”, contou Morales ao Dialogue Earth. O desastre mudaria o curso de sua vida. Morales tornou-se geólogo e passou a estudar as geleiras ao redor do mundo, da Cordilheira dos Andes às regiões polares e às montanhas da região Hindu Kush-Himalaia. Entre as décadas de 1960 e 1990, ele liderou algumas das mais importantes iniciativas governamentais para reduzir os riscos relacionados às geleiras na Cordilheira Branca, no Peru. Geólogo peruano Benjamín Morales faz levantamento topográfico para monitoramento de geleiras (Imagem cedida por Benjamín Morales) Morales testemunhou os três desastres mais mortais ligados a geleiras dos últimos cem anos: o primeiro foi o de 1941 em Huaraz; em 1962, ele viu a destruição do distrito de Ranrahirca após um bloco de gelo se desprender da montanha mais alta do Peru, o monte Huascarán; depois disso, em 1970, Morales tinha recém deixado a cidade de Yungay quando um terremoto desatou uma avalanche no Huascarán que engoliu a cidade, assim como em Ranrahirca, matando 25 mil pessoas em menos de dez minutos. Paola Moschella, diretora de pesquisa sobre geleiras do Instituto Nacional de Pesquisa de Geleiras e Ecossistemas de Montanha do Peru (Inaigem), afirmou que “estudos classificam os Andes como a terceira região de maior risco” para inundações glaciais no mundo. O perigo decorre da combinação de geleiras tropicais íngremes e comunidades densamente povoadas em locais próximos a cursos d’água. No fim do mês passado, o colapso de uma geleira no Himalaia matou mais de 1,3 mil pessoas ao varrer os vales de Trishuli e Bhotekoshi, na fronteira entre o Nepal e o Tibete. Milhares de pessoas ainda estavam desaparecidas até 11 de setembro. Para Morales, o desastre despertou memórias profundas de outras tragédias. Resposta pioneira às inundações Diante do constante risco de desastres glaciais, o Peru criou um programa pioneiro de prevenção de desastres. A enchente de 1941 motivou os primeiros esforços sistemáticos para monitorar lagos glaciais e executar as obras preventivas em bacias alimentadas por geleiras. Isso levou à criação da Comissão de Controle de Lagos da Cordilheira Branca e, posteriormente, da Corporação Peruana do Santa (batizada em homenagem ao principal rio de Huaraz). Posteriormente, esses órgãos transferiram a responsabilidade para a Electroperú, concessionária estatal de energia elétrica que comandou as obras de prevenção até a década de 1990. Morales e seus colegas tornaram-se, na prática, cirurgiões das altas montanhas. Eles desenvolveram uma abordagem em quatro etapas: redução controlada dos níveis de água dos lagos, construção de túneis de drenagem, reforço de barragens de contenção e construção de canais hidráulicos de transbordamento. Morales contou que esse trabalho conjunto ajudou a estabilizar 35 lagos glaciais na Cordilheira Branca. “Pessoas de todo o mundo vieram para aprender com a gente. Fomos convidados a todos os lugares para explicar nosso trabalho. Fomos pioneiros”, disse Morales. O glaciologista peruano César Portocarrero passou cinco décadas trabalhando em projetos de segurança em geleiras nos Andes peruanos e no Nepal. Ele relembrou “a ousadia técnica daqueles anos”. Entre as décadas de 1960 e 1990, a Cordilheira Branca foi palco de alguns desses projetos. Engenheiros perfuraram a geleira Safuna até uma profundidade de 160 metros, realizaram estudos de refração sísmica (para mapear as camadas do subsolo) e escavaram um túnel de 150 metros. No lago Parón, perfuraram outra cavidade de 55 metros através de rocha sólida, usando técnicas de mergulho em alta altitude e tecnologia avançada. Esse trabalho gerou informações detalhadas sobre os lagos, ao mesmo tempo em que fortaleceu barragens e reduziu os níveis de água para diminuir o risco de inundações perigosas causadas pelo rompimento de barragens. O desastre de Yungay também transformou a resposta institucional do Peru. Em 1972, o governo criou o que hoje é chamado de Instituto Nacional de Defesa Civil. Foi a primeira instituição formal do país dedicada à prevenção e resposta a desastres. Yungay foi reconstruída em um terreno mais seguro graças a um grande esforço de realocação. As ruínas da antiga cidade foram declaradas local de memória. Sistema sob pressão Grande parte desse progresso começou a desmoronar-se na virada do século. Em meio a cortes orçamentários na década de 2000, o governo encerrou o histórico Programa de Glaciologia e Segurança Lacustre do Peru, respeitado por suas conquistas pioneiras e novos padrões de prevenção. A gestão das geleiras agora enfrenta uma crise estrutural. Alonso Brenes, consultor do Banco Mundial e membro do Grupo Consultivo da Unesco sobre Gestão de Riscos para a América Latina, disse que uma das razões para isso é a fragmentação institucional e a fragilidade dos governos locais. A descentralização administrativa, disse Brenes ao Dialogue Earth, não foi acompanhada por uma capacidade técnica de gestão de riscos: “Segundo estimativas, apenas 35% dos governos subnacionais do Peru têm unidades operacionais capazes de atuar na gestão de riscos de desastres, transformando a prevenção em quase só palavras no papel”. Tudo o que conquistamos ficou no passadoBenjamín Morales, geólogo Para Moschella, os limites do papel do Inaigem ilustram a dimensão do problema: “Não realizamos diretamente ações preventivas nem obras, porque isso não está previsto em nosso marco legal. O que fazemos é gerar conhecimento, avaliar riscos e prestar assistência técnica aos governos locais e regionais”. Portocarrero descreve um movimento constante de “empurrar a responsabilidade” de uma instituição para outra ao longo de anos, sem que ninguém realizasse as obras consideradas urgentes por especialistas. Os números destacam a magnitude do desafio. Dos mais de oito mil lagos glaciais presentes em todo o Peru, o Inaigem identificou 528 com risco de transbordamento. Destes, 169 estão em Ancash — região onde ocorreram os três desastres glaciais mais mortais do país no século passado. LEIA MAIS A infraestrutura construída no século passado também está se deteriorando. O exemplo mais emblemático é o de Palcacocha. Segundo o Inaigem, o volume de água do lago havia crescido cerca de 34 vezes em 2016 na comparação com 1972. O órgão também considera a barragem de Palcacocha, construída há mais de 50 anos, potencialmente perigosa. Ela ameaça toda a população de Huaraz, de quase 120 mil habitantes, muitos deles residentes na mesma área onde Morales viu seus vizinhos desaparecerem. Estudos sugerem que as mudanças climáticas, agravadas pela ação humana, estão aumentando a periculosidade do lago para as comunidades próximas. Brenes afirmou que as realidades econômicas deixam as comunidades sem muitas opções além de se assentarem em áreas de risco: “As pessoas se estabelecem e retornam a áreas de risco na beira dos rios não por ignorância, mas por necessidade econômica. Elas optam pela proximidade com a água para o comércio e a agricultura, apesar do perigo latente”. Confluência de dois rios em Huaraz, nos Andes peruanos, com nascentes na Cordilheira Branca (Imagem: Alexander Luna / Germanwatch e.V.) A memória de desastres passados também se perdeu. “Ao contrário de Yungay, que foi realocada, locais como Ranrahirca foram reconstruídos duas vezes na mesma área de alto risco”, explicou Moschella. Com uma limitada infraestrutura de mitigação física, a tecnologia está sendo utilizada para ganhar minutos que podem salvar vidas. Um sistema de alerta precoce bem operado pode dar às comunidades entre seis e 25 minutos para evacuar uma área antes de uma enchente, explicou Moschella. O Inaigem instalou três estações de monitoramento em tempo real em Huaraz, Cusco e Huánuco, embora o sistema de Huaraz tenha enfrentado problemas operacionais. O Inaigem também está trabalhando para implementar um sistema de alerta precoce nas encostas do Huascarán. Futuro da água para os peruanos Para autoridades e formuladores de políticas públicas, as montanhas representam uma combinação difícil de incerteza e transformações aceleradas. Moschella descreveu os desastres relacionados às geleiras como “imprevisíveis”, acrescentando que “calcular probabilidades no contexto atual das mudanças climáticas é extremamente difícil”. Enquanto isso, o recuo das geleiras peruanas está se acelerando. Dados do Inaigem de 2023 revelaram que o país perdeu 56% de sua cobertura glacial nas últimas seis décadas. Isso está gerando outra crise mais lenta: a insegurança hídrica. Portocarrero e Brenes estimam que 60% a 65% da população do Peru depende da água proveniente de bacias hidrográficas com origem em áreas glaciais. Há dois anos, o então ministro do Meio Ambiente, Juan Carlos Castro, reconheceu em visita a Huaraz que milhões de peruanos dependem da água de ecossistemas montanhosos. “A maior tragédia será ficar sem água”, acrescentou Portocarrero. LEIA MAIS Cerca de 58% dos peruanos vivem em áreas com escassez hídrica, segundo o Centro Nacional de Planejamento Estratégico. “Lima enfrenta a ameaça real de perder, por volta de 2030, as reservas que abastecem suas bacias hidrográficas”, afirmou Brenes. Para Morales, o Peru já perdeu algo que levou décadas para ser construído: “Tudo o que conquistamos ficou no passado”. Suas palavras são um alerta não apenas para o Peru, mas também para os países do Himalaia, a milhares de quilômetros de distância. As geleiras seguirão recuando. A questão é se os governos serão capazes de defender a memória institucional, o conhecimento técnico e o compromisso político necessários para proteger as populações mais vulneráveis – antes que as montanhas voltem a rugir. Continue lendo Reportagem Impactos climáticos Sem eletricidade, haitianos convertem árvores frutíferas em carvão Reportagem Mercados de carbono Após sucesso na Índia, modelo de mercado de carbono chega ao Rio Reportagem Mercados de carbono Sul Global trará uma solução para os mercados de carbono? Reportagem Adaptação ao calor extremo Norte do México desafia pobreza e calor extremo com energia solar Reportagem Geopolítica Na mira dos EUA, América Latina recorre a mercado verde chinês Reportagem Sociedade ‘Precisamos de uma transição verde que faça parte do bem-viver’ Reportagem Aço Na cidade do aço, poluição e incerteza pairam no ar Reportagem Povos Indígenas Política indigenista avança, mas problemas críticos persistem