Clima

Espetáculos latino-americanos transformam crise climática em arte

Apresentação convida visitantes a imersão pelo maior campo de gás da Argentina; outras obras denunciam rastros de destruição ambiental no Brasil e no Caribe
<p>Apresentação audiovisual sobre exploração petrolífera no Teatro Colón, Buenos Aires, Argentina (Imagem: Lucía Rivero)</p>

Apresentação audiovisual sobre exploração petrolífera no Teatro Colón, Buenos Aires, Argentina (Imagem: Lucía Rivero)

Seis músicos com macacões de operários tocam seus instrumentos do alto de um andaime. Abaixo deles, uma tela exibe uma plataforma de perfuração de petróleo em operação diante de uma piscina de lona, representando o reservatório onde se armazena a água necessária no fracking, técnica exploratória que provoca profundos impactos ambientais. 

Este diorama pouco comum faz parte do espetáculo Geonnitus, exibido em março no Centro de Experimentação do Teatro Colón, em Buenos Aires.

A apresentação leva o público a uma imersão por Vaca Muerta, formação geológica na Argentina que abriga um dos maiores depósitos de petróleo e gás de xisto do mundo. A obra também faz parte de um movimento artístico crescente que busca se apropriar dos elementos causadores da crise climática, gerando uma importante provocação: aquilo que a humanidade faz com a natureza pode ser transformado em arte?

Coração da indústria petrolífera

O espetáculo Geonnitus foi concebido e produzido pelo Proyecto ECO ECO, coletivo argentino de jornalismo e arte.

Trombones, trompas, uma tuba e instrumentos de percussão representam o barulho e o caos da indústria petrolífera. Enquanto isso, outros sons imitam a natureza e a vida da população local: o vento da Patagônia, o balido das cabras, o canto dos pássaros, o balanço de uma rede, a música ouvida por quem trabalha na região. 

O nome do projeto faz uma referência aos “ruídos que ensurdecem a Terra”, segundo seus criadores, bem como ao “zumbido sofrido por nosso planeta”. 

“É quase um réquiem para a Terra”, disse Marina Aizen, jornalista e coordenadora do espetáculo.

Músicos vestidos com macacões tocam trompas no Geonnitus, Buenos Aires
Músicos vestidos com macacões tocam trompas no Geonnitus, Buenos Aires, março passado (Imagem: Lucía Rivero)

Nos últimos 15 anos, Vaca Muerta ocupou um lugar central no debate público argentino. Seus defensores destacam seu potencial para impulsionar o crescimento econômico e criar empregos. Já os críticos destacam os impactos ambientais da extração de hidrocarbonetos, os terremotos associados ao processo de fraturamento hidráulico (ou fracking) e a necessidade de uma transição energética. 

Geonnitus nasceu dessas discussões, afirmou Aizen. “A ideia de mostrar o impacto do fracking por meio da arte surgiu como uma forma de nos distanciarmos das narrativas apresentadas pela imprensa, pela indústria e até mesmo por organizações ambientais”, acrescentou. “Queríamos desenvolver uma linguagem própria para transmitir os efeitos da extração não convencional de hidrocarbonetos”.

O desafio era grande: atrair o público para o mundo do fracking em um canto remoto da Patagônia argentina. “Geonnitus acrescenta uma dimensão da paisagem, dos danos, do ruído e da atmosfera que nenhuma palavra escrita ou falada consegue alcançar sozinha”, disse Aizen.

Os criadores de Petróleo, peça do coletivo argentino Piel de Lava, abordam um tema parecido, mas com um foco nas dinâmicas de gênero da indústria petrolífera. A produção estreou em 2018 e ficou em cartaz até 2024, antes de retornar para mais uma curta temporada em 2025. 

O enredo gira em torno da vida de quatro trabalhadores do setor do petróleo que moram juntos em um trailer, a poucos metros de um poço na Patagônia. A solidão, o vento, a incerteza sobre os recursos a serem extraídos são alguns dos pontos centrais da obra, mas também o humor que surge de viver nessas condições. 

Nesse caso, o ponto de partida não foram os hidrocarbonetos, mas o desejo de desafiar certos estereótipos de gênero. “A ideia do petróleo surgiu depois. A ideia inicial era representar um mundo que fosse essencialmente masculino — e no mundo do petróleo praticamente não há mulheres”, disse uma das estrelas do espetáculo, Pilar Gamboa. 

Arte sobre a devastação no Brasil

O artista de rua brasileiro Mundano, autointitulado “artivista”, explicou que seu trabalho surge de um sentimento de impotência diante da realidade. “Em meio a essa crise climática, é impossível não sentir ansiedade”, disse. “Por isso, dou tanta importância à arte, onde consigo me sentir menos impotente e dar vazão às minhas ansiedades sobre o futuro”.

Seu trabalho cria a partir da destruição. Ele pinta com cinzas de incêndios florestais na Amazônia, óleo derramado nas praias e lama coletada após enchentes no Sul do Brasil.

O documentário Cinzas da Floresta acompanha Mundano em sua viagem pelo Brasil coletando cinzas de incêndios florestais. O resultado é um mural que ocupa um prédio inteiro em São Paulo, retratando um bombeiro voluntário: O Brigadista da Floresta.  

O filme, inclusive, serviu de inspiração para um festival que exibiu obras de outros artistas que usam técnicas semelhantes. A mostra ocorreu na última conferência climática das Nações Unidas, a COP30, realizada em Belém do Pará, em novembro passado. 

Mundano aproveitou o evento para cobrar mais ações contra a crise climática. “Caminhei por florestas queimadas, e a tristeza que paira no ar ali é profunda. É por isso que, nos últimos quatro anos, tenho carregado essas cinzas como um apelo para transformar florestas queimadas em florestas em pé”, completou.

Artista de rua Mundano apresentou mostra de quadros feitos com cinzas de incêndios florestais na COP30
Artista de rua Mundano apresentou mostra de quadros feitos com cinzas de incêndios florestais na COP30 (Imagem © Filipe Bispo / Greenpeace)

Arte e justiça climática

A justiça climática também está presente na música latino-americana. Artistas de cinco países caribenhos colaboraram com a faixa Cielo Azul, expressando o sonho de ter um futuro livre de destruição ambiental. 

“Queremos que essa música conecte pela identidade e pela esperança, mas também que estimule uma conversa urgente sobre o futuro energético do Caribe”, disse Carolina Sánchez, porta-voz da Greater Caribbean Fossil-Free Network, coalizão de organizações que trabalhou em parceria com a gravadora costa-riquenha We Could Be Music. “Não é apenas uma música; é um convite para imaginar e construir um caminho diferente”.

Os artistas – de Colômbia, República Dominicana, Bahamas, Jamaica e Honduras – usam a beleza e a biodiversidade de sua região como tema em suas letras: “Não vamos ficar apenas com uma foto de como o Caribe costumava ser bonito”.

A frase serve de alerta diante da proliferação de projetos petrolíferos em países caribenhos como Guiana, Suriname e Honduras.

“Temos visto uma mudança clara: uma nova geração de artistas que não se contenta apenas em fazer sucesso, mas que busca uma música com significado. Cielo Azul faz parte desse movimento”, explica Mia Paz Cambronero, fundadora da We Could Be Music.

Resistência coletiva

Até mesmo organizações mais tradicionais estão recorrendo à arte para complementar seu trabalho e defender a agenda climática de forma mais eficaz. 

A organização chilena de direito ambiental Fima lançou uma chamada para um concurso de artes visuais e escrita criativa para uma nova revista anual que abordará a crise climática a partir da interseção entre arte e justiça. 

“Há algo de belo na resistência coletiva que surge em torno da crise”, disse Ezio Costa, diretor-executivo da organização. “É aí que os artistas intervêm com os filtros de suas observações”. 

De volta à Argentina, Marina Aizen acredita que o trabalho do Proyecto ECO ECO lança uma nova luz sobre os debates em torno do petróleo. “Nosso projeto surgiu da necessidade de incorporar novas linguagens à discussão sobre hidrocarbonetos”, disse ela. “Por meio da arte, estamos trazendo um novo olhar sobre Vaca Muerta”.

Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.

Strictly Necessary Cookies

Strictly Necessary Cookie should be enabled at all times so that we can save your preferences for cookie settings.

Analytics

This website uses Google Analytics to collect anonymous information such as the number of visitors to the site, and the most popular pages.

Keeping this cookie enabled helps us to improve our website.

Marketing

This website uses the following additional cookies:

(List the cookies that you are using on the website here.)