Clima

Como crise climática abala cosmovisão do povo Wayuu

Enquanto secas e chuvas erráticas apagam conhecimento que povo colombiano levou gerações para construir, comunidades protegem sementes com ajuda da ciência
<p><span style="font-weight: 400;">Dois agricultores Wayuu descansam da lida na roça. Comunidades desse povo indígena colombo-venezuelano estão criando bancos de sementes nativas e guias técnicos para preservar seu conhecimento ancestral (Imagem: Cesar Miguel Palmar Wayuu Ipuana)</span></p>

Dois agricultores Wayuu descansam da lida na roça. Comunidades desse povo indígena colombo-venezuelano estão criando bancos de sementes nativas e guias técnicos para preservar seu conhecimento ancestral (Imagem: Cesar Miguel Palmar Wayuu Ipuana)

Para Ronald Fuenmayor, indígena Wayuu do território costeiro de Paraguachón, na fronteira norte da Colômbia com a Venezuela, os sonhos são parte inseparável de sua relação espiritual com a natureza. 

“Os sonhos anunciam coisas que podem acontecer à sua família ou às pessoas próximas”, contou. 

Na cosmovisão Wayuu, os sonhos dialogam com a vida no território. O mar, as plantas, o vento e a chuva alertam sobre doenças, a chegada de forasteiros e alterações climáticas. 

“Quando o sol forma um grande halo, isso indica uma doença”, explicou Fuenmayor. Ele diz que certos pássaros anunciam a chegada de um visitante ou uma morte, e o pôr do sol de um laranja intenso é interpretado como sinal de más notícias para o território. 

Esse conhecimento ancestral tem sido transmitido ao longo de gerações por avós e autoridades espirituais.

Porém, a crise climática vem afetando essas interpretações. O território que Fuenmayor conheceu na infância não é mais o mesmo. As secas são mais duradouras, as chuvas mais imprevisíveis e o mar mudou seu comportamento. Além disso, os sinais que se leem nos sonhos estão ficando confusos.

Estudos mostram que a crise climática modifica os padrões ambientais históricos, tornando as estações chuvosas imprevisíveis e afetando a agricultura e a sobrevivência de muitas comunidades. Isso também está impactando profundamente a cultura Wayuu.

Grande incerteza

Essa transformação afeta diretamente a agricultura e os modos de vida das populações rurais. Em muitas comunidades Wayuu, o plantio de sementes tornou-se um problema. As famílias preparam a terra e as sementes para serem cultivadas, investindo tempo e energia no trabalho coletivo. Mas a chuva não responde mais como antes. 

“Às vezes chove só por um único dia”, disse Fuenmayor ao Dialogue Earth. “A semente, o trabalho e os hectares cultivados são perdidos”.

Os anciãos, que antes conseguiam interpretar o tempo observando a lua, as nuvens ou o vento, agora sentem incerteza. Fuenmayor contou que seu pai ainda é muito apegado às suas plantações, embora reconheça que “não é mais como antes”. Atualmente, o risco de perder uma colheita é muito maior do que a possibilidade de vê-la prosperar.

Anciãos Wayuu em Cabo de la Vela, departamento de La Guajira, Colômbia
Anciãos Wayuu em Cabo de la Vela, departamento de La Guajira, Colômbia. A crise climática tem ameaçado a conexão espiritual desse povo indígena com o ecossistema costeiro (Imagem: Juan David Duarte / Presidência da Colômbia, PDM)

A escassez de água potável é outra grande preocupação. Para abastecer casas, animais e plantações, é preciso percorrer longas distâncias. Os jagüey – poços tradicionais cavados à mão – são fundamentais para a sobrevivência das comunidades, embora muitos sequem rapidamente devido ao calor extremo e à falta de chuva.

“Tudo muda dependendo se há água ou não”, afirmou Fuenmayor. O impacto não é apenas material; a ausência de água afeta o ânimo coletivo e a própria espiritualidade. “Isso aflige mães, anciãos; afeta o espírito”, acrescentou.

Na cosmovisão Wayuu, a chuva tem seu próprio nome: Juya. Sua chegada representa abundância, bem-estar e renovação da vida. Quando Juya visita o território, explicou Fuenmayor, “há uma festa, um encontro, e o espírito está feliz”. Mas, quando a chuva não chega, a comunidade interpreta isso como um desequilíbrio entre o povo e a terra.

As mudanças climáticas alteram os padrões de precipitação e aceleram tanto as secas quanto a escassez de água em territórios vulneráveis. Esse fenômeno coincide com o que Fuenmayor descreve como chuvas imprevisíveis, perda de sementes e estações secas mais longas.

A leitura do clima também está ligada ao calendário Wayuu. Ao contrário do calendário gregoriano, o ciclo mais importante começa com o juyapu, a grande estação chuvosa entre agosto e novembro. Sua presença marca o início de um novo ciclo de abundância: semeadura, pesca, caça e atividades comunitárias.

Além das mudanças climáticas, as comunidades enfrentam outro problema crescente: a erosão costeira. Fuenmayor disse que em Caño Zagua, assentamento Wayuu no norte do departamento colombiano de La Guajira, várias casas desapareceram devido ao avanço do mar e à alteração dos canais naturais após uma série de intervenções humanas. “Algumas casas desabaram e outras estão rachando”, destacou. Pelos registros da comunidade, pelo menos cinco casas já desapareceram.

Em meio à crise climática global, a experiência do povo Wayuu revela que as mudanças climáticas não afetam apenas os padrões meteorológicos – elas transformam as formas de sentir, interpretar e habitar o mundo. Onde antes os sonhos anunciavam a chegada da chuva, agora reina a incerteza.

Em busca de soluções

A memória dos anciãos Wayuu tenta manter viva uma leitura tradicional do território.

Em wayuunaiki, língua dos Wayuu, não há palavras exatas para “lixo” ou “reciclagem”. A explicação está nas próprias práticas ancestrais desse povo: “Tudo tem uma utilidade dentro do território”, explicou a jovem Yenilin Lubo Bonivento. Tecidos eram reutilizados para confeccionar novas peças; latas eram transformadas em utensílios domésticos; cascas de milho e mandioca serviam como ração para animais ou adubo para a terra.

Nos círculos dos quais Lubo Bonivento participava, as mulheres mais velhas relembravam como as famílias costumavam se deslocar de acordo com as estações chuvosas e como o conhecimento do clima lhes permitia cuidar dos animais, plantar e preservar sementes resistentes às condições do deserto. “Percebemos que já havíamos vivenciado os efeitos das mudanças climáticas no passado, mesmo que não as chamássemos assim”, explicou Lubo Bonivento. “A diferença é que, no passado, as estações eram mais previsíveis”.

A diversidade de nossas sementes também reflete a riqueza cultural e biológica do nosso território
Yenilin Lubo Bonivento, jovem Wayuu

Isso acendeu um alerta duplo, pela perda de conhecimento ancestral e pelo desaparecimento das sementes nativas. Muitos idosos observaram que as gerações mais novas já não reconheciam várias espécies silvestres nem sabiam quando colhê-las ou plantá-las. “Nossas sementes são a base de nossa alimentação, medicina e espiritualidade”, disse Lubo Bonivento. “A diversidade de nossas sementes também reflete a riqueza cultural e biológica do nosso território”.

Tekia, outra comunidade em La Guajira, começou a compilar histórias orais sobre sementes nativas e técnicas de semeadura contadas pelos anciãos da comunidade. O resultado foi a criação de um calendário ecológico e espiritual que documenta as estações chuvosas, as épocas de colheita, os sinais climáticos, os ciclos lunares e os períodos de coleta de sementes. 

Com base nessa experiência, a comunidade começou a criar um viveiro e um banco comunitário de sementes para espécies nativas historicamente adaptadas às condições áridas de La Guajira. A iniciativa envolve mulheres, crianças, jovens e idosos em programas de capacitação para a coleta, armazenamento e conservação de suas próprias sementes. “Cuidar de nossas sementes é um ato de resistência, resiliência e amor pela terra”, afirma Lubo Bonivento.

Essas iniciativas não apenas armazenam sementes, mas também preservam o conhecimento necessário para que elas sigam existindo no futuro. Os guias comunitários criados em Tekia contêm histórias, práticas e recomendações transmitidas pelos mais velhos: quais sinais anunciam uma boa colheita, quais alimentos não devem ser consumidos após a semeadura ou quais ações podem perturbar o equilíbrio da terra.

Para fortalecer esses processos, as comunidades começaram a trabalhar em colaboração com profissionais indígenas e não indígenas de áreas como biologia, agronomia, agroecologia e conservação ambiental. O objetivo é combinar ferramentas científicas para a conservação e reprodução de sementes com o conhecimento ancestral dos ciclos climáticos e espirituais do território.

Conforme a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, as sementes nativas conservadas pelos povos indígenas podem ser uma ferramenta importante para enfrentar a crise climática, dada sua resiliência a secas extremas e ecossistemas frágeis.

Mulheres Wayuu compartilham experiências em uma roda ao ar livre
Mulheres Wayuu compartilham experiências em uma roda ao ar livre. Os Wayuu estão trabalhando com cientistas para preservar seu conhecimento ancestral sobre o clima (Imagem: Yelver Florez Wayuu Epieyuu)

Conhecimento científico e tradicional

Enquanto a ciência fala de ciclos hidrológicos alterados, desertificação e perda de biodiversidade, o povo Wayuu fala de um território que não pode mais ser interpretado como antes. Além de reuniões comunitárias e trocas de conhecimento em wayuunaiki, esses processos de conservação capacitam jovens guardiões de sementes e desenvolvem estratégias de adaptação climática concebidas por e para o povo Wayuu. O objetivo não é apenas proteger as plantações, mas também preservar a memória espiritual do território.

Este é, talvez, um dos alertas mais importantes de comunidades vulneráveis como Paraguachón e Tekia: a crise climática não está apenas secando os jagüeyes ou destruindo as colheitas. Está também rompendo um laço ancestral entre as pessoas, as sementes, os sonhos e a terra.

À medida que mudam os ciclos climáticos de Woumainkat – ou “nosso território” –, o povo Wayuu resiste por meio de suas palavras, suas memórias e suas sementes. Preservar uma semente, no meio do deserto, é também preservar uma forma de compreender a vida.

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