Para Ronald Fuenmayor, indígena Wayuu do território costeiro de Paraguachón, na fronteira norte da Colômbia com a Venezuela, os sonhos são parte inseparável de sua relação espiritual com a natureza.
“Os sonhos anunciam coisas que podem acontecer à sua família ou às pessoas próximas”, contou.
Na cosmovisão Wayuu, os sonhos dialogam com a vida no território. O mar, as plantas, o vento e a chuva alertam sobre doenças, a chegada de forasteiros e alterações climáticas.
“Quando o sol forma um grande halo, isso indica uma doença”, explicou Fuenmayor. Ele diz que certos pássaros anunciam a chegada de um visitante ou uma morte, e o pôr do sol de um laranja intenso é interpretado como sinal de más notícias para o território.
Esse conhecimento ancestral tem sido transmitido ao longo de gerações por avós e autoridades espirituais.
Porém, a crise climática vem afetando essas interpretações. O território que Fuenmayor conheceu na infância não é mais o mesmo. As secas são mais duradouras, as chuvas mais imprevisíveis e o mar mudou seu comportamento. Além disso, os sinais que se leem nos sonhos estão ficando confusos.
Estudos mostram que a crise climática modifica os padrões ambientais históricos, tornando as estações chuvosas imprevisíveis e afetando a agricultura e a sobrevivência de muitas comunidades. Isso também está impactando profundamente a cultura Wayuu.
Grande incerteza
Essa transformação afeta diretamente a agricultura e os modos de vida das populações rurais. Em muitas comunidades Wayuu, o plantio de sementes tornou-se um problema. As famílias preparam a terra e as sementes para serem cultivadas, investindo tempo e energia no trabalho coletivo. Mas a chuva não responde mais como antes.
“Às vezes chove só por um único dia”, disse Fuenmayor ao Dialogue Earth. “A semente, o trabalho e os hectares cultivados são perdidos”.
Os anciãos, que antes conseguiam interpretar o tempo observando a lua, as nuvens ou o vento, agora sentem incerteza. Fuenmayor contou que seu pai ainda é muito apegado às suas plantações, embora reconheça que “não é mais como antes”. Atualmente, o risco de perder uma colheita é muito maior do que a possibilidade de vê-la prosperar.
A escassez de água potável é outra grande preocupação. Para abastecer casas, animais e plantações, é preciso percorrer longas distâncias. Os jagüey – poços tradicionais cavados à mão – são fundamentais para a sobrevivência das comunidades, embora muitos sequem rapidamente devido ao calor extremo e à falta de chuva.
“Tudo muda dependendo se há água ou não”, afirmou Fuenmayor. O impacto não é apenas material; a ausência de água afeta o ânimo coletivo e a própria espiritualidade. “Isso aflige mães, anciãos; afeta o espírito”, acrescentou.
Na cosmovisão Wayuu, a chuva tem seu próprio nome: Juya. Sua chegada representa abundância, bem-estar e renovação da vida. Quando Juya visita o território, explicou Fuenmayor, “há uma festa, um encontro, e o espírito está feliz”. Mas, quando a chuva não chega, a comunidade interpreta isso como um desequilíbrio entre o povo e a terra.
As mudanças climáticas alteram os padrões de precipitação e aceleram tanto as secas quanto a escassez de água em territórios vulneráveis. Esse fenômeno coincide com o que Fuenmayor descreve como chuvas imprevisíveis, perda de sementes e estações secas mais longas.
A leitura do clima também está ligada ao calendário Wayuu. Ao contrário do calendário gregoriano, o ciclo mais importante começa com o juyapu, a grande estação chuvosa entre agosto e novembro. Sua presença marca o início de um novo ciclo de abundância: semeadura, pesca, caça e atividades comunitárias.
Além das mudanças climáticas, as comunidades enfrentam outro problema crescente: a erosão costeira. Fuenmayor disse que em Caño Zagua, assentamento Wayuu no norte do departamento colombiano de La Guajira, várias casas desapareceram devido ao avanço do mar e à alteração dos canais naturais após uma série de intervenções humanas. “Algumas casas desabaram e outras estão rachando”, destacou. Pelos registros da comunidade, pelo menos cinco casas já desapareceram.
Em meio à crise climática global, a experiência do povo Wayuu revela que as mudanças climáticas não afetam apenas os padrões meteorológicos – elas transformam as formas de sentir, interpretar e habitar o mundo. Onde antes os sonhos anunciavam a chegada da chuva, agora reina a incerteza.
Em busca de soluções
A memória dos anciãos Wayuu tenta manter viva uma leitura tradicional do território.
Em wayuunaiki, língua dos Wayuu, não há palavras exatas para “lixo” ou “reciclagem”. A explicação está nas próprias práticas ancestrais desse povo: “Tudo tem uma utilidade dentro do território”, explicou a jovem Yenilin Lubo Bonivento. Tecidos eram reutilizados para confeccionar novas peças; latas eram transformadas em utensílios domésticos; cascas de milho e mandioca serviam como ração para animais ou adubo para a terra.
Nos círculos dos quais Lubo Bonivento participava, as mulheres mais velhas relembravam como as famílias costumavam se deslocar de acordo com as estações chuvosas e como o conhecimento do clima lhes permitia cuidar dos animais, plantar e preservar sementes resistentes às condições do deserto. “Percebemos que já havíamos vivenciado os efeitos das mudanças climáticas no passado, mesmo que não as chamássemos assim”, explicou Lubo Bonivento. “A diferença é que, no passado, as estações eram mais previsíveis”.
A diversidade de nossas sementes também reflete a riqueza cultural e biológica do nosso territórioYenilin Lubo Bonivento, jovem Wayuu
Isso acendeu um alerta duplo, pela perda de conhecimento ancestral e pelo desaparecimento das sementes nativas. Muitos idosos observaram que as gerações mais novas já não reconheciam várias espécies silvestres nem sabiam quando colhê-las ou plantá-las. “Nossas sementes são a base de nossa alimentação, medicina e espiritualidade”, disse Lubo Bonivento. “A diversidade de nossas sementes também reflete a riqueza cultural e biológica do nosso território”.
Tekia, outra comunidade em La Guajira, começou a compilar histórias orais sobre sementes nativas e técnicas de semeadura contadas pelos anciãos da comunidade. O resultado foi a criação de um calendário ecológico e espiritual que documenta as estações chuvosas, as épocas de colheita, os sinais climáticos, os ciclos lunares e os períodos de coleta de sementes.
Com base nessa experiência, a comunidade começou a criar um viveiro e um banco comunitário de sementes para espécies nativas historicamente adaptadas às condições áridas de La Guajira. A iniciativa envolve mulheres, crianças, jovens e idosos em programas de capacitação para a coleta, armazenamento e conservação de suas próprias sementes. “Cuidar de nossas sementes é um ato de resistência, resiliência e amor pela terra”, afirma Lubo Bonivento.
Essas iniciativas não apenas armazenam sementes, mas também preservam o conhecimento necessário para que elas sigam existindo no futuro. Os guias comunitários criados em Tekia contêm histórias, práticas e recomendações transmitidas pelos mais velhos: quais sinais anunciam uma boa colheita, quais alimentos não devem ser consumidos após a semeadura ou quais ações podem perturbar o equilíbrio da terra.
Para fortalecer esses processos, as comunidades começaram a trabalhar em colaboração com profissionais indígenas e não indígenas de áreas como biologia, agronomia, agroecologia e conservação ambiental. O objetivo é combinar ferramentas científicas para a conservação e reprodução de sementes com o conhecimento ancestral dos ciclos climáticos e espirituais do território.
Conforme a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, as sementes nativas conservadas pelos povos indígenas podem ser uma ferramenta importante para enfrentar a crise climática, dada sua resiliência a secas extremas e ecossistemas frágeis.
Conhecimento científico e tradicional
Enquanto a ciência fala de ciclos hidrológicos alterados, desertificação e perda de biodiversidade, o povo Wayuu fala de um território que não pode mais ser interpretado como antes. Além de reuniões comunitárias e trocas de conhecimento em wayuunaiki, esses processos de conservação capacitam jovens guardiões de sementes e desenvolvem estratégias de adaptação climática concebidas por e para o povo Wayuu. O objetivo não é apenas proteger as plantações, mas também preservar a memória espiritual do território.
Este é, talvez, um dos alertas mais importantes de comunidades vulneráveis como Paraguachón e Tekia: a crise climática não está apenas secando os jagüeyes ou destruindo as colheitas. Está também rompendo um laço ancestral entre as pessoas, as sementes, os sonhos e a terra.
À medida que mudam os ciclos climáticos de Woumainkat – ou “nosso território” –, o povo Wayuu resiste por meio de suas palavras, suas memórias e suas sementes. Preservar uma semente, no meio do deserto, é também preservar uma forma de compreender a vida.

