Nas discussões sobre a economia argentina, há uma narrativa recorrente e sedutora: a ideia de que um país abençoado com vastos recursos naturais teria um caminho fácil para o desenvolvimento.
Com essa ilusão, meu país mergulhou de cabeça nos campos de Vaca Muerta, gigantesca formação geológica na Patagônia que abriga algumas das maiores reservas globais de óleo não convencional e gás de xisto.
Nas profundezas de um poço de petróleo, depositamos nossas esperanças e anseios por uma nova Argentina. Esperamos pelo renascimento de um país finalmente capaz de reverter a negligência sofrida pela imensa maioria da população.
No entanto, à medida que as perfurações avançam, e o petróleo e o gás jorram a taxas sem precedentes, esse sonho se torna uma escuridão cada vez mais densa.
Este ano, a produção de hidrocarbonetos na província de Neuquén, no coração de Vaca Muerta, bateu um novo recorde. Essas operações agora são responsáveis pela maior parte do óleo e gás extraídos na Argentina e estão revertendo os déficits energéticos do passado.
Porém, enquanto navios carregados de petróleo bruto partem rumo a outros países, a economia argentina segue em crise. Conforme o Instituto Nacional de Estatística e Censos, os salários reais do país caíram 40% para os trabalhadores do setor público e 25% para os do setor privado desde 2015. O financiamento para educação, saúde e infraestrutura caiu em até 90%, com consequências profundas para os serviços públicos.
A perda de renda e a piora das condições de vida dos argentinos levaram a um aumento drástico na inadimplência da população nos últimos meses.
O fluxo de dólares gerado por uma balança comercial favorável nunca foi tão intenso e, ainda assim, o Banco Central continua enfrentando sérias dificuldades para recompor suas reservas de moeda estrangeira. Mas por que essa abundância do petróleo não conseguiu estabilizar a economia e gerar mais prosperidade para todos?
Câmbio enganoso
Um dos aspectos fundamentais do problema argentino é que, embora um grande volume de dólares tenha entrado no país, outra parte considerável também saiu.
Os principais atores econômicos da Argentina, como suas empresas de óleo e gás, buscam dolarizar seus lucros. Isso é motivado por vários fatores: a volatilidade da taxa de câmbio local, os diferentes rendimentos das taxas de juros internacionais e as estratégias corporativas de multinacionais voltadas para a diversificação e a repatriação de capital.
O problema é agravado pelas políticas do presidente Javier Milei, de ultradireita. Com seu novo Regime de Incentivo a Grandes Investimentos, o governo busca atrair capital por meio de enormes incentivos fiscais, aduaneiros e cambiais pelas próximas três décadas. Os investidores também podem reter seus ganhos com exportações em moeda estrangeira, sem necessidade de trazê-los para o país.
O governo de Milei também suspendeu o mecanismo de restrições cambiais que há anos vigora na economia argentina. O governo tem dependido fortemente de empréstimos do exterior para sustentar suas políticas cambiais e evitar uma desvalorização ainda maior do peso argentino. Conforme dados da consultoria privada 1816, a dívida bruta em moeda estrangeira (excluindo o setor público) aumentou em US$ 24,8 bilhões desde que Milei assumiu o governo argentino.
Atualmente, Vaca Muerta está gerando os dólares necessários para atender à demanda dos setores mais ricos da Argentina, mantendo essas empresas alinhadas com o programa do governo. O problema da dívida é que ela precisa ser paga, e isso significa que ainda mais dólares precisam sair do país.
Vaca Muerta não é um oásis em meio a uma economia em crise. Pelo contrário, é um componente central do atual sistema de dominação
O “ouro negro” é a força vital que corre pelas veias desse projeto político. Trata-se de um grande pacto entre as classes dominantes, no qual os dólares se acumulam nas contas de poucos, e a pobreza e as más condições de vida atingem o resto da população.
O objetivo é transformar a complexa e industrializada economia argentina em uma nação dependente da extração de recursos. Com isso, a riqueza acaba nas mãos de uma pequena elite econômica.
Raramente nossa economia viu uma transformação tão rápida quanto a de Vaca Muerta. No entanto, essa era de ouro dos hidrocarbonetos coincidiu com um dos piores períodos da história econômica do país.
Esses dois processos contraditórios, no entanto, não devem ser entendidos como fenômenos isolados. Vaca Muerta não é um oásis em meio a uma economia em crise. Pelo contrário, é um componente central do atual sistema de dominação, da aliança econômica e da política que visa uma Argentina para poucos.