Energia

Na mira dos EUA, América Latina recorre a mercado verde chinês

Doutrina ‘Donroe’ leva política externa dos EUA de volta ao século 19 e pode ampliar sucesso da China em corrida por minerais críticos para a transição energética
<p>Em março, o presidente dos EUA, Donald Trump, se reuniu com outros chefes de Estado na Flórida para o lançamento do Escudo das Américas, iniciativa de cooperação militar com países aliados no continente (Imagem: <a href="https://flic.kr/p/2s12LJe">Isaac Castillo</a> / <a href="https://www.flickr.com/people/presidenciaecuador/">Presidencia de la República del Ecuador</a>, <a href="https://creativecommons.org/publicdomain/mark/1.0/deed.pt-br">PDM</a>)</p>

Em março, o presidente dos EUA, Donald Trump, se reuniu com outros chefes de Estado na Flórida para o lançamento do Escudo das Américas, iniciativa de cooperação militar com países aliados no continente (Imagem: Isaac Castillo / Presidencia de la República del Ecuador, PDM)

No início de agosto, o Departamento de Estado dos EUA publicou um vídeo de cinco minutos nas redes sociais sobre a Doutrina Monroe, lançada em 1823. A postagem exibe o que o governo de Donald Trump chama de uma das “declarações diplomáticas mais ousadas da história americana”.

A Doutrina Monroe foi uma resposta à ameaça de recolonização das Américas pelas potências europeias. Os então jovens Estados Unidos, preocupados em afastar essa ameaça, declararam que o hemisfério ocidental estaria livre do imperialismo europeu — para, mais tarde, virar refém do próprio imperialismo dos EUA. Sob a ótica americana construída desde então, os Estados Unidos seriam praticamente soberanos na região.

Com a publicação, a administração Trump mandou um recado claro para seus vizinhos latino-americanos: a Casa Branca ainda considera o continente seu quintal.

O ressurgimento dessa política externa do século 19 agora vê na China sua principal adversária. O país asiático vem ganhando terreno na América Latina há décadas, estabelecendo-se como o segundo maior parceiro comercial e principal credor da região. Empresas chinesas controlam minas de lítio no Chile e na Argentina, além de grandes portos no Peru; já o Brasil e a China estudam a possibilidade de construir uma ferrovia bioceânica até os terminais peruanos.

Tanto a China quanto os EUA querem ser potências energéticas, e a disputa pelos recursos da América Latina mostra duas abordagens muito diferentes. Empresas chinesas têm investido em lítio e outros minerais críticos para a transição energética. A administração Trump, por sua vez, segue apostando no petróleo — mesmo que para isso precise destituir e capturar o presidente venezuelano Nicolás Maduro numa megaoperação militar voltada, em última instância, a controlar as reservas petrolíferas do país. 

O sequestro de um chefe de Estado serviu de aviso para toda a América Latina: os EUA ainda se consideram os donos desta região. Mas será que as ameaças dos EUA poderiam afastar a América Latina de sua área de influência e levá-la aos braços de investidores chineses?

Doutrina Donroe

A nova estratégia de segurança nacional da Casa Branca, publicada em novembro de 2025, defende um hemisfério ocidental “livre de incursões estrangeiras hostis ou do controle de ativos-chave”. Ao divulgar o documento, Trump disse à imprensa que “o domínio americano no hemisfério ocidental” nunca mais seria questionado. A estratégia cita a Doutrina Monroe, acrescentando a releitura de Trump — apelidada posteriormente de Doutrina “Donroe”. 

“A doutrina [Monroe] encontrou seu mais recente defensor em Donald Trump”, afirmou o embaixador dos EUA no Panamá, Kevin Marino Cabrera, no vídeo divulgado em agosto pelo Departamento de Estado. A escolha dele para narrar o vídeo não foi à toa.

Desde que o Panamá conquistou sua independência da Colômbia em 1903, os EUA mantêm forte influência sobre a política panamenha. Até 1999, os EUA ainda controlavam um território que ocupa ambos os lados do Canal do Panamá. 

Em 1997, a empresa CK Hutchison, de Hong Kong, assinou contratos para administrar dois dos cinco terminais da hidrovia. Este ano, esses contratos chegaram ao centro de uma tempestade política após terem sido declarados inconstitucionais por decisão da Suprema Corte do Panamá. Um ano antes, Trump acusou a China de “administrar o Canal do Panamá” e ameaçou devolver aos EUA o controle da passagem interoceânica.

Essa pressão vem se intensificando em todo o continente. Em junho, o Chile descartou os planos de se conectar a Xangai por meio de um cabo de dados submarino após os EUA sugerirem que essa infraestrutura poderia ter uma função de natureza militar. 

Na Argentina, a embaixada dos EUA em Buenos Aires ameaçou revogar os vistos de executivos de uma empresa de energia sob a justificativa de que eles tinham negócios com a chinesa Huawei. O presidente argentino Javier Milei é um dos maiores defensores de Trump na América Latina, e seu governo não interveio publicamente no caso.

A agressiva política externa de Trump rompe com a postura adotada por seus antecessores neste século. Margaret Myers, diretora do Instituto para a América, a China e o Futuro das Relações Internacionais, da Universidade Johns Hopkins, resume essa mudança parafraseando o ex-presidente americano Barack Obama em relação à América Latina: “O que é bom para a região é bom para os EUA”.

Essa abordagem mais conciliadora, que permitiu a expansão de investimentos chineses nas Américas do Sul e Central, acabou com a chegada de Trump ao poder. “Não se ouve mais essa narrativa”, disse Myers. “Agora, há uma ideia de que a China tenta tirar proveito da situação e, se houver muita aproximação, haverá consequências negativas”.

Visita do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, à Casa Branca em abril de 2025
Visita do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, à Casa Branca em abril de 2025. O líder centro-americano é um dos principais aliados de Trump na região (Imagem: Casa Presidencial de El Salvador / Flickr, PDM)
Bukele com bandeiras de El Salvador e China no fundo
Apesar da proximidade com os EUA, Bukele adotou uma abordagem pragmática em relação à China e não fechou portas a investimentos chineses (Imagem: Casa Presidencial de El Salvador / Flickr, PDM)

Negócio da China

A China tem reagido com firmeza às fortes pressões diplomáticas e ameaças da Casa Branca. Em agosto, o embaixador da China no Chile, Niu Qingbao, acusou os EUA de praticar uma “diplomacia coercitiva” e de “não demonstrar respeito pela soberania” de outros países.

Autoridades do governo chinês explicam que o modelo de desenvolvimento do país asiático se baseia na cooperação e no benefício mútuo, bem como no fortalecimento das parcerias entre os países do Sul Global. A palavra “cooperação”, por exemplo, é mencionada 174 vezes em suas mais recentes diretrizes de política externa para a América Latina.

Empresas chinesas — muitas delas ligadas ao Estado ou apoiadas por ele — têm financiado grandes obras de infraestrutura na região. Uma das mais notáveis é o porto de Chancay, 80 quilômetros ao norte de Lima. O conglomerado chinês Cosco Shipping detém 60% de participação no terminal marítimo.

Alice Hill, ex-assessora de energia da Casa Branca e pesquisadora sênior do Conselho de Relações Exteriores, afirma que o sucesso da China está em estabelecer parcerias confiáveis, ao contrário da oferta americana: “É como um casamento. Se seu parceiro de confiança te traiu, é difícil superar isso. Nós [os EUA] e nossa palavra não nos mostramos confiáveis. Cortamos a ajuda e menosprezamos nossos aliados”.

Como a região está reagindo?

A analista de relações internacionais Fernanda Magnotta destacou, em uma publicação recente para a revista Americas Quarterly, que o maior risco da Doutrina Donroe não é a América Latina optar por um realinhamento simples entre EUA ou China. “O risco é que, ao tentar forçar a América Latina a escolher, Washington ensine aos governos da região por que eles nunca deveriam precisar escolher”, escreveu.

No início do mês, um conflito diplomático entre o Brasil e os EUA envolvendo a nomeação de um embaixador americano em Brasília resultou na revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington. O caso tensionou as relações bilaterais dois meses antes das eleições gerais brasileiras, gerando dúvidas sobre qual será o papel da Casa Branca no processo.

Presidente chinês Xi Jinping junto à ex-presidente peruana Dina Boluarte
Presidente chinês Xi Jinping junto à ex-presidente peruana Dina Boluarte, novembro de 2024, por ocasião da inauguração do porto de Chancay (Imagem: Presidência do Peru / Flickr, CC BY NC SA)
Presidente equatoriano Daniel Noboa ao lado de Xi Jinping em sua visita oficial à China
Presidente equatoriano Daniel Noboa ao lado de Xi Jinping em sua visita oficial à China, em 18 de agosto (Imagem: Isaac Castillo / Presidencia de la República del Ecuador, PDM)

O caso da Argentina mostra que os países são movidos mais pela necessidade do que pela pureza ideológica quando se trata de tomar decisões reais. Por mais que Milei queira manter uma amizade inabalável com o presidente dos EUA, a situação econômica argentina levou o país a prorrogar novamente sua linha de swap cambial com a China. 

Ainda na semana passada, o presidente equatoriano Daniel Noboa (outro importante aliado de Trump na América do Sul) viajou até Beijing para se reunir com seu homólogo chinês Xi Jinping. Na ocasião, os dois países firmaram sete acordos bilaterais, e a China prometeu US$ 42 milhões para projetos no Equador.

‘A transição está em marcha na China’

Atualmente, a China é a principal fonte de tecnologia e conhecimento especializado para a transição energética. Já os países latino-americanos, como grandes produtores de minerais críticos que sustentam essas tecnologias, têm encontrado no parceiro asiático seu principal mercado. Em 2025, o Chile vendeu mais da metade de seu cobre e 70% de seu lítio para a China.

Gustavo Pinheiro, analista do think tank de energia E3G, afirmou que essa transição é uma “oportunidade única” para o desenvolvimento latino-americano. “A transição está em marcha na China, no setor de tecnologia”, acrescentou. Os EUA, por sua vez, “apostaram ainda mais” nos combustíveis fósseis, segundo Hill.

Uma pesquisa divulgada em julho pelo Pew Research Center sugere que a percepção sobre a China na América Latina é agora mais positiva do que a percepção sobre os EUA. Via de regra, os latino-americanos entendem que os EUA costumam interferir mais em outros países. 

Conforme Pinheiro, a explicação por trás disso é a longa tradição de agressões dos EUA na região: “Os EUA têm 200 anos de um histórico terrível como aliados. Eles provaram repetidas vezes que [são] pouco confiáveis”. 

Se Trump acredita que pode intimidar seus aliados pela força, a realidade econômica latino-americana mostra que a China já largou na frente nessa corrida há um bom tempo.

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