Oceanos

Piscicultura de salmão chega a ‘fim do mundo’ na Patagônia

Província da Terra do Fogo, na Argentina, derruba proibição às fazendas de salmão e levanta preocupações sobre a preservação da biodiversidade local
<p>Leões-marinhos na Terra do Fogo, extremo sul da Argentina. Em dezembro, a criação industrial de salmão foi autorizada na província (Imagem: Martín Katz / Greenpeace)</p>

Leões-marinhos na Terra do Fogo, extremo sul da Argentina. Em dezembro, a criação industrial de salmão foi autorizada na província (Imagem: Martín Katz / Greenpeace)

Oito parlamentares a favor, sete contra. Esse foi o placar final da votação na província argentina da Terra do Fogo, na região mais austral da América do Sul, para autorizar a produção industrial de salmão em 15 de dezembro de 2025. 

Com seu relevo acidentado, belas paisagens naturais e um grande porto em Ushuaia próximo à Antártida, a Terra do Fogo muitas vezes é apelidada de “fim do mundo”. 

A província também é conhecida por seus ecossistemas praticamente intactos. A vida selvagem prospera nesse reino subantártico rico em nutrientes, formado por bosques, turfeiras e mares gelados. Leões-marinhos e golfinhos nadam pelos canais costeiros, baleias-francas-austrais seguem suas rotas migratórias e aves como albatrozes, corvos-marinhos e pinguins usam o mar para se alimentar e se reproduzir.

Para muitos na província, a nova lei representa uma ameaça a esse equilíbrio natural.

Mudanças no tabuleiro político

Após a aprovação das fazendas aquícolas, a Câmara Legislativa ficou em silêncio.

“Havia uma sensação estranha, como se os parlamentares estivessem entre a cruz e a espada”, afirmou Nancy Fernández, pesquisadora da Universidade Nacional da Terra do Fogo e presidente da Associação Mane’kenk, dedicada à educação e conservação ambiental. “Foi só por um segundo, mas eles nos olharam como se dissessem ‘não tivemos outra escolha’”, contou ela ao Dialogue Earth.

Em 2021, foi aprovada uma lei com efeito oposto: a proibição da criação de salmão na Terra do Fogo. À época, a legisladora Mónica Urquiza, do Movimento Popular Fueguino, recebeu na sede da Câmara cidadãos e ativistas que apoiaram a medida.

Protesto em novembro de 2025 contra as fazendas de salmão na Terra do Fogo
Protesto em novembro de 2025 contra as fazendas de salmão na Terra do Fogo. A proibição da piscicultura de salmão foi revogada apenas em dezembro passado (Imagem: Asociación Manekenk)

Na votação de dezembro, porém, Fernández contou que Urquiza — hoje presidente da Casa — permitiu a entrada de apenas três observadores. “Como vice-governadora e presidente da Câmara Legislativa, ela impediu a entrada da população. E parlamentares que até sexta-feira passada se diziam contrários ao projeto votaram a favor”, afirmou.

A lei anterior permitia a produção de salmão apenas em pequena escala, com limite de 50 toneladas por ano por fazenda. Com a nova lei, não há limite. A atividade fica proibida apenas no Canal de Beagle, que separa a ilha principal, ao norte, das ilhas menores ao sul.

O governador Gustavo Melella, do partido de esquerda Forja, foi quem apresentou uma emenda para liberar a atividade, embora anos antes tenha apoiado a proibição das fazendas de salmão. Em entrevista em 2021, ele afirmou que a província não deveria introduzir novas espécies e alertou que, se algo desse errado como no Chile, o desastre seria irreparável. Nas redes sociais, na mesma época, defendeu atualizar o marco regulatório da aquicultura com “os mais altos padrões de controle ambiental”.

Esses padrões e outros detalhes serão definidos quando a lei for regulamentada pelo governo provincial, até 15 de março. A Fundação Ambiente e Recursos Naturais (Farn), especializada em direito ambiental, informou ao Dialogue Earth que a implementação ainda está em aberto.

Criação de empregos ou falsa esperança?

A Argentina enfrenta uma crise econômica prolongada, marcada por inflação elevada, instabilidade monetária e aumento da pobreza. Esses problemas são anteriores à gestão do presidente Javier Milei, que assumiu em dezembro de 2023, mas se aprofundam sob a agenda do governo ultraliberal.

Por isso, a liberação da aquicultura de salmão na Terra do Fogo — antes rejeitada pelos mesmos políticos que a aprovaram recentemente — foi justificada sobretudo pela promessa de crescimento econômico e geração de empregos.

Em 2025, Diego Marzioni, subsecretário provincial de Pesca e Agricultura, disse à agência de notícias ADNSUR que a criação de salmão geraria quatro mil empregos

Alguns acadêmicos e ambientalistas questionam esses números. 

“Pedimos que parem de dar falsas esperanças às pessoas, porque é triste fazer isso neste contexto de crise”, afirmou Fernández.

Gustavo Lovrich, pesquisador do Centro Austral de Pesquisas Científicas, diz que a mudança de posição do governo pode estar ligada à eliminação das tarifas de importação sobre produtos eletrônicos — medida federal introduzida em maio de 2025 que afetou essa indústria da Terra do Fogo e, segundo estimativas, pode resultar na perda de quase um terço dos mais de dois mil empregos do setor na província.

O Dialogue Earth buscou um posicionamento do subsecretário Diego Marzioni, mas não recebeu resposta.

Custo do salmão

Nativo do hemisfério norte, o salmão foi introduzido no Chile há mais de um século, e os impactos ambientais associados à sua criação são frequentemente citados por especialistas como alerta para o que pode ocorrer na Terra do Fogo.

“Cerca de 70% dos peixes nativos do Chile enfrentam problemas de conservação, porque o salmão é carnívoro e se alimenta de peixes nativos”, observou Flavia Liberona, bióloga chilena e diretora-executiva da Fundação Terram. A produção comercial de salmão começou no Chile no final da década de 1970, em pequena escala. Em 2000, era dominada por grandes corporações multinacionais.

Gaiolas de salmão
Gaiolas de salmão na Patagônia chilena operadas pela Mitsubishi. A piscicultura do salmão começou no Chile na década de 1970, e o país agora domina o mercado global junto à Noruega (Imagem: Sergio Salazar / Greenpeace)

Em 2007, um surto de anemia infecciosa do salmão atingiu a região, levando a indústria a expandir a atividade para outras áreas em busca de águas livres da doença.

A indústria chilena do salmão produz mais de um milhão de toneladas por ano e opera sob 1.380 concessões, das quais 408 estão em áreas protegidas. “As autoridades não regulamentaram adequadamente a indústria”, afirmou Liberona.

O Fórum para a Conservação do Mar Patagônico (FMP), que reúne 30 organizações de Argentina, Chile, Brasil e Uruguai, lista outros impactos da criação de salmão: fuga de peixes que prejudicam a fauna local; acúmulo de resíduos que reduzem o oxigênio da água e aumentam a proliferação de algas nocivas; e uso intensivo de antibióticos, associado ao surgimento de bactérias resistentes em humanos. 

Críticos ao projeto alertam para os riscos desses problemas afetarem uma região ainda praticamente intocada como a Terra do Fogo. 

Liberona também questiona sua viabilidade econômica, já que se trata de “uma indústria altamente complexa”, na qual não basta apenas instalar fazendas no mar. 

A produção é altamente competitiva e dominada por Noruega e Chile. Fazendas no extremo sul da Argentina teriam que importar peixes e insumos, transportar a produção para mercados distantes e atrair trabalhadores qualificados.

Dead salmon
Salmões mortos em 2021 em meio à proliferação de algas em Los Lagos, Chile. Especialistas afirmam que a indústria gera impactos negativos, como a alteração do ambiente com a fuga de salmões (Imagem: Alvaro Vidal / Greenpeace)

Problema de fiscalização

A nova lei determina que o governo provincial realize uma avaliação ambiental para definir as áreas adequadas à criação de salmão e exige que cada fazenda apresente seu próprio estudo de impacto ambiental. A aplicação da lei caberá às secretarias de Pesca e Aquicultura e de Meio Ambiente.

Alguns cientistas e ambientalistas duvidam que o governo local consiga monitorar as fazendas. Fernández teme que dividir essa responsabilidade entre duas entidades provoque um conflito entre interesses econômicos e ambientais. 

“Acredito que a maior desconfiança das pessoas está nessa área: elas não acreditam que as autoridades tenham capacidade para fazer cumprir as regulamentações”, disse.

Essa avaliação ambiental não foi realizada até a publicação desta reportagem. Assim, ainda não está claro onde as fazendas serão instaladas e com quais investimentos.

A nova lei estipula que a avaliação siga “critérios de sustentabilidade”, mas não especifica quais. A Farn explicou que essas informações são acrescentadas posteriormente na regulamentação da lei. 

A coordenadora do FMP, Andrea Michelson, afirmou que a organização espera impedir as fazendas na região: “A solução seria não permitir a atividade. Nossas alternativas são sempre cuidar do meio ambiente e promover atividades existentes, como ecoturismo e outras atividades rurais sustentáveis sem a extração de recursos ambientais”.

Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.

Strictly Necessary Cookies

Strictly Necessary Cookie should be enabled at all times so that we can save your preferences for cookie settings.

Analytics

This website uses Google Analytics to collect anonymous information such as the number of visitors to the site, and the most popular pages.

Keeping this cookie enabled helps us to improve our website.

Marketing

This website uses the following additional cookies:

(List the cookies that you are using on the website here.)